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  A VIDA  UMA FESTA

  Sarah Mason









      A VIDA  UMA FESTA


      PRLOGO


     Ele est pronto para ir embora. Reconheo os movimentos irrequietos das mos, os gestos entediados, a postura do corpo que est pronto para sair. Ou seja, tenho
cerca de trinta segundos para dizer algo descontrado, espirituoso e sofisticado, com uma entonao no-estou-nem-a-para-voc, veja-s-como-me-dei-bem. No  preciso
entra em pnico, basta pensar em algo.
     Vinte segundos.
      Droga. Droga.
     Pense, sua estpida, pense. O turbilho de emoes faz minha cabea girar. O problema todo est no fato de que, nas poucas ocasies em que pensei a respeito
de um reencontro com Simon, sempre me vi deslizando no meu carro esportivo imaginrio, com uma bolsa Prada bem posicionada nas mos, e mais bem posicionada ainda 
no alto de um par de sapatos Manolo Blahnik. Imaginei cenas onde esnobava sua fazenda, enquanto Simon dizia o quanto lamentava o seu comportamento no passado e mostrava 
sua incredulidade ao ver como eu estava galmourosa/linda/inteligente.
Estive esperando essa oportunidade durante anos, mas, agora que ela se concretiza  minha frente, estou nervosa e apreensiva. Simon teve um efeito to grava na minha 
infncia que eu mal posso acreditar que ele est a poucos passos de distncia.
Este tipo de encontro no deveria ter troves e fogos de artifcio, em vez de canaps de enroladinhos de salsicha? E para onde vo todas aquelas observaes espirituosas 
e sarcsticas que voc tem guardadas na memria quando voc mais precisa delas? Olho em direo a Dominic, que supostamente  o meu melhor amigo, balanando a cabea 
de um modo ridculo e ignorando solenemente os dois cavalheiros que pairam em frente a bandeja de canaps que ele deveria estar servindo. No exato momento em que 
as mos dos dois movem-se em direo  bandeja, Dom no agenta mais, tira bandeja que estava bem embaixo de seus narizes e marcha na minha direo.
-- Izzy, o que voc est fazendo? - ele cochicha. - Voc sabe que  ele, no sabe? V at l e diga alguma coisa.
Ele me empurra na direo da porta, onde Simon Monkwell est vestindo seu casaco, ainda ignorando minha presena.
-- Eu no sei o que dizer - cochicho nervosa.
-- Basta comear uma conversa - resmunga Dom enquanto revira os olhos dramaticamente.
Basta comear uma conversa. Falando assim parece fcil, no ? Bom,  muito fcil comear uma conversa com uma bandeja de canaps na mo, no ? O senhor gostaria 
de provar o rocambole de salmo defumado ou a tortinha de cogumelo? Sim, claro!  muito simples.
Antes que eu possa impedi-lo, Dominic coloca sua bandeja nas minhas mos e me empurra com fora na direo de Simon. Mas meus sapatos so novos e ainda no foram 
usados o suficiente, as solas novas deslizam levemente no piso encerado, fazendo com que eu pare quase em cima dele. Simon parece muito surpreso em tem uma morena 
e vrios rocamboles de salmo defumado nos seus braos.
Fantstico, Izzy. Simplesmente genial. Agora voc est, literalmente, jogando-se em cima dele.
-- Puxa, desculpe - murmuro, tentando me desvencilhar dele. Chegou a hora. E no  nada parecido com o que eu havia planejado. Apesar de ter sempre imaginado o que 
aconteceria se eu acabasse ficando novamente cara a cara com Simon Monkwell, no pensei que seria algo to ao p da letra.
Simon me segura pelos ombros e me endireita com firmeza, como se estivesse me colocando no meu lugar. Algumas coisas nunca mudam. Ele olha dentro dos meus olhos 
com uma expresso levemente confusa.
-- Gostaria de provar uma tortinha de cogumelo selvagem? - pergunto. Bravo, Isabel. Voc no v este homem h quinze anos e esta  a nica pergunta que passa pela 
sua cabea? 
Simon olha para mim intrigado.
-- Ho, no. Obrigado. Estava de sada. - Sua voz  como uma ligeira nuvem de perfume. Ela toca a minha memria por um segundo e desaparece.
-- Um enroladinho de bacon e nozes? - insisto. Por trs do ombro esquerdo de Simon est Dominic, fazendo gestos de quem est cortando a garganta.
Simon me olha como se estivesse tentando me reconhecer. No tenho certeza se ele vai se lembrar de nosso ltimo encontro: eu tinha onze anos e ele, treze. E eu o 
reconheo somente por causa da sua meterica ascenso empresarial, registrada pela mdia.
-- Ns j nos encontramos antes? - ele pergunta intrigado.
-- Hum-hum...-gaguejo. Minha boca tem a enorme tendncia de ignorar qualquer instruo que venha do meu crebro. s vezes me pergunto se meu crebro e minha boca 
no so, de fato, duas entidades separadas e independentes.
No sei por qu, mas, subitamente, descubro que no tenho muita vontade de revelar quem sou. Estamos em uma festa muito elegante no centro de Krightsbridge.  o 
lanamento de um novo tnis de corrida, cheio de estilo, chamado Zephyr, que , supostamente, a Dom Prignon do mundo dos esportes. Eu organizei a festa - sou uma 
promoter --, mas ele provavelmente deve pensar que sou uma garonete, ali de p, oferecendo canaps como uma idiota. Agora, Dominic acena para mim por trs das costas 
de Simon. Lano um olhar fulminante de indignao na direo dele, enquanto Simon olha para ns dois, completamente desorientado.
De repente, uma luz surge nos olhos de Simon. Ele me reconheceu. Sabe exatamente quem sou e me encara por um segundo, mergulhado em um fascnio quase mrbido. Mas 
desisto de cumpriment-lo quando ele inclina a cabea, sem graa, escolhe um canap da bandeja, coloca-o na boca e continua a vestir o casaco sem voltar a fazer 
contato visual. Ele me reconheceu e me ignorou, sem sequer me dar uma oportunidade para explicaes. Sou transportada imediatamente para casa onde crescemos juntos, 
e as lembranas ruins daqueles anos preenchem minha mente.
Fao um ltimo esforo para falar com ele.
-- Tenho, h... - Dom est pulando para cima e para baixo. --- h... lido tudo sobre...-Dom est agora com a mo erguida no ar, como um menino de quatro anos de 
idade --... voc na...  DEUS DO CU! O QUE , DOM?
-- Izzy, voc precisa vir comigo agora. - Dom sussurra no meu ouvido. - Parece que a amante do diretor-gerente da Zephyr apareceu. E acho que a esposa dele no est 
muito feliz com isso. - Olho por cima do ombro de Dom e vejo uma mulher brandindo um espeto de frutas e um monte de pessoas encolhidas em um canto da sala. Genial. 
Por que coisas como estas sempre acontecem no meu turno?  claro que isso vai acabar sendo minha culpa, de um jeito ou de outro.
Viro-me para pedir desculpas a Simon, mas ele j foi embora.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 1
      
      
Dez meses depois


 extremamente difcil conversar com um viking. Em primeiro lugar,  impossvel manter a concentrao, os chifrezinhos espetados no alto do capacete esto praticamente 
tremendo de indignao e ele no pra de jogar sua capa no meu rosto.
-- No acho que voc esteja me dando material suficiente para trabalhar. Como espera que algum consiga trabalhar com isso? - Ele brande uma espada de plstico atarracada 
bem  frente dos meus olhos. - Como  possvel encontrar o verdadeiro eu nrdico de algum? Hum? Como  possvel? E por que Oliver ganhou a picareta e o martelo 
e eu s ganhei isso?
Dou uma olhada em Oliver, que espera pacientemente na porta, de uma maneira decididamente nada nrdica. Provavelmente espera que o ensaio comece. Conformado, ele 
acende um cigarro.
Volto a olhar para o viking enfurecido e digo calmamente:
-- Olhe, Sean, voc sabe perfeitamente que o seu papel  muito mais importante do que o de Oliver. Apenas achei que, dando-lhe mais alguns adereos, ele no se sentiria 
posto de lado. - E obvio par todo mundo, menos para Sean, que Oliver no est nem a para o fato de ser posto de lado ou no.
Sean acalma-se um pouco.
-- Entendo o seu ponto de vista, Izzy. Obrigado por ser to honesta. Mas eu realmente acho... - e comea a sussurrar. --... que voc deveria pedir ao Oliver para 
ele perder uns quilinhos. Afinal de contas, um viking no deveria ter muito o que comer, certo? Alguns legumes e, talvez, um pouco de frango. Ele no deveria dar 
a impresso de ter engolido a Delia Smith (famosa escritora britnica de livros de culinria - todas as notas so da autora) e todos os livros de culinria dela 
juntas. 
-- Aaaah, mas Oliver no  um viking guerreiro da mesma estirpe que voc. Ele  mais do tipo que fica na retaguarda.
-- Mais pilhagens do que saques?
-- Isso mesmo.
Sean balana a cabea em sinal de compreenso e, ao mesmo tempo, consegue disparar um olhar maldoso na direo de Oliver, que de nada desconfia. Ele funga e diz:
-- Foi o que pensei.
Dou umas palmadinhas reconfortantes no brao dele, mas, antes que consiga planejar minha fuga, ele acrescenta:
-- Outra coisinha de nada, Izzy. Acho que, de agora em diante, voc deveria me chamar de Arnog ou coisa parecida.
-- Arnog?
-- Acho que isso vai me ajudar a entrar no personagem.
Dou um sorrisinho forado e resisto  tentao de olhar novamente o meu relgio. Estamos aqui h mais de duas horas e sei que Aidan est esperando para poder usar 
a sala para sua prova de guarda-roupa. A Festa Nrdica do Gelo de Lady Boswell est sendo mais problemtica do que pensei e ainda tenho semanas de planejamento pela 
frente.
-- Est bem, h, Arnog, Como voc achar melhor. Podemos recomear?
Espio atravs de um espao entre os meus dedos enquanto eles ocupam suas posies. A porta se abre suavemente e Aidan entra furtivo. Ele olha ao redor por um segundo, 
me encontra e anda nas pontas dos ps ao redor da sala.
-- Como vai indo? - sussurra, fazendo uma careta que mostra que o seu voto seria "horrivelmente mal". 
-- Horrivelmente mal. - respondo, retribuindo a careta.
-- Acho que pode ser culpa do feng shui daqui. Ultimamente os meus ensaios tambm tm sido horrveis,
A encenao comea. Logo nos primeiros dois segundos, Oliver quase fura o olho de Sean com a picareta, mas  difcil saber se foi de propsito ou no. Sei que os 
vikings deveriam adorar usar aqueles capacetes. O que deveria ser uma exibio natural de exuberncia nrdica transforma-se rapidamente em uma pantomima. Junto com 
os ferozes gritos de batalha e o brandir das espadas h pessoas caindo sobre tapetes de pele de urso no meio de cantarolados "desculpe, meu bem". Dois atores usam 
o capacete ao contrrio, Oliver derrubou Sean com um golpe de rgbi, engalfinhou-se com ele no cho e est tentando sufoc-lo com a sua capa.
Aidan inclina-se na minha direo.
-- Meu Deus, querida, isto  mais do que feng shui. Meus ensaios nunca foram to ruins. Acho que voc est  com uruca. 
-- Parece mesmo - digo desanimada, imaginando quanto tempo Sean pode ficar sem respirar. 
-- Querida, s se passaram duas semanas.  natural que voc cometa alguns erros depois de ter levado um fora.  natural.
-- Obrigada, Aidan. Tinha conseguido esquecer a minha vida amorosa por dois longos minutos.
E, achando que Sean j havia sofrido bastante, corro para salv-lo. 



Nossa sala de ensaios fica no poro de uma grande casa em estilo georgiano que  a sede de nossa empresa.  uma entre as vrias casas idnticas, enfileiradas ao 
redor de uma praa em South Kensington, e a nica coisa que nos identifica no meio de toda aquela nobreza serena  uma pequena placa de bronze com as palavras "Table 
Manners". Na verdade, fazemos o planejamento de todo o tipo de eventos: casamentos, lanamentos de produtos, eventos corporativos, coquetis para vinte pessoas, 
bailes de mscaras para quatrocentos convidados, em qualquer ligar imaginvel. Meu amigo e colega Aidan, o Salvador Dali do mundo das festas, j usou cabanas de 
ndios, submarinos, estbulos e at mesmo uma fbrica de camas.
Eu realmente no vejo motivos para fazer outro ensaio e, exausta, dispenso todo mundo, que sai correndo da sala como se fosse o ltimo dia de aula antes das frias 
de vero. Fico feliz em ver como a minha equipe me respeita.
Verifico se todos os acessrios foram colocados de volta na enorme sala ao lado, que  o depsito do nosso considervel estoque de equipamento teatral, copos, louas, 
talheres, capas para cadeiras, toalhas de mesa, guardanapos e outros tipos de tralhas. Todos penduram suas fantasias numa arara de roupas de enorme debaixo de um 
aviso gigantesco que diz: FESTA NRDICA DO GELO DE LADY BOSWELL.
Comeo a subir os dois lances de escadas em direo  minha mesa. No primeiro patamar, ouo o Aidan gritando no andar de baixo: -- No diga ao Gerald onde estou.
Gerald  o nosso fantstico diretor-gerente e no tem saco para o temperamento artstico de Aidan.
-- Aidan, ele sabe onde voc est. Seu nome est no quadro de ensaios. - grito de volta.
-- Bom, no deixe que ele desa aqui. No estou falando com ele.
-- OK. Tentarei. -Suspiro e continuo a escalada. A recepo e os escritrios da empresa ocupam dois andares superiores da casa. O trreo abriga as cozinhas, onde 
toda a comida  preparada e enviada para o local da festa em uma das nossas caminhonetes refrigeradas. Os chefs so um pouco explosivos e eu tento ficar longe deles. 
Termino o ltimo lance de escadas e chego ao corao da sede nacional da Table Manners onde Stephanie, nossa recepcionista, trabalha duro.
-- Algum recado, Stephanie? - pergunto, mais pelo hbito do que por ter esperanas reais de que ela tenha mesmo anotado algum deles. Stephanie  uma discpula ferrenha 
da escola de pensamento que diz que se--importante-eles-ligaro-novamente.
Ela solta uma baforada de fumaa e aperta os olhos, pensativa. Temos uma poltica severa contra o fumo no local de trabalho e Gerald espalha memorandos sobre o assunto 
com regularidade. Stephanie os digita com uma bituca dependura nos lbios. Mas tudo o que Stephanie no sabe sobre o mundo das celebridades no vale mesmo a pena 
saber. Uma habilidade que eu tive que admitir, relutantemente, que  muito til no nosso meio. E esse  o nico motivo pelo qual eu imagino que Gerald no a despede.
-- Algum ligou pra voc, mas no pareceu muito interessante e eu no me dei ao trabalho de anotar.
-- OK. Maravilha. Lady Boswell vem para uma reunio mais tarde, Ser que poderamos evitar um repeteco do que aconteceu na ltima vez?
-- Ela  uma bruxa velha - Stephanie responde emburrada.
-- Pode ser, mas ela  uma bruxa velha e rica, e uma de nossas melhores clientes.
-- Espero que ela fique com hipotermia nessa festa do gelo dela.
-- Do jeito que as coisas vo, esta pode ser uma aposta com boas chances.
Stephanie volta a ler a Woman's Weekly e eu volto para a minha mesa. O primeiro andar  um ambiente sem paredes. O lugar est entulhado com amostras de decoraes, 
acessrios teatrais (que deveriam estar no poro, onde  o lugar dele, mas Aidan insiste que devemos mant-los aqui para conseguir inspirao), um urso de pelcia 
gigante que sobrou de uma festa, chamado Z Colmia, arranjos flores dos eventos da semana passada, mostrurios e catlogos sobre quase tudo, de guardanapos a fitas, 
vrios tipos diferentes de vasos e candelabros, alm dos computadores e laptops de praxe. Papis e convites transbordam por todos os lados.
Assim que chego  minha mesa, a porta da sala do nosso diretor-gerente se escancara - ISABEL. VENHA C - diz, atravs dos alto-falantes do intercomunicados porttil, 
que ele insiste em usar mesmo quando estou to perto que posso me inclinar e toc-lo. 
Gerald  um homem elegante beirando os cinqentas. Tem cabelo escuros sempre penteados com cuidado e ostenta uma barriguinha.  o nosso diretor-gerente e merece 
todos os xingamentos que receber dos funcionrios, pois , sem dvida alguma, o homem mais rude e sarcstico que eu j conheci. E eu gosto muito dele. Ele no acredita 
em fazer rodeios, diz que  cansativo. Com Gerald, nada de amenidades como "bom-dia, como vai?". 
Sigo-o, entro na sala e fecho a porta.
-- Como foi o ensaio? - pergunta Geral enquanto vou at a cafeteira e encho uma caneca.
-- Horrvel. Sean insistiu em trocar todos os seus adereos com os de Oliver. Caf?
-- Por favor. Preciso de algo que me ajudar a agentar este dia horrvel. Sean e Oliver ainda vo acabar matando um ao outro. S nos resta torcer por isso. Voc 
vai trabalhar o dia todo na Festa Nrdica?
-- Infelizmente. Lady Boswell vem aqui mais tarde. Vai ser uma semana muito comprida.
-- Onde est Aidan?
-- Na sala de ensaios.
-- Ele est atravessando uma de suas fases.
Sorrio. Aidan sempre entra em uma de suas fases se acha que Gerald vai comear a fazer perguntas difceis.
-- Ele j estourou o oramento de novo? - pergunto.
-- Mandou tudo para o espao. Honestamente, no sei por que ele se d ao trabalho de fazer estimativas de custo. 
Gerald olha cuidadosamente para mim quando faz esse ltimo comentrio.  fato conhecido na empresa que Aidan prefere morrer a fazer uma estimativa de custo. E acho 
que Gerald, com razo, suspeita de que sou eu quem faz as estimativas dele.
-- Nem eu - digo fazendo de conta que no e comigo.
-- Sempre que eu fao uma pergunta sobre o custo ele tem um dos seus ataques.
-- Ah.
Isto envolve Aidan jogando-se sobre o mvel mais prximo, gemendo algo como "Perguntas, perguntas. Por que tenho que agentar tantas perguntas?". De vez em quando 
ele se compara a Picasso ou Bach, dizendo que a genialidade deve ter liberdade para se manifestar. Eu adoro os ataques de Aidan. H sempre uma pequena multido ao 
seu redor no fim de um ataque.
-- Falo com ele, se voc quiser.
-- Faa isso. Faa com que ele corte despesas em algum lugar.
-- Vou tentar. Mas no prometo nada.
-- J se recuperou do fora? - ele pergunta sem cerimnia. - Voc no  o ser humano mais animado no momento.
Meu relacionamento com Gerald no permite que eu chore silenciosamente no seu ombro por uns vintes minutos, portanto respondo simplesmente que estou tima.


Aidan reaparece na hora do almoo, senta ansioso na minha mesa e cruza suas pernas vestidas com calas Versace. Aidan  meu melhor amigo no escritrio. Quando entrei 
na empresa, fui sua assistente por um ano, antes de comear a planejar festas sozinha. Ele trabalha aqui h anos e  o promoter mais solicitado da empresa. Ele , 
e sempre que pode lembra a todos disso, criativo. Este  o passe livre dele com Gerald. Qualquer mau comportamento  posto de lado com a desculpa de ter uma natureza 
criativa. Aidan matou quatro clientes com uma bombinha de So Joo e uma toalha de mesa? Oh, isso  porque ele  criativo.
-- Ento, como voc est hoje? - pergunta ele. - No vi coe antes para poder perguntar. - A frase vem acompanhada de muitas caretas. Voc no consegue manter uma 
conversa com Aidan sem essas caretas e descobre que tem passado muito tempo com quando v que tambm  incapaz de dizer uma frase sem chupar as bochechas para dentro, 
revirar os olhos e menear afetadamente o ombro.
-- tima! - digo toda animada e fao uma careta de volta.
-- Voc no parece tima.
No consigo esconder nada dele por muito tempo.
-- Aconteceu uma coisa no metr hoje - suspiro. - Algum achou que eu estava grvida e me ofereceu o seu lugar.
-- Oh.
-- No se atreva a rir, Aidan - digo zangada, vendo que ele est mordendo o lbio inferior com fora --, porque simplesmente no tem graa nenhuma.
-- Ora, no estou rindo, Isabel. Estou simplesmente, hum.. E o que voc fez?
-- O que eu poderia fazer? Dizer que meu estmago levemente inchado deve-se ao fato de ter comido Cornettos demais desde que o Rob me deu o fora? Fiz a nica coisa 
que poderia fazer. Agradeci educadamente e sentei.
Aidan estende uma mo para me confortar.
-- Querida, voc sabe que tudo acaba aumentando o seu estmago e nunca os seus seios. A natureza  uma filha-da-me.
-- Por que eu no consegui simplesmente dizer que eu ganhei ns quilinhos depois que meu namorado me deu o fora? Poderamos ter conversado sobre os prs e os contras 
da dieta Hay, quando comparada  dieta Atkins, e todos iriam se divertir. Mas, no, fui completamente britnica a respeito de toda a situao. Algum me acusa de 
estar grvida e eu sou demasiadamente educada para desmentir isso.
-- Deixa pra l, Izzy. S se passaram trs semanas. Alm disso, eu acho que  muito til que seja o seu estmago que aumente de tamanho quando voc engorda. Pelo 
menos o peso no est indo se esconder traioeiramente no seu traseiro quando voc no est olhando.
-- Se fosse assim as pessoas no iriam pensar que estou grvida.
-- No. Elas s iriam pensar que voc tem uma bunda grande.
-- Muitssimo obrigada. Por que no posso ser ma daquelas mulheres que encolhem quatro manequins quando levam um fora? - reclamo.
-- Ah, benzinho, porque a voc no seria voc. E gosto de voc como voc . Tirando,  claro, essa sua obsesso perfeccionista com as estimativas de custos.
-- Eu s queria entender por que Rob me deu o fora. - digo. - Ns passamos um tempo maravilhoso juntos. Talvez eu tenha me esforado demais, Aidan.
Ele bufa, sarcasticamente.
-- Demais, ai-ais. Querida, no estamos mais no jardim-de-infncia. 
-- Voc acha que devo ligar para ele e perguntar? 
-- No, no e no. - diz Aidan --, j falamos disso antes. Qualquer pessoa que termina um relacionamento pelo telefone no vale um minuto do seu tempo.E no se esquea 
de que ele tentou ligar em uma hora em que pudesse deixar um recado na secretria eletrnica porque no queria ter o trabalho de falar com voc pessoalmente. E, 
se puder, gostaria de salientar o fato de que deixar uma mensagem na secretria eletrnica do seu trabalho  simplesmente a coisa mais covarde e horrvel que eu 
j vi.
-- Eu sei - sussurro com voz trmula. Antes que posamos dizer mais alguma coisa, Stephanie chega perto de ns com um cigarro na mo.
-- Lady Bostawell chegou.
-- Stephannnieee - censuro, levantando e alisando a saia. - J disse para no cham-la assim. Voc a acompanhou at a sala de reunies?
-- Sim.
-- Obrigada. - Pego meu bloco de anotaes, respiro fundo e marcho rapidamente pela recepo, subo um lance de escadas e entro na sala de reunies. Lady Boswell 
est sentada em uma das cadeiras, espetada como um pau de vassoura, com uma mo apoiada elegantemente no colo e a outra no alto do cabo de um grande guarda-chuva 
que ela gosta de carregar por todo lado.
-- Lady Boswell, que prazer rev-la - digo suavemente. - Stephanie lhe ofereceu um caf?
Lady Boswell olha para mim como se eu tivesse acabado de lhe oferecer uma xcara de vmito de gato com umas colheradas de vermes.
-- Caf, Isabel, caf? Fique sabendo que nunca tomo cafena  tarde. Vivemos em uma era obcecada por caf. Aquelas cafeterias horrorosas esto espalhadas por toda 
parte.
Lady Boswell  uma representante tpica de nossos clientes mais tradicionais. Defensora das regras sociais e da etiqueta rgida, tambm  terrivelmente magra, o 
que no me ajuda a gostar mais dela. E hoje est vestida com um tailleur azul-marinho completo, meias e luvas brancas. Uma bolsa grande a acompanha sempre e comenta-se 
que ela d umas bolsadas nas pessoas quando as coisas no saem como ela planeja. Da vem todo o meu nervosismo com a Festa Nrdica do Gelo.
Ela aperta os lbios finos, que esto sempre exageradamente pintados com batom cor de cereja, enquanto eu abro meu bloco de anotaes.
-- Bom, como vai o planejamento da festa? Os vikings vo parecer viking de verdade? Voc sabe que no posso permitir que a Sra. Sneddon-Wells passe na minha frente. 
O banquete caribenho que ela ofereceu ainda  a coisa mais comentada em Londres. - Ela faz uma pausa para respirar e mede de cima a baixo com olhos crticos.
-- Voc engordou, Isabel?
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 2
      

Ser uma promoter no era exatamente a minha vocao. Gostaria de poder dizer que uma infncia repleta de eventos glamorosos me preparou para essa profisso, mas 
o mais perto que estive da agitao foi quando meu pai me levou para um concerto de msica pop quando eu tinha doze anos de idade. O show foi um desastre completo 
e tivemos que ir embora no intervalo. Meu pai achou que as coisas estavam ficando fora de controle quando viu que o pblico estava jogando casquinhas de sorvete 
no palco.
Meu pai era um oficial do Exrcito e, por causa disso, minha irm Sophie e eu estvamos sempre fazendo as malas e mudando para vrios lugares ao redor do mundo. 
E talvez por causa da minha infncia catica, sempre desejei ter uma carreira muito slida. Assim que me formei na universidade, a necessidade de ganhar dinheiro 
e a ambio tomaram conta de mim e fui fazer um estgio como analista financeira. No h nada mais slido do que lidar com reconfortantes colunas de nmeros e tabelas. 
Depois de meu curso de treinamento, uma boa empresa na City (Centro financeiro da cidade de Londres) me contratou, ofereceu uma sala s para mim com a garantia de 
que eles achavam que eu seria muito feliz trabalhando com eles. Eu esperava ser feliz.
No primeiro dia de trabalho, coloquei uma cabea para fora da sala em busca de um rosto amigvel e a possibilidade de dividir um sanduche na hora do almoo. Encontrei 
um labirinto de mesas e pessoas que almoavam enquanto falavam ao telefone. Voltei para  aminha sal e fiz a mesma coisa. No faz mal, pensei com meus botes, as 
pessoas que do duro no trabalho tambm jogam duro. Vamos todos nos encontrar para um happy hour no bar s seis da tarde. Mas  medida que os dias foram passando, 
nunca fomos ao bar. Nem sequer a um McDonald's. Na verdade, a nica pessoa que realmente falava comigo era a garota que vendia sanduches.
Os dias arrastavam-se dolorosamente e foi um choque e tanto descobrir que eu morria de inveja da garota dos sanduches. Eu invejava a mobilidade dela. Eu invejava 
os bate-papos informais que ela mantinha com as pessoas. Eu invejava os seus horrios flexveis. A gota d'gua foi quando encontrei o presidente da empresa no corredor, 
enquanto mostrava o escritrio para alguns visitantes. Depois de ter apertado as mos de todos, ele virou-se para mim e disse, animado: "Espero que ns estejamos 
impressionando voc!" Ele pensou que eu fosse um dos dignitrios visitantes.
Foi a que comecei a pensar se, na verdade, no havia feito a escolha errada. Como poderia ser reconhecida pelo meu trabalho se o presidente da empresa nem sabia 
quem eu era? Atravessei um perodo de indeciso difcil, at que um dia, enquanto conversava com uma das funcionrias de meia-idade, descobri que ela nunca quis 
trabalhar no ramo financeiro. Ela aceitara o trabalho como um tapa-buracos h dezoito anos e acabou ficando porque no sabia fazer outra coisa.  engraado como 
uma conversa como esta pode mudar sua vida. Eu no queria ser como ela dali h dezoito anos.
E foi assim que peguei minha planta, meu porta-retratos e abandonei meu pequeno e seguro escritrio na City. Em um golpe de pura sorte, respondi a um anncio da 
Table Manners e o resto  histria. O que o anncio pedindo uma assistente administrativa para uma elegante empresa de servios de catering, animao e organizao 
de festas no dizia era que todos os novos funcionrios deveriam completar um ms de treinamento obrigatrio nas cozinhas da empresa, que lembravam muito um quartel 
do Exrcito. Eu me levantava ridiculamente cedo, descascava e preparava montanhas interminveis de legumes. Estava sempre com um monte de sedutores esparadrapos 
 mostra (esse ms no ajudou em nada a minha vida amorosa). 
Mas aprendi a fazer a maioria dos molhos bsicos, fiquei sabendo quando  a melhor poca para comprar vrios ingredientes, qual a melhor maneira de preparar todos 
os tipos de peixes e carnes. Em resumo, desenvolvi um sentido especial para a comida. No que a comida passasse despercebida por mim - sempre fui capaz de detectar 
quando havia biscoitos de chocolate nas proximidades --, mas acabei por saber instintivamente que sabores e texturas funcionam bem juntos.
Meu conhecimento matemtico tambm me ajudou a ser boa com os alicerces da organizao de um evento. Podia projetar os custos bsicos de um evento em lindos relatrios 
com tabelas, de modo que ainda mantinha por perto os meus reconfortveis nmeros, mas sem a solido da City. Talvez daqui a alguns anos eu possa montar a minha prpria 
empresa, porque acho que domino o essencial para ser uma gerente. E nunca imaginei que trabalhar pudesse ser to divertido! Mesmo em um dia ruim como este. Chega 
a parecer imoral.


De pssimo humor, subo os degraus que levam ao meu apartamento batendo os ps e aperto impacientemente a campainha. Sei que Dom, com quem divido o apartamento, chega 
em casa antes de mim - como sempre - e no estou com vontade de perder tempo procurando pelas chaves na minha bolsa. Isso chateia muito o Dom, mas eu sei que ele 
vai atender ao interfone porque aprendeu uma grande lio na ltima vez, quando atendeu e gritou: "No vou deixar voc entrar, sua vagabunda preguiosa!" E tudo 
o que a Sra. Lawrence queria fazer era entregar alguns folhetos sobre o programa Vizinhana Vigilante. Ela s voltou a falar com ele depois de receber um carto 
e vrios buqus de flores.
-- Al?
-- Sou eu, Dom.
-- Onde esto suas chaves? - ele pergunta, petulante.
- No sei. Por favooor, me deixe entrar.
-- No!
-- Vamos l, Dom!
-- Ah, ta bom.
Ele aperta o boto de destrave com pouca fora, o que me d exatamente um segundo para forar minha entrada no hall do prdio. Assim que entro, comeo a subir rapidamente 
os dois lances de escadas, xingando a revista feminina que disse que eu deveria subir dois degraus de cada vez ou ento ficaria com um traseiro do tamanho da China, 
e empurro a porta do apartamento. Comprei este apartamento quando ganhava um salrio melhor do que agora, e Dominic  o meu inquilino. Os meus tempos de salrio 
generosos no duraram o suficiente para comprar muita moblia, mas Dom diz que gosta de um visual minimalista, acompanhado de poucos e bem selecionados acessrios: 
uma torrada embolorada no prato, uma planta morrendo e uma caneca meio vazia. Nossos quartos do par o corredor e dividimos o banheiro. Temos uma regra que diz que 
quem for o primeiro a colocar qualquer parte do corpo dentro do banheiro pela manh tem a preferncia de uso. Isso faz com que, s sete da manh, aconteam corridas 
desembestadas, verdadeiramente perigosas e, s vezes, at mesmo uma bela agarrada no melhor estilo do rgbi. Dom j dormiu na banheira para garantir sua vaga depois 
de algumas grandes noitadas de farra e de porre.
O som do The Strokes explode nas caixas acsticas, acompanhado pelo som de panelas batendo na cozinha. Provavelmente Dom est em casa h cerca de uma hora.
Foi atravs de meu trabalho que conheci Dominic. Sua tia Agnes oferecia um coquetel - a primeira festa que organizei sozinha. L pelo meio da noite, Dominic chegou 
timidamente perto de mim, informando que a tia Agnes era vegetariana e os canaps, decididamente, no eram. Nesse exato momento, todo o sangue fugiu do meu crebro 
enquanto via tia Agnes pegando uma das delicias carnvoras. Antes que ela a colocasse na boca, Dominic fez uma corrida herica, tirou o canap da mo dela e o comeu 
com grande estardalhao. Enquanto isso, eu afugentava a garonete por trs dele, antes que tia Agnes, surpresa, pegasse outro canap. Depois Dominic juntou-se a 
mim na cozinha, onde eu, transfigurada pelo medo, imaginava como a equipe da cozinha poderia ter feito uma cagada to monumental e se algum iria dar pela falta 
de duzentos canaps. Dominic simplesmente pegou todos os pedaos de presunto de         Parma de cima das tortinhas e comeou a enfi-los na boca. Depois mandou 
a garonete de volta para a festa com os -agora-petiscos vegetarianos. E foi assim que a nossa amizade comeou.
Ele  o mais improvvel melhor amigo que eu poderia imaginar ter. Somos, sem sombra de dvida, um par incomum. Eu sou toda arrumada, Dom no. Eu tenho uma agenda 
sofisticada, Dom usa as costas da mo e uma esferogrfica. Eu organizo os trabalhos domsticos, Dom pensa que um porta-copos  um armrio de cozinha. Mas sou absolutamente 
louca por ele e gosto de pensar que ele tambm sente o mesmo por mim.
Dominic trabalha no departamento de reivindicaes de uma seguradora para financiar sua carreira de escritor em dificuldades (dificuldades no sentido de que ele 
tem problemas em escrever o que quer que seja). Esse tipo de trabalho de escritrio  perfeito para o Dom. No h responsabilidades-no h lutas por promoes, no 
h horas extras, nenhum objetivo a longo prazo, porque quando o dia termina tudo se resume em uma frase: um trabalho das nove s cinco. Ele chega pouco depois da 
nove, mantm u delicado equilbrio entre fazer o suficiente para no ser despedido e pouco o suficiente para no ser notado e sai correndo para casa s cinco horas 
em ponto. Ele encara cada dia como uma enorme aventura e tem o surpreendente talento de aproveitar cada segundo de prazer do que quer que esteja fazendo. Suas promessas 
- "Me mande uma baa pelo correio at quinta-feira e eu processo a sua reclamao" - so famosas em toda a empresa. Quero dizer, famosas no sentido admoestatrio 
da palavra.
-- Oi, lindinha!
-- Oi. - Atiro minha bolsa e minha pasta de couro para cima da mesa da cozinha. - O que est fazendo? - pergunto. - No  a sua vez de lavar a loua.
Dom sorri atrs das bolhas de sabo. Nas raras ocasies em que lava a loua ele usa quase meia embalagem de detergente. H bolhas at no seu cabelo.
-- No consegui encontrar caneca limpa. s vezes a vida pode ser muito cruel - ele suspira dramaticamente. - Como voc est se sentindo?
-- Horrorosa. Como vai voc?
-- Completamente bem. Ia ligar hoje para voc no escritrio - continua Dom.
-- Ia? Voc nunca me liga no escritrio.
-- Isso  porque voc nunca me deixa ligar para voc no escritrio.
-- Dom, se eu deixar, voc vai me ligar a cada meia hora. Mas hoje pensei em voc;
-- Foi? Voc pensou: "Ah, Dom. Sinto saudades dele"?
-- No. Geral estava perguntando por voc.
-- Estava?
-- E, pensando bem, Aidan tambm. De onde veio este sbito afeto dos meus colegas de trabalho por voc?
--  porque sou adorvel.
Desdenho, com sarcasmo.
-- Adorvel, dificilmente. Eles gostam de voc porque voc me mete em encrencas. Gerald ainda est gozando da minha cara sobre aquela intoxicao alimentar que voc 
disse que era uma ressaca.
-- Era uma ressaca.
-- Sim, bom. Est vendo, Dom?  por isso que no deixo voc ligar para o escritrio, porque acabamos tendo conversas deste tipo. Voc vai visitar tia Winnie comigo 
neste fim de semana? - Dom vai, vrias vezes, ver tia Winnie comigo. Ela o considera um membro da famlia.
-- Vou no sbado. Tenho uma despedida de solteiro na sexta  noite.
-- Uma despedida de solteiro? -  a primeira vez que ouo falar disso.
-- , um cara no escritrio.
-- Quem?
-- Ah, voc no o conhece.
-- Quando  o casamento?
-- Vai demorar um bocado.
-- Uma despedida de solteiro s para homens? - pergunto, cheia de suspeitas.
-- Existe algum outro tipo? A propsito, chegou um carto-postal dos seus pais. - Ele inclina a cabea na direo da pilha de correspondncia em cima da mesa.
Surpresa, largo mo do assunto da despedida de solteiro e olho para uma cena noturna do porto de Hong Kong. No outro lado do postal esto os conhecidos garranchos 
da minha me.

Estou pestes a sair para ir a mais uma festa horrorosa cheia de diplomatas. Juro, querida, no sei como  que voc consegue ganhar a vida fazendo isso todos os dias. 
Seu pai manda beijos. Tentarei telefonar em breve, sou incapaz de lembrar se voc est na nossa frente, ou atrs, no fuso horrio. Diga a Sophia que ns a amamos 
quando a encontrar.
Com amor, mame.

Ponho o carto de volta na pilha e suspiro. Eles parecem estar to longe daminha prpria realidade. - Voc leu? - pergunto.
-- Sim. Achei que viriam ver voc e Sophie em breve.
-- Acho que algo aconteceu no trabalho de papai. - E encolho os ombros. Eles no so os pais mais confiveis na face da Terra.
-- Ento, como foi o seu dia? - pergunta Dom.
Abro a boca par comear a responder, mas o telefone toca e eu corro para atender. Uma pequena parte de mim ainda espera que seja Rob. Nem em sonhos.
-- IZZY! - ressoa uma voz familiar. Desde que Rob terminou o namoro, tia Winnie telefona quase todos os dias, que Deus a abenoe. - Voc est em casa! Esperava bater 
um papo com Dominic, mas acho que voc tambm serve.
-- Bom, na verdade eu  que sou a parente, tia Winnie. No o Dominic.
-- Aquele chefe tirando que voc tem finalmente deixou que voc viesse para casa, foi? Estou absolutamente convencida de que ele possui tendncias marxistas, Izzy. 
Fique de olho, voc pode acabar virando uma consumista sem perceber.
-- No acho que isso seja algo que contagie uma pessoa sem ela perceber, tia Winnie.
-- Ohhhh, no conte com isso - ela responde com prudncia. - Eles provavelmente colocam algo na gua.
-- Bom, sempre que posso, evito beber gua direto da torneira.
-- Boa menina! Criei voc e sua irm muito bem. Melhor ser se beber gim. Perguntaria como voc est, mas odeio ouvir histrias sobre sade de outras pessoas.
-- Como vai o vigrio? - pergunto. O vigrio  o mais novo hobby da tia Winnie. Ela adora envolv-lo em animadas discusses teolgicas. Tenho muita pena dele, simplesmente 
porque ele no faz idia de quem  a pessoa com quem est lidando. Lembro-me de avisos parecidos com isto no filme Tubaro, e vejam s o que acabou acontecendo.
-- Anda envolvido em uma discusso sobre as flores da igreja. A Sra. Harrison fez um arranjo com um monte de berinjelas na semana passada. Acho que ela pensou que 
estava sendo moderna, mas o resultado final  espetacularmente indecente. Montes de formas flicas roxas e intumescidas misturadas com algumas papoulas infelizes. 
Achei que vigrio iria ter um enfarte ali mesmo. Nunca ri tanto desde que um dos meninos do curso de catecismo grampeou a batina dele na corda do sino.
Dou uma risadinha. - Tia Winnie, voc  terrvel.
- Na verdade, fico contente de ter apanhado voc em casa. No querida deixar um recado com Dom porque ele provavelmente entenderia tudo ao contrrio. Adivinhe quem 
eu encontrei hoje!
-- No sei.
-- Vamos l! Adivinhe!
-- Vejamos.. George Clooney -- digo esperanosa, rezando para que ele estivesse na casa dela neste exato momento, trancado a cadeado.
-- George quem?
-- Clooney.
-- Loony?
-- CLOONEY. Ele  um ator de cinema... esquece. Diga-me, quem voc encontrou?
-- A Sra. Charlesty! - Realmente, no tem nada a ver como George Cloneey.
-- No!
-- Sim!
-- No acredito!
-- Sim, eu estava... Voc est sendo sarcstica, no est? Mas como eu no disse o motivo disso ser to importante, eu perdo voc. Eu estava no aougue ma Bury 
St. Edmunds. Voc sabe, eles tiveram que fechar o aougue da cidade por alguns dias porque toda a famlia est de cama, com gripe. Mas no se preocupe, porque eu 
j tomei a minha vacina contra a gripe.
-- Graas a Deus. - comento aborrecida. Imaginando se algum dia a histria vai chegar a alguma lugar.
-- Por causa disso tive que ir at Bury, e foi l que encontrei com ela. Contei [i]tudo[/i] sobre voc e seu trabalho. Ela ficou absolutamente fascinada.
--  s isso? Por que ela deveria ficar fascinada comigo? - pergunto.
--  claro que ela estava fascinada! Voc tem um trabalho muito interessante, e eu tenho muito orgulho das minhas meninas. J parou de andar chorando pelos cantos?
-- Bom, Dominic no precisa mais ficar sentado no sof comigo tirando lenos de papel da caixinha como um mgico entediado, se  isso o que deseja saber.
 claro que tia Winnie acha que isso  um progresso enorme.
-- Bom, bom! -ruge ela. - Dom no est tendo problemas no trabalho, est?
 lamentvel que eu tenha conhecido Rob Gillingham atravs de Dom. A empresa de seguros onde Dom trabalha pertence  famlia Gillingham e Rob est sendo treinado 
para assumir o cargo de seu pai, no futuro. Rob e eu nos conhecemos em uma festa a rigor que celebrou os cento e cinqenta anos da empresa. Fui como convidada de 
Dom, em vez de estar trabalhando nela. Rob no pode ser considerado bonito, em termos tradicionais, mas ser charme compensa. Fiquei completa e absolutamente de quatro 
por ele.
-- Acho que no, ele nunca fala dele.
-- Eu espero bem que no! - bufa a tia Winnie. - Vamos l, queixo erguido, e se pensar em ligar par ele, ligue antes para mim!


Dom acabou de lavar a loua e est fazendo ch.
-- Quem era? - pergunta.
-- Tia Winnie. - Sento  mesa.
Ele despeja ch em duas canecas recm lavadas.
-- O que ela queria?
-- Bater papo. - Olho para o meu estmago, lembro do incidente no metr e o encolho com fora, estremecendo. - Preciso mesmo fazer uma dieta.
Dom acompanha meus olhos.
-- Sim, precisa. - diz com sinceridade.
-- No sei se posso comear hoje, tive um dia horrvel.
-- Lady Boswell? - Dom pergunta com ar apreensivo.
-- Lady Boswell - confirmo. - Ou Bostawell, como diz Stephanie.
-- Bem, acho que esta noite podemos declarar estado de calamidade pblica. Mas amanh  noite eu vou pessoalmente jogar fora todos os Cornettos e depois vamos ao 
supermercado comprar salso. Ou seja l o que for que as mulheres comem quando esto fazendo dieta.
Hum, estupendo. Ele vai at a garrafeira em fim de estoque e pegar uma garrafa.
-- Voc entra em uma academia comigo? - suplico.
-- Uma academia? - ele pergunta ao mesmo tempo que a rolha da garrafa sai, fazendo um reconfortante POP. - Precisa mesmo? Ah, est bem. - diz ele, cedendo ao meu 
olhar suplicante. - Acho que posso ficar mais em forma. Apesar de no estar correndo nenhuma maratona.
-- Meu corpo  um templo. Este ser nosso novo mantra!
-- Estamos mais para meu corpo  um barraco. Enfiamos um monte de porcarias l dentro e fazemos uma boa limpeza uma vez por ano. Ele bate seu copo contra o meu. 
- Sade! Aos novos comeos e aos velhos finais!
Tomamos um golinho em silncio e eu digo repentinamente:
-- Dom, hoje aconteceu uma coisa no metr.
-- O qu?
-- Voc tem que prometer que no vai rir...
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 3
      
      
      
Na manh seguinte, sentindo-me um pouco mais do que moda, meto os culos escuros em cima do nariz e comeo a fazer o percurso da estao de South Ken at o meu 
escritrio. Pelo menos o tempo no combina com o meu estado de esprito. Estamos supostamente no comeo do vero, mas este  o primeiro dia que realmente demonstra 
isso. O sol est tentando desesperadamente aquecer o ar como se quisesse compensar pelo tempo perdido e a luz forma sombras compridas nas ruas que despertam agitadas. 
O mundo parece ter ajustado melhor seu foco, o que faz com que eu me sinta mais acabada ainda. Dou olhadelas furtivas no meu reflexo nas vitrines enquanto caminho. 
Meu cabelo castanho, na altura dos ombros, ficaria melhor com algumas luzes... e meus olhos viajam para o meu estmago e eu o encolho. Sim, provavelmente ele precisa 
de alguma ateno.
No escritrio, aperto a campainha do interfone com urgncia, como se tivesse de fato esperando h algum tempo. Stephanie me deixa entrar.
-- Voc est atrasada -  o cumprimento dela quando chego ao alto das escadas.
-- Eu sei. Gerald j chegou?
-- Faz meia hora. Cuidado com ele esta manh.
-- Por qu? Est de mau humor?
Ela encolhe os ombros.
-- Acho que ele se deu bem demais no coquetel de ontem. A propsito, voc est com uma aparncia horrvel.
Estou passando sorrateiramente pela porta da sala de Gerald, esperando conseguir chegar  minha sala, espalhar algumas coisas na mesa e basicamente fingir u estou 
l h horas, quando a porta se escancara e ele aparece na minha frente. Me endireito toda e tento arrumar minha expresso fcil, fazendo um olhar inquisitivo, porm 
inteligente. No me dou muito bem porque  doloroso mover rapidamente qualquer parte do corpo.  um exerccio facial equivalente a ser chachoalhada pela sala afora.
-- Gerald! - digo sem muita convico, tentando desesperadamente colocar um sorriso nos lbios.
Meu Deus, que dor.
-- Isabel. Que bom que voc resolveu vir trabalhar.
-- Gerald, desculpe o atraso. Tive um problema com o... h...
-- Gato da vizinha? Carteiro? Maaneta da porta?
-- No. Eu, h, perdi minha, hum...
-- Capacidade de caminhar? Carteirinha do metr? Cabea?
-- Ah, olhe! Minhas amostras de canaps chegaram! - exclamo toda contente. Aidan, que Deus o abenoe, passa rapidamente por trs de Gerald e enfia uma bandejinha 
na minha frente.
-- Com licena, Gerald. O chef disse que a Izzy precisa prov-los agora, enquanto ainda esto quentes.
Ns dois sorrimos,  espera da sua reao. Todos ns moremos de medo do chef executivo, de modo que esta  uma desculpa segura. - Bom? - pergunta Gerald. - No vai 
provar, Izzy.
-- H? Sim, claro! Claro! - Pego um apressadamente e o enfio na boca. Est frio como uma pedra e tem um gosto vago de salmo.
-- Delcia! - Cuspo migalhas nos dois e fico pensando se eles perceberiam se eu vomitasse discretamente em cima dos seus sapatos. Gerald abre a boca para dizer 
algo mais, mas pensa melhor e fecha novamente. Fecha os olhos e apia a cabea nas mos, tipo "Deus nos ajude". H um pequeno intervalo de silncio. E depois  claro 
que decide que no pode mais perder tempo conosco, faz um gesto impaciente nos despachando e volta para sua sala. Damos um suspiro de alvio.
-- Obrigada, Aidan - murmuro.
-- Desculpe pelos canaps, mas pelo menos eram somente de ontem. Caf?
-- Por favor - peo num vagido. Afundo-me na cadeira e, sem mesmo me importar em tirar o blazer, apio a cabea em uma capa de cadeira muito conveniente, que algum 
maravilhoso colocou por l. Provavelmente no foi para que eu me apoiasse nela, mas estou agradecida do mesmo modo.
Poucos minutos depois, Aidan est de volta com o nctar dos deuses. Endireito-me com pouca vontade e consigo beber uns golinhos restauradores. Aidan tem sido um 
porto seguro nestas ltimas trs semanas. Ele sabe que meu estado atual de bobeira  completamente atpico. Normalmente sou extremamente organizada e eficiente.
-- Por que est neste estado? O que diabos andou fazendo? Foi algo excitante?
-- S Dominic e eu - sussurro e fao uma careta.
-- O querido Dominic. - Aidan diz carinhosamente. - Como vai ele?
-- Doente, espero.
-- Izzy, querida, sei que essa histria com Rob chateou voc, mas quando vamos ter a nossa velha Isabel de volta? A Isabel obsessiva, tudo-tem-de-estar-no-seu-lugar?
-- Pensei que voc odiava aquela Isabel - resmungo de dentro da minha capa de cadeira.
-- Oh, ela no  assim to ruim. Alm disso, minhas contas no batem certo.
-- Deixe-as na minha mesa. Quando eu puder enxergar novamente, darei uma olhada nelas. Quem voc tem para esta noite?
-- A festa das Mil e uma Noites da Sra. Pritch-Bonnington. Infelizmente est com um mais para decorador gay ensandecido do para Lawrence da Arbia. E voc?
-- Nada at quarta-feira. - Levanto a cabea da capa de cadeira. - Se algum ligar, diga que morri. No est muito longe da verdade.
A nica coisa que me perturba na meia hora seguinte  uma mensagem de Dom perguntando como ele pode suicidar-se com um clipe de papel e um post-it.  bvio que ele 
tambm est passando mal. Bom. Sorrio comigo mesma enquanto minha cabea despensa de volta na capa de cadeira.
Mais tarde, todos nos reunimos na sala de reunies para a reunio administrativa quinzenal, onde discutimos projetos futuros, distribumos as festas, caso algum 
[i]promoter[/i] no tenha sido requisitado especificamente para alguma delas, e remoemos problemas e idias em geral. Quase sempre a reunio dura a manh inteira, 
a maior parte dela gasta em decidir o que vamos pedir na cafeteria ao lado.
Eles comeam sem mim, pois estou presa em uma ligao internacional com uma cliente que  famosa pelo seu dio a ter qualquer tipo de comida verde em seus eventos. 
Nem mesmo uma azeitona pode aparecer. Quando entro na reunio, Gerald est no meio da tarefa de passar uma grande descompostura a algum, mas se distrai assim que 
coloca os olhos em mim.
-- SEJA COMO FOR -- diz alto --, j que a nave-me finalmente mandou Isabel de volta  Terra, vamos continuar e falar dos novos projetos. O nome Monkwell lhe diz 
alguma coisa, Isabel?
Fico carrancuda. Ele me diz um monte de coisas. Boa parte da minha infncia est ligada a esse nome.
-- H, Isabel?
-- Sim?
-- O nome Monkwell?
-- Sim, claro que conheo o nome Mokwell! Todo mundo conhece, no?
-- Quero dizer pessoalmente.
Fao uma pausa. Gerald est me olhando feio. Ele deve ter descoberto que eu costumava ser ntima da famlia Monkwell . Nunca mencionei isso, e ter contatos  tudo 
neste ramo de negcios. E o nome Monkwell quer dizer GRANDES negcios. -- No vejo nenhum deles h anos -- digo com uma vozinha apagada, esquecendo convenientemente 
meu "quase" encontro com Simon.
-- Simon Monkwell? -- pergunta Stephanie, maravilhada. -- O Simon Monkwell? Voc o [i]conhece[/i]? -- Isto  dito em tom acusatrio. Ela sempre fica de mau humor 
nessas reunies porque Gerald a proibiu defumar ou comer na da sala depois que, um dia, ela disse que estava "morrendo de vontade de comer uma frutinha" e Aidan 
atravessou a sala de reunies aos saltos, dizendo: "Aqui estou eu, querida!" Gerald no conseguiu fazer com que voltssemos a trabalhar por cerca de meia hora.
-- H, mais ou menos.
-- Como assim mais ou menos? -- insiste Gerald.
-- H, eu conheci a famlia quando era criana. Cresci na fazenda de Simon, junto com ele. Por qu? -- decido bancar a inocente.
-- Algum chamado Monty Monkwell ligou esta manh?
-- Jura?  o pai de Simon.
-- Sim. Aparentemente, ele ouviu falar que voc est no ramo de promoes de eventos atravs da sua tia Winnie. Aquela que acha que sou comunista. -- A tia Winnie 
 bem conhecida de todos na Table Manners. Ela bate longos papos com qualquer infeliz do escritrio que tenha a infelicidade de atender suas ligaes.
-- Atravs da minha tia Winnie? -- Franzo as sobrancelhas. Tia Winnie teria me contado se tivesse entrado com qualquer um dos Monkwell.
-- Bem, no exatamente atravs da sua tia Winnie. Aparentemente, foi atravs da Sra. Charlesty, que andou conversando com sua tia Winnie. Recebi todos os detalhes. 
Um baile de caridade est sendo organizado na fazenda...
-- Pantiles -- acrescento.
-- Isso, Pantiles. E ele gostaria de saber se voc poderia ajudar. O pagamento que ele oferece no  grande coisa, mas, se voc fizer tudo direitinho, e levando 
em conta que voc conhece a famlia -- e ele me d uma olhadela feia neste ponto da frase --, podemos ser capazes de colocar nossas mos em um contrato para realizao 
de eventos empresariais para a empresa de Simon Monkwell. O que seria, e acho que no preciso dizer isso, um enorme contrato. Na semana passada, o The Times colocou 
o nome dele na lista dos empresrios mais admirados do pas.
-- E a revista Tatler o colocou na lista dos cinqenta solteiros mais cobiados. Ele  lindo de morrer -- Stephanie acrescenta. -- Aquela fazenda enorme. Pense em 
todo aquele dinheiro. -- Ela fica com o olhar perdido ao longe.
-- O que ele faz, exatamente? -- pergunta algum.
-- Compra empresas, divide-as, vende-as. Com a permisso delas ou no. Tem reputao de ser simplesmente implacvel.
-- No  somente reputao -- murmuro comigo mesma. A discusso fica mais animada e todo mundo entra na conversa, ansioso para dar um palte.
-- No  ele quem insiste em despedir pessoalmente toda a diretoria das empresas que assume?
-- No disseram algo sobre como ele se delicia com o fracasso dos outros?
-- No foi ele quem despediu mil funcionrios na ltima empresa que comprou?
-- OK, calma todo mundo, o homem no cheira a rosas, mas isto no muda a cor do dinheiro dele. -- Geral interrompe a conversa antes que a coisa desande: -- Se formos 
julgar todos os nossos clientes com base na moralidade do dinheiro que possuem, vamos acabar s com um par deles. Posso perguntar, Izzy, por que voc nunca achou 
que seria importante mencionar esse conhecimento?
-- Simon e eu no nos dvamos bem. -- Encolho os ombros e encaro meu bloco de anotaes. Simon Monkwell e eu ramos grandes amigos. Mas note que usei o verbo no 
passado. ramos grandes amigos.
-- Quantos anos vocs tinham?
-- Onze.
-- Como poderiam no se dar bem um com o outro aos onze anos? Voc roubou o pacote de balas dele? Vocs brigaram pelos patins? No acho que ele v usar isso contra 
voc.
-- Quando  o baile? -- pergunto, virando as pginas do ms de dezembro da minha slida e enorme agenda, a fiel companheira de qualquer promoter.
-- No ms que vem.
-- No ms que vem? -- Olho horrorizada para ele.
-- Aparentemente, a associao de caridade teve que mudar de local na ltima hora e pediram a colaborao da fazenda.  por isso que Monty Monkwell quer a sua ajuda.
-- Mas no h tempo suficiente. No posso organizar um baile em um ms!
-- Um monte de detalhes j deve estar organizado. J marquei uma reunio para voc descobrir tudo na segunda-feira. V e veja o que precisa ser feito.
-- Vou visitar minha tia Winnie no final de semana, ela vive bem perto do local e pode me levar l -- digo. No tenho carro e as atitudes puritanas de Gerald com 
relao a despesas criaram razes em todos ns.
-- O Sr. Monkwell disse que a fazenda nunca organizou nada assim antes.  o primeiro evento oficial deles.
-- Eles nunca estiveram aberto ao pblico. A casa e o campo sempre foram estritamente particulares. No consigo ver Simon Monkwell recebendo as pessoas de braos 
abertos.
-- Bom, Simon Monkwell est no exterior, de modo que voc no vai v-lo.
-- timo.
A fazenda Pantiles. Nunca imaginei que um dia voltaria l. Uma avalanche de memrias me invade quando penso nela. Na beleza do lugar. Os Monkwell so os donos da 
fazenda, da aldeia e de alguns milhares de hectares de terra. Quando tinha cerca de oito anos de idade, voltamos para a Inglaterra e acabamos vivendo na propriedade, 
em um chal a poucos minutos da casa principal. Pantiles, Monty e Elizabeth Monkwell, Simon e seu irmo Will eram o meu mundo, e at os meus onze anos eu adorava 
completamente aquela famlia encantadora.
-- Se esta  a primeira vez que a fazenda faz algo desse tipo, ento podemos estar no comeo de uma atividade altamente lucrativa -- diz Gerald, interrompendo meus 
pensamentos. -- Provavelmente voc vai precisar de uma semana inteira antes do baile, devido aos problemas de tempo. O Sr. Monkwell disse que voc pode se hospedar 
com eles, em vez de ficar indo e vindo de Londres. Ele insiste absolutamente nisso. E vamos economizar muito com as despesas com viagens. Onde, na regio de Suffolk, 
fica a fazenda?
-- Em uma pequena aldeia chamada Pantiles. Bem perto de Bury St. Edmunds.
-- Ele disse que est ansioso para rever voc. No fao idia por que no os mencionou antes, Izzy.
-- J disse, Simon e eu no nos damos bem. Na verdade, acho que no exagero se disser que tenho certeza de que ele me odeia.
-- Por qu? Voc  bastante inofensiva. -- Vindo de Gerald, isto  um elogio. 
Encolho os ombros.
-- Realmente no sei.
-- Deve ser uma bobagem de criana. Voc se d bem com o resto da famlia? Ser que posso lhe perguntar isso? Como voc se d com Monty Monkwell?
-- Sem problemas! Eu adora o resto da famlia.
Mas, acima de tudo, eu adorava os meninos. Tenho somente uma irm, nenhum irmo e um pai freqentemente ausente, eu achava a companhia masculina algo incrivelmente 
agradvel e original. No princpio, Simon e eu nos dvamos maravilhosamente bem. Ele me tratava como uma irm caula, e eu adorava cada minuto com ele. Andvamos 
juntos o tempo todo, conversando em uma lngua especial, inventada por ns, o que deixava os nossos pais completamente doidos.
-- Seja como for, voc tem a data livre? -- pergunta Gerald.
Viro as pginas da agenda at o fim da semana do baile e franzo as sobrancelhas.
--  o coquetel da Sra. Cherington.
-- Voc fica com isso, Aidan?
-- De jeito nenhum! Aquela velha mandona e briguenta! Preferia... -- Contm-se quando v o rosto de Gerald. -- Sim, claro que posso.
-- timo! A secretria de Simon Monkwell precisa que voc envie por fax o seu CV e um acordo de confidencialidade assinado. 
-- Um acordo de confidencialidade? Por qu? -- Um acordo de confidencialidade  considerado perfeitamente normal se o evento  topo de linha, mas incomum quanto 
se trata de algo como um baile de caridade.
-- Provavelmente porque algo pode ser confidencial -- diz Gerald, usando sua melhor voz para falar com mentecaptos, revirando os olhos e suspirando. -- Isabel, voc 
pode no ter percebido, mas, netas ltimas semanas, Simon Monkwell vem tentando completar uma aquisio hostil de uma grande fbrica. Meu palpite  que a famlia 
receie que voc possa ouvir algo que no deve. Controle-se, pelo amor de Deus. Voc costuma saber exatamente o que est acontecendo.
Fecho os olhos por um segundo sob o impacto das palavras de Gerald, pois percebo que ele est certo. Aidan quebra em grande estilo o silncio desconfortvel: -- 
Vejam! -- exclama. -- Aqui est minha borracha com cheiro de abacaxi! No sabia onde tinha ido parar!



De volta  minha mesa, tento concentrar-me na disposio dos lugares  mesa da Festa Nrdica do Gelo de Lady Boswell, mas meus pensamentos insistem em voltar para 
Simon Monkwell. Justo quando pensava ter esquecido toda a dor que ele me causou, que foi trazida  tona pelo nosso encontro recente, a simples meno de seu nome 
fez com que tudo voltasse com fora novamente.
Quanto tinha oito anos, Simon Monkwell era o meu melhor amigo e, de certa maneira, nossa amizade reuniu nossas famlias. No acho que teramos passado tanto tempo 
na companhia uns dos outros se Simon e eu no fssemos to unidos. Mas, logo depois de Simon ter sido mandado para o colgio interno, as coisas comearam a mudar.
Os primeiro fins de semana que ele passou em casa foram bons. amos pescar. Andvamos de bicicleta. Assistamos  TV. Mas, aos poucos, Simon foi ficando introvertido 
e  mal-humorado. E maldoso. Ele fez todo o tido de maldades, tracando-me em salas desertas na fazenda, abandonando-me nos bosques  noite. Simom era dois anos mais 
velho do que eu e, talvez, tenha crescido demais para continuar com a nossa amizade. Mas, fosse o que fosse, o efeito sobre mim foi devastador. Chegando ao ponto 
em que qualquer visita aos Monkwell me fazia chorar e suplicar a minha me que no me fizesse ir. Eu no podia dizer o motivo e as relaes entre todos ns tornaram-se 
tensas. Para mim, a mgica de Pantiles desapareceu no outono daquele ano, e os bosques s traziam maus sentimentos.
No vero do ano seguinte, meu pai foi transferido para a Itlia. Sophie eu fomos viver com a tia Winnie para podermos continuar os estudos na Inglaterra. As duas 
famlias fizeram juras de praxe, prometendo manter contato, e Will e Monty imploraram para que Sophie e eu fssemos visit-los freqentemente, j que nossos pais 
estariam na Itlia. Eu continuava reticente por causa de Simon, mas, sempre que Sophie sugeria uma visita, tia Winnie inventava algo que nos impedia de ir, at que 
gradualmente fomos esquecendo inteiramente a idia de visit-los. Nos anos seguintes, me esqueci completamente de Simon, at que comearam a sair artigos nos jornais 
sobre ele. Em vez de assumir sua posio como herdeiro de Pantiles, ele decidiu entrar no ramo dos negcios. No comeo os jornais focalizava, as suas "estonteantes" 
habilidades empresariais, o seu talento para os negcios, e a sua impressionante afinidade com os nmeros, mas pouco a pouco comecei a ver os sinais do velho Simon. 
O caso de amor com a imprensa comeou a enfraquecer e comearam a surgir reportagens que o mostravam de modo diferente. Os milhares de funcionrios demitidos de 
uma fbrica. As suas exigncias irracionais s diretorias. O estado de abandono e o pouco caso com a propriedade da famlia. Parece que ele no mudou muito com o 
passar dos anos.



Aidan senta ansioso na minha mesa. Ele que falar sobre a ltima novidade. 
-- Oooh, benzinho. Imagine s voc crescendo ao lado de Simon Monkwell. -- Ele ergue o ombro e faz uma careta de "imagine s". -- Oooh, fico pensando se ele  to 
mau como dizem. Espero bem que sim.
-- Hum. -- digo eu, roendo uma unha.
-- Como era ele?
-- Muito legal at chega  puberdade, depois virou uma verso jovem do que  hoje.
-- Ruim, h?
Aceno com a cabea.
-- Sim. Bem ruim.
-- Quanto tempo voc viveu na fazenda?
-- Hum, cerca de trs ou quatro anos. Mudamos para l quando eu tinha oito anos e samos quando eu tinha onze ou doze.
-- Nossa, um bom pedao da sua infncia. Voc deve ter muitas memrias amarradas quele lugar. Vai ser estranho voltar, no vai?


































CAPITULO 4



-- Tia Winnie, temos que andar sempre a mais de centro e sessenta quilmetros por horas? - protesto nervosa, enquanto tia Winnie atravessa para o outro lado da pista 
em um par de curvas apertadas na estrada vicinal. Estamos h dez minutos no carro e, na maior parte do tempo, mantive os olhos fechados, com medo, fazendo caretas 
assustadas que, por algum motivo, parecem ser fundamentais para chegarmos com segurana ao nosso destino.
Normalmente, venho para c com o Dom dirigindo. Ele passou no exame de motorista na terceira tentativa e deve ter estabelecido o recorde mundial para a reprovao 
mais rpida de todos os tempos quando, na sua primeira tentativa, ao sair do local de exames, disse para o examinador: Pode ver se o trfego est livre do seu lado?" 
Mas, apesar disso, ele  bom motorista o suficiente para que eu no tenha de me preocupar em lembrar se estou usando um conjunto de lingerie que combina ou no. 
J faz algum tempo desde que viajei com tia Winnie ao volante e a experincia  um choque para meu sistema nervoso. Quando era criana, levei um bom tempo para descobrir 
que as vacas e as ovelhas no eram formas brancas e pretas borradas, com expresses espantadas.
-- Ah, no seja uma chata de galocha - ruge Winnie. Sentado no ainda mais assustador ponto de observao no assento dianteiro, Jameson olha para mim por cima do 
seu ombro, de uma maneira que sugere algo como "os incomodados que se mudem". Tia Winnie estica o brao para fora da janela para informar a todos os outros motoristas 
que vamos virar  esquerda nem que chovam canivetes.
-- Quando  que voc tem que voltar a fazer o teste de direo para renovar sua carteira, tia Winnie? - pergunto, torcendo para que ele j esteja vencida. Assim, 
bastaria simplesmente uma denncia aos canais competentes e, quem sabe?, a carteira de motorista sempre suspensa para sempre. Agarro o apoio da cabea do assento 
do passageiro com as duas mo enquanto viramos  esquerda, para que os bombeiros me encontrem facilmente nos destroos do carro quando me encontrarem ainda grudada 
ao apoio.
-- QUE INSOLNCIA! - ruge ela. - No sou to velha assim, ainda faltam anos para a renovao! - Jameson vira-se novamente e recebo outro olhar desdenhoso do assento 
dianteiro. Mostro a lngua para ele. Pelo menos o cinto de segunda dele funciona. Este carro  to velho que os cintos de segurana traseiros precisam ser amarrados 
com um n. Daria na mesma se eu tivesse me amarrado ao assento usando uma meia-cala e um arquinho de cabelo.
Acabei escolhendo embarcar no trem que saa da estao de Liverpool Street, juntamente com todos os outros passageiros estressados de sexta-feira  noite, porque 
Dom tinha de ir  despedida de solteiro e, de qualquer maneira, eu voltaria de trem depois de me encontrar com Monty Monkwell na segunda-feira. Tia Winnie acabou 
de me pegar na estao e estamos a caminho do supermercado para comprar algumas coisas essenciais.
Tia Winnie faz umas guinadas bruscas ao redor de um carro estacionado e eu bato com a cabea na ala sobre a janela onde, percebo, eu deveria estar dependurada. 
Jameson consegue evitar contuses, j que se inclina automaticamente durante as curvas. Solto, relutantemente, uma mo do  de cabea para pass-la no galo na minha 
testa.
-- Voc no queria ir ao supermercado?  -- pergunto enquanto passamos intrpidas e em alta velocidade na frente dele, na direo de outra rotatria.
-- Droga - diz tia Winnie. Neste momento ela faz uma volta de cento e oitenta graus completamente ilegal, sem fazer qualquer tipo de sinalizao, manual ou no, 
e aponta sua mira para o estacionamento do supermercado, Muito boba, solto o cinto de segurana antes de o carro parar completamente. Pago o pato, indo parar entre 
os dois assentos dianteiros, com o meu nariz demasiado perto de s Deus sabe quantos anos de migalhas, tufos de sujeira e plo de cachorro. Jameson d umas lambidas 
de solidariedade na minha orelha.
-- Jameson! Sai de cima! - resmungo l das profundezas.
-- Isabel! Pare de ficar brincando com Jameson! Voc vai deix-lo superexcitado!  -- diz tia Winnie, segurando meu brao e me dando umas valentes chacoalhadas. - 
Boa-noite, Sra. Roffe! - ela grita em resposta a uma senhora que passa apressadamente. Minha tia Winnie no  nenhuma novidade para os moradores de Stowmarket. - 
um Mini verde-ervilha brilhante com um labrador grando amarrado no pra-lama dianteiro  algo difcil de ignorar --, mas seria de esperar que v-la puxando uma 
morena alta do meio dos assentos dianteiros do carro fizesse com que algumas pessoas se espantassem.
-- Voc acha que Jameson poderia sentar no banco de trs na viagem de volta? - pergunto, ainda entalada.
-- No seja ridcula, Izzy, ele  muito grande. - ela bufa.
-- E eu sou o qu? Uma an?
-- Claro que no. Vamos l, Izzy, d uma ajuda! O problema  o seu TRASEIRO! - ela urra. Mesmo assim, no h nenhuma reao por parte dos bons cidados de Stowmarket.
Retoro-me toda irritada, saindo do meio dos assentos.
-- NO  o meu traseiro - respondo de uma maneira rude, me endireitando e arrumando minhas roupas.
-- Voc no corre o risco de ter osteoporose daqui a alguns anos? - tia Winnie pergunta enquanto tranca o carro e comea a andar a passos largos pelo estacionamento.
-- Ah, como se voc tivesse esse problema.
Ela d uma gargalhada e coloca um brao ao meu redor. Eu relaxo e sorrio de volta. Caminhamos juntas em direo ao supermercado. 
Tia Winnie  uma mulher difcil de ser ignorada por vrios motivos, um deles  a sua voz trovejante, que  surpreendentemente alta para algum to baixinha. E, provavelmente 
devido ao fato de adorar ar fresco e longas caminhadas, ela possui o hbito horroroso de conversar com voc como se voc estivesse a meio quilmetro de distncia 
e contra o vento. Todavia, o que lhe falta em altura ela compensa, e compensa muito bem, em personalidade. Eu no chegaria a ponto de descrev-la como sendo uma 
pessoa rude, ela  somente... ah, est bem, ela [i][/i]rude. 
Desde que me lembro, tia Winnie se veste da cabea aos ps com diversos tons de tweed, juntamente com austeros sapatos sem salto, que no ajudam em nada a aumenta 
sua altura, e completa o conjunto com um chapu todo espevitado, sado da sua coleo ecltica. Hoje ela est usando um chapu  la Sherlock Holmes, enfeitado na 
lateral com um par de alegres penas de faiso, que vivem se enfiando no nariz das pessoas mais altas cada vez que ela mexe a cabea. Seu cabelo  curto e, como acabamento 
do visual, usa culos consertados com um esparadrapo do Mickey e pendurados em uma correntinha ao pescoo. 
        Desde que me lembro, a tia Winnie tem sido uma segunda me para mim. Quando ramos crianas, Sophie e eu contvamos com a slida segurana e gentileza da 
tia Winnie durante o ano letivo, e com as festas e indulgncias extravagantes dos meus pais, quando eles estavam conosco nas frias. Mas quem nos criou mesmo foi 
a tia Winnie. E  para os braos dela que sempre corremos. Ela  a irm mais velha de minha me, mas no existem duas pessoas mais diferentes em nenhuma outra parte 
do mundo. Enquanto minha me caminha deslizando, tia Winnie anda pisando duro. Enquanto minha me tem um riso cristalino, minha tia Winnie tem uma gargalhada estrondosa. 
Devido a um caso de amor infeliz na juventude, sobre o qual fiquei sabendo atravs de minha me quando fiquei mais velha, tia Winnie nunca pensou em casar-se (e 
Nunca se Deve Falar a Respeito Disso). Por isso, minha tia tinha muito espao em sua vida emocional e fsica para ns duas. E isso foi a minha sorte e a de Sophie. 
Ela  o porto seguro para onde sempre ficamos felizes em voltar.
Meus pais foram, e ainda so, pessoas completamente inconstantes. Meu pai estava muito ocupado com o seu trabalho, e minha me muito ocupada com suas festas e listas 
de convidados para se preocupar muito comigo ou com Sophie. E eu no ficaria surpresa se tivssemos alguns outros irmos perdidos por a afora simplesmente porque 
eles se esqueceram de ir busc-los na escola. Lembro-me de quando telefonei para eles, na Itlia, para contar sobre minhas notas excelentes, dois Bs e um C. Minha 
me ficou toda inchada por um bom tempo, dizendo como eu era maravilhosa, e depois perguntou o que era mesmo que significavam os Bs e os Cs. Eu disse que eram abreviaes 
de Brilhantemente Fantstico e Com um Pouco de Esforo Melhora, algo que ela acredita at hoje. Pelo contraste, as pessoas acham a tia Winnie completamente assustadora. 
Uma vez, durante uma reunio de pais e mestres, um de nossos professores perguntou sobre seu nome.
-- Winnie? - disse ele. - Que engraado. Que nem o personagem do Ursinho Puf?
Ela o encarou firmemente.
-- No. Como a mulher do Mandela.
Infelizmente, tia Winnie pilota o carrinho de supermercado do mesmo modo com dirige seu carro. Ela avana em posio de ataque pelos corredores, gritando para que 
eu jogue diversos produtos para dentro, mas sem reduzir a velocidade. Ento eu acabo ficando a um corredor de distncia, tentando arremessar latas de comida para 
dentro de um alvo movendo-se a uns sessenta quilmetros por hora.
O gerente do supermercado d um grande suspiro de alvio quando v que samos sem nos machucarmos e sem ferir algum. Volto a entrar no carro velho, subo por cima 
de Jameson - que faz o melhor para me ignorar, olhando estica e fixamente pela janela - e me acomodo no banco traseiro.  surpreendente como um carro pode acumular 
anos de lixo. No vo para os ps na parte traseira esto os papis de balas e listas de compras jogadas fora como de costume, mas tambm a perna arrancada de um 
ursinho de pelcia vtima de um cabo-de-guerra entre mim e Sophie, vrios arquinhos de cabelo e acessrios de pocas passadas, e at mesmo um batom prateado, estilo 
punk. Lembranas da minha adolescncia enchem a minha mente.
Outra grande vantagem da educao da tia Winnie, embora no apreciada completamente na poca, foi o nvel de disciplina que ela usava com Sophie e comigo. Particularmente 
quando ramos adolescentes. Esta era devida, em parte,  presena do seu conjunto de tacos de golfe, que ficavam pousados inofensivamente ao lado da porta de entrada. 
Uma lenda na famlia diz que tia Winnie realmente matou algum com um taco de golfe (embora ela afirme que s o nocauteou com o taco e que tudo foi um acidente). 
Os olhos de tia Winnie s precisavam mover-se na direo dos tacos para que eu e Sophie voltssemos, milagrosamente, a nos comportar. Aparentemente ela tentou este 
truque com o vigrio quando ele se recusou a colocar a barriquinha de prendas no melhor lugar da quermesse da cidadezinha e, segundo ela, o truque tambm funcionou 
muito bem com ele. S muito depois da minha adolescncia foi que percebi o quanto a tia Winnie se sacrificava por ns. Os horrios das refeies adaptavam-se aos 
nossos horrios da escola, as viagens e passeio eram planejados ou adiados de acordo com os calendrios escolares, o velho Mini era disputado como se tambm fosse 
nosso. Quando minha me pediu  tia Winnie para que nos ensinasse sobre os fatos da vida, ela passou horas nos ensinando a jogar pquer e a beber usque.
Chegamos  casa da tia Winnie a cem por hora, at ela frear o carro, cantando pneus. Jameson sai do carro dianteiro e comea a correr e a ladrar pelo jardim para 
assustar eventuais melros errantes que possam ter se aproveitado da ausncia dele. Tiramos as sacolas do porta-malas e percorremos um caminho estreito pelo jardim 
at a casa. Uma horta e um pequeno pomar estendem-se da garagem at a porta dos fundos e, como sempre, paramos aqui e ali, felizes e em silncio, para pegar um morango 
atravs da rede de arame, ou para colher uma vagem de ervilhas tempor. O sol poente do vero atravessa as rvores na frente da casa e oferece um calor acolhedor.
Espero enquanto tia Winnie luta com as chaves. Com um empurro vigoroso na porta (est sempre emperrada), ela entra no corredor.
Como sempre, murmura para si mesma:
-- Preciso mesmo arrumar esta porta.
-- Hum - respondo sem me compromete. Tia Winnie e o esquema do faa-voc-mesmo no so bons amigos. Durante muito tempo, achei que o nome dado ao martelo era mesmo 
porcaria.
-- Certo - diz tia Winnie de modo decidido --, jantar. E depois voc tem que me contar tudo a respeito dessa histria com os Monkwell. - Eu dera um telefonema  
pressas para pergunta se ela poderia me dar uma carona at Pantiles na segunda-feira, mas no entrei em detalhes. 
-- No  surpreendente que a Sra. Charlesty telefonasse para Monty Monkwell assim? No sabia que ela ainda estava em contato com ele depois de tantos anos. Ela deveria 
saber que haveria um bailem Pantiles e que voc seria a pessoa ideal!
Ela sorri para mim, obviamente muito contente com esse pequeno arranjo empresarial. Comeo a abrir enormes latas de comida de cachorro e Jameson gruda na minha perna 
esquerda como uma lagartixa na parede. Tia Winnie fica ocupada com o comeo do jantar - vamos comer pat com manteiga que est em uma velha manteigueira lascada 
(com tia Winnie no existem frescuras, como pasta de azeitona orgnica) em torradas de po branco fresco comprado no padeiro da cidade. Finalmente estamos sentada 
frente a frente na mesa da cozinha.
-- Ento? - ela pergunta ansiosa.
-- O qu?
-- Izzy, no seja ridcula! No me venha com "o qu?". Fale sobre o trabalho em Pantiles!
-- Eu contei quase tudo a respeito quando telefonei.
-- Voc no me disse nada.
-- Mas voc sabe tanto quanto eu sei. Eles precisam realizar um baile de caridade em cima da hora.
-- Como lhe pareceu o Monty? Ele disse alguma coisa sobre Simon? Voc vai encontrar com ele?
 -- Simon est viajando - respondo encurtando a histria. Estou cansada e sem muita vontade de responder a um questionrio detalhado, principalmente sobre Simon 
Monkwell. J se passou muito tempo para comear a contar agora para tia Winnie a verdade sobre nossa amizade. Eu nem mesmo contei sobre nosso encontro em uma festa 
tempo atrs.
-- Oh - diz tia Winnie significativamente. Comeo a mastigar e tento ignorar seu olhar interessado. No sei por que no contei a ningum sobre as maldades de Simon. 
 claro que as pessoas  nossa volta perceberam que algo havia acontecido entre ns, mas acharam que era uma zanga qualquer de crianas. Talvez eu tivesse medo de 
sofrer represlias por parte de Simon, ou simplesmente tivesse medo de ser um beb choro. Mas parecia, de certa maneira, que a culpa das maldades que ele fazia 
era minha por no ser suficientemente forte para me impor ou qualquer coisa do gnero. - E como voc se sente a respeito disso tudo? - cutuca tia Winnie.
No olho nos olhos dela.
-- No gosto particularmente da idia de ficar presa naquela casa com Simon brincando de amo e senhor.
-- Mas vocs eram to unidos.
-- No depois que ele chegou  puberdade.
Tia Winnie concorda com a cabea.
-- Pelo que leio nos jornais, ele no me parece ser muito agradvel. Na verdade, parece ser muito desagradvel! Mas imprensa no  uma fonte muito confivel nessa 
rea.
-- Acho que os fatos falam por si mesmos. Alm disso, de qualquer maneira, ele no era muito gentil quando criana. - Desta vez eu a encaro de frente.
Tia Winnie franze as sobrancelhas. - No, lembro-me de ouvir seu pai dizendo que um dos meninos havia se tornado bastante desagradvel, mas no me lembro se era 
Simon ou Will.
-- Era Simon - digo enfaticamente --, decididamente Simon. Foi antes de virmos morar com voc, e  por isso que voc no se lembra bem.
-- Voc j contou aos seus pais?
-- No, no contei.
-- E contou para Sophie?
-- No vejo Sophie h sculos. Ela vem neste fim de semana? - pergunto ansiosa para mudar de assunto e entrar em terreno um pouco mais confortvel. Sophie  mais 
nova do que eu e trabalha na City, algo com cmbio e mercados futuros. Ela j me explicou duas vezes o que faz e eu realmente no quero perguntar de novo. Ao contrrio 
da irm mais velha, ela fez sucesso na City. Nossas personalidades possuem traos muito parecidos, mas ela parece ter um pouco mais de cada um deles. Gosto de pensar 
que sou mais socivel do que ela, mas sei muito bem que as legies de amigos que ela tem vo discordar de mim. Tambm gosto de pensar que sou mais criativa do que 
ela, mas sei que os fabulosos arranjos de flores que enfeitam seu apartamento em Notting Hill so feitos pelas mos de Sophie Ferranti S/A. Mas amamos uma  outra 
incondicionalmente, e sei, bem l no fundo, que no trocaria minha vida pela dela, apesar do apartamento espaoso, do salrio astronmico e de um guarda-roupa cheio 
de roupas de designers. 
-- No, ela cancelou. Algo surgiu. - Tia Winnie coloca mais ch nas nossas xcaras.
-- Oh. - levanto as sobrancelhas, surpresa. Pode ser que eu esteja sensvel demais, mas minha irm parece estar me evitando ultimamente. Normalmente ela adora vir 
e encontrar comigo e Dom, mas j no vejo Sophie h semanas. Deve ser minha imaginao. No consigo pensar em nada que possa ter feito para chate-la.
-- Como voc est se sentindo em relao a Rob?
-- Melhor, eu acho.
-- Talvez voltar a Pantiles seja uma enorme beno disfarada?
-- Sim, vai ser bom sair de Londres por uns tempos. E espero que seja... no sei... estabilizador, de certo modo. Quero dizer, voltar para o lugar onde cresci.
-- Sim, sim, acho que sim.
Ficamos em silncio e acho que tia Winnie deve estar refletindo sobre minhas sbias e muito perspicazes palavras. Ela est, sem dvida, me olhando de modo pensativo.
-- Querida, que cor  essa que voc est usando? - diz inesperadamente.
-- H?
-- A cor que voc est usando. Que nome sofisticado do a ela agora?
-- H, rosa.
-- No acho que voc deva us-la. Voc fica parecendo um marshmallow. 






















CAPTULO 5



-- Izzy, querida, venha me buscar. Estou nessa sua estao merreca de trem. O nico txi disponvel foi apanhado por uma freira irlandesa maluca que tentou me converter 
o trajeto inteiro desde a estao de Liverpool Street. O carregador que, a propsito, parece ser algum envolvido com drogas pesadas, me diz que no h nibus at 
amanh. Portanto, voc tem que vir me buscar. E no se demore, toda a gente daqui parece ser coxa ou vesga. Estou doido para fazer xixi, mas nem penso em usar o 
banheiro daqui, pois  bvio que h alguma coisa de errado com a gua deste lugar. Esta , decididamente, a ltima vez que uso o transporte pblico. Izzy, voc est 
a?
-- Sim, sim, Dominic, estou aqui.
-- Voc vem?
-- Vou j, j. S que tia Winnie quer parar antes para comprar algumas coisinhas.
-- Isabel, se voc no quer comear a mancar como os outros, VENHA J PARA C.
-- Ta bom, Santa. Segure a franga. Estava brincando. Vejo voc em cinco minutos.
Ponho o fone no gancho com um sorriso. A manh de sbado est quase acabando e, embora soubesse que Dominic iria aparecer hoje, ele no disse quando ou como viria, 
e eu nem me lembrei de perguntar. Vou at a cozinha e pego uma ma.
-- Tia Winnie - digo entre mordidas-, Dominic est na estao.
-- bom saber, querida.
-- Hum. - Mastigo em silncio por alguns segundos. - Acho que ele precisa que algum v busc-lo. 


-- Voc demorou mais de vinte minutos - Dominic sibila para mim enquanto esmaga o cigarro no cho com o p. Ele beija tia Winnie e faz festinha em Jameson.  - Tive 
que usar o banheiro daqui. Veja, acho que fiquei vesgo tambm. - Ele revira um olho de uma maneira exageradamente dramtica.
-- Por que voc no veio de carro?
-- Porque o trnsito estava to horrvel da ltima vez que vim para c que achei que o trem seria melhor. Mas minha me nunca me avisou sobre os perigos de se viajar 
ao lado de freiras irlandesas. - E, imitando o sotaque irlands, comea: -- Deus seja louvado, Jesus  um cara legal, absolutamente dez. E voc  um completo idiota 
por no querer Jesus do seu lado,  mesmo. Voc leu o livro?  -- Ele volta ao sotaque normal. -  claro que respondi: "Que livro?", o que teve efeito idntico ao 
de acenar para um touro com uma capa vermelha.  isso o que acontece no transporte pblico. Voc est completamente vulnervel s tentativas de converso por parte 
de freiras irlandesas. Deveria haver um aviso no trem sobre isso, no acha?
-- E o metr? Voc no considera o metr como transporte pblico?
-- Mas ningum fala com voc no metr.
Sentamos espremidos no assento traseiro do Mini. Dominic respeita a prioridade que Jameson tem sobre o assento dianteiro.
-- Grande raa os irlandeses, no? - tia Winnie comenta. - Uma vez sentei-me na frente de um irlands durante uma viagem de trem de trs horas. Ele abriu uma caixa 
com um quebra-cabea com cinco mil peas, comeou a mont-lo e, no fim da viagem, jogou tudo de volta dentro da caixa. Eu estava montando a parte do cu. Era bem 
complicado.
-- Li nos jornais sobre um irlands que morreu na sua mesa no escritrio e ficou l durante cinco dias sem que ningum percebesse. - acrescenta Dom. - Aparentemente 
ele estava sempre bbado como um gamb ou com uma tremenda ressaca e costumava sentar-se e deitar a cabea sobre os braos. S descobriram que ele estava morto no 
sbado, quando lembraram que ele nunca ia trabalhar aos sbados. Esse  o tipo de empresa para qual eu gostaria de trabalhar, no para a empresa mafiosa do pai do 
seu ex-namorado. O vigrio j voltou a falar com a senhora? - ele pergunta a tia Winnie.
Ela sorri maliciosamente e comea fofocando sobre um novo conjunto de desventuras na cidade, culminando com ela quase atropelando o vigrio. Parece que minha tia 
Winnie descobriu um novo esporte chamado Azucrinar o Vigrio. H seis meses chegou um novo vigrio, todo animadinho, chamado Jason, que cometeu o erro de visitar 
minha tia Winnie na primeira semana. Bom, ele agora j no est to animadinho - na verdade, est quase tendo um colapso nervoso. Tia Winnie diz que tem certeza 
de que Deus no vai levar a mal um pouco de diverso inofensiva, principalmente porque a sua novela favorita terminou.
Dominic declara ser incapaz de agentar a longa viagem de trs minutos sem parar para tomar um drinque, e rodamos em direo ao pub da cidade. Sentamos a uma mesa 
na frente da ladeira, depois que Jameson, que conhece bem o seu lugar e o seu assento favorito, nos guiou direto para o local. Tia Winnie tenta se lembrar de onde 
foi que parou, na gigantesca parede de garrafas de usque do pub, da ltima vez. O dono do pub, muito atencioso, arrumou as garrafas em ordem alfabtica especialmente 
para ela. Tia Winnie gosta muito de usque, foi da que veio o nome de Jameson, e assim que ela acaba de experimentar toda a parede, comea tudo de novo.
-- Acho que estava na letra "I", Izz. No se lembra?
-- Acho que sim, lembro-me de uma conversa sobre "Islay".
-- Foi isso mesmo. Ento vou beber algo que comece com "J", Dom. E um saco de batatas fritas para Jameson. Sabor queijo e cebola, por favor.
-- O desejo dele  uma ordem.
Dom vira para mim.
-- Izz?
-- H... - Sempre fico um pouco travada quando se trata de beber em pubs. Nunca sei o que pedir. E um spritzer de vinho branco parece sempre ser muita frescura quando 
estou na companhia de alcolicos calejados como a tia Winnie e o Dom. - Tomo o que voc for tomar - digo corajosa e imediatamente lamento minhas palavras. 
Dominic vai at o balco. H uma breve pausa. - Tia Winnie? - pergunto, h algo que me incomoda desde que essa histria com os Monkwell comeou. - Como foi que alugamos 
uma casa dentro da propriedade de Pantiles e no na rea militar? Foi s por causa da necessidade de estbulos para os cavalos da mame? -  surpreendente o que 
deixamos de questionar na infncia. Lembro-me de meus pais comprando canecas com nomes para mim e para Sophie quando tnhamos dez anos, mas como no havia nenhuma 
com o nome Isabel, meus pais compraram uma com o nome Isaac e juraram que este era o meu nome em francs. Se eles conseguiram enganar a minha aguada perspiccia 
com isso, pode-se perceber por que at hoje nunca me passou pela cabea perguntar a razo de termos nos mudado para a propriedade de Pantiles.
Ela encolhe levemente os ombros.
-- Seus pais acharam que seria bom que voc e Sophie passassem um tempo no campo. E, se me lembro bem, voc tambm queria andar a cavalo.
-- Eu? - pergunto incrdula. Com certeza ela est pensando em outra Isabel, ou talvez em Isaac. Esta Isabel/Isaac aqui no chega a menos de um metro de distncia 
de uma dessas criaturas fedorentas e de seus cascos assustadores. 
-- Sua me costumava andar muito a cavalo, e acho que voc decidiu que queria cavalgar tambm.  claro que, na primeira vez que voc caiu, decidiu que odiava aquilo.
Inclino-me, interessadssima.
-- Eu estava galopando quando ca? Tentando algum salto?
-- No, querida, o cavalo estava completamente para no ptio. Voc perdeu o equilbrio.
Ah. Deve ser por isso que eu, convenientemente, apaguei toda a cena da minha memria. E aquele cheiro.
-- Mas como  que meus pais conheciam os Monkwell? - continuo, mas Dominic volta e nos interrompe: -- A freira me inspirou e eu pedi uma Guinness.
-- Odeio Guinness. 
-- Eu sei, por isso pedi um Drambuie com ginger ale para voc. - Lgico.
Sem cerimnia, ele coloca ruidosamente os dois copos na mesa e volta ao balco para pegar sua Guinness, que est l suando, ou assentando, ou seja l o que for que 
as cervejas fazem.
-- Voc tem certeza de que eu estava na letra "I", Izz? - tia Winnie pergunta.
-- Talvez fosse "T"?
-- Que chato; seja como for, este tambm vai goela abaixo!
Fazemos tinir os copos e eu dou um golinho experimental no meu Brambuie e ginger ale.  uma mistura de sabores interessante. Olho na direo de Dominic, que conversa 
animadamente com o dono do pub. Ele est rindo de alguma coisa, deixando a cabea cair par trs e eu acabo tambm por sorrir. Dom possui o maior e mais contagiante 
sorriso que j vi. Ele tem um ar encantador, de uma maneira meio dndi. No  bem o meu estilo, mas  muito atraente quando o homem em questo  uma pessoa to aberta 
e to simples como Dom. Ele tem cabelos louro-escuros, que a principio julguei que fossem cuidadosamente desarrumados, mas descobri que so simplesmente desarrumados, 
 magro e possui um rosto atraente. E tambm possui excelente ligaes,. Sua famlia  conhecida nos crculos sociais londrinos, e Dom  considerado um partido. 
Mas mesmo se eu quisesse me casar com ele, duvido que ele se interessasse. Por, fiquem sabendo, descobri h pouco tempo que ele  gay.
Dominic tem um monte de admiradoras, mas comecei a perceber um padro. Ele nunca foi atrs de nenhuma dessas meninas. Sua tia Agnes, provavelmente desesperada para 
ter sobrinhos-netos, costuma empurrar garotas no seu caminho. Dom, por respeito  tia, d umas voltas com elas quarteiro e depois, educadamente, diz at logo. Garotas 
no escritrio, no metr, na cafeteria local, todas j tero, em um momento qualquer, enfiado papis com seus nmeros de telefone na mo dele e suplicado para que 
ele telefonasse. Mas, em vez de ficar todo convencido com o assdio e ir para cama com todas, Dom sai com elas,  uma tima companhia, ouve todos o seus problemas 
e depois as devolve respeitosamente para o lugar de onde vieram. 
Nunca investiguei a situao a fundo porque, quando o seu melhor amigo  um homem, s vezes  difcil conversar sobre essas coisas. Imagino que ele tenha aprontando 
um pouco com algumas delas, embora nunca tenha tido certeza, porque ele nunca as levou ao nosso apartamento. Era a que estava o meu erro. Dom  um homem do tipo 
que tem sangue cor-de-rosa nas veias. Certeza absoluta. Como  que eu sei? Porque uma das suas ex-namoradas me contou. Poucas semanas atrs, estava trabalhando em 
um coquetel quando uma garota chamada Cecily se aproximou e apresentou-se novamente. Conversamos alguns minutos, e ento ela disse:
--Que pena aquilo sobre o Dominic, no?
Fiquei levemente intrigada, pensando no que raios ele teria aprontado agora, quando percebi que ela estava avaliando a minha reao. O truque mais velho da praa. 
Ento concordei, de modo casual, que era um pouco chato e olhei de maneira significativa para ela. Foi a que a represa estourou - como ele tinha contado que era 
gay, mas que ainda estava confuso com tudo isso, e se ela poderia manter segredo. Ela, obviamente, no podia.
Eu estava total e completamente chocada. No pelo fato de Dominic set gay. Eu no estava nem a para isso. O choque vinha do fato dele no ter me contado. Gosto 
de acreditar que sou a melhor amiga dele e, no fim das contas, ele no me disse nada. E foi a que as coisas comearam a fazer sentido. A ausncia de uma namorada, 
sua predileo por Kylie Minogue, seus antiquados tnis de lona, a forma como ele adora dissecar tudo verbalmente e, acima de tudo na lista, sua DELICADEZA. Sim, 
todos os sinais brilhavam na minha frente e eu ao vi nenhum.  Isso aconteceu h exatamente um ms. Lembro a data com preciso porque no dia seguinte Rob me deu o 
fora e as coisas mudaram de perspectiva. Havia problemas bem mais importantes para cuidar do que o fato de Dom ser gay. Agora que a poeira baixou novamente, nunca 
encontro a hora certa para conversar com ele a respeito - no posso dizer no meio do jantar "Passe o sal e, a propsito, quando voc pensa em sair do armrio?" Alm 
disso, esses assuntos so pessoais e eu acho que ele vai me contar quando estiver pronto.
Enquanto Dom volta para nossa mesa, procurando por cigarros em seu bolso, seu celular comea a tocar o tema do Batman e ele o retira do bolso traseiro. Ele tem um 
desses celulares metidos a besta no qual se pode programar o toque para indicar quem est chamando. Eu, por exemplo, sou identificada pelo tema do desenho animado 
do Hong Kong Fu. E  por isso que lamento profundamente ter contado a ele a historia de como meu colar ficou preso em um arquivo no escritrio e levaram mais de 
dez minutos para me soltar.
-- E a! - ele atende com familiaridade. Eu posso ser absolutamente insensvel em alguns assuntos, mas se tem uma coisa que consigo identificar rapidamente  um 
clima. E parece haver um clima muito intimo entre Dom e quem quer que seja que est do outro lado da linha. Alm do que  bvio que Dominic conhece bem a pessoa, 
para lhe dar um toque particular. Jameson e eu empinamos os ouvidos. Gostaria de acreditar que  porque ele est to interessando na vida amorosa de Dominic quanto 
eu, mas a verdade  que Scooby, o gato do pub, acabou de entrar na sala. Ouo atentamente enquanto disfaro brincando com o porta-copos, mas sem resultados. Desafio 
o invento do cdigo Morse, ou at mesmo o detetive Poirot, a descobrir alguma coisa com a seqncia de "Hum... sim, acho que sim... hum... ...". Depois de um tempo, 
Dom pede para a pessoa do outro lado da linha aguardar um instante e sai para continuar a conversa em particular.
-- Voc ouviu aquilo, tia Winnie? - pergunto com um sussurro dramtico.        
-- H, o qu?
-- Aquilo. - Cuspo a palavra enfaticamente.
-- O qu?
-- A conversa de Dom como Batman.
-- No havia muito para se ouvir, havia?
-- Acho que ele est namorando algum.
-- Com que poderes especiais voc chegou a esta concluso com base naquela conversa? - pergunta tia Winnie, verdadeiramente intrigada.
-- Agora que estou pensando a respeito, ele tem andado cheio de segredinhos ultimamente. Vive terminando os telefonemas quando entro na sala e me diz que foi engano.
-- E por que ele no contaria que est namorando algum? Achei que vocs contavam tudo um para o outro.
PAF! Bato dramaticamente meu punho cerrado contra a palma da outra mo.
-- Agora ESTA  a pergunta, tia Winnie. Por que no me contaria?
-- H, eu no sei. Acabei de perguntar isso.
Abro a boca para comear a confessar todas as minhas suspeitas sobre ele, mas a fecho novamente quando penso que Dominic no gostaria que eu contasse para tia Winnie 
antes dele ter sequer dito algo para mim. Felizmente somos interrompidos.
-- Quem era? Pergunto inocentemente enquanto Dom senta  mesa.
-- Oh, era, h, Pete.
Balano a cabea, tipo oh!-era-o-Pete.
-- O que vamos almoar, tia Win? - pergunta Dom. 


Dirigimo-nos para casa depois que terminamos os drinques e tia Winnie fica ocupada colocando lingias na grelha enquanto Dominic e eu escolhemos uma garrafa na 
grande coleo de vinhos caseiros de tia Win. Gengibre, framboesa, ma, a lista  infinita. Acabamos nos decidindo por ruibarbo.
-- Duas lingias ou trs, Dom? - pergunta tia Winnie.
-- S duas para mim, obrigado. J que sou...
-- Vegetariano - terminamos a frase por ele. Estamos acostumados com a idia que Dom tem do que  ser vegetariano, uma idia muito seletiva e extremamente ocasional. 
Ele parece acreditar que comer pores pequenas de carne o transforma em vegetariano. Mas tudo no passa de uma desculpa para chamar a ateno quando ele recebe 
sua refeio antes do que as outras pessoas nos avies. Durante muito tempo, sempre que algum fazia uma pergunta, como "Desculpe, pode me dizer que horas so?", 
ele respondia: "No, desculpe, sou vegetariano." 
Dando suspiros de felicidade, Dom e eu vamos para o assento junto  janela levando nosso copos de vinho. Verifico cuidadosamente por baixo das almofadas, procurando 
pedaos de ossos mastigados que Jameson adora esconder ali. Foram necessrias trs lavagens a seco para remover uma mancha de gordura da minha adorvel cala lils. 
Depois de limpar todos os resduos, apio as costas contra a parede e coloco as pernas no colo de Dom enquanto ele acende um cigarro, usa o mao, agora vazio, como 
cinzeiro e toma um golinho do vinho de ruibarbo.
-- Caramba, tia Winnie - digo quando consigo voltar a respirar. Este vinho, me lembro, foi o motivo pelo qual no me importei muito na hora com a mancha de gordura. 
-- Meu Deus - diz Dominic, piscando surpreso. - Voc engarrafou o fogo dos infernos.  como uma pancada na cabea.
-- Sim, estou muito satisfeita com ele. - diz tia Winnie, toda orgulhosa. Todos concordamos que se tia Winnie quiser voltar a trabalhar, sua nova carreira deve ser 
a fabricante de vinhos. - Como vai o trabalho, Dom? - pergunta tia Winnie.
Ele franze o nariz e faz uma careta.
-- Estou pensando em largar tudo.
Isto  uma novidade para mim. Sento.
-- Desde quando?
-- Ah, venho namorando essa idia j h algum tempo. - Ele no me olha nos olhos e descubro imediatamente que alguma influncia externa tem algo a ver com isso. 
E eu poderia dizer que  o "Batman". - Eu realmente acho que  hora de levar meu romance um pouco mais a srio. Se eu largar o trabalho no escritrio, poderei ser 
escritor em perodo integral.
-- E o dinheiro? - pergunto.
-- Bom, na verdade, pensei que poderia trabalhar mais nos seus eventos, Izzy. Poderia trabalhar de noite e escrever durante o dia. Voc pode conseguir para mim uns 
trabalhinhos servindo  mesa em jantares elegantes aqui e ali, no pode? - Dom sempre me ajuda em eventos para ganhar um dinheiro extra. Ele  muito charmoso e todo 
mundo o adora.
-- Na verdade no poderia tentar me encaixar no evento Monkwell? Adoraria conhecer Pantiles!
-- Claro que sim - digo, mas minha mente est em outro lugar. Estou pensando que meu ltimo elo com Rob desaparecer. 

Passo, supostamente, a maior parte da manh de segunda-feira trabalhando no laptop, mas na verdade fiquei mudando de roupa a cada meia hora.
-- Que tal esta, tia Winnie? - pergunto do alto das escadas.
Ela olha para mim enquanto pratica o seu balano para tacada de golfe no corredor. Sabiamente, Jameson desapareceu.
- Izz, querida, as roupas esto comeando a ficar incrivelmente parecidas umas com as outras.
--  porque voc j viu este conjunto. Foi o primeiro que vesti esta manh.
Ela parece ficar um pouco irritada com essa informao.
-- No use nada florido e tudo ficar bem. Me diga o visual que voc pretende e ento vamos analisar. - Ela pra de treinar o seu  swing e apia-se no taco de golfe.
-- Quero parecer eficiente.
-- O segundo conjunto, ento. - Ela parece ficar aliviada com esta deciso rpida. No passado, levvamos um bom par de horas antes que Sophie sasse de casa para 
ir a qualquer lugar importante. Ela volta a pegar no taco de gole.
-- E mesmo assim estou feminina? No quero parecer muito machona.
Tia Winnie faz de conta que leva a informao em considerao, mas sei que ela est blefando, porque  bvio que perdeu o interesse no assunto h meia hora. E eu 
tambm j estou ficando meio cheia tambm.
-- O terceiro conjunto, ento.
Concordo com a cabea e desapareo para mudar de roupa. Estou inexplicavelmente nervosa em rever os Monkwell e quero desesperadamente causar uma boa impresso.



Tia Winnie engata uma segunda e fora o Mini a alcanar novas marcas de velocidade. Fecho os olhos e tento pensar em coisas positivas para dizer durante meu encontro 
com Monty Monkwell. Tenho a pavorosa tendncia a dizer a primeira coisa que me vem  mente quando estou nervosa. Na primeira entrevista de emprego que fiz na vida 
perdi completamente minha pose habitual e a resposta que dei quando perguntaram o que eu gostava de fazer nas horas de lazer foi: "Gosto de comer torradas." Nada 
profissional.
-- Tia Winnie? Voc tem visto algum da famlia Mokwell ultimamente?
-- S fotos de Simon nos jornais. No vejo nenhum deles desde que vocs saram de Pantiles. Sabia que Elizabeth, a me deles, morreu?
-- Sim, mame me contou. J faz muitos anos, no?
Ela concorda com a cabea, e eu olho pela janela, perdida em pensamentos. H mais de quinze anos que nenhuma de ns voltou a Pantiles. Apesar do local estar a apenas 
trinta minutos de carro da casa de tia Winnie, ela bem que poderia estar do outro lado do mundo.
Finalmente comeamos a percorrer a descida que leva ao vale dos Monkwell, literalmente falando, j que eles possuem todas as terras at onde a vista alcana. Pequenos 
arvoredos e amontoados de casinhas esto salpicados na paisagem suntuosa  esquerda, ocasionalmente separados por baixos muros de pedra sem reboco, alguns desmoronando. 
Olho para a direita e levo um susto. Como em uma cena do filme Jurassic Park, o campo est salpicado de animais.
-- Veados, tia Winnie! - grito.
Tia Winnie me olha pelo espelho retrovisor.  o nico uso que ela faz dele.
-- Sim, querida?
-- No! - Eu e inclino por entre os assentos da frente e aponto para a direita. - Eu estou dizendo que eles criam veados agora! -  sempre um erro distrair tia Winnie 
quando ela dirige. Subimos em um barranco, andamos um pouco em um ngulo de trinta graus e depois voltamos abruptamente para a estrada.
-- Eles devem estar tentando tirar algum lucro da propriedade - digo, ignorando o pequeno desvio que fizemos no caminho.
-- Bom, Simon  o eterno homem de negcios! Mas os veados podem ser muito perigosos na temporada de acasalamento. No gostaria de me encontrar com um deles em terreno 
aberto.
Dou uma olhada para tia Winnie. Ela diz a mesma coisa para todos os animais. Cavalos, porcos, vacas. Acho que  porque ela e Dominic adoram me ver sair correndo 
como uma louca quando fazemos caminhadas e encontramos qualquer tipo de vida selvagem. Eu nunca sei quando ela est falando srio ou no.
Chegamos ao pitoresco vilarejo de Pantiles. Os Monkwell tambm so donos de todas as casas do lugar. Olho ao redor, interessada. Afinal de contas, foi aqui que vivi 
alguns anos da minha infncia. Surpreendentemente, o vilarejo de Pantiles conseguiu permanecer inalterado. Minha cabea vira para todos os lados enquanto reconheo 
locais e relembro. O pequeno emprio que tambm era a agncia de correio, onde Sophie e eu costumvamos pechinchar com o proprietrio sobre o mximo de balas que 
podamos comprar com nossas moedinhas. O jardinzinho do vilarejo com sua antiga cerejeira. H mais de cinqenta anos, o vigrio da poca fez um enxerto, colocando 
uma muda de cerejeira rosa na cerejeira branca, e, todos os anos, a rvore produz flores com o centro rosa, cercado por uma aurola branca. H um assento irregular 
de madeira embaixo da rvore conhecido como banco do casamento, porque olhando de um certo ngulo a rvore se parece com uma noiva, e acredita-se que todos os casais 
que se sentam nesse banco se casam. O fato de que seria preciso comer um quilo dos cogumelos alucingenos, que crescem em abundncia nos bosques locais, para poder 
ver essa semelhana, parece ter passado completamente despercebido dos habitantes locais.
Perto da agncia do correio est a pequena igreja saxnica, e na frente da igreja esto os gigantescos portes de fero que costumavam ser fechados todas as noites 
por um dos zeladores. Esses portes so a nica abertura no muro que circunda a propriedade, casa e terras. Debruo-me para a frente quando passamos por eles. Depois 
somos atirados de um lado para outro, com o carro pulando e roncando na subida da pequena colina, ziguezagueando por entre os vrios buracos da estrada flanqueada 
por grandes lamos. Na primavera, narcisos ondulam nos dois lados da estrada, at onde a vista alcana, mas no h flores nesta poca do ano. Finalmente chegamos 
ao topo da colina e a casa aparece. Exatamente neste local, fazendo uma curva  direita, a estrada leva  nossa antiga casa, escondida nos bosques, mas esta estrada 
passa despercebida aos motoristas uma vez que  muito difcil tirar os olhos da residncia dos Monkwell. Fazemos um minuto de pausa enquanto tia Winnie luta para 
encontrar a marcha correta. Olho com carinho para a grande e antiga casa enquanto tia Winnie grunhe empurrando a alavanca do cmbio em todas as direes. Meu momento 
Memrias de Brideshead  abalado com tia Winnie gritando "Vamos, seu carro sacana!", bem dentro do meu ouvido direito, e despencamos em boa velocidade colina abaixo.
A casa foi projetada por um discpulo de Luryens (Sir Edwin Landseer Luryens - arquiteto ingls que planejou a cidade de Nova Dli) e agora eu consigo ver, claramente, 
os traes da marca registrada do mestre. A casa posiciona-se em uma localizao perfeita no fundo de um vale suave, protegida dos elementos mais rigorosos e, ainda 
assim, recebendo a luz do sol. Os jardins estendem-se suavemente em frente  fachada pontilhada por dzias de janelas quadriculadas que refletem os gramados perfeitamente 
tratados.
Tia Winnie chega em alta velocidade, atravs de uma passagem em arco, e entra no ptio com piso de pedra nos fundos da casa. A porta da frente s  usada em ocasies 
formais e eu acho que esta no  uma delas. Do outro lado do ptio est um estbulo, aparentemente deserto.
-- Parece que eles j no tm cavalos, tia Winnie - digo, apontando para a cerca.
-- Simon vendeu todos eles depois que Elizabeth morreu - ela bufa consigo mesma. - Vou esperar voc aqui. Boa sorte. - Tia Winnie se inclina e abre a porta do passageiro, 
solta o cinto de segurana de Jameson e o pe para fora. Eu empurro o assento e saio relutantemente atrs dele.












































CAPTULO 6


Enquanto espero na porta dos fundos, meus olhos focalizam o meu estmago e eu o puxo para dentro. Cinco dias de dieta me deixaram um quilo e meio maravilhosamente 
mais magra e eu j vejo a diferena. No sou nenhuma Elle Macpherson, mas no acho que agora algum v me encaminhar para a sala de parto. Viro-me para dar uma olhada 
na tia Winnie, cuja idia de discrio  ouvir uma pera com os gritos saindo em alto volume do carro. Fao alguns sinais com a mo para ela baixar o volume, mas 
ela me ignora solenemente.
A porta se abre ruidosamente e eu me viro para trs. Uma mulher alta, com lbios muito finos, me encara, esperando eu me apresente.
-- Ol! Vim ver Monty Monkell. - Abro um sorriso. Ela no.
-- Voc ?
-- Isabel Serranti. Ele est  minha espera.
Ela tenta sorrur, mas o mximo que consegue  esticar os lbios sobre os dentes.
-- Siga-me, srta. Serranti.
Ela entra na cozinha e, enquanto a sigo, observo que  extremamente magra e ossuda. J estamos destinadas a no nos darmos bem. Seu cabelo escuro est preso em um 
coque severo e eu calculo que ela tem uns trinta e poucos anos.
Dou uma boa olha ao redor da imensa cozinha e observo, surpresa, que nenhum item de decorao mudou. Quando era criana, ela parecia fresca e moderna, com suas paredes 
e cortinas em tom verde-limo e armrios rsticos em estilo de fazenda. Agora parece desbotada e gasta, mas talvez seja somente o meu olhar que est mais velho e 
pedante. A mesma mesa enorme de carvalho escovado fica no meio do amplo ambiente cercada por cadeias de formas e tamanhos diferentes. H um cheio muito familiar 
no ar, que me envia diretamente de volta  minha infncia de um modo mais intenso do que qualquer fotografia seria capaz. Uma combinao, diria eu, de ces, um sabo 
em p especfico e o cheiro de pes e bolos assados. Nosso progresso  interrompido por uma matilha de ces ladrando, que pulam alegremente sobre mim. Fao festinhas 
em todos eles, tentando desesperadamente alcanar um pequeno e branco que  constantemente posto de lado pelos demais.
-- PARA A CESTA! - rosna a mulher. Todos pulamos, e eles vo se esconder no cantinho deles. Fico muito tentada a acompanh-los.
-- Por aqui - diz ela e sai andando em alta velocidade pelo labirinto de corredores. Preciso correr para acompanh-la.
-- A senhora trabalha com os Monkwell h muito tempo? - pergunto educadamente quando consigo emparelhar com ela.
-- H tempo suficiente.
Aceno com a cabea e procuro desesperadamente obter mais comentrios inocentes.
-- E a senhora ?-pergunto educadamente.
-- A Sra. Delaney. -  bvio que no vamos ter um relacionamento informal aqui. - Sou a governanta. Trabalho aqui h oito anos. - Ela empina o queixo e me olha de 
maneira agressiva. H um qu de desafio nessas palavras.
-- Bem, Sra. Delaney,  um prazer conhec-la. Devo dizer que vamos nos ver com freqncia, at o dia do baile de caridade. E junto um sorriso radiante  frase para 
indicar o quo maravilhoso isso ser.
A Sra. Delaney bufa, demonstrando exatamente como ela se sente a respeito. - Baile de caridade - ela diz, no mesmo tom que algum usaria para dizer "bela merda". 
- No tnhamos nenhuma destas bobagens quando a dona da casa estaca viva. - Isto me lembra demais o dilogo da Sra. Danvers falando com a segunda Sra. De Winter 
no filme Rebecca (Filme de Alfred Hicthcock, 1940)
-- Eu sei, Elizabeth sempre quis que a propriedade fosse estritamente privada - digo suavemente, tentando mostrar que tambm conheo a histria do lugar.
Ela me olha rispidamente, mas decide no dizer mais nada a respeito.
Minha tia Winnie, que tem medalha de ouro na arte de ser rude com as pessoas, pelo menos faz isso com algum charme. Acho que a Sra. Delaney no tem charme algum. 
Andamos em silncio, passando por inmeras portas fechadas, at chegarmos ao corao da casa: um hall absolutamente enorme liga vrias alas. Sufoco uma pequena exclamao 
e reduzo o passo, sem querer. Nas memrias de minha infncia, este hall era a coisa maior e mais grandiosa que eu j havia visto. Ele possui um enorme teto em arcos, 
como em uma catedral, separados por vigas de carvalho. Uma gigantesca escadaria comea no meio do ambiente e divide-se em duas depois do primeiro lance. A lareira 
em mrmore cinza tem, no mnimo, um metro e oitenta de altura e trs metros de largura. Mas, nas minhas recordaes, a entrada era agradvel e acolhedora, forrada 
com voluptuosas cortinas de veludo, almofadas em cores vivas e vasos com folhagens luxuriantes. Agora  um lugar frio e austero. A lareira est visivelmente abandonada 
e h muito tempo no  acesa. As plantas desapareceram, o veludo desbotou e o lugar cheira a mofo. Tenho um arrepio involuntrio e paro na frente da lareira. Olho 
para cima.
Algo est me incomodando aqui. E no sei bem o que .
-- Srta. Serranti?-a Sra. Delaney me chama. Olho para ela parada na frente de uma das portas, com a mo na maaneta.
-- Desculpe - digo apressadamente e caminho em sua direo enquanto ela bate com firmeza na porta.
-- Entre! - diz uma voz l dentro.
-- A Srta. Serranti est aqui para v-lo, Monty - diz a Sra. Delaney. Sinto-me um pouco surpresa com o uso familiar do primeiro nome dele, embora Monty nunca tenha 
compartilhado da frieza de Elizabeth Monkwell. Ela d um passo para o lado e me deixa entrar na biblioteca.
Uma verso muito mais velha do Monty de minhas memrias joga o jornal para o lado e levanta de uma das poltronas. Ele parece ter encolhido um bocado desde a ltima 
vez que o vi, mas suponho que eu tambm era mais baixa na poca.
-- Izzy, querida! - Ele estica os braos em minha direo. - Que maravilha! Passei a manh toda ansioso por este encontro! - Ele me d um beijo afetuoso na bochecha. 
- Voc cresceu e virou uma moa linda!
Fico levemente vermelha e espero que isso faa com que eu parea uma menina delicada, em vez de uma mulher na menopausa.
Monty  um homem incrivelmente charmoso. Lembro-me de olhar para ele completamente maravilhada na infncia. Ele sempre tinha uma palavra afetuosa para ns e algumas 
balas enfiadas nos bolsos. Como a tia Winnie, ele  um grande apaixonado por tweed. Seu cabelo est mais curto agora - ele costumada usa-lo  la Hugh Grant --, mas 
ainda  abundante. Est vestindo calas de veludo cotel, umas camisa xadrez sem gravata, um colete e um blazer de tweed com reforos nos cotovelos. O sol entra 
pela ampla janela no fundo da sala, iluminando uma pequena nuvem de poeira que dana no alto de uma escrivaninha antiga.
-- Fiquei muito triste quando soube da morte de Elizabeth - digo suavemente.
-- Foi muito doloroso. - Ele acena devagar com a cabea e parece triste. - J se passaram alguns anos. O tempo cura tudo.
Ele me pega pelo cotovelo e caminhamos para o meio da sala.
-- Poderamos beber um caf, Sra. Delaney? - ele pergunta olhando por cima do ombro. - Voc toma caf, Izzy? Ou prefere ch?
-- No, no, caf est timo - digo e sorrio para a Sra. Delaney, que desaparece fechando a porta. Sempre que tenho que realizar eventos que envolvem pessoas que 
no so da minha empresa, direta ou indiretamente, fao um esforo enorme para mant-las do meu lado. Isso evita problemas durante o projeto. Mas no sei bem como 
vou dar um jeito na Sra. Delaney.
Monty faz-me senta em uma poltrona fofa na frente de uma lareira apagada, mas com lenha, e senta-se na poltrona  minha frente. A biblioteca  uma sala relativamente 
pequena, mas bonita, com painis de carvalho e estantes que vo at o teto. Passo alguns minutos fazendo festinhas no velho labrador sentado aos ps da poltrona 
de Monty. O co pede desculpas por no se levantar com um sonoro tum-tum de cauda a abanar.
- Voc no se lembra do velho Jasper. Deixo os outros ces na cozinha para que ele possa ter um pouco de paz e sossego. Hoje em dia ele  no gosta muito de agitao. 
Meu Deus! Acho que ele nem havia nascido quando voc saiu daqui! Faz mesmo tanto tempo assim, Izzy?
-- Faz um bocado de tempo. -Sorrio.
-- E o bom e velho lugar traz boas lembranas?
- Muitas! - digo de modo animado, pensando que ele ficaria horrorizado se soubesse que algumas envolvem o brutamontes do filho dele.
-- Ento conte-me tudo o que voc tem feito desde que saiu daqui! Como vo seus pais? Como vai Sophie? - Os olhos dele cintilam na minha direo.
Comeo um relato meio desajeitado de como vai todo mundo, at que a Sra. Delaney nos interrompe com o caf. Ela traz uma bandeja com uma grande cafeteira, xcaras 
de porcelana que no combinam entre si,uma jarra grande de leite e um prato de biscoitos de aveia. Ela no faz contato visual com nenhum de ns, larga descuidadamente 
a bandeja na mesinha e sai.
-- Obrigado, Sra. Delaney - diz Monty para as costas dela.
-- Obrigada! - repito.
Ele move-se para a extremidade da poltrona, d uma olhada na bandeja e esfrega as mos.
-- Biscoitos! E        la est de bom humor! - diz ele. Caramba! De bom humor. Que Deus nos ajude. - Mas no temos acar - diz, carrancudo.
-- Ah, eu no bebo caf com acar - respondo.
-- timo! - Ele parece aliviado. Acho que eu no teria muitas chances se tomasse caf com acar. Est na cara que nenhuma de ns teria coragem de pedir.
Falamos mais um pouco sobre minha famlia, at que eu, hesitantemente, pergunto sobre Will.
-- Will? Ele agora trabalha aqui a propriedade.
-- Trabalha? - digo, surpresa. Sempre achei que ele iria fazer algo terrivelmente excitante. No nosso grupo era sempre ele quem estava em busca de aventuras.
-- Sim, ele  o novo administrador da fazenda! Voltou de viagem h um ano!
-- Eu imagina que Will seria um astronauta, um mergulhador de profundidade ou algo assim!
-- Ele costumava ser um pouco selvagem, mas agora acalmou-se. Alm disso, precisvamos desesperadamente de um administrador. Simon, como voc deve saber, anda muito 
ocupado com suas vrias empresas para preocupar-se com Pantiles.
-- Sim, eu, h,li um pouco a respeito dele. - Olho para minha xcara de caf, sem graa.
-- Ele no  to ruim quando dizem, Izzy - Monty diz com ternura. - A imprensa pode entender tudo errado.
Mas eu, que tive minha cota com ele, tenho vontade de gritar. E me atrevo a pensar que mais de um assassino recebe apoio incondicional de seus pais indignados.
-- Ele tem se sado muito bem - resmungo em resposta. - E por onde Will esteve viajando? - acrescento, ansiosa em me livrar do assunto Simon.
-- Por todo o mundo! Deixe-me ver, recebemos postais da frica e da Amrica do Sul. Ele foi at aquela cidade perdida.  extraordinrio com eles empilharam pedras 
l, com pouco oxignio. Depois foi para a Indonsia, Tailndia e Austrlia. Ele vai adorar conversar com voc e contar tudo sobre os lugares onde voc viveu!
-- Sim, ser muito bom se eu conseguir me lembrar tanto assim! Sophie e eu vivemos na Inglaterra desde os oito anos. - Sorrio de volta para ele. - E voc, Monty? 
Como vai? A fazenda ainda o mantm ocupado?
-- No! No administro a fazenda h anos! Quando Elizabeth morreu, eu simplesmente no pude mais cuidar dela. Simon tem sido o responsvel desde ento. Afinal de 
contas, esta  a sua herana!
Olho, novamente sem graa, para minha xcara. Julgando o silncio desconfortvel que se segue, fica muito claro para mim, e tambm para Monty, que Simon Monkwell 
no liga a mnima para a sua herana. Por fim, Monty diz:
-- Acho que precisamos comear a falar sobre este baile de caridade!
-- Sim! - digo um pouco entusiasmada demais. Procuro meu bloco de anotaes 
-- Fiquei muito feliz quando sua empresa disse que voc estava disponvel - continua Monty. -  claro que depois que a Sra. Charlesty me disse que voc era uma [i]promoter[/i], 
eu sabia que no poderia contratar outra pessoa! Lamento que s possamos oferecer um pagamento. Como tudo aconteceu to em cima da hora, precisei ligar para Simon 
e pedir a permisso dele, e ele me disse que a verba seria ampla. - Ampla no  a palavra correta. - E como  para caridade, no quis tirar muito dinheiro deles.
Eles deveriam ficar felizes com a sorte que tm por Simon no estar aqui, penso com meus botes. 
-- Oh, no se preocupe com isso! - digo em voz alta. - Gerald, meu diretor-gerente, ficou perfeitamente satisfeito com a quantia. Mas o que fez com que voc mudasse 
de idia sobre realizar eventos aqui? Sempre pensei que Pantiles fosse estritamente particular.
-- Simon vem falando h algum tempo em tornar Pantiles mais comercial, e embora no estejamos procurando ativamente por clientes, achei que seria bobagem no aproveitar 
uma oportunidade que bateu  nossa porta. Alm disso, vai dar a um burro velho como eu alguma coisa que fazer! Acho que vai ser divertido!
Olho para ele, duvidando.  bvio que ele nunca ficou dependurado em uma escada s trs da manh quando uma festa cujo o tema  ave-do-paraso no est dando certo 
e Aidan est tendo um ataque histrico aos gritos.
-- Quais as informaes que o pessoal da associao de caridade j lhe deu at agora?
-- Bom, so cerca de quinhentos convidados.
-- Ento, o que acha de uma tenda no gramado? - Por favor, me diga que eles j reservaram uma. Por favor, me diga que eles j reservaram uma.
-- Eles vo usar a empresa que haviam reservado para o local anterior. - Ufa.
-- E o que  que devemos oferecer, especificamente?
-- H, tudo.
-- Tudo?
-- Sim. Eles me deram uma lista. - Ele vasculha o bolso interno do blazer por alguns segundos. - Aqui est! Precisam dos servios de catering... j forneceram um 
valor por cabea para clculo... decorao, mesas e cadeiras, talheres, louas e copos, e entretenimento.
Anoto tudo.
-- Ento no  muita coisa - digo com um suspiro, enquanto verifico as exigncias na minha lista padro de perguntas.
--  muita coisa? - Monty parece ansioso.
-- No, no! - digo isso de uma maneira que, espero, parea reconfortante. - Acabamos de diminuir nosso trabalho!
-- Voc  capaz de fazer isso, ento? - ele pergunta, ansioso.
Gerald sempre me d carta branca no tocante a aceitar ou recusar um trabalho. Normalmente eu pensaria duas vezes antes de aceitar um como este, mas no hesito por 
um segundo e digo:
-- Claro que sim! - Sou recompensada pela viso de Monty parecendo demasiadamente aliviado.
-- Sua verba no vai ser suficiente, vai?
-- No se preocupe! S temos que fazer o [i]catering[/i] para quinhentas pessoas. No estvamos  espera desse bnus! Posso me encontrar com os representantes da 
associao de caridade para discutir os detalhes? Logo? - Consigo disfarar um tom levemente em pnico na minha voz. Os clientes no costumam gostar disso.
-- Tomei a liberdade de agendar um encontro nesta quinta-feira. A empresa da tenda vem aqui na sexta-feira. Eles ainda no viram o local. Voc precisa ficar hospedada 
aqui, Izzy. Eu fao questo.
Vou me mudar imediatamente, penso.
-- Obrigada, Monty. Isso vai ajudar.  uma caminhada e tanto para voltar a Londres.
-- Ah, a propsito, eles disseram que querem um tema circense.
-- Como?
-- Voc sabe, com a tenda grande e tudo! Um circo!
Tenho a sensao de que teremos um quer eu ajude ou no.
-- Maravilhoso! - digo e sorrio alegremente. O que vo inventar depois? - Sim, sem dvida.
No posso fazer muito mais sem falar com as pessoas da associao de caridade. Sendo assim, levantamos e fomos em direo  cozinha.
-- Voc estacionou nos fundos, Izzy? - pergunta Monty. 
-- Sim, tia Winnie me trouxe.
-- Winnie? Por que no disse nada, Izzy? Ela deveria ter entrado na casa!
-- Desculpe, sempre me esqueo de que voc j a encontrou uma ou duas vezes!
Disparamos desembestados pelo corredor. Monty caminha a largos passos pela cozinha e escancara a porta dos fundos. Ainda sai pera em alto volume do Mini verde-ervilha 
e Monty bate com fora na janela do motorista. Tia Winnie pula assustada, mas um sorriso enorme aparece no seu rosto e ela sai o mais rpido que pode do Mini.
-- Monty, seu burro velho!
-- Winnie, querida, como vai voc? - ele ruge de volta.
Meu Deus, parece que estou no meio de uma conveno de deficientes auditivos. Eles no se conhecem muito bem, mas tia Winnie sempre deixa uma forte impresso nas 
pessoas.
Fico por ali enquanto eles conversam bem alto, num tom bem humorado, fazendo perguntas sobre a sade um do outro, at que Monty diz:
-- Sugeri que Izzy viesse ficar conosco por alguns dias no final de semana para resolver esta besteira da caridade. Voc vem jantar conosco?
-- Adoraria! Desde que no seja porco. Odeio porco.
-- Nada de porco, ento! Vou dizer  Sra. Delaney. Que tal quinta-feira?
-- Maravilhoso!
-- Izzy, por que no vem na noite de quarta-feira? Assim estar bem disposta para se encontrar com o pessoal da associao na manh de quinta-feira.
-- Obrigada, Monty. Isso ser timo.



No dia seguinte chego cedo ao escritrio. Tenho um monte de coisas para fazer antes de voltar  fazenda no fim de semana. Uma vez que o evento em Pantiles envolve 
muito trabalho, vou passar todos os meus outros eventos para Aidan, exceto a Festa Nrdica do Gelo de Lady Boswell, que ningum quer assumir, mesmo sob ameaa de 
morte. Acho que Aidan no vai ficar muito feliz, alguns clientes infernais esto a lista.
Stephanie est fumando e digitando desanimada com um s dedo enquanto tenta ler o  Daily Mail
-- Bom-dia! - digo animada. - Algum recado?
-- Onde voc esteve?
-- H, em Suffolk.
-- Ah.
-- Algum recado? - repito.
-- Esto na sua mesa.
-- Na minha mesa? - pergunto. Da ltima vez foram encontrados perto da cafeteira.
Ela revira os olhos e resmunga algo sobre Hitler que eu resolvo ignorar.
Vou at o escritrio principal. Aidan est conversando animadamente com algum no canto e agitando o que parece ser um par de cales tiroleses. Ligo meu computador 
e me sento. Aidan me viu chegar e vem correndo, ainda com as roupas na mo.
-- Izzy! O que os suo comem?
Pisco por um minuto enquanto tento ativar meu crebro.
-- H, chocolate Toblerone.
-- Que mais? Que mais? - ele insiste.
-- H, h. - Pisco distrada. - No sei, fondue? Chucrute? Ou isso  alemo? Por qu?
-- Estamos lanando um novo queijo suo e estou tentando juntar idias para a festa do lanamento. Os convites para os convidados VIP sero entregues em mos por 
um cantor tirols. Vamos fazer uma audio mais tarde. - Ele d uma risadinha e senta-se  minha frente. - Como foram as coisas na fazenda? Ela mudou muito?
-- Na verdade, acho que foi por gua abaixo. Ela parece... abandonada. Pessoalmente, penso que Simon poderia passar um pouco mais de tempo cuidando da sua casa e 
menos tempo tentando assustar as empresas de outras pessoas. Mas esta  a minha opinio pessoal,  claro. Completamente imparcial.
-- Acho que voc  uma sortuda por pegar este projeto. Eu morreria para ficar com ele.
-- Aidan,  um baile para quinhentas pessoas e eles decidiram que querem um tema circense. 
- Ah - diz ele, e no parece mais muito entusiasmado. - Um tema circense? Assim, em cima da hora? Quem foi o doido que pensou nisso?
-- No sei, mas Dominic e eu vamos ter muito trabalho.
-- Dominic vai ajudar voc?
-- Sim, quero que ele seja meu assistente, caso Gerald concorde. - Olho para Aidan, desconfiada. - Por qu?
-- Ah, por nada. A propsito, como vai ele?
-- Bem. Devo dizer a ele que voc perguntou por ele? 
Aidan d um sorrisinho escondido.
-- Diga que eu mandei lembranas.
Abro a boca para investigar melhor, mas o telefone toca e eu atendo.
-- Querida, estou to feliz em encontrar voc a! -  minha me ligando de Hong Kong. Ela ainda no se adaptou bem s maravilhas da tecnologia moderna que permitem 
que voc fale ao telefone sem que seja necessrio gritar como se estivesse conversando com uma tia muito velha e muito surda. Ela pronuncia cuidadosamente as palavras 
mais importantes e fala muito alto e muito devagar: -- Sua recepcionista, qual o nome dela, Clementine? - como diabos ela conseguiu entender Clementine, em vez de 
Stephanie? Ela no faz nenhuma pausa para ouvir minha resposta e continua em frente. - Ela me disse que voc esteve fora  manh toda. Mas o importante , e seu 
pai est fazendo gestos frenticos com a mo para mim, voc sabe quem venceu a corrida das 14h30 no hipdromo de Kempton?
-- H,no.
Ela coloca a mo sobre o bocal e grita, presumo, para meu pai.
-- Querido, ela no sabe, por favor, no insista... est bem, vou perguntar. - Ela volta a falar comigo: -- Ele quer saber se voc sabe quem ganhou o campeonato 
de futebol.
-- Me, no sei nem que times esto competindo, muito menos quem venceu. No existem jornais ingleses a?
-- Sim. Mas eles sempre chegam atrasados, e ns nos esquecemos de ler, e quando lembramos j embrulhamos as cascas de batatas com eles. - Ela tapa novamente o bocal 
e fala outra vez com meu pai. Esta conversa a trs j comea a me irritar. Sempre conversamos assim ao telefone. O nico jeito de ter uma conversa decente com a 
minha me  quanto meu pai no est em casa. - No, querido, ela no sabe... Escute, voc quer falar com ela? ... bom, ento fique quieto. - Ela volta a falar comigo: 
-- E ento, querida, como vai voc?
Hesito por um momento. Poderia contar sobre o retorno a Pantiles, mas esta conversa a trs levaria pelo menos uma hora para acabar e eu no sei se sobreviveria a 
ela.Poderia contar tambm sobre o rompimento com Rob, mas, como nem contei que estava saindo com ele, a idia parece intil. Nosso distanciamento ultrapassa os poucos 
milhares de quilmetros entre ns.
-- Absolutamente bem - minto, respondendo  pergunta. - Como vai voc?
Falando comigo:
-- Um caos. Darth Vole vem jantar.
Falando com meu pai:
-- Eu sei que o raio do nome dele no  esse.
-- Quem? - pergunto.
Falando comigo:
-- Um dignitrio chins local.
Falando com meu pai:
--  claro que vou aprender a falar o nome verdadeiro dele at a noite.
-- Comida inglesa ou chinesa? - pergunto, tentando desesperadamente fazer o meu lado da conversa ir para algum lugar,
Falando comigo:
-- Chinesa, infelizmente. Eu ainda no aprendi a comer com pauzinhos. S consegui pegar trs gros de arroz na noite passada e s consegui isso atirando-os para 
dentro da minha boca.
Falando com meu pai:
-- No, no  Sophie,  Isabel.
-- Mame, me ligue na semana que vem.
-- Sim, eu sei, quando seu pai estiver fora.
-- Diga que mando beijos.
-- Tchau, querida.
Assim que ponho o telefone no gancho, Gerald pe a cabea para fora da porta e grita, usando o sistema de alto-falantes:
-- ISABEL! Venha c!
Pego meu bloco de anotaes e um lpis e vou para o escritrio de Gerald. Ele fechou novamente a porta. Assim, dou uma batidinha nela e entro. Ele est escrevendo 
freneticamente no quadro de avisos.
-- Voc est bem? - pergunto cuidadosamente. - Parece um pouco, h, tenso. - Ele est com um ar completamente alucinado.
-- No!Somente muito alerta! Duas festas que acabaram tarde e alguns cafs expressos a mais. Como foi ontem? - pergunta.
-- timo. - Fao uma descrio breve dos pontos mais importantes do encontro.
-- Voc consegue mesmo dar conta de todo esse trabalho?
-- Estou transferido a maioria dos meus eventos para Aidan.
--  Deus, Izzy, precisa mesmo? Isso vai fazer com que ele fique mais histrinico do que j . E a Festa Nrdica do Gelo de Lady Boswell?
-- Ningum quis ficar com ela. Voc, por acaso, no...
-- No. Eu no. - ele fala bruscamente. - Voc precisa dar um jeito de encaix-la em algum lugar. Parece que voc vai ter que passar alguns dias l em Pantiles. 
No sei se a verba ser suficiente.
-- Bom, eles j arrumaram algumas coisas. - Quero voltar a Pantiles, no importa o quanto de trabalho est envolvido. - Posso fazer a estimativa de custos agora, 
se voc quiser. Para ter certeza de que o projeto  vivel.
-- Voc pode ser uma perfeccionista obcecada, mas pelo menos suas contas batem.
-- Obrigada, eu acho. Mas penso que vou precisar de um assistente, Gerald.
-- No d pra ficar sem um?
--  um baile grande e eles disseram que querem um tema circense. E agora temos que fazer o servio de catering para quinhentas pessoas, que  algo que no espervamos. 
Portanto, acho que podemos arcar com um assistente, no?
-- Voc vai me amolar at u concordar, no vai? Vai ficar me azucrinando o tempo todo.
-- Vou.
-- Muito bem. Voc pode ter um assistente. - ele responde, emburrado. - Mas lembre-se de que sua cabea vai para a guilhotina se qualquer coisa der errado.
Sorrio e fao uma anotao mental para ligar para Dom e dizer que ele precisa tirar uns dias de frias. 



Depois das audies para cantores tiroleses, todo mundo insiste em cantarolar todas as conversas em estilo tirols e o escritrio fica parecendo uma festa de crianas 
de trs anos de idade que tomaram suco de laranja demais. No fim do expediente, saio de l relutantemente e volto para casa.
Em um raro momento de inspirao, consigo localizar minhas chaves enquanto estou no metr. Dom est na sala, falando ao celular, quando entro em casa. Assim que 
ele me v, murmura algo apressadamente para a pessoa ao telefone e desliga.
-- Ol! - ele diz animado. - Como foi o trabalho?
-- timo! - Quem estava ao telefone? - pergunto sem demonstrar muito interessem meus olhos cravados nele. E por que ele estava falando ao celular e no ao telefone 
fixo?
-- Oooh, ningum. S, h, minha me. - Ele parece evasivo. A me de Dom  uma mulher atarefada, que "faz um monte de trabalho para associaes de caridade e outras 
boas causas". Dou uma olhada disfarada no meu relgio. No h como ela j ter voltado de uma das suas reunies de comits vespertinas, mas acho com a cabea.
-- Voc ainda tem dias de frias vencidas em nmero suficiente para ser meu assistente?
-- Com certeza! Estou muito animado com esse projeto! - diz ele. - Pense s, Izzy! Vou ver onde voc e Sophie cresceram! - No percebo o porqu disso ser to interessante, 
mas deixo pra l. - Acho que vou dar meu aviso prvio ao mesmo tempo em que peo minhas frias, ainda ao decidi - diz Dom. - No tenho mais nenhum interesse em trabalhar 
naquela empresa agora. - Quando Rob e eu terminamos, Dom quis pedir demisso como protesto. Foi uma idia muito gentil, mas, na minha posio de senhoria, eu seria 
a primeira a sofrer com a deciso. Quase disse a ele que nunca houve um momento em que ele gostou de trabalhar na empresa de Rob, mas acho que dizer isso seria uma 
grosseria.
Fico momentaneamente deprimida com essa meno velada a Rob, Voltar a Pantiles, seja qual for o significado do local para mim, deve ter tido um efeito benfico.
-- S espero que Simon no volte logo. - Mordo o lbio, nervosa.
-- Sabe, Izzy, provavelmente ele esqueceu todas essas coisas horrorosas da infncia de vocs.
-- Ele me ignorou naquela festa!
-- E se ele no reconheceu voc?
-- Ele me reconheceu sim senhor - digo emburrada.
-- No se preocupe. Aparentemente ele est envolvido em uma aquisio importante. Tenho lido tudo a respeito no jornal. Ele vai demorar um bocado. --- Dom se espreguia 
e boceja, com os braos no ar. - Alguma sugesto para acompanhar nossa salada, Izz?
Penso um bocado. Estou sem inspirao.
-- Que tal macarro? Voc pode comer o seu sem queijo? - Dom sugere.
Fao rudos de apreciao adequados. Faltam apenas alguns quilos. Dom se levanta para ir  cozinha.
-- Calas novas? Pergunto.
Ele olha par baixo.
-- Estas Comprei h algumas semanas. Venha para a cozinha e me conte tudo sobre Pantiles! - Dom vai para a cozinha.
Telefonemas estranhos? Roupas novas? Ele vai ter que me contar, mais cedo ou mais tarde.

















CAPTULO 7


Na noite de quarta-feira, levo meu catico conjunto de pertences pessoais para a estao de Liverpool Street e apanho o primeiro trem para Bury St. Edmunds. Descobri 
que estou irremediavelmente mal equipada para qualquer tipo de evento rural. Todas as vezes que tia Winnie e eu samos para dar uma caminha, simplesmente vestimos 
qualquer coisa disponvel no guarda-roupa. No so roupas bonitas, mas do conta do recado, sem falar no efeito assustador que causam em vacas, porco e outros tipos 
de vida selvagem que encontramos no caminho. Espero que Pantiles tenha um sistema parecido em funcionamento, porque no tenho galochas nem qualquer tipo de roupa 
esportiva.
E descubro que no tenho malas suficientes. Deveria ter pensado antes e pedido algo emprestado a Sophie. Dom e eu tivemos que juntas todas as bolsas de viagem que 
conseguimos encontrar e, ainda assim, no consigo enfiar  muito coisa neles. No tenho a mnima inteno de ser vista perto deste monte de bolsas.
Saio da estao de Bury St. Edmunds e encontro Monty, que est me esperando do lado de fora, dentro de um Land Rover bastante usado em comparao com os impecveis 
exemplares urbanos encontrados nas ruas de Londres.
Jogo as bolsas na parte traseira e entro no carro desajeitadamente. No  fcil entrar no carro usando a apertada saia reta que decidi usar de manh, s porque  
a primeira vez, em trs semanas, que entrei dentro dela. 
-- Oi, Monty! Obrigada por vir me buscar!
--  um prazer, querida! Fez boa viagem?
-- Sim, obrigada.
-- Desculpe no ter conseguido vir com um carro mais limpo. Em termos de transportes, as coisas em Pantiles funcionam no esquema "quem chegar primeiro leva". - Isto 
 bom pressgio para a situao com as galochas. - Flo pegou meu Jaguar.
-- Flo? - pergunto educadamente.
Ele me olha.
-- Na verdade, pensando bem, acho que voc nunca a conheceu.
-- No, acho que no. Pelo menos no me lembro dela.
-- Voc no esqueceria de Flo se tivesse a conhecido! Ela  minha irm! Veio morar conosco quando Elizabeth morreu. Viveu no exterior a maior parte de sua vida. 
Acho que no nos visitou na poca em que viveu em Pantiles.
-- No, acho que no. - Depois de uma pequena pausa, pergunto cuidadosamente. - Simon j voltou?
-- Hum? Oh, no. Ainda no.
Dou um pequeno suspiro covarde de alvio e comeo a fazer a longa lista de perguntas para a organizao do baile que preparei para Monty, com respeito ao fornecimento 
de energia eltrica, quadro de funcionrios e outras trivialidades. Durante o resto da viagem para Pantiles, Monty explica os seus pontos de vista muito particulares 
sobre banheiros qumicos.
-- Prometi que iramos apanhar Will. Ele est com os veados. - diz ele ao virarmos na estrada.
-- Legal! - digo quando estaria muito melhor dizendo "Que merda", quando nos lanamos para fora da estrada e disparamos abaixo. Assustada, me dependuro naquela alcinha 
til que fica bem em cima da janela da porta do carro, para a qual nunca dera muito valor antes, e seguro nela com todas asminhas foras enquanto pulamos e saltamos 
quase na vertical, as quatro rodas do carro raramente ficando em contato com o solo ao mesmo tempo. Compara a ele, tia Winnie  uma motorista domingueira. Monty 
parece saber exatamente onde esto todos os maiores buracos do terreno e onde deve bater neles para passar o maior tempo possvel com o carro no ar. Uma habilidade 
admirvel em algumas partes do mundo, tenho certeza. S que gostaria muito de estar usando meu suti esportivo. Sinto que estou ofegando de modo pouco atraente, 
mas no sei se  por causa do exerccio aerbico ou se pela sensao de pnico do tipo eu-vou-morrer.
Finalmente acabamos parando, e j no era sem tempo. Saio cambaleando pela porta do passageiro, fico desequilibrada por um instante e depois apio as palmas das 
mos nas coxas. Espero por um instante para ver se vou ficar enjoada ou no, enquanto consigo convencer meu estmago a sair de dentro das minhas botas. No  de 
fato um estado em que uma garota se sinta bem, tampouco um no qual deseja ser vista, penso, enquanto observo um homem bastante atraente vindo em minha direo.
-- Meu Deus! - exclama a figura. -  mesmo voc, Isabel?
-- Will? - Quando fao a pergunta, ele j est segurando meus ombros, e no consigo deixar de notar que so duas mos grandes bronzeadas, e me beija carinhosamente 
nas duas faces.
Ele parece muito com as fotos de Simon que vi. Lindo, com traos bem marcados, clios espessos e longos, cabelos castanhos compridos e despenteados. A nica diferena 
 que a personalidade de Will s melhora sua aparncia, fazendo dele um candidato em potencial muito mais atraente do que seu irmo.
--  maravilhoso ver voc novamente! Como vai Sophie? E seus pais?
-- Vo bem, todos vo bem - respondo com um largo sorriso, sentindo imediatamente que o mundo  um lugar mais amigvel.
-- No pude acreditar quando papai me disse que voc estava de volta! E como uma promoter! Acho que nossos piqueniques lhe ensinaram uma coisinha ou duas sobre sanduches, 
no? - Ele me d uma cutucadinha com o cotovelo e eu dou uma gargalhada.
Monty afastou-se para falar com um dos trabalhadores. Will enlaa seu brao no meu e me leva at a cerca que inspecionava quando chegamos.
-- No h dvidas de que voc cresceu bem!
-- Obrigada. Voc tambm - respondo enquanto agradeo fervorosamente a Dom por ter me forado a perder o peso extra. Ainda assim meus saltos altos insistem em afundar 
na terra o tempo todo. Se eu estivesse mais pesada, eles teriam que amarrar uma corda ao redor da minha cintura e me arrastar do lugar com a trao do Land Rover.
-- Estou to feliz em t-la aqui! O que voc acha? Parece com o que voc se lembra? - Ele faz um gesto largo com o brao, indicando o panorama  nossa frente. Que 
quase me faz perder a respirao. Pastos luxuriantes e ondulantes, em um tom de verde inacreditvel, pontilhados com carvalhos antigos, sobem e descem as colinas 
 minha frente. No ar, sinto o cheiro inconfundvel de grama fresca e de vero.
--  exatamente igual ao que me lembro.
-- Maravilhoso.
Monty junta-se a ns na cerca.
-- Voc consegue ver os veados? - pergunta. Ele aponta para um arvoredo ao longe. Vejo vagamente algumas formas.
-- Mal consigo v-los. H quanto tempo vocs os tm?
- Acabaram de chegar.  o novo empreendimento de Simon.
-- E para que eles, h, voc sabe, so usados? - pergunto inocentemente, pensando em algo parecido com o equivalente campestre de andar de jegue nas dunas.
-- Para carne de veado, claro!
-- Carne de veado? - Olho para ele, horrorizada. - Eles so abatidos? - Vm  minha mente em imagens de pequenos Bambis marchando para o matadouro. Como a maioria 
das outras pessoas, estou perfeitamente feliz em comer carne que est em bandejas de isopor, embrulhados em filme transparente e que no parecem em nada com o animal 
que as fornece.
-- E de que outro modo eles nos trariam dinheiro?
-- Qual a raa deles?
-- Manca.
 meu Deus! No bastava assassinar inocentes criaturas saudveis, o que j  ruim o suficiente, Simon resolveu matar animais deficientes que nem podem correr e se 
esconder. Provavelmente eles custam menos ou coisa parecida, penso comigo mesma, carrancuda.
-- Manca? - sussurro. - Ser que tambm no tm cauda ou somente possuem um olho? Ou s tem trs pernas?
Os homens tambm me olham como se eu fosse deficiente, mas mental.
-- Eu disse palanca, Isabel. No manca. - Will diz suavemente. 
Sinto uma onde de rubor cintilante subindo a partir dos meus ps. Os dois caem na gargalhada. Ora, no  to engraado, penso comigo mesma enquanto observo os dois 
apoiados um no outro, com lgrimas nos olhos de tanto rir. Dou uma risadinha amarela s mesmo para mostrar que sou boa-praa. Santo Deus, eles precisam rir tanto 
assim?
-- Ah, minha querida Izzy, voc  uma jia rara! Voc pensou que havias pequenas rampas espalhadas pelo campo para as cadeiras de rodas delas? - pergunta Will quando 
faz uma pausa para respirar.
-- No - digo de modo pouco convincente, como se o pensamento nunca tivesse passado pela minha cabea.
-- E os cercados deles esto ali. Eu disse C-E-R-C-A-D-O-S, Isabel. Onde eles dormem. No quero que voc pense que eles so torturados ou qualquer coisa do gnero.
-- R, r.
-- Vamos, vamos voltar para casa. Estou faminto! - Wil esfrega as mos. - Espero que a Sra. Delaney tenha preparados algo absolutamente maravilhoso par a sua primeira 
noite aqui, Izzy. - Eu no contaria com isso.
J na casa, Will leva minhas malas para cima enquanto Monty me oferece um enorme copo de vinho e eu fao festinhas em todos os ces. A Sra. Delaney est ocupada 
raspando cenouras na pia, e eu, muito servil, pergunto se posso ajudar e recebo com recompensa uma tigela enorme de vagens de descascar. Monty encosta-se ao fogo, 
sem parar de falar, e Will volta depois de ter trocado suas roupas sujas por um jeans desbotado e uma camisa passada. Ele est acompanhado por uma senhora que eu 
imagino ser Flo. Assim que entra no ambiente, ela abre bem os braos, o que, para ser honesta,  um pouco assustador. Ela caminha na minha direo, os braos ainda 
esticados, coloca as mos nos meus ombros e me beija levemente nas duas faces.
--Isabel, minha querida! Ouvi falar muito a seu respeito e de sua famlia! Que bom conhece voc! - Ela tem uma voz rouca maravilhosa e um cheiro incrivelmente romntico, 
onde consigo identificar jasmim e ilangue-ilangue. Ela tem uma quantidade excessiva de cabelos grisalhos macios, presos em um coque enorme, mas com cachos soltos 
ao redor do rosto. Suas roupas, pequenas quantidades de m material flutuante divino, no fariam feio em uma passarela de um desfile de moda parisiense. Em seu pescoo 
est dependurada uma turquesa enorme e seus punhos e dedos esto repletos de braceletes e anis. Ela  simplesmente a criatura mais extica que j conheci e, na 
minha profisso, tenho a tendncia a encontrar pessoas bastante glamourosas. Lamento tanto no estar aqui quando voc, mas estava caminhando pela fazenda e perdi 
completamente a noo do tempo. Parei para ver dois besouros acasalando. Absolutamente fascinante. Voc j viu besouros acasalando?
-- H, no, no posso dizer que vi.
--  maravilhoso. Eles fazem uma espcie de dana. Da prxima vez que vir um casal venho buscar voc.
-- H, timo!
-- Voc tem que me chamar de tia Flo, como os meninos. Afinal de contas,  praticamente da famlia! - A frase traz um largo sorriso de prazer ao meu rosto.
Depois de ter acabado com as vagens, o que  bico para mim depois da minha experincia anterior nas cozinhas, peo licena para usar o toalete, mas levo minha bolsa 
comigo porque s queria mesmo retocar a maquiagem. Tia Flo fez com que eu me sentisse verdadeiramente desleixada.
-- Preciso ir ao toalete! - anuncio. - Ainda ...? - No, Izzy, eles mudaram o toalete de lugar s por diverso. Sempre quiseram mudar para a biblioteca.
Quando volto, a Sra. Delaney est servindo o coq au vin nos pratos enquanto Will pe a mesa jogando alguns jogos americanos em cima dela, pegando folhas de toalha 
de papel para usar como guardanapos e despejando um monte de talheres em cima da mesa. Monty olha para mim.
-- Voc no se importa com a informalidade, no , Izzy? Sei que Elizabeth teria ficado completamente horrorizada!
-- No, est tudo bem! - protesto. - Detestaria que vocs tivessem trabalho s por minha causa! J  muita gentileza me deixarem ficar aqui. - Eu gosto muito da 
aconchegante informalidade familiar, no apenas porque  completamente oposto aos ambientes em que circulo diariamente.
Sentamos e, depois de passarmos os legumes e pegarmos os talheres, a conversa acaba indo naturalmente para o baile de caridade.
-- Eu preciso dizer que acho tudo muito excitante! - diz tia Flo.
-- Mas o que vem depois disso, tia Flo? - observa Will. - Simon vem falando h algum tempo em tornar Pantiles mais comercial, mas agora que comeamos, onde iremos 
parar? Ele est falando sobre colocar rampas de esqui aqutico no lago! At arranjou uma minilancha para isso! O que vai sir a seguir? Um parque de diverses?
-- Simon no faria isso!
-- No esteja certa disso!
-- Quando  mesmo que ele vem para casa? - pergunto entre garfadas. O coq au vin est absolutamente delicioso, principalmente depois do monto de salada que andei 
comendo esta semana. Dou um sorriso de apreciao para a Sra. Delaney.
-- Falamos hoje cedo. Ele est em Chicago - diz Monty. - Vem para casa na semana que vem. Mas no sabe exatamente quando. - A informao tem um curioso efeito desanimador 
no meu estado de esprito.  como se eu quisesse ter a famlia s para mim por mais tempo, e agora ele vai voltar para casa e estragar tudo. - Essa apropriao forada, 
ou melhor, essa aquisio hostil est tomando muito tempo dele.
-- Ela foi anunciada na semana passada, no foi? - digo com um ar inconfundvel, tipo oh-claro-que-tambm-leio-os-jornais. Na verdade, pedi a Stephanie que fizesse 
um resumo antes de sair do escritrio para que minha ignorncia no aparecesse em letras garrafais. - Uma fbrica.
--  por isso que ele est nos Estados Unidos. Est tentando convencer alguns dos acionistas da empresa a venderem as aes - explica Monty. -  uma aquisio hostil.
-- E o que isso significa, exatamente?
-- Bom, no sou nenhum perito. Mas, pelo que Simon me contou,  quando uma empresa assume o controle de outra contra sua vontade.
-- Pode-se fazer isso? Assumir o controle de uma contra a vontade da diretoria? - Isso parece ser algo bem tpico de Simon. Tambm ser um brutamontes empresarial.
-- Se voc possuir a maioria das aes da empresa, pode fazer o que quiser. No sou um homem de negcios como Simon, mas soube que a empresa dele tem comprado aes 
dessa outra empresa na Bolsa de Valores. Assim que chegam a uma certa percentagem de aes, precisam informar a inteno de iniciar uma aquisio hostil, da as 
recentes matrias na imprensa. Agora ele est contactando as pessoas que j possuem aes da empresa e est se oferecendo para compr-las por um preo maior do que 
elas conseguiriam no mercado.
-- E essa pessoas vo vender as suas aes para Simon?
-- Ah, no! Elas no precisam vender, mas a empresa que ele est tentando comprar est com problemas financeiros. Eles lanaram o sexto comunicado de lucros abaixo 
do esperado, o que justifica o preo das aes estar caindo. A longo prazo a empresa deve falir e, quando isso acontecer, os acionistas no recebero nada pelas 
suas aes. Ou seja, provavelmente o melhor que podem fazer  venderem agora para Simon. - Monty encolhe os ombros.
-- Mas por que Simon deseja essa empresa se ela est em dificuldades?
-- Porque ele sabe como faz-la dar lucro novamente. Acho que ele oferece aos acionistas uma quantia baseada nos lucros futuros da empresa.  claro que ele precisa 
fazer enormes alteraes. Para comear, despedir todos os diretores e a gerncia. Mas assim que a empresa comea novamente a dar lucro, o preo das aes subir 
e Simon comear a vender gradualmente as suas aes por um preo maior do que gastou para compr-las. No  um empreendimento pequeno. A empresa de Simon tem enormes 
quantias de financiamentos bancrio e uma grande equipe de consultores a quem pagam somas de, provavelmente, milhes de libras.
-- Milhes? - repito, incrdula. Ser que aquelas pessoas cheias de truques da Unio Europia mudaram nossa moeda para liras de um dia para o outro?
-- Ele est prestes a ganhar montes de dinheiro com esse negcio.  o maior de todos. Mas  muito arriscado. - Monty bebe um gole de vinho.
-- Tive que pedir ao Daniel para que feche os portes todas as noites - diz Will. - A mdia comeou a xeretar ao redor da casa. Eles chegaram a mencionar a Sra. 
Delaney na ltima matria que saiu a respeito! 
-- Foi a ltima vez que falei com a imprensa - diz, carrancuda, a Sra. Delaney. Eu me encolho, involuntariamente. Sinto muita pena deles. - Eu s disse que no sabia 
quando Simon voltaria para casa.
-- Izzy, quando ele chegar na semana que vem, no faa perguntas! - diz tia Flo, obviamente entediada. - Conte mais sobre o baile! Ns podemos ir? Ouvi dizer que 
o tema  circo!
Demos muitas risadas durante o correr da noite. At mesmo a Sra. Delaney levantava, de vez em quando, os cantos da boca. O vinho corre solto e uma tbua de queijos 
aparece. Will e Monty esto em excelente forma.
Naquela noite, uma vez que no existe iluminao de rua para perturbar meu sono, deixo as cortinas das janelas deliberadamente abertas, subo na minha enorme cama 
e puxo as cobertas para baixo de meu queixo. Observo os gigantescos carvalhos balanando suavemente ao longe e ouo o alegre som das corujas piando. Sinto-me feliz 
novamente, depois de um ms absolutamente horrvel. Aninho-me na cama e fecho os olhos, feliz em saber que no vou acordar no meio da poeira e poluio da cidade, 
mas sim em meio ao verde deste paraso ingls. E Simon no vai voltar j para casa para estragar tudo.



























CAPTULO 8


No dia seguinte, acordo s seis da manh, ouvindo a voz de Monty, que, andando para cima e para baixo, obviamente querendo que todos tambm andem para cima e para 
baixo como ele. Tinha me esquecido desta mania dele. Voc deve estar imaginando como um homem consegue acordar uma casa inteira, principalmente uma casa to grande 
como esta. Bom,  muito simples. Aqui vai um guia rpido para os que gostam de Deixar Todo Mundo Infeliz: em primeiro lugar, bata todas as portas, independentemente 
de estar passando por elas ou no. Depois, ligue todos os aparelhos de rdio e TV da casa e cante junto com eles em voz alta. At cante rap se for preciso, mas nem 
sempre afinado ou no ritmo. E se quiser mesmo encher todo mundo, leve seu rdio porttil para fora de casa e comece a ensinar novos truques aos ces no gramado, 
bem debaixo da janela de todos.
Depois de vinte minutos, decido que no agento mais, saio da cama cambaleando e com os olhos ainda embaados. Quase sempre durmo com uma camiseta - por mais que 
deseje ser uma mulher que usa lindas camisolas vaporosas, acabo sempre acordando com elas enroladas ao redor de vrios membros do meu corpo e prestes a cortar a 
minha circulao sangnea. Pego a primeira coisa que vejo na minha frente para cobrir minhas partes inferiores, neste caso a saia reta cinza que usava ontem, e 
saio escada abaixo em busca de uma reconfortante xcara de ch.
- Bom-dia, Isabel! - sada Will, impecvel, que, obviamente, j est de p h horas. Consigo interromper meu bocejo a meio e abro um pouco mais os olhos. No esperava 
encontrar mais ningum acordado. 
- Bom-dia - resmungo, envergonhada com o meu aparente gosto ecltico em roupas de dormir. Minha camiseta tem estampado o slogan "Promoters passam a noite toda fazendo 
aquilo", encomendado por Gerald para a nossa festa de Natal, o que no  bem a impresso que eu gostaria de causar em Will.
- Acabei de fazer caf, quer um pouco? - Ele caminha em direo  cozinha, e eu saio tropeando atrs dele. Sou imediatamente atacada por dzias de ces que quase 
me derrubam, mas consigo me segurar na mesa da cozinha, puxar uma cadeira e despencar sentada nela.
- Por que levantou to cedo? - pergunto.
- Estamos com poucos funcionrios. Simon est sempre reclamando sobre os salrios, de modo que estou fazendo hora extra. Quer dar uma volta esta noite?
- Adoraria! - exclamo toda contente. Ele vira de costas enquanto enche a cafeteira, e eu aproveito a oportunidade para pentear o cabelo com os dedos e limpar o excesso 
de rimei que sei que est acumulado debaixo da plpebra.
Ele pe a cafeteira na mesa junto com duas canecas. Fao uma cara feia quando percebo que no estamos usando porta-copos. A Senhora Delaney vai matar os dois ou 
s ele?
- Papai acordou voc? - ele pergunta enquanto pega o leite na geladeira.
- Nao, eu j estava acordada.
- Ele acordou voc, no foi?
- Sim. - Continuo a ouvir Monty cantarolando desafinado l fora. Ponho caf na caneca. - Monty disse que voc esteve fora, viajando.
- Sim, logo depois que sa de Cirencester.
- Cirencester?
- A faculdade de agronomia. Sempre quis ser fazendeiro. Sou bom com as mos, sabe? - Ele d um sorrisinho malicioso e levanta as sobrancelhas sugestivamente.
Puxa vida, so seis e meia da manh e eu nem olhei no espelho ou escovei os dentes.  assim que as pessoas fazem no campo? Olho para minha caneca de caf e brinco 
com a asa, em vez de entrar no jogo.
- Voc foi para a universidade, Izzy? - pergunta Will. 
- H, sim. Fui para Nottingham, mas no sa viajando depois disso. Acho que j havia preenchido minha cota de viagens.
- Voc e Sophie andaram um bocado para l e para c, no foi?
Escute, tenho que alimentar os veados. Por que no veste algo mais
adequado e vem comigo para continuarmos conversando? Apesar de
gostar muito da sua camiseta, voc vai precisar de uma coisa mais
quente. Voltaremos por volta das oito.
Hesito por um momento e concordo.
Volto dez minutos depois, usando calas de tecido grosso em estilo militar e com muitos bolsos, tnis de lona e um suter. Will tira um par de galochas do guarda-roupa, 
pega um molho de chaves na mesinha e samos de encontro ao ar fresco da manh. Vamos colocando um ao outro a par de tudo o que aconteceu em nossas vidas desde que 
perdemos contato, enquanto molhamos feno e medimos cereais. Nunca me dei muito bem com Will quando era criana, mas ele sempre foi brincalho e charmoso. Era sempre 
ele quem aparecia com idias absolutamente perigosas e quem ia adiante com elas. E eu nunca imaginei que ele pudesse ser to boa companhia.
Fiel  sua promessa, Will me deixa nos fundos da casa s oito e cinco e diz que nos veremos no jantar. Entro na cozinha pela porta dos fundos, fedendo como um gamb. 
Uma voz aguda me sada:
- Ol! Voc est cheirando um pouco mal. - No  a saudao mais tradicional de todas, mas deve ser correta, devido s circunstncias.
Um menininho ruivo, vestido com um uniforme de escoteiro lobinho, est sentado  mesa, bebendo calmamente um copo de leite e comendo cereais. No estamos falando 
de um cabelo ruivo-acastanhado, mas sim de um tom laranja fluorescente.
- Ol! - respondo. - Quem  voc?
- Sou Harry.
Eu esperava mais detalhes alm desse, mas me contento com pouco. 
- Sou Isabel.
- A promoter - ele arremata.  bvio que ele foi bem informado. - Voc se cortou. - Olho para minha mo, enrolada por um leno branco de Will (um verdadeiro cavalheiro, 
nada de pedaos de toalhas de papel de cozinha com ele). Eu a cortei enquanto tentava exibir minhas habilidades atlticas ao pular uma cerca. Foi um corte pequeno, 
mas no parava de sangrar.
- Foi. Cortei no arame farpado.
- Quer que eu limpe o corte para voc? Todas as minhas medalhas so por primeiros socorros.
- H, no mesmo, ...
- Um curativo?
- No, est, h...
- Sutura?
- Meu Deus, no!
- E se eu fizer uma tala?
- No, na verdade est...
- Chup-lo?
- Chup-lo? - repito.
- Importantssimo para mordidas de cobra.
- Voc lida com muitas mordidas de cobra na tropa de escoteiros de Pantiles? - pergunto, pensando que esta  a hora certa para descobrir algo sobre uma eventual 
populao de cobras na propriedade.
- Desde que Geoffrey Stoats sentou-se em uma vbora em uma visita ao Castelo de Warwick, mordidas de cobra esto na minha lista.
- Coitado do Geoffrey.
- Coitado mesmo, a bunda dele inchou um bocado. Ficou quase do tamanho de... de... - Harry olha freneticamente pela cozinha, at que seus olhos encontram um objeto 
adequado. -... bom, quase do tamanho da sua. - Ele olha para mim muito srio, olhos esbugalhados, seguro de ter ilustrado bem sua informao.
- No diga. Fico surpresa com o fato dele no ter morrido, ento - comento aborrecida.
- Eu tambm - diz Harry, bebendo o leite, sem perceber nenhuma das suas gafes. Meu Deus, com este jeito para a conversa at me admiro que os biscoitos de chocolate 
no estejam fazendo fila para serem consumidos por este sedutor de lngua doce. A Sra. Delaney entra na cozinha.
- Espero que Harry no a esteja incomodando - ela diz petulante, lbios apertados. E comea a pegar escovas e baldes debaixo da pia.
- No, no. De jeito nenhum. Ele ...? 
- Meu filho. Sim. - Tudo fica claro agora.  bvio que Harry herdou as maravilhosas maneiras da me dele. Espero que o pai tenha contribudo geneticamente com mais 
alguma coisa alm do cabelo ruivo. Mas, pensando bem, no vi nenhum indcio de um pai por perto desde que cheguei. Mas no tenho nenhuma chance para perguntar mais 
coisas, porque a Senhora Delaney deixa bem claro que no est ali para jogar conversa fora. Ela enche um balde com gua quente enquanto Harry termina de beber seu 
leite.
-Frias da escola, no , Harry? - pergunto.
Ele acena que sim, todo feliz.
- Na semana que vem comea o ms de arrecadao de fundos para os escoteiros. Quero passar na frente de Godfrey Farlington. Ele ganhou mais de cinqenta libras no 
ano passado. Voc tem algum trabalhinho para mim?
- Claro que sim, tenho certeza de que posso achar algo.
- Voc no deve atrapalhar a Srta. Serranti, Harry - interrompe a me, que nesse meio-tempo comeou a esfregar o cho da cozinha.
- No  nenhum problema mesmo. Ele no vai me atrapalhar e, por favor, me chame de Isabel.
- OK, Isabel - ela concorda, sria.
- Vocs dois vivem na casa? - pergunto como quem no quer nada.
- Mame e eu moramos na ala leste. Mas quase nunca estamos l, sempre comemos aqui com Monty, Fio e Will. E...
- J chega, Harry. - Droga, justo quando estava ficando interessante. Ento o pai dele no anda por aqui. Infelizmente no tenho mais perguntas que possa fazer sem 
invadir a privacidade dela. 
- Vou mudar de roupa - digo para o ar e comeo a andar em direo s escadarias traseiras. A Sra. Delaney me d uma encarada feia enquanto eu tento no pisar nos 
pedaos do cho j lavados. Ando nas pontas dos ps e dou saltinhos que no ajudam em nada, mas pelo menos mostram que estou tentando. - Ups, desculpe... ooh... 
h... desculpe - gaguejo, at que me lembro de pedir, no meio do caminho, se poderia usar as escadas do outro lado da cozinha.
- Bom, voc j est no meio do caminho, no ? - ela diz sarcasticamente quando eu paro e olho para ela, incerta.
Tenho de admitir que ela tem razo, mas no gosto da maneira como murmura amargamente:
- E usando galochas.
- Sim. Tem toda a razo. Desculpe. - Dou uma corrida at a escadaria nos fundos, sento no primeiro degrau e luto para retirar as galochas que parecem estar grudadas 
nos meus ps. Fico tentada a perguntar a Harry se ele tem alguma medalha de remoo de galochas, mas elas saem de repente e eu escapo, agradecida. Na segurana do 
meu quarto, tomo um banho rpido e visto algo um pouco riais profissional: uma saia preta e um top vermelho. Ponho um pouco de maquiagem, que  mais complicado do 
que parece com um dedo machucado, junto alguns documentos e saio novamente em disparada para a cozinha.
No trreo, tia Fio e Monty juntaram-se a Harry e  Sra. Delaney na mesa do caf-da-manh. Monty segura o jornal matutino  sua frente. Aparentemente, foi direto 
para a pgina de obiturio, porque exclama repentinamente:
- Meu Deus, Fio! Josephine Bradshaw morreu!
- Jo Bradshaw? Morta? Tem certeza?
- Espero que sim. Eles a enterraram. 
- Bom-dia! - tia Fio me cumprimenta. Monty abaixa o jornal.
- Izzy! Bom-dia para voc! Dormiu bem, querida? No sentiu rio? Precisa de um cachorro extra?
Respondo que fiquei bem quentinha.
- Bom, se precisar o Jasper  uma maravilhosa bolsa de gua quente.
- Vou me lembrar disso.
-E o que voc vai fazer hoje, Izzy? Trabalhar no planejamento baile?
Uma bufada de desdm sai do lado da pia. Todos olhamos. A Senhora Delaney est virada de costas para ns, lavando pratos inocentemente. Olho para trs.
- Bem, Monty e eu temos uma reunio com os representantes da associao de caridade - respondo.
- Isso  to, to excitante! - Fio diz, extasiada. Mais uma rufada de desdm sai da Senhora Delaney. Isso  mesmo chato.
-Izzy, torrada ou cereal? - oferece Monty. Dou outra olhada para a pia. Mais algum rudo nasal a acrescentar? Pego o cereal.
s nove horas em ponto chegam as duas representantes da associao de caridade. Monty e eu estamos esperando por elas na sala de visitas, uma sala linda e elegante, 
decorada em tons de amarelo-claro plido e um tom delicado de azul esfumaado. Como em quase todas as outras salas, uma lareira enorme domina uma das paredes. A 
sala  to grande que h vrios conjuntos de sofs e mesas. Em uma das extremidades da sala, portas-balco enormes abrem-se para os gramados. Nunca tivemos permisso 
para entrar aqui quando ramos crianas, porque o ambiente est repleto de porcelanas frgeis e mesinhas delicadas que parecem equilibrar-se precariamente em uma 
perna s. Algum teve a delicadeza de colocar um vaso cheio de rosas do jardim na mesinha de centro na frente da lareira. 
Ns dois nos levantamos quando as representantes da associao de caridade entraram, acompanhadas pela Senhora Delaney. Observo, ansiosa, enquanto ela sai da sala, 
para ver se ela se lembra de fazer um comentrio inadequado, dar uma fungadela ou mesmo tascar um peteleco na cabea das convidadas. Felizmente ela sai sem nenhum 
incidente. As apresentaes so feitas - as senhoras chamam-se Rose e Mary - e todos sentamos. No tive muito tempo para me preparar para esta reunio, mas consegui 
esboar alguns cardpios. Tambm no tive a oportunidade de inventar idias para o tema circense, mas isso ser mais fcil quando souber o que nossos clientes realmente 
querem.
- Manda bala, Izzy - diz Monty. - Voc sabe o que perguntar.
- Eu sei que tudo est em cima da hora, Isabel - diz Rose, numa golfada, antes que eu consiga abrir a boca -, mas esperamos que a maioria de nossas idias ainda 
possa ser realizada.
- Eu tambm espero que sim - digo suavemente. Rose e Mary representam uma grande associao de caridade com a qual nunca trabalhei antes, e sei que se cuidar delas 
direitinho poderei ter chances de agarrar a conta permanentemente.
- Infelizmente o promoter que tnhamos estava vinculado ao local anterior do evento - continua Rose. - Ficamos imensamente felizes com o fato de Monty conhecer voc, 
seno no saberamos o que fazer. Esta fazenda foi um salva-vidas.
- Mas o que aconteceu com o outro local, se  que posso perguntar? Por que cancelaram?
- Houve um pequeno incndio nas cozinhas. Felizmente ningum ficou ferido, mas eles precisaram substituir os equipamentos danificados e acharam que no estaria tudo 
pronto para o dia do baile. Levando em considerao a quantidade de pessoas envolvidas, pensaram que seria mais sensato se procurssemos outro lugar.
- Monty me disse que so quinhentos convidados.  um total confirmado?
- Vendemos pouco mais de quinhentos ingressos, a maioria rara empresas - diz Mary. - O total vai chegar, provavelmente, a quinhentos e cinqenta no dia do evento. 
- Alguma idia sobre a comida a ser servida? Eu organizei alguns cardpios para vocs darem uma olhada. - Procuro meu bloco de anotaes. Passamos uns vinte minutos 
analisando os cardpios, incluindo um animado debate iniciado por Monty sobre os vegetarianos e os alrgicos a nozes.
- Vamos falar do tema circense? - acabo por perguntar. - Porque isso pode afetar algumas das outras decises.
- Bom, a empresa de toldos que contratamos vai providenciar uma grande tenda de circo! - diz Rose animadamente. - E ns j remos alguns malabaristas e outros artistas 
contratados. Vou passar os nomes e nmeros de telefones deles para voc.
- Obrigada. Vocs querem alguma disposio especial para a tenda? Quem sabe com um picadeiro no meio para os artistas e as mesas espalhadas ao redor?
- Isso seria maravilhoso! - suspira Mary. Muito bem, Izzy. J no bastava o trabalho que voc j tem nas mos, ainda vai ter que se virar com picadeiro e companhia. 
Falta pouco para voc se oferecer para ficar no lugar da foca amestrada.
- E podemos ter um apresentador vestido como um mestre-de-cerimnias, com cartola e casaca vermelha? - Isso, vai arranjando encrenca, Izzy.
- E botas de verniz preto brilhante? - diz Rose com um guinchinho excitado. Monty olha para ela, preocupado.
- Eu continuo numa onda de inspirao infeliz.
- E que tal algumas lanterninhas? Elas poderiam andar pelas mesas, dando saquinhos de pipoca e picols para as pessoas depois do jantar. Quem sabe uma mquina de 
algodo-doce?
- H anos no como algodo-doce!
- Vou precisar da lista de artistas j contratados o mais depressa possvel. Podemos acrescentar um pouco  idia: um mgico que vai de mesa em mesa ou quem sabe 
um caricaturista? Vocs sabem qual a faixa etria dos convidados?
- Vou perguntar para a pessoa encarregada da venda dos bilhetes. - Rose faz uma anotao no seu bloco.
- Isso. Agora vamos ver os aperitivos?
- Queremos algo divertido! 
- Com certeza! H milhares de coisas que podemos fazer! Que tal garrafas de champanhe em miniatura com canudinhos? Ou um bar de coquetis? Vou fazer um resumo de 
idias.
-Obrigada! Tudo parece simplesmente esplndido!
Continuamos falando de decoraes de mesa, disposio dos convidados nas mesas, louas e talheres, preparao de bebidas, chapelaria, banheiros qumicos e uma centena 
de outros detalhes que so fundamentais para um evento deste tamanho. Vou com toda certeza ter uma carga de trabalhos, e por momentos penso se Dom e eu vamos dar 
conta do recado. Depois de agendarmos uma nova reunio para a semana que vem, Monty acompanha as duas animadas senhoras at a sada. Apesar de minhas preocupaes 
com os recursos, no consigo resistir  tentao de fazer com que cada evento seja o melhor possvel. Acabo de escrever minhas anotaes e vou at as portas-balco. 
Em trs semanas, este gramado vai estar enfeitado com uma tenda de circo suficientemente grande para abrigar quinhentas pessoas. O ltimo evento deste tamanho que 
eu fiz levou um ano de planejamento, e ainda recebo um carto de parabns da me do cliente no meu aniversrio. Mordo o lbio, preocupada.
-Parece que vai ser um trabalho danado, Izzy! Voc d conta?
- Monty interrompe meus pensamentos preocupados.
-Bom, Dominic vai me ajudar. Ele  meu assistente - explico. Monty nota meu ar desanimado e d umas palmadinhas no meu joelho.
- No se preocupe, Izzy, todos ns vamos ajudar! Sei que estamos pedindo muito de voc. Eu contrataria mais ajudantes para voc, mas o problema  que estamos precisando 
do dinheiro que a associao de caridade vai nos dar para usar na fazenda.
- Precisa? - pergunto um pouco alarmada.
- Simon d pouco dinheiro para a manuteno da casa, e a Sra. Delaney precisa de novos equipamentos de cozinha, a geladeira est praticamente caindo aos pedaos! 
E espero que Simon nos deixe usar D dinheiro para este tipo de coisas. 
- Ele parece tremendamente sem graa. - Eu nunca contaria uma coisa dessas para um desconhecido, mas voc sempre foi ntima da famlia, Izzy.  por isso que fiquei 
to aliviado quando voc veio nos ajudar... - Ele no termina a frase e fica olhando distraidamente para os seus sapatos gastos, mas bem engraxados. Sinto raiva 
de Simon por permitir que um pai to doce fique to aflito.
- No se preocupe - digo com firmeza, e fico mais resoluta sobre o projeto. - Vamos dar conta. Acontea o que acontecer. 










































CAPTULO 9



Passo o resto do dia trabalhando na biblioteca, tentando dar um pouco de consistncia ao esqueleto do baile. L pelas seis da tarde, lembro, toda feliz, que Will 
quer me levar para dar um passeio pela fazenda e que tia Winnie vem jantar conosco. Desligo o laptop e vou correndo mudar de roupa. No saguo de entrada, paro para 
olhar a parede acima da lareira por um minuto. Alguma coisa est realmente me incomodando e no sei bem o que .
Sinto uma sensao estranha por trabalhar em uma casa que teve uma importncia to grande na minha infncia. Vivo encontrando armrios onde me escondia e salas onde 
brincvamos. O mais estranho de tudo  que a maioria dos ambientes est exatamente igual ao que era h mais de quinze anos. Posso estar com a mente ocupada com a 
disposio dos convidados nas mesas e com os artistas e descubro, de repente, um buraco na parede feito por Simon jogando etiquete aos dez anos de idade. Ou descubro 
uma placa de vidro substituda em uma das portas e me lembro de como tnhamos certeza de que se corrssemos com velocidade suficiente na direo da porta seramos 
transportados para um mundo de contos de fadas. Tudo parece um pouco diferente, mas ao mesmo tempo est tudo igual.  muito confuso.
J no andar de cima, ando calmamente pelo corredor e fico chapinhando na banheira por um tempo, enquanto fao uma lista mental de coisas a fazer. Depois visto um 
par de calas de linho, um conjunto de malha com decote em V e cardig bordado, retoco rapidamente a maquiagem, me encho de perfume e deso. 
Espio cautelosamente pela porta da cozinha para ver se a Senhora Delaney est por ali, mas um dos ces me segue, late e corre para dentro da cozinha anunciando nossa 
chegada. Felizmente a Sra. D. no est. Deve estar no quarto dela, enfiando alfinetes num bonequinho de pano com a minha cara. H um cheiro delicioso no ar, que 
eu espero que seja o nosso jantar e no o dos ces - tenho a impresso de que eles comem melhor do que ns.
Harry e Will esto sentados  mesa jogando o que parece ser uma partida violenta de Pega-Varetas. Harry me informa que esto jogando Pega-Varetas Rpido, ou seja, 
em vez de pensar e puxar com cuidado, voc tem cinco segundos para puxar uma vareta. Atirar descuidadamente para o cho as varetas apanhadas tambm parece fazer 
parte do jogo. Os ces esto escondidos como podem - encostando-se contra os armrios, atrs da fileira de galochas, empilhados debaixo da mesa.
- AAAh, a est voc, Izzy - diz Will. - S vou acabar de dar uma surra no Harry e vamos sair. A propsito, acho que voc vai precisar de galochas.
- No h pressa - respondo. Vou para o quartinho de servio e pego o par de galochas que usei quando fomos alimentar os veados. Coloco-as enquanto Will, visivelmente, 
deixa Harry ganhar. Ele se levanta da mesa, enfia a mo no bolso do jeans e d uma moeda para Harry, que fica muito feliz.
- Aqui est, conforme combinado, uma libra para o ms de arrecadao de fundos. Voc  bom para fazer negcios.
Harry abre um grande sorriso para ns dois. 
- Pronta para sair, Izz?
Damos boa-noite a Harry e vamos em direo  porta dos fundos.
- Seu pai convidou minha tia Winnie para o jantar, portanto remos que estar de volta l pelas oito - lembro.
- Sem problemas - diz Will despreocupadamente.
- Voc no aprendeu a dirigir com o mesmo instrutor que Monty, aprendeu? - Rolamos calmamente aos saltos por uma estrada de terra.
Will olha para mim e sorri.
- No! Ele  um pavor na direo, no ? Olhe, ali est a velha
serraria. Pantiles costumava manipular sua prpria madeira.
-E o que fazem agora?
- A Comisso Florestal faz o trabalho por ns e vendemos o produto final. Cerca de metade da rea da propriedade  formada por bosques.
- E a outra metade?
- Arrendamos a maior parte para fazendeiros locais. E o que sobra ns mesmos cultivamos.
- Voc gosta de administrar Pantiles?
- Gostaria se fosse realmente minha.
- O que quer dizer com isso?
- Simon  o dono de tudo.
- Tudo} Isso no parece muito justo.
- Sim, tudo. O primognito herda tudo. - H um ntido tom de amargura na voz dele e eu no o culpo por isso. Ele me olha e encolhe os ombros. Chegamos ao final da 
estrada de terra, passamos por um porto de madeira e entramos em uma estrada asfaltada. Will aponta para outra direo e diz: - Temos cerca de dez casas ali. Infelizmente 
alguns dos inquilinos mudam amanh, e  por isso que no vou chegar mais perto, para evitar que joguem tomates podres ou outra coisa na gente. Simon os despejou 
na semana passada. 
- Por qu?
- Disse que o aluguel que pagavam no era suficientemente alto. Estas famlias viveram felizes aqui por sete anos, at agora.
- Puxa, essa deciso parece dura.
- Tambm acho, mas voc conhece Simon.
- Conheo?
- Ele fez voc passar uns maus bocados quando ramos crianas, no foi? - Ele me olha.
Encolho os ombros e finjo que no me lembro muito bem.
- Talvez.
Viramos  direita na estrada asfaltada, depois  esquerda, e paramos em frente a outro porto de madeira. Saio toda entusiasmada do carro para abrir o porto, ansiosa 
para mostrar como uma garota urbana pode se virar no campo, mas estou to ocupada tentando impressionar Will que no olho para o cho e aterrisso bem no meio de 
um monte de coc de vaca.
-Argh, que nojo! Tem coc de vaca nas minhas galochas! - choramingo.
Will inclina-se na minha direo e sorri,
-Desculpe, Izzy! As vacas vm at aqui para pastar! Me esqueci de avisar! Mas no se preocupe, todo mundo cheira a bosta no campo!
O cheiro de bosta de vaca luta pela supremacia contra o meu sofisticado perfume urbano e, depois de um breve combate, vence com facilidade. Repreendo a mim mesma. 
Por que o campo tem de cheirar to mal?
Luto por uns minutos com o porto - voc precisa ser formada em astrofsica para entender o complicado fator plutoniano das fechaduras. Will acaba vindo me ajudar 
e abre o porto com um simples piparote dos dedos. Continuamos o passeio.
- O que aconteceu com todos os cavalos? Minha me costumava guardar os dela aqui - pergunto, pensando nos estbulos vazios.
- Sim, eu me lembro. Tivemos que nos livrar deles. A manuteno deles  muito cara. Simon  avarento e controla a carteira agora. - Mas no  suficientemente avarento 
para negar-se o enorme BMW estacionado no ptio, que ningum parece dirigir apesar da regra de que quem chegar primeiro leva.  surpreendente como as pessoas mais 
ricas sempre acabam sendo as mais mesquinhas. 
- Que pena.
- Sinto falta deles. Esta  a parte das terras que arrendamos, at aquele campo l embaixo. - Ele aponta em direo ao horizonte.
- Simon comeou a trabalhar aqui logo depois da escola?
- No, ele foi para a universidade.
- Qual?
- Cambridge. Mas largou os estudos no segundo ano.
- Por qu?
Foi quando mame morreu. Papai simplesmente entregou toda a propriedade a Simon, pois no conseguiria mais cuidar dela sem a ajuda de mame. Ele queria que Simon 
tirasse o diploma, mas Simon decidiu no esperar por ele. Simplesmente fez as malas e voltou para casa. Acho que ele estava ansioso para comear a trabalhar aqui, 
mas logo depois entrou para o mundo dos negcios. Agora Pantiles o aborrece.
Olho o lindo panorama campestre ao meu redor, o pequeno vilarejo no alto da colina, os tons suaves de verde da floresta banhada pelo pr-do-sol e penso como  que 
algum normal pode se chatear com isto.
- Depois que voltei de minhas viagens, Simon decidiu que afinal precisava de um administrador para a fazenda, e aceitei o trabalho. Mas, ainda assim, um dia gostaria 
de ter a minha prpria fazenda.
- Voc no pode ter uma parte da fazenda?
- Talvez como arrendatrio. - Ele suspira. - Eles nunca dividiriam Pantiles. No  justo, mas  sensato. A fazenda precisa permanecer inteira para manter seu valor.
- Voc est sendo muito pragmtico.
-Os filhos nmero dois precisam ser pragmticos.
Chegamos ao vilarejo. Will estaciona e sai do carro. Eu saio atrs dele. Passeamos pelo jardinzinho e Will acena para algumas pessoas, enquanto eu tento, sutilmente, 
limpar minhas galochas do coc de vaca.
- Os habitantes do vilarejo so muito unidos? - pergunto. 
- No muito. Eles se esforam, mas a fazenda, que era o que
lhes dava trabalho, no faz mais isso. As pessoas precisaram mudar
para encontrar mais trabalho, e as coisas esto ficando mais difceis
para Pantiles.
Sentamos no banco debaixo da cerejeira em flor.
- Precisamos sair novamente, Izz - Will diz, pensativo.
- Sim, foi um passeio adorvel - digo com sinceridade. - Muito relaxante.
- Eu costumo andar pela fazenda quase todas as noites. Visito os moradores, esse tipo de coisa.
- Simon no deveria fazer isso?
- Eu sou o administrador e isso  mesmo parte do meu trabalho. Mame costumava fazer isso quando estava viva, mas acho que ela considerava isso mais como uma obrigao 
do que eu. - Veja, Izzy! - exclama Will, e antes que eu consiga dizer algo, ele diz: - Estamos sentados sob a rvore dos casamentos! Agora voc tem que casar comigo!
Quando voltamos, fico aliviada em ver que tia Winnie ainda no chegou. Acho que seria maldade de minha parte deix-la  merc da famlia Monkwell quando ela realmente 
no conhece ningum muito bem, e no quero que tire concluses precipitadas sobre meu passeio com Will. Se bem que acho que isso ser inevitvel, assim que ela colocar 
os olhos neste homem lindo.
Monty e Fio esto bebendo gim-tnica animadamente, descascando legumes e matraqueando que nem dois papagaios. Acho que Harry j foi para a cama. Eles nos olham quando 
entramos.
- Fizeram bom passeio? - pergunta tia Fio.
- Adorvel! - respondo. 
- Sirva-se de um drinque, Izzy querida! H vinho na geladeira ou gim no armrio.
Tiro as galochas e vou correndo lavar as mos. Depois coloco vinho em dois copos grandes, para mim e para Will, e tiro dois porta-copos da gaveta, recebendo um olhar 
de quase aprovao da Senhora Delaney. Uma batida forte na porta anuncia a chegada de tia Winnie, que entra na cozinha em seguida e enche o ambiente com sua poderosa 
presena. At a Senhora Delaney parece impressionada, e eu quase saio de onde estou para ficar ao lado da minha parente mais querida, com um sorriso de sim-ela--mesmo-impressionan


te. Em vez disso, beijo tia Winnie no rosto e fao apresentaes rpidas. Ela d um grande abrao em Monty e entrega uma garrafa de vinho no um dos caseiros, observo 
aliviada) e algumas frutas silvestres colhidas na horta. Ela aperta a mo de todos os demais. Tia Fio e tia Winnie lado a lado so uma viso hilariante. Tia Winnie 
est usando uma blusa de algodo, uma saia de tweed com meias-calas grossas verde-claro e pesados sapatos sem salto. Tia Fio veste um vestido de chiffon estampado, 
cheio de babados, no usa meias-calas e usa sandlias com pedrarias. Enquanto uma cumprimenta a outra, Monty se inclina na minha direo e murmura:
- Acha que devemos dizer a Fio que ela ainda est usando seu
roupo?
Dou uma gargalhada com a descrio que Monty fez do extremamente sofisticado cardig de l comprido que Fio est usando sobre o vestido.
- Acho que  um cardig, Monty - sussurro de volta.
- Um cardig? Tem certeza? Que extraordinrio. - Ele vai
pegar um copo de vinho para tia Winnie, murmurando sozinho "um
cardig", ainda surpreso. 
Apesar das diferenas dramticas entre o estilo de vestir das duas, tia Winnie e tia Fio se do imediata e maravilhosamente bem. A noite passa com as duas em conversa 
animada (descobriram que ambas so admiradoras de besouros), ajudada por uma torta de peixe fabulosa, feita pela Sra. Delaney, e frutas em calda para a sobremesa. 
Desde que Monty contou sobre a escassez de fundos para a manuteno da casa, comecei a observar algumas coisas. A geladeira est mesmo comeando a desmontar, sem 
falar na chaleira. E fiquei absolutamente horrorizada ao perceber que no h uma lava-loua. Estava to cansada na noite passada que deixei todo mundo ainda  mesa 
quando fui para a cama. Nem me passou pela cabea que algum teria que lavar a loua, o que no deve ter ajudado a melhorar meu relacionamento com a Sra. Delaney. 
Tambm percebi que os vegetais e as frutas em calda so provenientes da horta e do pomar.
Mais tarde, voltando do toalete, encontro tia Winnie no corredor.
- Voc sabe onde  o banheiro? - pergunto.
- H, sim. - Ela espera que eu me aproxime mais e sussurra:
- Izzy, voc contou a seus pais sobre seu retorno a Pantiles?
- Ainda no - respondo, surpresa com a seriedade em sua voz.
- Por qu?
- Acho que deveria contar, s isso.
- Por qu, tia Winnie?
- Conte para eles, Isabel - ela responde de um modo rspido, pouco comum, e sai andando, me deixando para trs. 




































CAPTULO 10



No dia seguinte, depois da reunio com a empresa de toldos, que incluiu corridas frenticas por todos os lados com fitas mtricas, Monty me leva at a estao de 
trens. Ele me beija no rosto e diz que vem me buscar na prxima tera-feira  noite, para que eu possa me encontrar com Rose e Mary na quarta-feira. Vou ter que 
ser sua hspede por alguns dias, para tentar fazer todas as entrevistas com artistas e msicos, por isso j organizamos para que Dom tambm se hospede na casa.
Uma vez a bordo do trem para Londres, abro meu laptop, espalho minhas anotaes na mesinha e ligo para o escritrio.
-- Table Manners? - Stephanie responde impaciente, sem dvida irritada por ter que arar de ler um artigo sobre a nova coleo de calados de Gisele Bunda, ou seja 
l qual  o seu nome.
-- Stephanie, sou eu.
-- Ah. -  claro que ela voltou a ler a revista.
-- H... como vo as coisas? - pergunto enquanto meus ombros se encolhem, apreensivos. Gosto que Stephanie me diga primeiro como as coisas vo indo, para evitar 
surpresas desagradveis.  impressionante o quanto de encrencas voc pode arrumar mesmo sem estar no escritrio.
-- Tudo bem. - Ufa. Suspiro de alvio e sento melhor na poltrona. - Mas ele est uma fera com voc. 
Volto a me encolher sobre a mesa.
-- Por qu?
-- Disse que nunca viu uma idia to ruim.
-- Qual?
-- No conseguiram apanhar uma das suas pombas no banquete polinsio e ela cagou no copo do anfitrio.
-- Meu Deus, foi? - controlo meu impulso de dar uma gargalhada, porque sei que ela vai contar ao Gerald. - Eles ficaram muito zangados?
-- Um pouco, mas no to zangados quanto Gerald.
-- Me deixe falar com ele.
-- Vou transferir a ligao.
Espero, e depois de um tempo Gerald atende o telefone. A primeira coisa que ele diz :
-- Ahhhh, vejo que a fada das cagadas voltou.
Sorrio. Ele no est to zangado quanto Stephanie disse.
-- Ora, Gerald, voc no pode me culpar pelos movimentos intestinais de uma pomba.
-- Uma boa promoter  a responsvel pelos movimentos intestinais de todos na festa.
-- Essa  uma responsabilidade e tanto.
-- Voc est a caminho?
-- Sim, o trem acabou de sair.
-- timo. Espero um relatrio completo.



H uma atmosfera familiar na sede da Table Manners. O caos ameaa irromper por todos os cantos. At mesmo Stephanie est mais ocupada do que de costume. Ela tem 
duas revistas abertas na frente dela enquanto toma um milk-shake de caf com um canudinho. Ela grunhe pra mim e tira o canudinho da boca, com m vontade.
-- Esto todos ficando malucos - diz e volta a ler a Hello!
-- Recados? - pergunto esperanosa.
Ela inclina a cabea na direo aproximada de onde fica a minha mesa, o que no me anima muito, e acrescenta:
-- Lady Boswell ligou. Disse que voc estava fora, trabalhando na fazenda de Simon Monkwell. Por causa disso tive que ouvir a velha megera falar por meia hora sobre 
ter encontrado Simon Monkwell um dia, quo tremendamente divino ele  e o quanto ela gostaria que ele comparecesse  Festa Nrdica de Gelo.
-- Puxa, no consigo pensar em um destino melhor para ele - resmungo.
Entro no escritrio principal, onde todo mundo parece mesmo ter enlouquecido. Aidan est de p em cima de uma mesa no canto da sala, olhando pensativo para um pedao 
de corda nas mos, e parece estar pensando se vai se enforcar com ela ou no. Por algum motivo o Z Colmia de pelcia est sentando na frente da mesa dele. Passo 
pelo labirinto de mesas e pessoas e vou em sua direo, ignorando meus colegas que, ou esto entrevistando pessoas com fantasias de animais ou esto enfiando-se 
embaixo de mesas segurando arranjos florais e gritando: -- Isso vai ficar em p!
-- Oi! - sado Aidan.
-- Como vai, Catatau? - ele diz com sua melhor voz de Z Colmia.
-- Pensando em dar cabo da vida?
-- Caramba, eu bem gostaria que sim! Gerald est mal-humorado. Voc soube o que aconteceu com a sua pomba?  verdade que ele bebeu mesmo o coquetel cagado?
-- Acho que no! - Fico em dvida.
-- Droga,  o que tenho contado para todo mundo. - Ele desce da mesa e fica no mesmo nvel que eu. - E a, alguma coisa na semana, alm do evento em Pantiles?
Balano a cabea.
--S alguns ajustes na Festa Nrdica de Gelo, graas a Deus. J estou com as mos cheias com este baile.
-- Vamos l, me conte tudo! Como  a propriedade? Como vo os preparativos para o baile? Como est se virando com o feio e malvado Simon Monkwell?
-- Ele ainda no voltou.
-- Mas voc vai encontr-lo? - ele pergunta.
-- Sim, em breve.
Aidan senta na minha frente e parece pensativo.
-- E que al o resto da famlia, como so eles?
Um sorriso enorme invade o rosto.
Ah, eles so geniais! Conto melhor depois!
Coloco o laptop e a pasta na mesa e volta a trabalhar no planejamento.
Gerald est mesmo de mau humor e rosna quase a tarde inteira. Um [i]promoter[/i] novato tenta conseguir a aprovao dele para o cardpio de um piquenique para crianas. 
Ele expulsa o rapaz da sala aos berros:
-- Que raio de histria  essa de canaps vegetarianos! Volte quando escolher algo que as crianas queiram comer!
E, logo depois, grita para que eu v at a sua sala. Quando consigo acompanh-lo e fechar a porta atrs de mim, ele j est afundado atrs da sua mesa.
-- Meu Deus, este negcio  implacvel, no ?
-- O qu?
-- Essa bobagem de se divertir. Nunca d um descanso. Como vo os preparativos para o projeto Monkwel? Alguma coisa a relartar?
-- No, tudo est bem.
-- Est conseguindo no chatear os Monkwell?
-- Acho que sim.
--Quando Dominic vai ajudar voc?
-- Na semana que vem.
-- Tambm o avise para no os chatear. No se esquea de que em boca fechada no entra mosca. E se a sua boca...
-- ... Est aberta, ento voc no est aprendendo nada - termino a frase por ele.
- Repetir isso para Dominic, milhares de vezes, nunca  demais. Nunca esqueci de quando ele disse a uma convidada gorda que ela no deveria ficar muito tempo parada 
no iate dela, pois poderia ser confundida com uma baleia e ser arpoada.
-- Mas ela estava sendo uma chata, e ele disse isso baixinho.
-- Ento ela tinha ouvidos de tuberculosa, porque, lembro-me bem, ela o ouviu. A propsito, como vai ele?
Eu suspeito que Gerald gosta muito de Dominic.
-- Est bem.
-- Agentando, no ?
Olho para ele desconfiada.
-- Ele est muito bem. Por qu?
-- Por nada. Vamos torcer para que este baile traga mais negcios, Izz. Parece que voc esteve longe por uma eternidade. As contas de Aidan esto deteriorando rapidamente.
-- Jura? - pergunto de modo inocente. - Provavelmente ele est s tendo um dia ruim.
--  mais uma semana ruim. Como vo os preparativos para o baile?
Penso em todo o trabalho envolvido - o tema circense, o servio de [i]catering[/i] para quinhentas pessoas e uns milhes de outros detalhes que preciso confirmar.
-- Tudo bem - digo com segurana.
-- J viu Simon Monkwell?
-- No, ainda no. Talvez na prxima semana.
-- Vai perguntar sobre a possibilidade de um encontro corporativo?
-- Se tiver uma oportunidade -digo pensando definitivamente no. NO H Cristo que me faa procurar trabalho com Simon Monkwell.
-- Sua tia, h... qual o nome dela? Aquela que acha que eu sou comunista?
-- Winnie.
-- Isso! Sua tia Winnie pode ter nos ajudado muito mais do que pensava! No se esquea de ser boazinha para Simon Monkwell na semana que vem.
-- Serei. - E fao uma figa com a escondida atrs das costas.



Comeo a gostar da minha tarde, mesmo lidando com detalhes do meu projeto dos infernos, a Festa Nrdica do Gelo, porque estou na posio incomum de poder sair s 
sete horas na noite de sexta-feira, acontea o que acontecer. As noites de quinta e sexta so geralmente as mais agitadas da semana, porque a maioria das socialites 
vai para suas casas de campo nos finais de semana. As pessoas acham que nosso trabalho deve ser uma grande diverso, e a maioria das vezes , mas no tm a mnima 
idia de com so as coisas quando a arrumao das mesas no d certo e voc sabe que no pode ir para casa at estar no lugar.
Passo a maior parte da tarde ao telefone, falando com o fornecedor de gelo, minimizando os problemas sobre a criao do bar de gelo, marco outro ensaio com meus 
vikings de mentirinha e uma reunio com Lady Boswell, para quando estiver novamente no escritrio. Lady Boswell comea a tagarelar novamente sobre Simon Monkwell, 
mas consigo encerrar a conversar antes que ela possa pedir que eu o convide.
Assim que entro em casa, Dominic sai com um ar extremamente elegante. Ele diz que vai ao cinema com um colega de trabalho, mas deduzo que essa pessoa  mais do que 
um colega, porque ele me convidaria a ir junto.
Decido alugar um vdeo e vou para o quaro, para vesti minha cala de agasalho favorita, antes ir para a locadora. Estou procurando as chaves quando o interfone toca. 
Dominic deve ter esquecido algo.
-- Al? - respondo.
-- Al? - No  Dominic, mas a voz  familiar e eu a reconheo levemente.
-- Al? - digo novamente.        
-- Isabel. Sou eu, Rob. Por favor, me deixe entrar.
























CAPTULO 11



Meu dedo hesita antes de apertar a campainha, mas eu pressiono o boto e a porta se abre. Ouo passos subindo a escada e ele aparece na minha frente.
No sei o que dizer e, portanto, fico quieta. Meu primeiro pensamento  imaginar se sobrou um pouco da maquiagem no meu rosto. Meu segundo pensamento  que Rob deve 
ter deixado algo no apartamento e veio buscar.  a que vejo a garrafa de champanhe. Sinto um frio na barrigada. Devo fingir eu no vi?
Ele apia o corpo de modo insolente no batente da porta e sorri para mim.
-- Posso entrar?
-- Claro - respondo automaticamente e dou um passo para o lado.
Vou atrs dele at a sala de estar e corro para retirar as canecas empilhadas na mesinha. Levo-as para a cozinha e, quando volto para a sala, Rob est abrindo a 
garrafa de champanhe. Fico um pouco irritada com a presuno dele.
-- Est abrindo isso agora? Qual o motivo? - pergunto.
-- Voc tem taas?
-- No, no tenho.
Ele d uma gargalhada.
-- Deixa disso, Izzy! Tome uma taa de champanhe comigo pelos velhos tempos. - Estou parada entre a cozinha e a sala, mas ele sorri com aquele sorriso atrevido e 
preguioso dele, e eu tenho de admitir que amoleo um pouco.
-- Ta bom. - Volto para a cozinha e desencavo duas taas de vinho.
Sentamos em silncio enquanto ele serve o champanhe com maestria. Ele toca minha taa com a dele, olha nos meus olhos por um segundo e se acomoda no sof. A sensao 
de te-lo novamente comigo me deixa perigosamente eufrica.
-- Ento! - diz ele. - O que anda fazendo, Isabelzinha?
-- Um pouco de tudo. Rob, afinal de contas, o que  isso tudo? Aparecer sem avisar com uma garrafa de champanhe?
Ele encolhe os ombros e no me olha nos olhos.
- Achei que voc se recusaria a me ver se eu telefonasse antes.
-- Voc tem toda razo. Iria mesmo.
-- Bom, a est - Ele sorri novamente de modo devastador.
Eu ignoro o sorriso e insisto:
-- Mas por que voc est aqui?
-- Bem, Izzy, estive pensando um bocado sobre como as coisas eram boas quando estvamos juntos e... quer mais champanhe? - Seguro minha taa enquanto ele enche as 
duas. - Estive pensando que talvez tenha sido um pouco precipitado.
-- Um pouco precipitado?
-- Senti saudades.
Fecho um pouco os olhos, como se quisesse me proteger da escancarada ironia de toda a situao. Semanas atrs, teria dado meu brao direito para ouvir isso.
-- Vamos l, Izzy. - Rob continua com voz macia. - Comei um erro. Sinto muito. Mas no cometa um tambm s por causa do seu orgulho.
Eu hesito. O comentrio me pegou de jeito. Estou jogando fora algo precioso s por pura e simples teimosia? Afinal de contas, o que ele fez de errado? Ele no me 
traiu. Ns no tivemos uma briga horrorosa onde dissemos coisas horrveis. Ele apenas teve medo do compromisso, mas percebeu que cometeu um erro.
Bebo outro gole de champanhe e ele inclina-se na minha direo, pegando na minha mo. A sensao das pontas dos dedos dele acariciando a minha palma ao  completamente 
desagradvel.
-- Posso levar voc para jantar amanh?
-- No, tenho um compromisso.
-- Na semana que vem?
-- No, estarei fora a trabalho. Em Suffolk.
-- Caramba, que diabos voc vai fazer l naquele fim de mundo?
-- Estou trabalhando na propriedade Pantiles. De Simon Monkwell - acrescento, tentando impressionar. Consigo o efeito desejado.
-- Simon Monkwell? Uau! - Rob diz incrdulo e chega mais perto.
-- O que est fazendo?
-- Organizo um baile para eles.
--  um projeto impressionante, Izzy.
-- Sim, , bem, eu sou conhecida da famlia.
-- ? - Sua mo comea a subir de mansinho pelo meu brao. - Voc v, Izzy, eu sabia que tinha cometido um erro.  bvio que voc conhece todas as pessoas certas. 
- Ele sorri para mim de uma maneira que costumava achar absolutamente charmosa, mas agora j no tenho tanta certeza. - Deve ser um trabalho difcil, ouvi dizer 
que ele no  muito legal - continua Rob, recostando-se novamente no sof e bebendo um golinho de champanhe. - Como est se dando com ele?
-- Ainda no o vi. Ele est em Chicago. Mas, no, ele no  muito legal.
-- Como sabe se ainda no o encontrou? - Rob pergunta em tom debochado, com um sorrisinho nos lbios. Ele comea a acariciar novamente a minha mo.
-- Ele despeja inquilinos sem motivo aparente e deixa a propriedade com pouca verba para manuteno.
-- Ele est dormindo com uma das advogadas dele, no est?
Olho intensamente para ele.
-- Onde voc ouviu isso?
-- Ele encolhe os ombros.
-- Por a.
-- E no estou nem estaria interessada em saber com quem ele est dormindo. - respondo empertigada.
-- Quer dizer que - Rob continua meloso - voc tem que passar a noite na propriedade? Vou poder ver voc durante a semana?
--Sim, vou dormir l - digo rspida, a mente ainda remoendo a situao. Rob e eu estamos voltando? Eu quero isso?A mo dele sai da minha palma e volta a subir pelo 
meu brao.  um gesto bastante hipntico.
- Voc no pode voltar durante a semana de jeito nenhum?
-- Talvez possa. - Sua mo percorreu meus ombros e agora brinca com uma mecha do meu cabelo.
-- Coitadinha de voc. Deve ser horrvel ter que jantar com todos aqueles caipiras. Diabos, sobre o que vocs conversam?
-- Ah, besouros. Cultivo. Esse tipo de coisa.
Ele d uma gargalhada leve, pensando que estou brincando, e se inclina para me beijar.
-- Que horrvel. No consigo imaginar nada pior do que isso - murmura. Neste exato momento meu celular toca e sou desperta do estado de transe que me encontro. Franzo 
a testa e pego o celular na mesinha. O viso mostra o nmero de Pantiles.
-- Al?
-- Izzy?  Will.
-- Oi, Will, como vai? - digo com um certo alvio.
-- timo. Estou telefonando para saber a que horas seu trem chega na tera-feira. Eu vou busc-la.
Reviro a minha bolsa em busca da agenda e digo o horrio. Ele diz estar ansioso para me encontrar novamente e desliga.
Olho para o celular por um momento.
-- Olhe, Rob, na verdade eu quero pensar a respeito dessa volta, OK? - digo com voz firme.
Ele parece surpreso, mas se recupera rapidamente. - Claro, Izzy! Claro. A situao deve parecer precipitada para voc.
-- Sim, parece.
-- Levanto e vou em direo  porta. Ele me olha por um segundo e me acompanha.
-- Posso telefonar?
-- No, eu telefono para voc. No quero precipitar nada. - E, com um beijo na bochecha, eu o ponho firmemente para fora do apartamento.




Dom tem um ataque de raiva quando fica sabendo da visita de Rob, e eu bebo, apreensiva, o resto do champanhe. Estou contente por ter feito Dom virar uma taa primeiro.
-- Ele parecia bastante arrependido - digo incerta.
--Rob? Arrependido? Izzy, nunca, antes de hoje, estas palavras estiveram juntas na mesma frase sobre Rob sem "nem um pouquinho" entre elas.
-- Mas ele estava! Qual seria o motivo de aparecer?
Dom bufa sarcasticamente.
-- Provavelmente queria dar uma trepada.
-- Bom, ele no ia conseguir nada disso aqui - respondo empertigada.
-- Aconteceu alguma coisa?
-- No, nada! - digo abespinhada.
-- Izzy - diz Dominic, srio. Ele consegue ler o que vai na minha cabea como se fosse um livro aberto.
-- Bom... poderia ter acontecido se Will no tivesse telefonado.
-- Will? -ele guincha de excitao. - De Pantiles?
-- Sim. Will.
-- O lindo fazendeiro Will? 
-- Sim - digo meio irritada, arrependida de ter contado sobre ele to cedo.
-- Por que ele estava telefonando? Achei que voc estava tratando de tudo com Monty.
-- Ele queria saber a que horas chego  estao na tera-feira.
-- Ah, ento  ele quem vai buscar voc agora. E esse foi o motivo de nada ter acontecido entre voc e Rob?
-- Indiretamente, acho que sim.
-- No  isso o que Freud diria. J vi tudo. Rob se aproxima para beijar voc, o telefone toca e  Will. De repente no h mais nenhum clima. Sei, sei.
Caramba, ele estava assistindo a tudo escondido atrs do vaso de plantas?
-- Nada disso, Dom. Podia ter sido qualquer um ao telefone.
-- Voc acha que o Will gosta de voc?
-- Realmente, no sei.
-- Deus, que excitante! E eu vou conhec-lo na semana que vem!
Olho para ele, horrorizada. Tinha esquecido que Dom vai comigo a Pantiles na semana que vem, para me ajudar com todo o projeto. Isso no  um bom pressgio. Dom 
gosta de imaginar que  um Cupido, com arco e flecha. Vrias pessoas por a se deram mal
por causa disso.
Eu o encaro com o meu olhar mais fulminante.
-- Dom, voc tem que esquecer o que falei sobre o Will.
-- Ahhhh, deixa disso, Izzy! Eu posso ajudar.
-- O nico modo de ajudar  esquecer tudo.
-- Como  que posso esquecer tudo quando minha melhor amida est apaixonada por um lindo fazendeiro que possui terras at onde a vista alcana?
-- No estou apaixonada por ele e, para sua informao, ele no  o dono das terras. Simon  o dono.
Ele franze a testa.
-- Tem certeza de que se interessou pelo irmo certo? - E leva uma almofada no meio da cara.



Quando chego a BurY St. Edmunds na tera-feira  noite, o mesmo Land Rover cheio de lama est  minha espera do lado de fora da estao. 
-- Will - digo, toda feliz, enquanto escancaro a porta e subo no carro.
-- Como prmio, ganho um beijo no rosto e um sorriso enorme.
-- Como vo as coisas?
-- timas! Como vai voc?
-- timo! Tudo pronto? - Ele liga o carro e partimos.
Batemos um papo sobre o tempo e passamos para o tema familiar.
-- Como vai tia Flo?
-- Ela e papai to bem. -Ele me olha. - Simon volta amanh.
== Volta? - digo, fingindo indiferena.
--No se preocupe! - diz Will, que provavelmente percebeu uma sobra passar pelo meu rosto. - Provavelmente ns no vamos v-lo muito!
Fico reconfortada pelo "ns" e sorrio.

Monty est a todo o vapor no caf-da-manh no dia seguinte.
-- Isabel querida - ele resfolega--, ainda bem que encontrei voc. Will disse que voc vai at Bury St. Edmunds. - Na noite passada, pedi a Will se poderia pegar 
o Land Rover emprestado para ir  reunio  com a empresa de toldos. Eles querem que eu aprove o design final da Grande Tenda.
-- H, sim. Voc precisa de algo?
-- Posso ir com voc?
-- Claro!
-- E Flo?
-- Com certeza!
-- Quando voc vai?
-- Meio que agora.
-- Pegue meu carro,  o Jaguar velho. D a volta at a frente da casa que vou buscar Flo.- Devolvo as chaves para Will e pego minha bolsa. - O carro tem seguro? 
- pergunto a Monty.
-- Acho que nenhum de ns tem seguro, querida.
-- Sim, todos os carros tm seguro contra terceiros - diz Will, sorrindo por causa do meu ar de preocupao.
-- A propsito, Sra. Delaney - digo--, meu ajudante, Dominic, chega esta manh. Ele vai entrevistar todos os artistas a partir das onze horas. Se ele chegar antes 
da minha volta, poderia, por gentileza, acompanha-lo ao seu quarto? Ele vai passar a noite aqui.
-- Claro - ela responde seca, sem que seus olhos encontrem os meus. Acho que, bem l no fundo, ela est encantada em saber que estarei fora a maior parte da manh. 
Parece que a idia dela de um dia feliz  um no qual pelo menos vinte quilmetros estejam entre ns.
Dirijo cuidadosamente o velho carro de Monty at a frente da casa e pouco depois surgem Monty e Flo, acompanhados por trs ces. Eu me inclino, abro a porta do passageiro 
e Flo entra.
-- Monty, voc quer dirigir? - grito atravs da porta aberta.
-- Eu no, querida. Voc dirige, eu fico com os ces. - Ele espera at que os cachorros tenham se acomodado no banco traseiro e se espreme no meio deles.
-- Bom-dia, tia Flo. Como vai voc? - cumprimento.
-- Bem, obrigada, querida, exceto meu joelho que incomoda um pouco.
-- O que h de errado com ele?
-- O que voc disse?
-- DISSE O QUE H DE ERRADO COM SEU JOELHO?
-- Artrite, querida.
Monty faz um sonoro rudo de desdm.
-- Artrite? Ela nem sabe o significado da palavra.
-- Eu ouvi isso, Montgomery - diz tia Flo no assento dianteiro.
-- Voc deveria procurar o mdico por causa dessa sua audio seletiva, no de seu joelho.
-- O mdico me disse que meu joelho deve doer muito. Mais doloroso que seu p, eu diria.
-- Seu p? - olho para Monty, preocupada. E me arrependo quase imediatamente de ter perguntando.
-- Um velho ferimento de guerra, querida. Mal posso andar por causa dele.
-- Ferimento de guerra, humpf! Voc caiu na escada da adega. Voc estava bbado! - diz Flo do assento dianteiro.
-- Desminta isso, minha senhora!
-- Bom! - digo, sentindo que precisamos parar com este pequeno intercmbio verbal antes que desafiem para um duelo em cadeiras de rodas ou coisa parecida. - Os ces 
vieram conosco por algum motivo em especial, Monty?
Ele inclina-se entre os assentos dianteiros.
-- Eles precisam ir ao veterinrio. - Vejo que um deles  a pequena westie branca que vive sendo empurrada pelos outros.
-- Qual o nome dela? - pergunto, apontando para a westie.
-- Meg. No est conosco h muito tempo. Um dos empregados a encontrou perambulando perdida. Quero que o veterinrio a examine para saber se est tudo bem com ela.
-- Coitadinha.
Monty e Flo parecem nunca ter problemas para conversar e, enquanto batem papo o tempo todo, eu vagueio entre as conversas, fazendo listas mentais sobre o que preciso 
fazer. Chegamos a Bury St. Edmunds e combinamos de nos encontrar ao lado do carro em uma hora. Passo os sessentas minutos seguintes olhando insegura para o desenho 
da tenda de circo e rezando fervorosamente para que tudo aquilo no desabe sobre a minha cabea e as de quinhentos convidados. Volto e encontro Mony e Flo esperando 
por mim ao lado do carro.
-- Como vai Meg? - pergunto enquanto entro no carro. Monty j est no banco traseiro, portanto presumo que ainda quer que eu seja a motorista.
-- Completamente bem.
-- O que  que voc tem a, tia Flo? - pergunto, apontando para a grande sacola de plstico enquanto puxo o cinto de segurana.
-- Gafanhotos.
Pisco.
-- Deus, desculpe, achei que voc disse gafanhotos! - Solto o freio de mo, dou r na vaga do estacionamento e saio dirigindo em direo a casa.
-- Eu disse isso. So gafanhotos.
-- Oh. E, hum, o que vai fazer com eles?
-- So para a minha tarntula de estimao.
Quase atropelo um punhado de pedestres.
-- Sua o qu?
Ela me olha como se eu precisasse tratar de um problema auditivo. E depressa.
-- Minha tarntula de estimao. Poppet. - Enquanto espero o semforo abrir, olho rapidamente ao meu redor para ver se tia Flo no a trouxe consigo para dar uma 
volta.
-- Poppet? Voc nunca falou dela antes.
-- A maioria das pessoas tem um pouco de medo dela. - Jura? Por que ser? - Achei que voc poderia recusar a tomar ch comigo se eu contasse sobre ela.
Pode ter certeza disso.
-- Por qu? Ela est solta no seu quarto?
-- Como, meu bem?
-- EU DISSE: ELA EST SOLTA NO SEU QUARTO?
-- No, Poppet tem seu prprio aqurio. Ela s sai de vez em quando. - Quando ela pede com jeitinho? Para comer criancinhas?
-- Jura? - digo com a voz fraca. Fao um esforo tremendo para consegui dizer algo gentil sobre uma tarntula de estimao chamada Poppet. "Ela deve ser uma boa 
companhia" no parece combinar direito. Monty se mete na conversa antes que eu possa dizer algo:
--  melhor mate-la presa quando Simon estiver por perto.
-- Garanto que ela vai ficar presa.
-- Se ela escapar, o mundo desabar sobre ns. Simon no sabe que Poppet existe - confidencia Monty. Olho para ele pelo espelho retrovisor. Sorte do Simon.
-- No vou contar nada. - prometo. - Talvez seja mais segou manter Poppet presa, tia Flo, at todo mundo ir embora. - Principalmente moi.


Chegamos a casa por voltar das onze e ns trs, mais os ces, entramos na cozinha carregados de compras. Estou quase a dizer: "No derrube os gafanhotos!" para tia 
Flo, como uma piada, quando uma das guias de ces enrola-se nas suas pernas e ela perde o equilbrio. Agarro a sacola com os gafanhotos, dou um pequeno suspiro de 
alvio quando vejo que ela se segura na mesa da cozinha e vou em sua direo para ver se est tudo bem. Ento sou eu quem tropea em um dos ces e despeja todo o 
contedo da sacola no cho. Olho incrdula por alguns segundos enquanto cem gafanhotos pulam para todos os lados, com a alegria de prisioneiros em fuga, sem serem 
capazes de acreditar na sorte que tiveram. Os minutos que se seguem so de puro cs: os ces escapam correndo em disparada, para todas as direes. A Sra. Delaney 
comea a gritar e sobe em uma cadeira enquanto Harry observa tudo absolutamente extasiado. O resto de ns fica de quatro no cho e tenta pegar os fujes.
-- Maravilhoso! - grita Harry. - Ganho um trocado para cada um que eu pegar?
-- Comece a apanha-los, Harry - ruge sua me, empoleira no alto da cadeira.
Normalmente, se algum apontasse um gafanhoto para mim eu diria algo como "que bonitinho!", ou "isso no  um canap?", ou outra bobagem do gnero. Eu nunca me jogaria 
ao solo e tentaria pegar uma dessas criaturas. Todavia, aqui estou eu, tendo que apanhar cem destas pestes, todas elas movendo-se em grande velocidade em direo 
 liberdade.
Pego uma panela com tampa no escorredor de pratos e comeo a usa-la como uma priso central. Pulamos por todos os lados, gritando uns para os outros, ofegando como 
loucos por causa do exerccio, tentado pegar os malditos insetos. At que uma voz paralisa a todos:
-- QUE DIABOS EST ACONTECENDO? EU CONSIGO OUVIR ESA GRITARIA DO MEU ESCRITRIO. - Todos paramos imediatamente e nos endireitamos. Acho que Simon j est em casa. 















CAPTULO 12


Um Simon irritado passa os dedos pelo cabelo, cortado curto dos lados e longo no alto,  la Hugh Grant. Ele  alto, moreno e  parecido com o Will, mas tem um ar 
arrogante e pouco atraente. Est vestido com calas desbotadas de veludo cotel verde-oliva e um suter leve com as mangas arregaadas; Noto que seus cabelos esto 
molhados. Deve ter acabado de sair do chuveiro, penso, ele acaba de chegar do outro lado do Atlntico.
Escondo minha mo, com cinco gafanhotos se contorcendo, dentro do bolso do casaco e a aperto. Engulo em seco tentando no pensar em coc de gafanhotos e os custos 
de lavagem a seco.
 impressionante como gafanhotos podem desaparecer rapidamente. Impressionante. Um deles deve ter gritado: "Depressa! Corram, rapazes! Corram e salvem a pele!", 
e os outros seguiram o seu conselho. Na panela devem estar uns trinta, o que significa que uns setenta e poucos esto foragidos. E eu s vejo uns trs.
Fico feliz em ver que Simon parece ficar perturbado ao me encontrar no meio do grupo. Ele vem na minha direo.
-- Isabel?  voc mesmo? - diz surpreso. - Papai me disse que voc ia voltar.  maravilhoso ver voc novamente! - Isto  irnico, considerando o nosso ltimo encontro. 
Ele no pronuncia bem todas as letras, o que faz com que soe particularmente pedante. Est na cara que ele no sabe se me d a mo ou na, mas como me pegou com a 
boca na botija e minha mo direita est segurando cinco gafanhotos, eu me antecipo e lhe dou um beijo na face. Ele parece sem graa com o cumprimento.
-- Teve um bom vo? - pergunto depressa.
-- No dormi nada. Mas foi um bom vo, obrigado.
E s depois ele se inclina e beija seus parentes tambm.
Assim que os cumprimentos terminam, inclino a cabea para um dos lados, ergo as sobrancelhas e assumo um ar inquisitivo, como se estivesse dizendo "mais alguma coisa?".
-- Ento, o que est acontecendo? - repete Simon.
Uma vez que Simon no sabe da existncia de Poppet, eu gaguejo: -- Ns estvamos... h... estvamos... hum... - Estou tentando descaradamente ganhar tempo e todo 
mundo sabe disso. Simon faz com que eu me sinta incrivelmente nervosa. Talvez eu deva continuar nesse ritmo at que todos tenham esquecido a pergunta original. Acompanhamos 
os olhos de Simon enquanto ele v um gafanhoto particularmente preguioso, pulando atrs dos seus ex-companheiros de presdio sem muito entusiasmo.
-- Fazendo uma corrida de gafanhotos! - intervm Monty.
-- ISSO MESMO! - Eu praticamente grito em admirao. Tenho que cumprimentar este homem, foi um golpe de mestre.
-- Fazendo uma corrida de gafanhotos. - diz Simon, sem acreditar muito.
--  isso mesmo. - diz Monty. - Estamos fazendo uma corrida de gafanhotos. Todos ns. Exceto a Sra. Delaney, claro. - A Sra. Delaney est de p na cadeira com um 
ar to apavorado que no pode ser includa sem levantar suspeitas.
-- Bom, ser que podem fazer uma corrida de insetos um pouco mais silenciosa? - ele pergunta secamente. - Tenho de voltar ao trabalho. Vejo todos vocs no jantar. 
Vai ser bom ficar a par das novidades, Isabel. - Ele diz tudo isso sem sequer a sombra de uma emoo na voz e sai da cozinha sem dizer mais nada.
Viro devagar para olhar os outros. Os gafanhotos que sobraram j fugiram h muito tempo.
-- Pisei em um deles - diz tia Flo, parecendo perturbada.
-- Flo, voc ia oferecer cada um deles como jantar para uma aranha e est chateada porque pisou em um? - Monty pergunta, incrdulo.
-- Sim, claro - ela responde balanando a cabea, pesarosa.
Mordo o lbio. Em algum lugar, um gafanhoto chilreia consigo mesmo. Olho em volta e todos comeamos a dar risadinhas.


Dominic chega um pouco depois. Nenhum dos membros da famlia est por perto e eu consigo lev-lo correndo para a sala de visitas sem interrupes. Fao um resumo 
da lista de artistas que precisa entrevistar e ele parece completamente horrorizado com o monte de trabalho que tem pela frente. No estou com tempo nem vontade 
de amenizar a situao, de modo que dou umas palmadinhas no joelho dele e volto para a biblioteca e para o planejamento.
Mas esqueci como Dominic leva a serio o quesito comida. Ele realmente acha que algo absolutamente terrvel ir acontecer com ele se ficar sem comer por mais de duas 
horas. Ele dorme com um pacote de biscoitos do lado da cama "s para garantir". (O qu? Caso aparea um ladro com hipoglicemia?). Portanto, no me surpreendo que, 
durante o dia, ele tenha conseguido encontrar a cozinha e ficado amigo da pessoa mais importante da casa: Sra. Delaney.  impossvel lutar contar o charme dele. 
Quando chego  cozinha, na esperana de conseguir tomar um aperitivo antes de enfrentar minha primeira refeio com Simon, encontro Dom sentado  mesa com um pacote 
de biscoitos e uma taa de vinho. No h dvidas sobre o afeto que vejo nos olhos da Sra. Delaney. Ele nem sequer est usando um porta-copos.
-- Boa-noite, Izzy! - ele diz alegremente, um sorriso cintilante no rosto. - Estava dizendo para a Sra. Delaney como acho o campo um lugar excelente! Sabia que o 
correio chega at aqui e tudo? Maravilhoso! Biscoito? - ele oferece o pacote.
Abano a cabea e fao cara feia. Dominic esteve poucas vezes fora de Londres. Ele nasceu a poucos metros de distncia da loja da Harrods e acha que as vacas s servem 
par aparecer nos comercias de manteiga. Uma vez, algum disse a ele que no havia caixas eletrnicos fora da capital e acho que ele acreditou.
-- Como vo as coisas com os artistas? - pergunto - Algum que preste?
-- Fantsticas! Gostei muito do homem das pernas de pau! Mas ele quase furou um olho no candelabro. Eu o contratei, mais uns malabaristas, um dos mgicos, e uma 
cara que faz um nmero de equilibrista com uma bicicleta. Alm dos outros que j haviam sido contratados. E no se preocupe, Izzy, anotei tudo para voc preencher 
suas santas tabelas.
Relaxo um pouco. Passei o dia todo resolvendo a comida e a bebida, chapelaria, banheiros e outros mil detalhes. S a encomenda dos arranjos de flores para as mesas 
levou uma hora ao telefone. Ainda tenho que tratar dos detalhes prticos com a Sra. Delaney, tarefa que no estou nada ansiosa para realizar.
Will e Monty aparecem pela porta dos fundos, com um ar fresco e energtico, e declaram estar famintos o suficiente para comerem a mesa.
Fao as apresentaes adequadas e os homens do um show com seus apertos de mos e palmadas nas costas (uma cena que sempre me faz sorrir, porque espero que eles 
comecem a cantar e danar "I'm a lumberjack and I'm okay" com as mo apoiadas no quadris). Pego uma garrafa de cerveja para Monty e uma para Will na geladeira enquanto 
Dominic olha envergonhado para efeminada taa de vinho em sua mo.
-- Ento vocs se conhecem bem? - pergunta Will.
-- Dom e eu dividimos um apartamento. - Posso sentir os olhos de Dominic grudados em ns e tento ignor-lo. Felizmente Monty puxa papo com ele, perguntando sobre 
os artistas entrevistados.
-- Como foi seu diz, Izzy? - pergunta Will.
-- Bom. E o seu?
-- Tambm foi bom. Mas suponho que voc no teve muitas conversas sobre as colheitas, certo?
-- No muitas no. Foram boas?
-- As conversas ou as colheitas?
-- Ambas.
-- As colheitas estiveram na mdia e eu preferiria muito mais ter uma conversa com voc.
-- Ah, eu no tenho muito o que dizer sobre colheitas, lamento - digo, corando um pouco. - Ou sobre quaisquer outros assuntos sobre a agricultura, para dizer a verdade.
-- Graas a Deus!  raro encontrar algum que no tenha uma opinio sobre a fazenda e como ela deveria ser administrada" Posso pegar mais uma bebida? - Ele indica 
meu copo vazio e levanta.
-- Obrigada - respondo e entrego meu copo. Dominic me cutuca com o cotovelo e ergue as sobrancelhas sugestivamente. Dou uma fulminada nele com os olhos.
-- Boa-noite a todos - diz uma voz baixa e autoritria atrs de ns. Giramos e vemos Simon parado na porta. Will vai cumpriment-lo imediatamente.
-- Oi, Simon! Fez boa viagem? - pergunta.
-- Sim, obrigado. Como vai voc?
- Bem. Quer cerveja? - Seus modos so frios e distantes e tenho a impresso de que nem tudo so rosas entre os dois irmos. Will vai at a geladeira pegar as bebidas, 
e Monty faz as apresentaes entre Dominic e Simon.
-- Como esto as coisas na fazenda? - Simon pergunta a Will enquanto ele entrega a garrafa de cerveja. Will me olha.
-- Nada a informar -  a resposta breve de Will, que me entrega o copo cheio. Simon senta  mesa.
-- E ento, Isabel, como vo os preparativos para o baile? Devo dizer que fiquei surpreso quando papai me disse que voc era a organizadora.
-- O baile vai bem. Estamos indo muito bem. - respondo com firmeza.
-- Quando vai ser? - ele pergunta.
-- No sbado, daqui a quinze dias.
-- E quando comea a verdadeira baguna da montagem?
-- Poucos dias antes, quando a tenda principal for montada.
 muito esquisito conversar to formalmente com um homem que eu conheci to bem. Sei sobre a cicatriz que ele tem na barrida da perna, causa pela remoo de uma 
verruga. Sei que ele absolutamente detesta cogumelos, a menos que estejam em fatias finas. Sei que ele quer sempre ser o peo vermelho quando joga Banco Imobilirio. 
Eu o vi chorar at dormir quando seu primeiro cachorro morreu. E aqui estamos ns, conversando como se s tivssemos nos conhecido esta manh.
Pensando nisso, digo repentinamente:
-- Voc esteve no lanamento do tnis Zephyr h alguns meses. - No quero deixar o acontecimento passar despercebido. Afinal de contas, no somos mais crianas.
Ele hesita por um momento.
-- Sim, estive. Foi sua empresa que organizou o evento?
-- Na verdade, fui eu.
-- Foi? - Ele me olha, intrigado. - Voc estava l?
-- Sim, vi voc.
-- Voc deveria ter falado comigo.
-- Eu ia, mas voc pareceu no ter me reconhecido.
-- Bom, no se ofenda, mas, na ltima vez em que a vi, voc tinha onze anos.
-- Ah. - Sinto-me muito boba e toda a minha indignao desaparece. Sou uma idiota. Poderia jurar que ele havia me reconhecido, mas agora est explicado o porqu 
de ele no ter dito nada.
Tia Flo chega e  uma distrao bem-vinda, flutuando sobre ns como uma flor rara no meio de uns arbustos agrestes. Dominic est visivelmente encantado em encontrar 
algum to extico, e eles trocam cumprimentos barulhentos.
Ela vem em nossa direo e pousa suavemente a mo no ombro de Simon.
-- J parou de viver naquele ritmo de trabalho horroroso, Simon querido?
Ele sorri par ela e toma um gole da garrafa de cerveja.
-- Estou pronto par conversar sobre o que voc quiser, tia Flo.
Ela se senta na cadeira ao lado.
-- Voc sabe que nunca vai arranjar uma namorada a srio enquanto trabalhar tanto.
-- No sabia que queria uma.
-- Parece-me que ouvimos boatos sobre voc e uma jovem advogada. - Os olhos dela cintilam alegremente na direo dele.
-- Foi? - Os olhos dele sorriem de volta, mas seus lbios esto apertados.
-- Voc est namorando algum, Izzy? No perguntamos isso! - diz tia Flo.
Assusto-me com a repentina mudana do foco para a minha pessoa.
- H, acabo de sair de um relacionamento, tia Flo. - Droga, isto soa terrivelmente srio, como se fosse um noivado ou algo parecido. - Mas no era nada muito srio 
- acrescento depressa --, foi mesmo um namorico! - a palavra "namorico" fica pairando alegremente no ar. Com um tom meio que de vagabunda. - Ele trabalhava muito 
- tento explicar. - Era Rob Gillingham. O filho de David Gillingham, da empresa de seguros? - Agora parece que estou me exibindo. Pelo amor de Deus, algum me d 
um tiro.
-- Eu os conheo! - diz Monty. Deus o abenoe. - Uma empresa importante na cidade!
--  deles! - digo aliviada e tomo um gole enorme de vinho.
-- E a viagem foi bem-sucedida, Simon? - pergunta Monty, mudando de assunto, j que percebeu meu desconforto.
--Acho que sim. Alguns dos principais executivos da empresa voaro para c na semana que vem para acertar os detalhes.
Ele continua explicando um pouco mais sobre a viagem de negcios, mas tem plena conscincia de que h estranhos na cada e olha para mim de vez em quando. Tomo tanto 
cuidado na presena dele que estou quase perdendo a respirao, e luto contra o desejo de cruzar os braos na minha frente como forma de autoproteo.
Will ajuda a me distrair da ansiedade crescente.
-- O que temos para jantar, Sra. D,? O que  que cheira to maravilhosamente? - ele pergunta enquanto descasca o rtulo da garrafa de cerveja.
A Sra. Delaney no perde tempo em retirar uma travessa do fundo do forno. Todos fungamos, cheirando o ar como em um comercial. Ela coloca a travessa mesa.
-- O Sr. Dominic diz que  vegetariano, portanto eu fiz um cozido de feijo.
H um silncio incmodo. Vegetariano  um palavro nesta casa. Aperto os olhos e encaro Dominic fixamente. At ele tem um ar horrorizado. Nunca algum tinha levado 
to a serio o que ele diz sobre o vegetarianismo.
-- Cozido de feijo? - Will pergunta com desdm.
-- Tem certeza de que voc  vegetariano? Ser que no quis dizer vegetariano irlands? - Olho para Dominic fixamente. - Ou talvez voc no seja mesmo vegetariano?
-- H, bem. Eu achei que era. Mas, sabe como , nunca se pode ter certeza. - Agora a Sra. Delaney tambm o est encarando. Ele olha para mim e para ela, dividido 
entre as duas mulheres iradas. E, sensatamente, escolhe o lado da que pode deix-lo mais infeliz.
-- Mas cozido de feijo  o meu prato favorito!
-- Parece que algum vomitou no meu prato - diz Monty quando recebe a sua poro. Ele  o nico na cozinha que pode dizer uma coisa dessas, mas a Sra. Delaney o 
fulmina com o olhar. Tento no cair na gargalhada.
-- O que Harry vai comer? - pergunta Will, salivando. - Ele tambm vai comer isso?
-- Iscas de peixe.
-- Oooh, Iscas de peixe.
-- Will, a Sra. Delaney teve um trabalho para fazer com que um de nossos visitantes se sentisse em casa - diz Simon. Por causa desse comentrio condescendente, 
Will fulmina Simon com os olhos.
-- Ento, Isabel. Voc deu uma olhada na fazenda? Parece com o que voc se lembra? - Simon sorri para mim.
--  exatamente igual ao que me lembro -  a minha resposta seca.
-- Precisamos ir visitar o lago enquanto voc estiver aqui. Costumvamos ir pescar l um bocado.
-- Mesmo? - pergunto educadamente. No d para entrar em uma conversa gentil sobre lembranas do passado com Simon como se nunca nada tivesse acontecido. Ele vai 
ter que achar uma maneira mais direta para apaziguar sua conscincia, se  que quer fazer isso. Como pedir desculpas.
Simon nota minha frieza e muda para outro assunto.
Apesar do cardpio vegetariano forado, o jantar  animado. Monty abre algumas garrafas de vinho e a conversa flui junto com ele. Estou sentada entre Monty e Will, 
que , sem dvida, um dos melhores lugares da casa.
Simon pergunta de repente:
-- A propsito, queria perguntar... algum dos gafanhotos da corrida escapou? - Ele encara alternadamente a mim e Monty. Will e Dominic esto intrigados.
Pensando que Monty pode ceder com a presso, eu tomo a dianteira:
-- Ns os soltamos no jardim, no foi, Monty? - Monty acena depressa com a cabea. - Por qu? - pergunto, lamentando ter perguntando assim que a frase saiu da minha 
boca.
-- Acho que continuo ouvindo-os.
De repente todos ns comeamos a ter problema auditivos.
-- Ouvi-los?
-- Voc disse gafanhotos?
-- Eu no ouo nenhum, e voc?
-- Como?
-- Sobre o que vocs esto falando?
Olhamos todos para ele.
--  uma espcie de cantoria. Como o som que os gafanhotos fazem. - Ele olha o nosso pequeno grupo.
H uma breve pausa enquanto subconscientemente ns nos reagrupamos.
-- Zumbido! - exclamo e sou aplaudida. - ZUM-BI-DO - repito, um pouco mais alto. Afinal de contas, ele tem um problema de audio.
-- Zumbido? - ele pergunta.
Todo mundo v a dica e aproveita para meter a colherzinha.
-- Provavelmente por causa do estresse.
-- Sininhos nos ouvidos.
-- Voc anda trabalhando demais.
-- Celulares podem causa problemas terrveis.
De repente, a sobremesa  motivo de absoluto fascnio para todos. Como se nunca tivssemos comido um sorvete como aquele.
-- O sorvete est delicioso, Sra. Delaney! - exclamo.
-- Absolutamente maravilhoso! - diz tia Flo, comendo com gosto.
-- Aonde a senhora o comprou, Sra. D.? -- pergunta Monty.
A Sra. Delaney parece confusa.
-- Comprei no supermercado.  feito pela Wall's. - A voz dela tem um tom de incredulidade.
--  porque ele  to... to... to cremoso.
Neste momento Simon pede licena, dizendo que precisa trabalhar mais um pouco. Eu relaxo visivelmente.
-- Mudando de assunto... como vai a querida Sophie, Izzy -- pergunta Monty. - Ela tem namorado?
-- Sophie? No. Sophie est bem casada com a carreira dela, no tem tempo para rapazes!
-- Voc a v sempre? 
-- A cada duas semanas, mais ou menos. Mas ultimamente temos andando muito ocupadas, e j faz um bom tempo que no nos vemos.
Monty baixa a voz e a conversa continua atrs de ns.
-- Senti a sua falta e de Sophie quando vocs partiram. Acho que os meninos tambm sentiram - ele acrescente apressado.
-- Sim, foi uma pena termo perdido contato.
Ele sorri e olha para suas mos.
-- Tambm acho, mas algumas coisas ficam melhor quando ficam para trs. Conte mais sobre voc e sua tia Winnie.
Comeo a contar sobre a tortura dela ao vigrio, mas fico pensando no comentrio de Monty. Algumas coisas ficam melhor quando ficam para trs. Que diabos ele quis 
dizer com isso? 















































Capitulo 13


Na sexta-feira de manh levanto cedo, com a cabea a mil por hora, pensando nas coisas que devo fazer. Rose e Mary vm para uma nova reunio e por isso tomo um banho 
rpido e visto um elegante terninho risca-de-giz. Pego meu bloco de anotaes, encontro Meg, a westie, esperando por mim do outro lado da porta do quarto e vamos 
juntas para a cozinha.
- Bom-dia, Sra. Delaney! - Dou um sorriso deliciado para ela.
- Bom-dia, Isabel.
- Como est a senhora nesta linda manh? Ela me encara.
   -        Ocupada. Tenho um monte de coisas a planejar com toda a
confuso que vem por a.
Ah.
-        E, ainda por cima, tenho que ir at Bury St. Edmunds.
Muito provavelmente para uma reunio no Clube da Cmara de
Tortura. Eles devem se reunir s sextas-feiras na prefeitura.
   -        Eu. Tenho. Que fazer. Compras - diz ela enfaticamente e me
d outra encarada.
   O caf-da-manh  uma questo de sorte na casa dos Monkwell. Tudo depende muito do estado de esprito da cozinheira, e nesta manh, pelo monte de caixas de cereais 
na mesa, acho que  um dia "ruim". Encho uma tigela e mastigo, tentando desesperadamente acordar.
   - Bom-dia, Izzy! Bom-dia, Sra. D.! Como esto todas? - Dominic entra valsando, com um visual horrivelmente bem-disposto e desperto. - Lindo dia, no ?
- Dormiu bem, Dominic? - pergunta a Sra. Delaney.
Sra. D., no fazia a mnima idia de que o campo fosse to barulhento. Parecia que meio zoolgico estava debaixo da minha janela. E, de repente, ouvi um grito horroroso 
no meio da noite. Pensei que voc estivesse sendo estuprada e assassinada, Izzy! Estava pronto para correr para o seu quarto com a minha ncessaire quando percebi 
que o barulho vinha do lado de fora.
- E se eu estivesse do lado de fora, sendo estuprada e assassinada?
   - Oh. No pensei nisso. Mas est na cara que no era voc, certo? Porque c est voc, linda, leve e solta. - Bom, talvez no muito linda. Nem leve. Mas pelo 
menos voc est aqui, no est? - Ele sempre me provoca de manh, porque sabe que no tenho energia para retrucar.
- Provavelmente foi uma vaca - diz a Sra. Delaney.
   - Oh, ento ela estava procurando voc, Izzy! - diz Dominic com sua cara de r-r-r. Eu no fao nenhum r-r-r de volta. A Sra. Delaney j parece pensar que 
sou meio oferecida mesmo. Ela tem dado umas olhadelas suspeitas para mim e Will nestes ltimos dias.
- O que voc quer que eu faa hoje, Izzy? - pergunta Dom.
   - Ah, uns bicos. Preciso resolver o problema da eletricidade, por isso voc precisa ligar para todos os fornecedores e descobrir o que eles precisam. Tambm preciso 
de uma planta interna da tenda principal. Na verdade eu tenho uma lista de coisas para voc fazer. - Tiro a lista da prancheta e dou para ele.
   Harry entra enquanto estou dizendo tudo isso, senta-se  mesa e pega o cereal.
   - Voc pode me ajudar hoje, Harry? - pergunta Dominic. - Em troca de algum dinheiro para a arrecadao de fundos?
- Oooh, sim, por favor!
- Ento precisamos pr as nossas perninhas pra andar!
Minha reunio com Rose e Mary dura a manh toda. Elas saem por volta da uma da tarde, e depois de ter respondido a uma dzia de e-mails sobre a Festa Nrdica do 
Gelo vou at a cozinha procurar pelo almoo. No h ningum por perto, sendo assim, fao um sanduche de presunto e sento-me a mesa para com-lo. Depois, pensando 
melhor, pego o sanduche e saio. No vi nossa velha casa desde que voltei a Pantiles e tenho um sbito impulso de fazer isso. Comeo a subir a colina em direo 
 casa, comendo o sanduche.
   No alto da colina, depois de cinco minutos de caminhada em bom passo, nossa antiga casa aparece e eu paro para retomar o flego. A casa  feita de madeira preta 
e branca e est aninhada ao lado do bosque, o que sempre fez com que o meu quarto e o de Sophie, que ficavam na parte de trs da casa, fossem ambientes extremamente 
sombrios por causa da falta de luz. Costumvamos contar histrias de terror uma para a outra  luz de lanternas, escondidas debaixo das cobertas, e depois ficvamos 
petrificadas de medo o resto da noite e insistamos para que Hector, o gato, dormisse conosco (embora agora, anos depois, eu no tenha muita certeza de que ele seria 
til caso aparecesse um lobisomem, a no ser para servir de aperitivo antes do prato principal).
   No vero, Simon costumava jogar pedrinhas na nossa janela no meio da noite, e eu me vestia depressa, com roupas que j havia separado, saa pela janela, caminhava 
pelo telhado da garagem e amos pescar juntos sob a luz do luar. Eu acho que ele sabia que eu tinha medo dos bosques quando ele no estava por perto, porque sempre 
esperava que eu escalasse tudo at chegar  janela do meu quarto, e nunca ia embora antes que eu entrasse e acenasse um adeusinho.
   Vou at a porta da frente, com mais algumas lembranas, e tento espiar atravs de uma das janelas da frente sem matar os atuais moradores de susto. Para minha 
surpresa, a casa est vazia. Encosto o rosto contra uma janela suja e vejo as salas empoeiradas e vazias, com uma caixa velha e um jornal aqui e ali. H um ar de 
tristeza por todo lado. Fico arrepiada e me viro para ir embora.
Will est com um humor de co quando chego, porque Simon deu-lhe uma ordem imperial para fazer ch. Ele bate chaleiras e xcaras furiosamente. O racionamento est 
em pleno vigor em Pantiles porque, depois da minha primeira xcara, sou informada com firmeza pela Sra. Delaney que aquela era a minha cota.
Portanto, quando Dominic decide que precisa muito de um cigarro, eu saio com ele, aliviada. Mergulhamos no agradvel ar do fim da tarde e caminhamos preguiosamente 
pelo jardim murado. O jardim murado era um dos meus locais favoritos quando criana, e s o redescobri dias atrs, quando estava fazendo a marcao para a renda. 
Parece que o local foi entregue  prpria sorte h um bom tempo. Algum cortou a grama recentemente, mas, tirando isso, o caos reina supremo nos canteiros de flores. 
Pode-se encontrar todo tipo de surpresas. Um p de lavanda aqui e uma figueira rebelde ali.  lindo. Se tivesse tempo, teria muito prazer em descortinar os tesouros 
que o jardim tem a oferecer. Lembro que Elizabeth Monkwell passava horas ali.
   Dominic acende o cigarro e traga fundo at que a fumaa chegue s suas botas.
   - Meu Deus, que maravilha! S fumei trs cigarros desde que cheguei aqui!
- Ento decidiu se vai largar o emprego?
   - Bom, tirei estes dias como frias. Mas posso pedir demisso na semana que vem, antes de voltar para ajudar voc.
- Voc no tem que trabalhar durante o aviso prvio?
   - Em geral eles nos mandam imediatamente para casa, mas eu tenho duas semanas de frias vencidas, caso eles no faam isso. - Ele d outra tragada funda. - Sabe-se 
l como vou agentar a semana anterior ao baile com poucos cigarros!
   - Pode ser uma boa oportunidade para parar de fumar - digo enrolando uma folha no dedo. Dom vive falando sobre o quanto gostaria de deixar de fumar.
   - Mas assim eu vou engordar! Vou passar o dia todo comendo batatas fritas.
- Uns quilinhos a mais podem fazer bem, a longo prazo.
   - Ah, desiste, Izzy. Para voc est bem, voc no est namorando com... - ele interrompe de repente.
-        Ningum? E voc est? - pergunto de modo inocente.
Ele abre a boca, hesitante.
   -        Na verdade, Izzy, tem uma coisa, ou melhor, algum, sobre
quem gostaria de conversar a respeito...
   Mas ele no continua, porque de repente ouvimos vozes se aproximando.
-        O cigarro - censuro Dominic.
O que Dominic deveria ter feito neste momento era ter jogado o cigarro no canteiro e esperado que ele no pegasse fogo. Mas esta, claro, seria a maneira inteligente 
e madura de fazer a coisa. Em vez disso, Dominic entra em pnico e d o cigarro para mim (acho que vamos discutir isto inmeras vezes, at o fim das nossas vidas), 
e eu sou burra o suficiente para peg-lo. Todos ns fomos severamente avisados pelo Gerald para no fumar perto de clientes. Sob ameaa de acabarmos no seguro-desemprego. 
Ele acha que fumar  a coisa mais repugnante que um funcionrio de uma empresa de catering pode fazer. Dominic sabe que no continuar empregado por muito tempo 
se Gerald descobrir que andou fumando na frente de clientes. Neste momento, Simon e um jovem de culos, com um ar muito srio, viram a esquina e entram no jardim 
murado. Eles vem esta linda cena  sua frente. Piso depressa no cigarro, mas depois penso bem e, caso o Rei e Senhor da Manso resolva implicar, pego a bituca.
- Isabel. Dominic - diz Simon suavemente.
   - Oi! - digo sem graa, alternando o peso do corpo em um p e depois no outro, como se tivesse doze anos e fosse pega fazendo arte nos fundos do barraco da casa.
- No sabia que voc fumava, Isabel.
   - H... ha... h... - Os trs homens me encaram, atentssimos a cada "h" que eu fao.  em momentos como esse que eu desejo ser francesa. Bastava encolher os 
ombros, entortar a mo, manter a pose e fazer uma careta sem ter que explicar nada.
 claro que Dominic acha que precisa ajudar e diz:
-        Como uma chamin! - e sorri.
   Pronto. Chega. Recuso-me a ser amiga de Dominic por mais um dia.
   Simon me encara por um segundo, como se estivesse tentando encaixar esta informao no que sabe a meu respeito, e depois se vira para o jovem ao lado dele.
   -        Desculpe, no apresentei voc. Sam, estes so Isabel e
Dominic. Esto aqui para nos ajudar com o baile de caridade. Isabel
morou na propriedade quando ramos crianas. Este  Sam, ele trabalha na minha empresa.
Sam sorri e estende amigavelmente a mo para ns dois.
   -        Eu tambm fumava. Cerca de dois maos por dia - completa.
Minha impresso inicial de que Sam era um homem gentil muda imediatamente e o considero um indivduo muito metido e xereta.
   - Verdade? - retruco educadamente, resistindo ao impulso de dar uma canelada nele.
   - Nunca vi voc fumando, Isabel - diz Simon. Ainda estamos falando nisso?

- Estou tentando parar! - improviso depressa. Simon ergue as sobrancelhas.
- Isso  bom - diz de modo encorajador.
- Sim. No ? - E por que no mudamos de assunto?

   - Fico feliz em saber que voc est tentando dar um chute nesse vcio. - Sam segura meu brao e me d um olhar de compreenso. No  no vcio que eu queria dar 
um chute.
   - Ento, Isabel, voc volta para Londres esta noite? - pergunta Simon.
   - H, sim - respondo, ainda fervendo de raiva. - Vamos os dois, mas voltaremos para ficar uns dias na semana que vem, e depois durante toda a semana antes do 
baile.
- Bom, se no os vir mais tarde, faam uma boa viagem.
- Obrigada - murmuro.
Os dois se afastam e eu ouo suas vozes sumindo: -... Bom, se os americanos mantiverem a promessa de... !- Seu grande imbecil! - digo no mesmo instante em que os 
dois desaparecem e olho para Dom, que est gargalhando silenciosamente, com o rosto enfiado no casaco.
- Deixa disso, Izzy. Foi muito engraado!
- Dom! Voc  completamente irresponsvel! - digo zangada.
   - Eu? Irresponsvel? Que bobagem! Eu vivo para a responsabilidade. Fui o monitor do leite na escola. E, alm disso, antes voc do que eu. Gerald pode me despedir 
mais facilmente do que a voc.
   - Ele j acha que eu causo problemas em demasia. Estou tentando dar um ar...
- O qu?
- No sei. De compostura? De sofisticao?
- Mas voc no  nada disso. - Dominic parece confuso.
   - Eu sei disso - sibilo entre dentes -, mas ele no sabe. E se ele comenta algo sobre o cigarro com Gerald, eu serei linchada.
   Dom pe a mo no meu brao, olha profundamente nos meus olhos e diz com uma voz compungida:
   - Fico feliz em saber que voc est tentando dar um chute nesse vcio.
   De repente comeo a rir. Samos juntos do jardim e eu esqueo completamente de perguntar a Dominic o que  que ele queria me contar.
Dominic desaparece a maior parte do fim de semana, e eu tenho que estar presente na Festa Nrdica do Gelo de Lady Boswell, que corre surpreendentemente bem. Sean 
e Oliver aparecem e brigam imediatamente, o que acaba sendo uma bno disfarada, porque ignoram um ao outro durante o resto da noite. O bar de gelo e o escorregador 
dos copos de vodca so um enorme sucesso, e o nico seno da noite toda aconteceu quando Lady Boswell conseguiu prender o brao em uma escultura de gelo. Foi ela 
quem resolveu andar pela festa com a pele  mostra quando avisamos todo mundo dos perigos da proximidade com o gelo, e no pode nos responsabilizar por isso.
   O incio da semana passa em grande velocidade, num borro que inclua Aidan, fitas, flores e caf. E, j que tenho um monte de visitas a fazer nas prximas semanas, 
consigo convencer Gerald a alugar um carro para mim.
   Volto para Pantiles na quinta-feira. Na quarta  noite fao as malas e saio de Londres no meu novo Smart, para ficar com tia Winnie antes de seguir viagem para 
Pantiles no dia seguinte. Tia Winnie vai ser a anfitri de um jogo de cartas na casa dela. Ajudo a preparar sanduches para todos, porque aparentemente  impossvel 
que eles parem para comer algo. Passo o resto da noite enfiada no meu quarto com Jameson e uma pilha de revistas Good Housekeeping.
Na manh seguinte, me enrolo em um velho roupo estampado e, quando chego ao andar de baixo, descubro que tia Winnie e Jameson j foram at a cidade comprar jornais 
e po. Encho uma xcara com ch e ando pelo jardim, sentindo o calor do sol no meu pescoo. Um latido alto me avisa de que Jameson voltou para casa, o que nem sempre 
significa que tia Winnie tambm voltou. Rodo sobre os calcanhares e vejo-o em disparada na minha direo, seguido de perto por tia Winnie, ofegante. Ela acena com 
a mo. Eu aceno de volta. Ela acena novamente. Franzo a testa.  um pouco cedo para ficar fazendo micagens, no ? Aceno de novo, de um modo meio entediado e ela 
acena de volta furiosamente. Demoro at descobrir que ela no est apenas matando o tempo.
-        Tia Winnie? - grito. - Voc est bem?
   Ela parece incapaz de falar, mas a colina depois da cidade  muito ngreme e ela est longe de ser uma atleta. Continua a agitar o jornal de modo meio alucinado. 
Finalmente chega perto de mim e, no meio de bufadas e resfolegadas, entrega o jornal.  um exemplar do Telegraph. Olho para a manchete: GREVE DO METR PARALISA A 
CIDADE.
   -        H, eu posso ir de nibus para o trabalho, tia Winnie. No 
nenhum problema.
   Ela range os dentes e balana a cabea impacientemente. Inclina o corpo para a frente, coloca uma das mos na coxa, ainda tentando recuperar o flego, e com a 
outra mo faz o nmero dois. Pelo menos  isso que eu acho que est fazendo - pode muito bem estar s sendo mal-educada.
   Vou para a pgina dois. Uma manchete de meia pgina grita: AQUISIO HOSTIL DE FBRICA POR MONKWELL FOI POR GUA ABAIXO.
-         meu Deus! - digo para tia Winnie.
   Ela faz um gesto impaciente para que eu continue lendo. E eu continuo.
Novas revelaes sensacionais foram a diferena para Simon Monkwell entre fazer um negcio ou ver tudo cair por terra. Um banco de investimentos americano no identificado 
decidiu apoiar a fbrica que Monkwell tentava adquirir, depois que algumas revelaes sobre seus negcios e sua tica pessoal levaram o banco a acreditar que vrias 
das promessas e condies da venda no seriam cumpridas. "Este  um homem", diz uma fonte prxima da famlia Monkwell, "que despeja seus inquilinos das casas onde 
criaram suas famlias. Um homem que deixa a casa de sua prpria famlia cair aos pedaos. Ele tambm dorme com a advogada que cuida dos negcios da famlia; portanto, 
no esperem muita coisa dela tambm."
   -         meu Deus - repito. Desabo sentada na grama debaixo da
macieira. Noto, distrada, que a grama ainda est mida do orvalho.
   Tia Winnie, que nesse meio-tempo conseguiu recuperar o flego, ajoelha ao meu lado.
- Tudo isso  verdade?
   - Sim, , mas o jornal faz com que parea horrvel. Mas no sei nada sobre essa advogada. Acho que tia Fio falou algo sobre ela na noite anterior. Mas o que interessa 
se ele dorme com ela ou no? No tem nada a ver com a aquisio.
   - Penso que a situao  parecida com a dos polticos e suas vidas pessoais. Pode-se dizer que no tem nada a ver com o trabalho que fazem, mas forma-se uma idia 
a respeito da integridade deles.
   - Acho que sim. No sou a maior admiradora de Simon, mas isso tudo  horrvel. Acho melhor ligar para Pantiles, isso pode afetar o baile de alguma maneira.
   Levanto do cho, decidida, e entro em casa. Meu celular toca e eu salto para atender, com o estmago embrulhado. Tenho uma sensao ruim a respeito da ligao, 
no sei por qu.  Will.
- Oi! Voc viu o jornal? - pergunto ansiosa.
   - Sim, recebemos o jornal faz uma hora. Izzy, acho que voc devia vir para c... - a voz dele soa distante e fraca.
- Estava pronta para sair.  horrvel, no ?
   -  sim. Na verdade,  pior ainda, porque Simon diz que sabe quem  o informante.
- Verdade? - respondo.
- Sim. Ele diz que  voc.
   
   
   





Capitulo 14
     Estou pronta para sair em disparada em direo ao aeroporto mais prximo, mas tia Winnie me convence a voltar a Pantiles. No sou a pessoa mais corajosa do 
mundo, e  s quando ela ameaa me arrastar at l  fora - uma ameaa que ela j cumpriu em outros tempos (na verdade eu no pesava o que peso agora, mas ela continua 
a ter uma vantagem sobre mim) - e depois olha intencionalmente para os seus tacos de golfe, que eu cedo. Ela concorda em primeiro me dar o caf-da-manh, uma pequena 
clusula que eu consegui enfiar, no ltimo minuto, no nosso acordo verbal, para ganhar algum tempo.
Tia Winnie est fritando bacon (ela parece acreditar piamente que eu preciso de, no mnimo, trs mil calorias para sair da cama de manh). O cheiro me d nsias 
de vmito. Talvez me livre dele despejando tudo discretamente na tigela de Jameson. Ela chacoalha a frigideira com vontade.
-        Ento - troveja ela, com a voz mais alta do que o detector de
fumaa que comeou a tocar junto com o locutor falando no rdio ligado -, por que diabos Simon acha que foi voc quem contou tudo aquilo para a imprensa?
Mantenho os olhos fixos na manteigueira e uma mo pousada na cabea de Jameson. Ele j ocupou seu lugar, adivinhando que alguns pedaos de bacon esto destinados 
a ele.
-        Eu no fao a mnima idia, tia Winnie - digo desanimada.
At agora esta tem sido uma manh dos diabos. No so nem oito
noras. Levanto, dou um tapa no detector de fumaa com uma colher
grande e sento novamente. - Provavelmente ele acha que quero me
vingar dele. Ns no nos despedimos muito amigavelmente.
Tia Winnie faz um som desdenhoso.
- No acredito nisso, Izzy. Deve haver uma fila enorme de pessoas que desejam se vingar dele.
- Sim, mas eu sou a nica que ele deixou entrar na casa.
Tia Winnie despeja meia tonelada de bacon entre quatro tijolos de po, larga o prato na minha frente e senta-se repentinamente, cobrindo uma de minhas mos com as 
dela.
- No foi voc, foi, querida? Voc no ligou para o Telegraph, sei l, para bater um papinho e acabou falando demais?
- Para que raios eu iria ligar para o Telegraph para bater papo?
- No sei. Por causa do seu trabalho? - diz ela com uma vozinha fina.
Dou uma encarada nela.
-        H, no. Claro que no. S fico pensando como  que Simon
pode ter tanta certeza de que foi voc.
Franzo as sobrancelhas.
- Will no disse "Simon acha que foi voc". Disse: "Ele sabe que foi voc." Voc acha que Simon vai me processar? Eu assinei um acordo de confidencialidade.
- Ele no pode process-la se no foi voc! - diz tia Winnie indignada, e volta para o fogo.
- Quer apostar? - resmungo sombria e despejo meia tonelada de bacon na tigela de Jameson.
A viagem de volta  propriedade no  agradvel. No caminho ligo para Dominic e balbucio de forma incoerente por dez minutos. Depois da incontrolvel diarria verbal, 
fao uma pausa para respirar e Dominic aproveita a oportunidade.
- Izzy, estou um pouco confuso. Por que ele acha que foi voc quem vazou as informaes?
-  EXATAMENTE essa a questo, Dom. Por qu? Porque brigamos quando ramos crianas? Ento por que me deixou trabalhar na casa se desconfiava de mim?
-        Bom, foi Monty quem deixou voc entrar na casa.
Ignoro esse pequeno detalhe.
-        Ele realmente acha que eu ficaria carregando um ressentimento desses depois de tantos anos? Nem todo mundo  to mesquinho como ele! - grito histrica. 
- E, alm disso, nunca faria nada de mal quela famlia!
A esta altura da conversa, Dom deve estar cortando as unhas ou jogando pacincia no computador.
- No se afobe, Izzy. Ele deve estar pensando nas pessoas estranhas que deixou entrar em casa nas ltimas semanas. E voc deve ser a nica.
- E voc?
- Ah, todo mundo sempre confia em mim. Eu tenho um rosto confivel. Mas voc tem um ar meio suspeito.
- Bom, sendo assim, o melhor  ele me levar j para o ptio, para me fuzilar.
- Ele provavelmente vai fazer isso. O campo tem muito dessa coisa de fazer justia com as prprias mos, no tem? Olha, Izzy, simplesmente v l e esclarea tudo. 
Provavelmente no passa de um mal-entendido.
Desligo e me sinto muito melhor, porque consegui ficar levemente zangada, uma emoo infinitamente superior ao medo tremulante. Mas  medida que passam os quilmetros, 
a coragem tambm vai ficando pelo caminho. "Volte aqui!", tenho vontade de gritar. Onde est o velho esprito guerreiro dos meus genes? Volte e tome rapidamente 
a dianteira, pelo amor de Deus.
O jeito  entrar na cova dos lees, digo para mim mesma. Mas o medo volta a tomar conta de mim, sorrateiramente. Como, raios,  que eu vou me defender? Ser que 
todos na famlia pensam como Simon? Que sou uma espcie de vira-casaca e que no sou digna de confiana? Isso seria insuportvel. Mesmo que eu conseguisse convenc-los 
de que no tive nada a ver com isso, o resto da minha estada seria horrvel. Na verdade, no poderia continuar. Gerald iria me substituir e eu teria que sair de 
Pantiles, desta vez para sempre. Por que isso  um pensamento to horrvel?
Os portes da propriedade esto fechados, mas eu grito e chamo Daniel, o zelador, que os abre para mim. Fao um percurso lento pela estrada com meu pequeno Smart 
e passo um tempinho enrolando no ptio, at que consigo me arrastar at a porta dos fundos. Passo alguns segundos praticando um "oi", para ver se ainda tenho voz. 
Quando estou prestes a bater na porta, ela se abre repentinamente e Will aparece na minha frente.  meu Deus! Ele est terrivelmente srio. Quase como se estivesse 
de luto.
- Ol, Izzy. Ouvimos voc chegar - ele diz pomposamente e olha para o outro lado, sem graa.
- Oi - sussurro, provavelmente parecendo tremendamente culpada.
Ele sai da minha frente e eu me esgueiro pela entrada. Toda a famlia est sentada ao redor da mesa da cozinha. Deus, isso j  ir um pouco longe demais, no ? 
O que aconteceu com o inocente at prova em contrrio? Jasper  o nico co na sala, e o nico que parece feliz em me ver.
Monty esboa um sorriso que no chega aos seus olhos.
- Ol, Izzy. Simon espera por voc no escritrio. O que restou dele.
- O que voc quer dizer com o que restou dele? - Todo mundo tem um ar miservel e ningum me olha nos olhos, portanto giro sobre os calcanhares e entro no corredor. 
Paro no hall de entrada e olho ao redor, surpresa. Onde est toda a moblia? Eles foram roubados? A polcia j sabe? Isso explica um pouco melhor as caras abatidas 
na cozinha. Corro na direo da porta do escritrio e entro. A sala est sem nenhuma moblia, h objetos estranhos empilhados nos cantos, como restos de uma liquidao. 
Simon est encostado na lareira, olhando para o espao vazio.
Ele me olha quando entro.
- Isabel. Voc voltou.
- Simon, que horror! Vocs foram roubados! A polcia est a caminho?
- O que voc estava pensando? - ele pergunta suavemente. Est na cara que no tem nenhuma vontade de discutir o roubo, que, para minha infelicidade, no ajuda em 
nada o humor dele.
- O que quer dizer com isso? - sussurro, ainda olhando para a sala vazia.
- Quero dizer, EM QUE DIABOS VOC ESTAVA PENSANDO? - A voz dele sobe perigosamente de tom no fim da frase. Os olhos dele cintilam ameaadores na minha direo. Ele 
est furioso.
- Eu no sei como a imprensa ficou sabendo. No tive nada a ver com...
- Ora, Isabel, no me venha com isso! Voc no pode ser to burra!
- Eu no sei o que voc quer dizer com isso. - Mordo o lbio e tento, desesperadamente, evitar o choro. Seria pattico demais.
- Estou surpreso que voc tenha a cara-de-pau de voltar aqui.
- Mas eu no fiz nada! - Uma leve entonao indignada aparece na minha voz. Graas a Deus. Posso contar sempre com a ajuda de Simon para me irritar.
- Onde voc acha que a imprensa conseguiu as informaes?
- Eu... eu no sei.
- Foi uma enorme irresponsabilidade sua no me dizer que ainda tinha ligaes com aquela firma. Suponho que estivesse absolutamente desesperada para pegar o evento. 
Como pensou que eu no iria descobrir?
- Simon, honestamente no sei sobre o que voc est falando.
- No?
- No, no sei. Fiquei to surpresa quanto voc quando li o jornal.
- E o que me diz sobre o seu ex-namorado? Embora eu duvide que seja mesmo seu namorado. Ele ficou surpreso?
- Meu ex-namorado?
-        Robert Gillingham.
Mordo o lbio.
- Rob? Mas ns terminamos o namoro h um ms. Eu contei isso na outra noite - sussurro. - Por qu? O que ele tem a ver com isso?
- Voc o viu recentemente?
- Sim, h uma semana. - Minhas palavras saem devagar enquanto meu crebro confuso tenta pr algum sentido em tudo isso.
- Voc realmente no sabe nada, sabe? - ele diz, me encarando feio. - No queria acreditar que havia sido uma coincidncia, mas foi mesmo. Fiquei pensando por que 
voc iria mencion-lo to descaradamente na minha frente. Achei que era uma maneira sutil de me mandar pastar.
-        O qu? - pergunto, perturbada. - O que  que eu no sei?
Simon se acalma visivelmente. - Voc mencionou Gillingham
na outra noite? - Aceno que sim, ainda confusa. - Bom, isso tem me incomodado, queria saber onde havia ouvido esse nome. Papai disse que soava conhecido porque os 
Gillingham so uma grande corporao, mas eu sabia que havia lido esse nome em algum lugar. E eu lembrei ontem  noite. Rob Gillingham  um diretor no-exe-cutivo 
da Wings, a fbrica que eu estava - estremeo ao ouvir o verbo no passado - tentando comprar.
- E o que isso significa, exatamente? - pergunto, comeando a ficar desconfiada.
- Isso significa que Rob Gillingham  membro da diretoria da Wings. Na verdade ele no trabalha para eles, mas participa uma vez por ms das reunies da diretoria 
por algumas horas e ganha muito bem para isso. Ele no tem o mnimo interesse que eu compre a empresa, porque a primeira coisa que costuma acontecer nas aquisies 
hostis  a demisso da diretoria. Quando voc o viu na semana passada, ele perguntou alguma coisa sobre a propriedade? Sobre mim? - ele pergunta suavemente.
Eu penso.
- Ha, acho que ele fez algumas perguntas, no me lembro.
- Voc disse que eu estava em Chicago?
- Talvez tenha dito - digo com uma vozinha fraca. - Por qu?
- Porque a Wings sabia com quais acionistas estvamos conversando.
- Mas ele parecia realmente surpreso em saber que eu estava trabalhando para voc.
- Ah, eu no acredito nisso.
- O que voc quer dizer com isso?
- Quero dizer que ele estava tentando descobrir o que voc sabia.
- Mas como ele iria saber que eu estava trabalhando aqui?
- Conhecidos em comum? Contatos no ramo? No sei! H dzias de maneiras pelas quais ele podia descobrir isso.
- Mas ele veio me ver para dizer... - minhas palavras falham. Ele veio me ver para dizer que me queria de volta,  a frase completa na minha mente. Que ele havia 
cometido um erro.
- Foi v-la para dizer o qu?
Fico vermelha que nem um pimento.
-        Nada. Ento voc acha que ele foi me ver s para tirar informaes? - O filho-da-me. Como eu pude ser to burra? Homens que terminam o namoro deixando 
um recado na secretria eletrnica no so do tipo que diz "Desculpe! No sei no que estava pensando! Afinal de contas, eu amo voc!". Mas pelo menos no fui idiota 
o suficiente para aceit-lo de volta, penso, carrancuda. Graas a Deus! O que ele teria feito, ento? Teria dormido comigo at conseguir toda a informao de que 
precisava?
- Mas eu no disse a ele nada do que foi escrito na matria de hoje. Bom, talvez tenha mencionado o despejo dos inquilinos, mas s isso!
- Pelo que me dizem os assessores de RP, os inquilinos esto bastante zangados, para dizer o mnimo. E aparentemente ficaram felizes da vida em dar com a lngua 
nos dentes.
- Mas Rob soube a respeito deles atravs de mim.  Deus, eu no tinha idia do que ele estava fazendo, achei que estava somente interessado no meu trabalho. E eu 
no contei nada de modo malicioso, nunca falei sobre a tomada hostil. Eu no faria isso, assinei o acordo de confidencialidade. - Muito bem, Izzy. Traga o assunto 
 tona... Ele provavelmente j havia esquecido disso at que voc voltou a colocar a idia na cabea dele. Por que no pendura um cartaz no pescoo, dizendo "ME 
PROCESSE, POR FAVOR"? Mudo de assunto rapidamente: - Ele fez algumas perguntas. Podemos dizer isso ao jornal? Pedir uma retratao?
- Isabel,  tudo verdade. Est certo que no estou sendo retratado da maneira mais simptica possvel, mas h um qu de verdade na matria. - Ficamos quietos. Simon 
puxa dois almofades do canto da sala e sentamos. Um deles tem porquinhos estampados. Eu acho que me lembro dele.
- Desculpe ter gritado com voc. No queria acreditar que tinha sido uma simples coincidncia. Papai disse que voc nunca faria algo assim.
- Ele est certo, eu no faria. Mas eu lamento sobre Rob. Eu realmente no sabia quais eram as intenes dele. - Ficamos quietos em um silncio desconfortvel. - 
Quando vocs descobriram sobre o roubo? - pergunto de repente.
- No foi roubo, Isabel. Os oficiais de justia levaram a moblia. O banco mandou-os aqui.
- O que? Oficiais de justia? Banco?
- Sim. Pessoalmente, incluindo a casa, somamos uma dvida de mais de meio milho.
- Oh, no! - sussurro.
Ele acena com a cabea e continua:
-        Quando eles leram nos jornais que a compra da fbrica havia
fracassado, no consegui convenc-los a adiarem a cobrana. Eles
chegaram hoje cedo. Alguns mveis so valiosos.
Isso  tudo culpa minha.
-        Isabel, voc est bem? - ele pergunta preocupado. - Voc
parece estar passando mal.
Minha resposta  um gemido. Simon se levanta, volta  pilha de coisas no canto da sala e pega algo. Ele joga um pacote no meu colo.
- Adesivos de nicotina. Pedi para papai comprar alguns para ajudar voc a largar o cigarro. O banco no quis lev-los embora. - Ele sorri e senta na minha frente.
- Por que voc no coloca um agora? - ele pergunta depois de uma pausa. - Voc parece estar precisando de um cigarro.
Sim, claro. Sendo uma no-fumante, eu realmente preciso de um cigarro. Uma bebida tambm no iria mal. Tiro dois adesivos com mos trmulas e colo um em cada joelho. 
No entendo como ele pode estar to calmo.
- Como  que vocs devem tanto dinheiro ao banco? No podem hipotecar a casa ou fazer outra coisa? - pergunto.
- A casa j foi hipotecada. Vrias vezes. E se no conseguirmos arrumar um modo de fazer os pagamentos, o banco ir tom-la de ns.
Ele v minha expresso assustada e explica melhor:
-        Isabel, quando minha me morreu eu estava na universidade.
Estava no meio do segundo ano e me divertindo muito. A morte dela
foi inesperada, um ataque cardaco, e voltei imediatamente para
casa. Estava arrasado, todos estvamos, e papai no quis mais administrar Pantiles, ele simplesmente largou mo de tudo. Achei que poderamos contratar um administrador 
por alguns anos, at eu ter minar a universidade, e ento assumiria o cargo. - Ele faz uma pausa, porque algum bate na porta. A Sra. Delaney traz uma xcara de 
caf. Para Simon, nenhuma para mim. Espero que ela tenha tido o bom senso de botar uma dose de conhaque nele.
- Simon, venha at a cozinha. - H um carinho verdadeiro na voz dela.
- J vou, Sra. D. - Ele sorri para ela. - Eles no quiseram a moblia da cozinha.  claro que a Sra. Delaney a estragou durante rodos esses anos.
- E ainda bem - ela diz com um tom particularmente severo, sem olhar para nenhum de ns. - Onde eu iria cozinhar?
- Continue - insisto assim que ela sai, porque preciso mesmo ouvir tudo. Tenho que saber at onde vo as coisas. Simon me d a xcara de caf dele. Ao fazer isso, 
a mo dele cobre a minha e eu me encolho toda, sem pensar. Nossos olhos se encontram e ele parece sentido.
- Vamos, continue - digo depressa, para tentar disfarar o mal-estar -, o que foi que aconteceu?
- Bom, quando fui ver as contas da casa no acreditei nos meus olhos. Ainda bem que eu estava cursando economia na faculdade ou rodos ns teramos sido expulsos 
daqui h muitos anos. Descobri que, em vez da fazenda estar gerando uma boa quantia de dinheiro, o suficiente para sustentar a todos, ela estava perdendo dinheiro, 
e muito. A casa foi hipotecada e hipotecada de novo. Estouramos o limite do cheque especial e nunca mais nos recuperamos. Papai nunca foi um homem de negcios e 
sempre foi um filantropo. Mas no foi realmente culpa dele. Nos ltimos cinqenta anos houve um grande declnio na agricultura. E os surtos de febre aftosa tambm 
no ajudaram nada. Para dizer a verdade, ajudaram foi a empurrar a fazenda para a bancarrota muito mais rpido.
Eu aceno com a cabea. Li a respeito, claro, vi reportagens na TV, mas nunca tinha visto mesmo como eram as coisas.
-        A maior parte de nossas terras  produtiva - continua Simon.
- Arrendamos boa parte delas, mas, quando as coisas ficaram feias,
papai, sendo o homem que , abaixou o valor do arrendamento. Ele
rambm nunca aumentou o aluguel das casas, nem uma vez em vinte
anos. A ltima poro de nossos ganhos, embora marginal, vem da
atividade florestal, e esta tambm sofreu um declnio. - Lembrei da
serraria abandonada que vi no passeio que fiz com Will. - Misture
nado e ficamos, virtualmente, sem renda. Quando percebi isso, soube
que no poderia voltar para a universidade.
Pensei na minha despreocupada existncia quando estava na universidade e imaginei o que teria feito se isso tivesse acontecido comigo. No teria sido capaz de ler 
um balano de lucros e perdas mesmo se o tivessem trazido para mim em uma bandeja.
- Voc no podia vender tudo?
- Pensei nisso. Mas sei que quebraria o corao de papai e no poderia fazer isso logo depois dele ter perdido mame. E havia outras pessoas a serem levadas em conta, 
papai abalado pelo luto, Will prestes a entrar em Cirencester e tia Fio que veio morar conosco. Todos dependiam da propriedade. Alm disso, achei que poderia mudar 
as coisas. No contei a ningum como a situao estava mesmo ruim. Tive que demitir todos os funcionrios, o que me transformou em uma figura bastante detestada 
na cidade, e depois descobrir como manter as coisas funcionando. No podia fazer nada a curto prazo com relao s terras da fazenda e  floresta, mas tentei arrendar 
as casas. O problema  que todas estavam em pssimo estado de conservao. Conseguimos restaurar algumas, mas tive que despejar os inquilinos quando soube que eles 
no estavam dispostos a pagar o valor correto de mercado, que , claro, quase trs vezes mais do que pagam agora. Quis diversificar. Fazer caadas ao faiso, abrir 
a casa ao pblico, promover concertos ao ar livre. Mas quando fiz as contas, descobri que todas essas atividades exigiam uma grande soma de dinheiro para ser implementadas.
- E eventos como este baile de caridade? Voc est ganhando algum dinheiro com isso?
- Quase nada, Isabel. Alm disso, se voc quiser fazer esse tipo de eventos regularmente, precisa investir em marketing, que custa mais dinheiro, e os eventos no 
caem no seu colo. E eu no queria ningum olhando a casa muito de perto, para que no percebessem quanto dinheiro  necessrio gastar nela.
- Eu simplesmente achei que voc tinha abandonado a casa.
- Os custos de manuteno so astronmicos. Portanto, decidi fazer algum dinheiro. Eu tinha jeito para negcios e pensei que se pudesse ganhar algumas centenas de 
milhares talvez conseguisse o suficiente para recomear. No tinha nada a perder e comecei a correr riscos. As coisas correram bem, eu descobri que tinha talento 
para F&A e...
- O que  isso? - pergunto, desconfiada. Tem um som meio pervertido.
- Fuses e aquisies. Tomadas hostis e atividades do gnero. Pegar uma companhia com problemas, dividi-la e vender as partes. Voc v, Isabel, tudo era uma fachada 
cuidadosamente montada. Os bancos de investimento ficam felizes em investir seu dinheiro em mim depois de visitarem Panties. Eu acenei com a gravata da universidade 
e o braso de Cambridge, e usei o dinheiro deles para assumir o controle de empresas. E claro que com um belo lucro para todos.
- Voc no pode us-los para ajudar Panties? Us-los para ajudar voc a diversificar?
- Para isso eles iriam querer analisar as contas da casa. E ficariam sabendo dos nossos graves problemas. E no iriam mais fazer nenhum tipo de negcio conosco. 
As pessoas presumem que se voc tem muitos bens, tem dinheiro. Tivemos alguma sorte, Will voltou de suas viagens e assumiu o cargo de administrador da fazenda. A 
Sra. Delaney apareceu e ficou perfeitamente feliz em morar aqui e ganhar um salrio pequeno. Ela mantm os mveis em perfeitas condies enquanto o teto est quase 
desabando sobre as nossas cabeas. Tivemos que fechar algumas alas da casa, mas ningum percebeu por qu. E eu fao questo de manter os jardins impecveis. O velho 
Fred cuida deles em troca de moradia em uma das casas da propriedade. Eu tenho uma BMW e alguns ternos elegantes, os truques de praxe de um homem de negcios bem-sucedido. 
No existem sinais externos de que algo esteja errado.
- Eu no fazia idia - sussurro.
- No poderia fazer. Ningum faz.
- Mas voc fez outras tomadas hostis. Li sobre elas nos jornais.
- Todo o dinheiro que eu fiz investi na tomada seguinte, usando um pouco aqui e ali para fazer algumas modificaes em Panties. Consertar algumas casas, esse tipo 
de coisa. Esta ia ser a minha ltima cartada empresarial. Investi cada centavo da empresa nessa jogada. Teramos obtido dinheiro suficiente para sanar as dvidas, 
comprar a casa de volta e investir no futuro.
Ele olha para o cho. Sinto-me mal com todas essas informaes. Ele levanta os olhos e interpreta errado a minha expresso.
- No fique com um ar to preocupado, Isabel, no vou processar voc. Ou contar para a sua empresa.
- No estou preocupada com isso. - Oh, no. Estou preocupada em saber como vou sobreviver sob o peso de toda esta culpa. Algum ir me encontrar, achatada como uma 
panqueca, que nem um personagem de desenho animado. Um pensamento completamente egosta, claro.
- Mas os jornais - digo. - Eles sempre disseram que voc  um sucesso, quanto dinheiro voc tinha...
- Ahh, os jornais. Outra fachada construda cuidadosamente. Quando eles se enganaram a meu respeito na primeira vez, percebi que isso facilitava a minha vida. Cada 
negociao era menos problemtica. Era um pouco como os reis antigos. Eles faziam todo o possvel para assustar os seus rivais e muitas vezes percebiam que tinham 
ganho, mesmo antes de qualquer batalha. Minha reputao chegava antes de mim. As pessoas viravam-se do avesso para me dar dinheiro. Ento as histrias, cuidadosamente 
estudadas, foram sendo lanadas e percebi que assim que eu entrava numa reunio de diretoria j me acenavam com bandeiras brancas.
- Ento a aquisio est realmente arruinada?
- Est, se os acionistas americanos forem realmente apoiar a Wings. Ns precisamos das aes deles para comprar a empresa. Estou esperando um telefonema do responsvel 
pelo grupo.
- O que voc vai dizer?
- No sei. Mas preciso convenc-los de que vender as aes ainda  um bom negcio. Se eles pensarem, por um segundo, que no vou cumprir com a minha parte no acordo, 
vo apoiar a Wings e as promessas deles de um futuro melhor. - Ele levanta, vai at a janela e olha para fora. - A imprensa vai chegar a qualquer momento, passaram 
a manh toda telefonando. Vo descobrir sobre os oficiais de justia e isso ser manchete em todos os jornais de amanh, o que no vai me ajudar em nada. Vai parecer 
que no posso comprar uma ao, que dir meio milho delas, no importa o que meus investidores digam. Voc no faz idia do quanto os oficiais de justia assustam 
as pessoas.
Na verdade, no fico nada surpresa. A simples meno do nome faz com que eu trema nas bases.
Simon deixa de olhar pela janela e sorri para mim. Como  que ele pode estar assim calmo quando o mundo dele est desabando?
-        De certa maneira foi minha culpa - ele diz com voz cansada.
-        Estava jogando um jogo perigoso com a imprensa. Fomos muito
cuidadosos com o que divulgvamos, mas era apenas uma questo
de tempo antes que eles comeassem a revirar as latas de lixo. Rob
Gilingham deu o que eles queriam em uma bandeja. Pena que tenha
sido agora.  tudo.
- Voc pode manter as despesas da casa enquanto organiza outra aquisio? - pergunto, tentando desesperadamente encontrar uma soluo.
- Levam-se anos para estabelecer uma; para comear, voc precisa de financiamento. Alm disso, joguei todo o nosso dinheiro nessa empreitada. E se quase tudo se 
baseia na reputao, qual ser a minha depois de tudo isso? Os oficiais de justia retiraram todos os mveis da minha casa. - Ele d um sorriso ainda mais desanimado.
-        Isabel, no  seu problema.
No, espertinho. No vou para lugar algum antes de me sentir melhor a respeito disso. E isso no vai acontecer at que eu tenha feito algo para ajudar. Por um instante 
luto contra a ironia de que desejo realmente ajudar Simon, mas tenho que admitir que ele no est se comportando como eu imaginei.
- Simon, eu cresci nesta casa. Pode no ter sido sempre o melhor perodo da minha vida - ele faz a gentileza de parecer incomodado com a referncia -, mas ainda 
me importo com o que acontece com vocs. E parte disto  minha culpa, por causa de Rob.
- Ele teria conseguido aquelas informaes de uma maneira ou de outra, Izzy. - Esta  a primeira vez, desde que cheguei, que ele me chama assim. - Com ou sem sua 
ajuda.
- Eu tornei as coisas mais fceis para ele - digo extremamente consternada.
Bom, vamos para a cozinha. Por um lado,  um alvio ter contado tudo para a famlia. Nunca quis preocup-los contando como as coisas estavam ruins. Coitadinhos, 
provavelmente pensaram que eu estava sendo po-duro. Nada de lareiras acesas durante o dia, exigindo que os ces fossem alimentados com rao em vez de galinhas 
criadas organicamente. S Will sabia de tudo. - Ele d um sorriso forado.
-        Will sabia?
   Simon olha para mim, intrigado. - Sim, ele adivinhou.  claro que tentei minimizar as coisas, mas ele  o administrador da fazenda, Izzy. Como  que no iria 
saber?
- Mas ele estava me dizendo como...
- Como o qu?
- Nada.
   Observo Simon sair da sala. Will sabia e mesmo assim me fez acreditar que Simon era to ruim como diziam. Interessante.
   Acompanho Simon, mas fao uma pausa pensativa no hall de entrada e olho a parede acima da lareira. Sei exatamente o que falta. Um quadro. Uma pintura muito valiosa. 
 claro que ela teria sido uma das primeiras coisas a serem vendidas. Entro na cozinha, onde o ambiente pesado de velrio continua.
   - Quer ir pescar, Harry? - pergunta Simon. Harry acena com a cabea, entusiasmado. A atmosfera na cozinha est um pouco opressiva, para dizer o mnimo. Ele salta 
da mesa e vai at a despensa pegar o equipamento. Espero que os oficiais de justia no tenham tirado tudo.
- E aquele telefonema, Simon? - pergunto.
   - Estou com o celular. - Ele bate a mo no bolso. - Eles ainda podem falar comigo.
   E, com esta frase, ele e Harry abrem  porta dos fundos e saem em direo ao sol.





CAPTULO 15



Sobramos ns na cozinha. - Izzy, o que diabos voc est vestindo? - pergunta tia Flo. A casa da famlia dela est prestes a ser tomada pelo banco e ela ainda tem 
vontade de comentar a minha falta de estilo.
Olho para minhas roupas. De manh cedo, pensando mais na catstrofe prestes a desabar sobre a minha cabea do que nas minhas roupas, consegui vestir-me em uma confuso 
completa. De uma maneira muito inteligente, juntei todas as peas de roupa que eu tenho e que no combinam entre si. Uma minissaia estilosa, acompanhada por uma 
camiseta de rgbi, que eu no acho que seja minha, e sandlias de salto alto. 
-- Sim. Bom. Estava pensando em outras coisas - murmuro.
Pessoalmente, gostaria de me retirar para um local privado e lamber minhas feridas, mas o resto da famlia est determinando a extrair todas as informaes possveis 
de mim. Felizmente, os oficiais de justia deixaram a maior parte dos mveis e eletrodomsticos da cozinha. Monty me convida a sentar e eu desabo em uma cadeira. 
-- Simon achou que voc ainda estava namorando Rob Gillingham? - arrisca Monty.
-- Sim, mas h um ms ns terminamos mesmo o namoro. Mas encontrei com o Rob outra noite e ele fez algumas perguntas sobre Simon. Achei que ele estava simplesmente 
demonstrando interesse.
-- Viram? - diz tia Flo em tom triunfante. - Eu disse a Simon que tudo no passava de um mal-entendido! Mas ele no parava de resmungar sobre uma coisa qualquer 
que aconteceu quando vocs eram crianas!
-- Eu no contei para Rob nenhuma das coisas que foram publicadas - acrescento depressa. - Simon acha que Rob conversou com os inquilinos despejados e depois contou 
para a imprensa.
H uma pequena pausa enquanto todo mundo digere essa informao.
-- Vou fazer um caf para voc. Voc parece estar exausta - diz a Sra. Delaney, levantando e indo em direo  cafeteira. As pessoas podem ser gentis.
-- Obrigada. - murmuro.
-- Eu me sinto culpado - diz Monty, quebrando o silncio. A Sra. Delaney coloca um bule de caf fresco na mesa e uma xcara na minha frente. - Se, para comear, 
Pantiles no estivesse em to ms condies, Simon no teria se envolvido nessa tomada hostil. Eu nunca fui um bom homem de negcios.
-- Voc no tinha como saber que a produtividade iria cair to dramaticamente, meu bem. E s estava tentando ser bom para com os inquilinos, deixando que ficassem 
nas casas sem nenhum reajuste - diz Flo, colocando uma mo sobre a dele.
-- Eu sempre achei que era responsvel pelo vilarejo.
-- Deixa disso, papai! Nenhum de ns sabia das ms condies em que estvamos - diz Will.
Percebo que estou olhando par ele, espantada. Imediatamente, ele fica vermelho. Ele sabe que eu sei. E eu sei que ele sabe que eu sei. E ele sabe que eu sei etc., 
etc. De repente, no vejo mais um homem atraente, vejo um menininho irritado com seu irmo.
-- Vocs ainda tem a casa - digo esperanosa, tentando disfarar o embarao dele.
-- Por quanto tempo? A casa est praticamente desabando sobre as nossas cabeas e ainda temos os pagamentos da hipoteca para honrar.
-- Como vocs tm pago at agora?
-- Com o lucro que Simon obtm, claro. E parece que tudo vai acabar agora.
Mordo o lbio e sinto-me pssima. Flo nota meu ar desanimado e se inclina para dar umas palmadinhas no meu joelho.
-- Vocs acham que ainda vai haver baile de caridade? - pergunto.
-- No podemos deixa-los outra vez sem alternativas. E agora precisamos mesmo do dinheiro deles! - diz Monty. - Tem alguma reunio hoje, Izzy?
-- A tarde, mas eu vou cancelar todas.
Ouvimos uma batida forte na porta e todos damos um pulo. Dominic enfia a cabea atravs dela. 
-- Posso entrar? Ah, vocs, pessoas do campo, so mesmo surpreendentes, as portas nunca esto trancadas. Esto planejando fuzilar Izzy ao amanhecer?
-- Deus do cu, Dom! - digo, correndo na direo dele e o abraando. - Nunca fiquei to feliz em ver voc em toda a minha vida!
-- E eu nem tenho comida comigo! Impressionante!
-- O que est fazendo aqui!
-- Pedi demisso! Sa de l e vim direto para c!
-- Ah, Dom, voc no deveria ter feito isso!
-- No se preocupe, a manh estava mesmo muito chata antes de voc telefonar. Finalmente voc conseguiu fazer com que eu tomasse uma atitude! Alm, disso, achei 
que poderia precisar de mim. - Ele enfia o brao dele no meu. - Na verdade, eu me sinto maravilhosamente bem! - declara. - Ele  olha para os rostos tristonhos na 
frente dele. - Bom,  claro que isso no inclui a situao toda sobre a aquisio. Isso  [i]horrvel[/i], simplesmente horrvel. - Ele sorri e tenta no parecer 
muito maravilhado com a vida em geral. Ele  um ingnuo.
Na verdade, todos parecem muito felizes em v-lo. Monty e Will apertam o brao dele, e tia Flo o cumprimenta com um beijo no rosto.
-- Feche a porta, meu bem - diz tia Flo. - As pessoa vivem deixando-a entreaberta, e ontem o carteiro acabou caindo dentro da cozinha. Os ces ficaram to surpresos 
que no sabiam o que fazer com ele.
-- Ento, o que aconteceu?-pergunta Dom.
Explico rapidamente sobre a tomada hostil e Rob. Dom fica absolutamente indignado.
-- Bom, agora  que estou mesmo muito feliz por ter pedido demisso! No poderia mais trabalhar para ele! Que parasita!
-- Voc trabalhava para ele? - pergunta Monty, confuso.
-- S no departamento de reivindicaes. Era um salrio para pagar as despesas. Na verdade, quero escrever um romance.
-- Srio? Sobre o qu? - pergunta tia Flo, tagarelando.
-- Voc no comentou com Rob que eu estava trabalhando aqui, comentou? - digo de repente, ignorando Flo.
Dom fica um pouco perturbado.
-- Bom, no diretamente. Mas posso ter mencionada algo no escritrio. Sorte minha que ele no sabia que eu tambm estava trabalhando aqui. S Deus sabe o que eu 
iria contar!
Ficamos quietos. Finalmente, eu sussurro.
-- O que vocs acham que Simon vai fazer?
Olhamos uns para os outros com caras de bobos. Peo licenas, pego minha mala que ainda est ao lado da porta e vou para o meu quarto. Fico ruminando um pouco, enquanto 
desfao a mala, pinto as unhas por falta do que fazer e penso. Rob estava me usando para obter informaes. Ele estava me usando. Repito essa frase vrias e vrias 
vezes. Ele estava me usando para manter seu cargo em uma diretoria. Eu sabia que ele era ambicioso, mas no sabia o quanto.
Rob e seus comparsas devem estar comemorando neste exato momento. Consigo imagina-lo abrindo uma champanhe, com um sorriso no rosto. Ele vai contar vantagem sobre 
como derrubou Simon Monkwell quase que sozinho. Quase, mas no completamente, porque eu fiz minha parte no jogo.
Deito na cama e olho o quarto. Minha bolsa est do lado cama e eu a puxo na minha direo em um impulso. Pego a carteira e vejo uma foto de Rob que ainda no tive 
coragem de jogar fora.  uma foto que eu roubei do apartamento dele - ele a detestava e a jogou fora, mas eu a retirei cuidadosamente da lixeira enquanto ele estava 
no banheiro. E  nesse momento que Dominic aparece.
-- Ol, meu pequeno raio de sol. A famlia estava me contando sobre os oficiais de justia! Ento as coisas so piores do que pareciam. Se  que isso  possvel. 
- Ele senta na cama. - Como voc est se sentido? - e faz uma careta indicando que achar a resposta  "no muito bem".
- No muito bem.
-- Que parte da histria a incomoda? O seu ex-namorado levar voc para a cama, para obter informaes, ou te-lo ajudado a derrubar um imprio? - Sabe, h momentos 
em que Dominic no  muito engraado.
-- Um pouco das duas.
--  como ter azar em dobro, no ?
-- Simon foi mais gentil do que eu esperava quando expliquei tudo. Eu tinha certeza de que ele iria ficar furioso e me despedir.
-- Bom, ele poderia ter feito isso, Voc acha que Rob pensou nisso? Que voc poderia mesmo perder seu emprego? - Isto no  bem uma pergunta, ele s est tentando 
aumentar a minha raiva contra Rob.
Ele olha para a foto.
-- Me d a foto, Izzy. Me d a foto.
-- O que voc vai fazer com ela?
-- Vou queim-la. No vou deixar que voc fique babando por causa de um homem abominvel como este.
-- No estou babando por ele. Estou s tentando entender tudo isso - digo emburrada.
-- Voc deveria estar furiosa!
-- Estou um pouco - digo zangada, sentando-me de repente e girando as pernas para ficar ao lado de Dom.
-- Um pouco?-ruge Dom. - Voc deveria estar querendo esquarteja-lo! Meu Deus, eu quero esquarteja-lo! Se no tivesse acabado de pedir demisso daquela porcaria de 
empresa, estaria fazendo isso agora! E espero que voc o deixe fazer uma coisa dessas e ficar impune.
Na verdade, era exatamente isso o que eu planejava fazer.
-- No - digo com uma vozinha fraca, mudando novamente de posio.
-- Voc no vai deixar esse cara se safar, vai? Onde est aquela manifestao do velho provrbio "no h fria no inferno que se compare a uma mulher furiosa"? H?
-- O que eu poderia fazer?
- No sei! Pr a cabea de um cavalo na cama dele, grafitar o carro esportivo dele, qualquer coisa!
-- No quero fazer nada disso. Embora eu ache que voc tem razo, ele no deveria se safar desta impunemente - digo, sentindo-me ligeiramente mais irritada.
-- Bom, vamos pensar a respeito. H mais de uma maneira de se lavar uma alface, como dizemos no mundo do catering. - Ns no dizemos nada disso. - Vingana  um 
prato que deve ser servido frio. Pense em uma vickyssoise.
-- OK, vamos queimar a foto! - digo com um certo entusiasmo. Afinal de contas, isto  muito mais divertido do que ficar toda macambzia.
-- Boa menina! - Dom d um salto, atravessa o quarto e volta com uma lixeira de metal. Ele senta com ela encaixada entre os joelhos. - OK! Voc queima! - Ele me 
d a foto e o seu isqueiro.
-- OK. - Concordo, com um sorriso enorme no meu rosto. Ponho fogo no canto inferior e olho com prazer enquanto as chamas comeam a lamber o papel, enchendo o rosto 
de Rob de bolhas, antes que as chamas consumam tudo. E jogo a foto na lixeira, feliz da vida.
Infelizmente, os algodes embebidos com acetona que usei para remover o esmalte das unhas pegam fogo num estalar de dedos.
-- Ai meu Deus! - diz Dom, olhando para a nossa verso em miniatura de Inferno na Torre e deixa a lixeira cair.
-- Ai meu Deus! - repito.
-- Rpido, Izzy!  Ajude-me!
Pulo e procuro alguma coisa  minha volta para apagar as chamas. Corro freneticamente de um lado para outro, mas no vejo nem um pano para abafar as chamas.
-- Izzy! Depressa, depressa! - grita Dom, com os olhos transfigurados com o espetculo.
Pego trs calcinhas midas na minha bolsinha, lavadas pouco antes de sair de casa, e volto correndo. Enquanto penso qual delas prefiro perder para sempre, Dom agarra 
todas e as jogas nas chamas. Olho resignada, enquanto minhas melhores calcinhas de grife apagam as chamas com sucesso.
-- Graas a Deus voc tem uma bunda grande, Izzy - diz Dominic, feliz da vida.
Esse no  mesmo o meu dia.



Depois de uma sesso gigantesca de birra, concordo finalmente em descer, porque, como disse Dom,  a nica maneira de tomar uma bebida. Levo o celular comigo. Um 
pouco de coragem alcolica pode me dar a fora que preciso para ligar o maldito aparelho e enfrentar as ligaes que, tenho certeza, Gerald fez para mim.  claro 
que ele leu os jornais matutinos e vai querer saber quais as implicaes do fracasso da aquisio.
Dom segura a porta para mim e descemos juntos para a cozinha.
-- Acho melhor no contarmos nada sobre o pequeno incndio no seu quarto, Izzy - diz ele. - A famlia pode comear a achar que voc no gosta muito deles se descobrirem 
que acabou de tentar incendiar a casa depois de ter estragado sozinha a aquisio. Talvez devssemos colocar sininhos nos seus tornozelos para avisar as pessoas 
que voc est se aproximando.
Eu o ignoro e ligo para a associao de caridade em vez de cancelar o encontro. Digo a Rose que vou marcar uma nova reunio assim que as coisas ficarem mais claras, 
garanto que o baile vai ser realizado como foi planejado e desligo antes que ela possa fazer mais perguntas. Desligo novamente o celular, ainda no sou capaz de 
enfrentar Gerald, e sigo Dominic em direo  cozinha.
Toda a famlia, exceto Harry e Simon que, imagino, ainda esto pescando, est na mesma posio em que os deixamos 00 afundados nas cadeiras ao redor da mesa da cozinha.
-- Voc e Dominic vo voltar para Londres?-pergunta tia Flo assim que colocamos os ps na cozinha.  bvio que a pergunta estava na cabea dela. O resto da famlia 
olha ansioso para ns. - Onde voc vai fazer as reunies para o baile?
-- Vamos dar um jeito. Posso encontrar Rode e Mary em Bury St. Edmunds amanh. Mas se Simon no nos quiser aqui, acho que vamos voltar e tentar arrumar as coisas 
a partir do escritrio em Londres. Caso contrrio, gostaramos de ficar e ajudar. De pudermos -- digo sem jeito. Dom olha nos meus olhos e acena com a cabea, concordando 
comigo. Provavelmente eu no conseguiria me livrar dele, mesmo se quisesse, ele parece gostar muito dos Monkwell.
Assim que termino minha frase, a porta se abre e Simon e Harry entram com um ar meio desarrumado. Todos nos endireitamos.
-- Pensei em uma coisa - anuncia Simon. - Pode no funcionar, mas vale a pena tentar. Quem quer um drinque? - O homem  um gnio. Duas frases ganhadores do Oscar 
em um s flego.
A dinmica do grupo muda e fica quase festiva. Monty d um pulo, esfregando as mos, e corre para buscar seu usque envelhecido vinte anos do seu esconderijo secreto.
Eu ajudo a Sra. Delaney a tirar alguns copos do armrio.
-- O que voc fez nos joelhos, Izzy? - pergunta Harry, apontando para os meus adesivos de nicotina. - Eu poderia ter feito os curativos para voc. Tenho uma medalha 
por primeiros socorros.
Fico vermelha e olho para os adesivos feiosos. Tinha me esquecido completamente deles. Estou quase dizendo que so band-ais quando Simon diz:
-- So adesivos de nicotina. Izzy est tentando deixar de fumar.
A famlia me olha surpresa.
-- Voc fumava, Izzy? - pergunta Will.
Abro a boca para responder, mas Dominic  mais rpido do que eu:
-- Como uma chamin - ele entoa. Minhas mos contraem-se involuntariamente ao redor do corpo. Tenho vontade de atira-lo na cabea dele.
Monty despeja uma dose de seu usque em cada copo. Viro o meu em uma golada s e me sinto imediatamente melhor, embora meus olhos comecem a lacrimejar. Acho que 
estes adesivos podem estar tendo um efeito benfico em mim, sinto-me positivamente nas nuvens.
Todos saboreamos o usque em silncio, at que Monty pergunta:
-- Ento, o que foi que passou pela sua cabea, Simon?
Todos olhamos ansiosamente para Simon.
-- Bom, no garanto que isto v funcionar. Mas convidei os acionistas americanos para virem nos visitar. Para ver se conseguimos salvar a aquisio.
-- Aqui? - ecoa Monty.
-- Mas, e os mveis...? - diz tia Flo devagarinho.
-- Bom,  a que vocs entram na histria. Precisamos mobiliar novamente a casa at amanh.
-- Amanh?
-- Sim. Vou pedir  nossa agncia de RP que convide a imprensa para uma visita, amanh de manh. Para que possam vem com seus prprios olhos que nenhum oficial de 
justia esteve aqui. Os americanos chegam na hora do almoo. - Ele olha firme para todos ns. 
-- Mas isso  impossvel - diz Will.
-- E  exatamente por isso que vai funcionar. Quanto mais depressa pudermos virar a mesa, mais difcil ser para algum suspeitar de ns. Se a imprensa vir a casa 
mobiliada, ningum vai se atrever a publicar que os oficiais de justia estiveram aqui, mesmo que os habitantes da cidade digam o contrrio. Eles no vo acreditar 
que conseguiramos mobiliar novamente a casa to depressa. A chegada dos americanos vai abafar ainda mais os rumores, mesmo que estejam circulando na cabea de toda 
a gente, e podemos, ao mesmo tempo, tentar salvar a aquisio. Alguma pergunta? - Ele olha ao redor da cozinha.
Tenho uma dzia de perguntas para fazer, mas no sinto a mnima vontade de faze-las, j que fui eu quem botou todo mundo nessa confuso.  uma tarefa interessante, 
considerando-se que a nossa equipe  formada por dois velhotes aposentados, um escoteiro e uma governanta implicante. E Dom, que, na melhor das hipteses,  um risco. 
Acho que todos esto completamente abobados, o que Simon parece considerar como um sinal de aceitao.
-- Excelente! Tenho milhes de coisas a fazer! J chamei minha equipe e eles esto a caminho, vindo de Londres. Tm certeza de que querem ficar, Izzy, Dominic? - 
pergunta Simon antes de sair da cozinha.
Dominic parece completamente encantado com o plano, portanto Simon volta sua ateno para mim. E eu surpreendo a mim mesma ao fazer um firme aceno com a cabea. 
Ele me d um meio sorriso, acena com a cabea e desaparece, deixando o resto de ns com a tarefa de voltar a mobiliar a casa. Procuro papel e caneta, na esperana 
de ser completamente invadida por idias.
-- Certo! - diz Monty. - Precisamos da moblia de volta!
-- Certo! - repete todo mundo em coro.
-- Certo! - diz Monty. Todos nos entreolhamos por um momento. Comeo a rabiscar num canto da minha folha de papel. O silncio continua e eu posso sentir o entusiasmo 
do grupo esvaziando como um pneu furado.
-- Acho que no vamos ser capaz de pegar de volta a moblia que est com os oficias de justia - arrisco. - Eles no vo liber-la antes que Simon pague ao banco.
-- Bom, ns s precisamos mobiliar a entrada, a sala de jantar e a sala de estar para as visitas. No temos que nos preocupar com a biblioteca ou com o resto das 
salas.
-- E os quartos esto OK, no esto? Eles no levaram nada dos quartos?
-- No, os quartos esto perfeitos.
-- E se alugarmos os mveis?
Monty bate animado na mesa.
-- Sim! Vamos alugar! Izz, v pegar as Pginas Amarelas!
Corro at o escritrio, abro a porta silenciosamente e encontro Simon conversando animadamente ao telefone. Tiro as Pginas Amarelas da pilha de despojos no canto 
da sala e corro de volta para a cozinha. Procuramos anncios de aluguel de mveis, descartamos alguns porque estamos procurando por moblia "antiga" e encontramos 
um anncio discreto de uma loja chamada Merritt and Son que promete ter antiguidades de qualidade.
Monty disca o nmero enquanto todos ficamos sentados ao redor, esperanosos. Ele explica que foi deixado na mo por outra empresa e que precisa mobiliar trs salas 
at amanh. Pelas vrias respostas, adivinhamos que isso no  problema e que a empresa pode fazer uma entrega amanh se quisermos. Olhamos uns para os outros aliviados, 
e eu quase me encosto no espaldar da cadeira. Mas, quando Monty comea a explica que temos uma caminhonete e que vamos retirar a moblia ns mesmos, o tom da conversa 
muda. Todos franzimos a testa e Monty diz que volta a telefonar e desliga.
-- Eles no nos deixam retirar a moblia porque precisam ver para onde ela vai. Suponho que tm medo de que possamos dar identidades falsas e fugir com os mveis. 
Alm disso, a moblia fica sem o seguro se ns mesmos a retirarmos.
-- Eles no podem entreg-la? -- Pergunta tia Flo.
-- O problema  que no queremos que eles vejam para onde vai a moblia, para no corrermos o risco deles falarem com a imprensa. E se os moradores da cidade ou 
jornalistas virem caminhonetes na estrada, vo somar dois mais dois.
-- No teramos o mesmo problema se fssemos busc-la?
-- Pensei em alugar uma caminhonete e pegar uma estrada vicinal para chegar aqui, evitando completamente a cidade. Pode-se vir atravs dos bosques.
-- O pessoal do aluguel de moblia no pode vir atravs dos bosques?
-- Assim ainda ficamos com o problema deles falarem com a imprensa. E vai parecer muito suspeito se pedirmos para virem pelos bosques. Eles saberiam que esto vindo 
para Pantiles.
Sentamos abatidos e pensamos em silncio. Ningum diz em voz alta o todos pensam: vamos conseguir fazer isso?
















CAPITULO 16
Por volta das trs da tarde (parece mais ser meia-noite), Sam aparece para perguntar se podemos levar algo para a equipe que cuida da aquisio, que est entrincheirada 
no escritrio desde que chegaram, horas atrs. Comeo a preparar enormes quantidades de caf, e a Sra. Delaney encontra alguns biscoitos e metade de um bolo. Eu 
levo a bandeja para o escritrio. Empurro a porta com meu traseiro e vejo um grupo de advogados, contadores e Deus sabe quem mais sentado no cho, com expresses 
agoniadas nos rostos. No quero nem saber o que Simon disse para explicar a ausncia de mveis, mas espero fervorosamente que ele tenha deixado meu nome fora da 
explicao.
- Obrigado, Izzy - diz Simon, olhando e acenando para mim.
- Vocs vo precisar comer alguma coisa, querem que eu providencie algo?
-        Isso ser timo, Izzy. A Sra. D. tem umas coisas por a.
Aceno com a cabea e escapo feliz da vida.
Aproveito uma pausa sobre o problema da reposio da moblia e ligo para Gerald. Acesso a minha caixa de mensagens de voz e descubro que ele est realmente tentando 
falar comigo. So sete mensagens, a ltima falando ameaadoramente sobre seguro-desemprego e linchamento em praa pblica. Dou uma boa esfregada nos meus adesivos 
de nicotina e ligo para o escritrio com uma mo levemente trmula. Stephanie nem faz uma pausa para me dizer o tamanho da confuso em que estou metida. Ela simplesmente 
murmura: "Ai, merda" e passa a ligao.
- Onde diabos voc se meteu? Preciso afastar o telefone do ouvido.
- H, calma, Gerald...
- J liguei no sei quantas vezes.
- Bom, s liguei o celular agora...
- Ento voc descobriu onde fica o boto, foi? Que milagre.
- Estivemos muito ocupados aqui.
- Voc no acha que poderia, uma vez na vida, ter demonstrado um pouco de inteligncia e ter me telefonado?
- Bom, sem dvida, ao ler os jornais, voc deveria saber que h muita coisa acontecendo aqui...
- O baile ainda vai acontecer? O que est acontecendo? Lady Boswell est telefonando de hora em hora.
Tento explicar a situao.
-        Bom, para dizer a verdade no h muita coisa acontecendo.
-  isso a, Izzy, use uma cortina de fumaa. - Os jornais entenderam tudo errado e a tomada hostil ainda vai acontecer. O que, naturalmente, significa que o baile 
ainda est de p. Simon pediu que eu o ajudasse a recepcionar alguns visitantes americanos que chegam amanh e estou muito ocupada. - A frase foi dita em um tom 
autoritrio de "no me perturbe". Sei que Gerald vai ficar contente com o trabalho corporativo extra e eu cruzo os dedos.
O truque funciona e ele se acalma um pouco.
- A imprensa entende tudo errado mesmo. Eu deveria saber. Mas, da prxima vez que algo parecido acontecer, ser que voc poderia ligar para o escritrio? Sabe onde 
, no? O lugar onde voc supostamente trabalha? Uma boa promoter precisa ter excelentes habilidades de comunicao.
- Claro - respondo, esperando com todas as minhas foras que nunca haja outra vez. - Isso quer dizer que no volto na sexta-feira. Como vo as coisas a? - pergunto 
depressa.
- Tudo bem, tirando o fato de os Dawson terem avisado que convidaram outras cem pessoas. Eles so seus clientes, voc deve t-los estragado e mimado. As pessoas 
andam por aqui com serpentinas de um lado para outro e resmungando palavres; organizar uma festa  um inferno. Como vai Dominic? - Todo mundo parece obcecado com 
a sade de Dominic.
- Ele est bem.
- Como ele vai indo? Est chateando algum?
- No, a famlia o adora.
-        timo. Mantenha as coisas assim.
Desligamos.
Sentindo-me razoavelmente grata por no estar na fila dos desempregados, vou para a cozinha, onde Monty e Fio esto no meio de uma briga para decidir quem  que 
sofreu a pior picada de abelha do mundo, j que os dois so alrgicos a abelhas. A Sra. Delaney est tentando fazer Harry comer um sanduche de atum, com o argumento 
de que essa  a nica coisa que marcianos malvados comem. Dominic est sentado no cho dando biscoitos de laranja para os ces - mas s depois de ter comido o recheio 
cremoso.
- Vocs resolveram o problema com os mveis? - pergunto a Dominic, esperando que este seja o motivo pelo qual a anarquia impera na cozinha.
- H? Oh, no. Estvamos esperando a sua volta. - No sabia que eu era essencial para a soluo do problema, e a presso da descoberta faz com que eu me dirija direto 
para a garrafa de usque.
Nosso pequeno grupo de soldadinhos volta aos seus postos na mesa.
- Certo, onde estvamos? - pergunta Monty.
- No podemos pegar a moblia que est com os oficiais de justia e tentamos uma empresa que aluga mveis.
- Algum tem alguma idia?
Minha nica idia  que Simon vai me matar se no arranjarmos mveis. Assumimos posies pensativas e ficamos quietos.
Dez minutos depois, sem nenhuma soluo no horizonte, Will volta de uma expedio de reconhecimento dos fatos na cidade. Endireito-me na cadeira, feliz em ter uma 
distrao.
-        O que aconteceu?
Ele parece deprimido.
-        Basicamente, os moradores viram as caminhonetes e avisaram
a imprensa. J temos alguns jornalistas na frente do porto principal. Daniel est circulando de carro pelo permetro da fazenda para
mant-los longe. - No so estas as notcias que queremos ouvir. -
Acho melhor contar para Simon.
Levanto.
-        Tenho que levar alguma comida para eles. Se voc esperar cinco minutos, poderemos interromp-los juntos. - A Sra. Delaney e eu preparamos uma pilha de sanduches 
de atum, e Will e eu levamos as bandejas para a biblioteca.
O grupo est conversando animadamente quando entramos. Will puxa Simon para o lado e comea a contar as novidades em voz baixa. Simon me chama.
- Como vo os preparativos para resolver o problema dos mveis? - ele sussurra.
- H...
- Izzy, eu no quero nem saber como voc vai fazer isso, mas tem que arrumar os mveis para amanh. Nossa agncia de RP j est a caminho para cuidar do problema 
com a imprensa.
- Vamos conseguir - tento soar o mais positiva possvel. - Meu celular toca e vou para o hall, atender a chamada.
- Al? - respondo, e minha voz faz um eco estranho no espao vazio.
- Sou eu, querida. Estava preocupada com voc e liguei para saber como foram as coisas. Mas voc parece estar razoavelmente viva, portanto parece que Simon no fez 
nada terrvel com voc! - ruge tia Winnie.
Vou at a escadaria, sento no primeiro degrau e tento explicar tudo o que aconteceu nas ltimas cinco horas.
- ... E eu no sei onde vamos conseguir mveis suficientes para preencher trs salas gigantescas, e ainda tenho que organizar o baile, sem falar nos visitantes americanos 
de Simon que chegam amanh e que so extremamente importantes para a aquisio. - Minha voz aumenta perigosamente de volume no fim da frase. O fato de contar tudo 
para tia Winnie fez com que eu percebesse a enormidade das tarefas  minha frente. Comeo a ficar levemente histrica.
- Eu consigo ver o seu problema, querida. Que azar dos diabos. - Azar? Dos diabos? Azar dos diabos que eu estivesse namorando o maior cretino da Inglaterra, que 
estava pronto para fazer o que fosse necessrio para manter seu estpido cargo em uma diretoria? Azar dos diabos que a casa deve trilhes de libras ao banco e que 
este mandou retirar a moblia? Ou azar dos diabos que um batalho de visitantes estrangeiros vai invadir a casa amanh?
- Acho que tenho uma idia. A velha massa cinzenta est fazendo barulho - diz tia Winnie antes que eu possa dizer algo. - Posso telefonar daqui a pouco?
- Claro! - digo surpresa e vou comer alguma coisa. Tudo sempre fica melhor depois de um sanduche de atum.
Estou engolindo o terceiro sanduche quando o telefone toca novamente. E tia Winnie.
- Acho que encontrei a soluo, querida! Ela surgiu como um raio! - grita. No preciso repetir o que ela diz porque a sala inteira consegue ouvir. - Estava assistindo 
ao programa do maravilhoso Hugh Scully! Que homem lindo!
- O qu?
- No se preocupe com nada. Chego a hoje  noite com os mveis.
- Precisamos ter certeza disso, tia Winnie.
- Pode ter certeza. Agora, de que salas voc est falando, e h algo especfico de que precisa?
Passo o celular para Monty, para que ele d as instrues. Agradeo a Deus pela existncia de tia Winnie.  uma pena que no possam fazer clones dela e colocar todos 
eles em postos no governo.
-         uma mulher inacreditvel esta - diz Monty quando desliga. - Ela diz que chega hoje  noite com os mveis. Disse para ela
no usar o porto principal. Um de ns precisa ir ao porto nos bosques para encontr-la.
- Onde  que ela vai conseguir os mveis? - pergunta Will. Balano a cabea.
- No sei. - E nem quero saber, penso.
Passo o resto da tarde arrumando os quartos para os visitantes estrangeiros. Os quartos parecem um pouco pobres e passo horas apanhando flores e folhagens no jardim 
para melhorar um pouco a aparncia deles. Dominic e eu precisamos sair dos nossos atuais quartos e dividir um outro em outra ala da casa. Que fantstico.
L pelas oito da noite vou at o jardim murado para passar uns dez minutos sozinha.
-        Pensando com seus botes?
Giro sobre os calcanhares e vejo Simon encostado no arco que d passagem para o jardim murado. Estou revirando um galhinho de alecrim entre os dedos, tentando entender 
tudo o que est acontecendo.
Ele caminha lentamente em minha direo e consigo colocar um meio-sorriso no rosto. Gostaria que ele fosse embora e me deixasse colocar em ordem os meus pensamentos 
confusos. Volto a remexer no alecrim, tentando indicar que quero ficar s, principalmente se ele vai me dar outra bronca. Sei que mereo, mas, quem sabe, poderamos 
deixar para mais tarde.
- Alecrim - diz ele. - Te lembra algo?
- Precisa de alguma coisa? - pergunto, tentando manter a conversa em um nvel profissional, mais confortvel.
Ele balana a cabea e diz:
- Papai disse que voc resolveu o problema dos mveis? - Aceno com a cabea e ele continua: - Minha equipe foi embora. Os investidores americanos chegam amanh no 
horrio marcado. - Ele parece exausto.
- Escute, Simon, Dom e eu deveramos voltar para Londres amanh. Voc quer que fiquemos para ajudar com os visitantes? Afinal de contas,  este o nosso trabalho.
- Mas  durante o fim de semana.
- No tem problema. No temos nada programado e, de qualquer maneira, deveramos estar de volta aqui na segunda-feira, portanto no tenho nem que avisar o escritrio. 
Sei que a Sra. Delaney j cuidou da comida, mas eu estava pensando no entretenimento geral. Eu poderia fazer o papel de anfitri.
- Na verdade, isso ser timo.
- E pensei que Dominic poderia fazer o papel de mordomo da casa por alguns dias. Ajuda a manter a imagem.
- Ele no se importa?
- Foi ele quem sugeriu! - Dominic no fez nada disso, mas bem que merece um castigo depois da histria do cigarro. - Amanh cedo vou correndo at Bury St. Edmunds 
alugar um terno.
- Obrigado.
H uma pausa na conversa e ele vai at o p de alecrim e arranca um galhinho. Volta at onde estou, galhinho na mo, examinando-o atentamente.
-        Este era o jardim de minha me. Ela passava a maior parte do
tempo aqui. s vezes achava que ela gostava mais deste jardim do
que de ns!
- Percebe-se o quanto este local foi amado - comento, olhando para as madressilvas e as clmatis que ficaram abandonadas e se espalharam por todo o lado.
- No deveria ter deixado as plantas crescerem descontroladas.
- O local s precisa de uma arrumada - respondo, tentando confort-lo porque ele parece muito chateado. Apesar de tudo o que aconteceu entre ns, sinto uma onda 
de afeto por ele. Goste ou no. boa parte do meu passado est amarrada a este homem. Ele me olha e sou surpreendida pelo seu olhar. Vejo algo que reconheo, mas 
que no consigo exprimir com palavras. E depois desaparece.
- Voc que ir ver os veados? - pergunta.
- H, acho que no estou usando calados apropriados para isso. - Olho para minhas sandlias com salto dez.
- Eu posso esperar, se voc quiser calar outra coisa.
Fico tentada por um segundo. Tive um pequeno vislumbre de algo acolhedor, confortvel e de fcil retorno. Mas depois lembrei de tudo que aconteceu depois disso.
-        No. Sinto muito, Simon. Tenho coisas a fazer.
Ele sorri e fixa seu olhar no meu por um segundo.
-        Eu tambm sinto muito - diz suavemente e caminha em dire
o  sada, deixando-me para trs, olhando para ele.
Vou at meu quarto, tiro a camisa de rgbi e coloco uma camiseta rosa justa. Meg, a cadelinha, e Dom aparecem na porta.
- Aonde vai? - Dom pergunta intrigado, vendo a mudana de roupa. - Algum encontro secreto?
- No, de repente eu me senti desleixada. Achei que deveria mudar de roupa para jantar.
- Ento por que est passando batom?
- Eu sempre passo batom.
- Para mim voc no usa batom.
Quase digo: "Bom, porque voc  gay", mas penso que isso no tem nada a ver.
-        Voc perguntou se eles querem que fiquemos no fim de semana para ajudar com os americanos? - Dom continua.
- H, na verdade acabei de falar com Simon e ele diz que seria maravilhoso. Voc no tinha planos para o fim de semana, tinha? - Vou guardar a maravilhosa novidade 
do papel de mordomo quando tiver mais tempo para saborear o ataque histrico de Dominic.
- Posso alterar meus planos. Vou avisar... h, que no posso ir. Eles vo entender.
- Voc  quem sabe, Dom, no me importo com quem voc est namorando.
-  algum um pouco, h, diferente.
- Querido, seja quem for com quem voc est namorando, est tudo bem comigo - digo, tentando passar em bom-tom a mensagem de que eu o amo de qualquer maneira.
- Vamos conversar sobre isso em breve, prometo. No momento as coisas esto confusas para mim e h muito acontecendo com essa histria envolvendo Rob.
- Eu sei. Voc vai descer para um drinque?
- Na verdade, pensei em tomar um banho.
- OK. Vejo voc mais tarde!
Deso, pensando aflita se Dom acha que nosso relacionamento pode mudar ou coisa parecida. Ele no costuma ser to retrado para contar as coisas. Paro por um momento 
no hall de entrada, pensando, antes de correr escadaria acima para pegar meu celular. Sinto uma necessidade estranha de ser confortada e ligo para meus pais. Como 
 uma ligao para Hong Kong e via celular, peo que liguem de volta para o telefone fixo e saio correndo pela biblioteca deserta. Pego o telefone assim que ele 
toca.
- Al? - digo cautelosamente, caso no sejam eles.
- Querida!
- Mame!
- Que surpresa adorvel. Ligamos para o apartamento, onde voc anda? Seu pai quer saber onde voc est... Porque o cdigo da rea  da regio de Pantiles, a propriedade 
dos Monkwell. Lembra? Onde guardvamos os cavalos.
- Sim, lembro.  onde estou.
- Onde?
- Em Pantiles.
H um silncio enquanto ela, obviamente, digere a novidade e depois diz ao meu pai:
-  onde ela est. Em Pantiles. - Espero pacientemente em silncio, at que ela acaba dizendo: - Por que est a?
-  uma histria estranha. Vim organizar uma festa para Monty Monkwell!
Eles no esto digerindo a novidade como eu imaginava. Pensei que haveria vrias exclamaes de surpresa, alguns oohs e aahs. depois comearamos a trocar recordaes 
do lugar e eu poderia comear a contar a minha triste histria. Mas no h nada disso, somente outro silncio estranho.
- H, mame? - resolvo perguntar. - Est tudo bem?
- Sim, querida, tudo bem - ela acaba respondendo. - Posso telefonar daqui a pouco?
- Quando?
- Daqui a um dia ou dois.
- Sim, claro, mas est tudo bem?
- Sim! - ela responde em uma voz artificialmente alta, quando quer mesmo dizer "No!".
- OK. Falo com voc em breve. Tchau!
Mas o telefone j havia sido desligado do outro lado da linha. Fico ali sentada, olhando para o aparelho, at que Harry vem me buscar para jantar.














CAPITULO 17
      Faltando quinze minutos para a meia-noite, Will e eu samos em direo ao bosque com lanternas e um co - no a Meg, resolvemos ficar com um terrier feroz, 
chamado Albert, para nos defender de eventuais problemas. Um lado meu est completamente entusiasmado com o papel de agente esquilo secreto, mas outra parte de mim 
est cansada e s quer ir dormir. Mas estou feliz em ter uma chance para conversar com Will.
A lua est quase cheia e muito brilhante, de modo que no precisamos de nossas lanternas at entrarmos no bosque. No conversamos desde que samos de casa, mas assim 
que acendemos as lanternas comeamos a falar, como se agora fosse permitido conversar.
-        Tudo  um pouco chocante, no ? - sussurro para Will,
olhando Albert saltitando na nossa frente e me sentindo segura com
ele. Os bosques so to assustadores quanto eu me lembrava. Uma
coruja pia de tempos em tempos e ouo estalidos de coisas se
mexendo. Digo para mim mesma com firmeza que  somente Albert
e resisto  tentao de saltar nos braos de Will como se eu fosse o
Scooby-Doo.
Ele me olha sem graa.
- Eu suspeitava, Izzy. No sabia de tudo, mas sabia de alguma coisa - ele diz, confirmando conversas anteriores.
- Mas voc me disse o quo mesquinho Simon era e comentou sobre o despejo dos inquilinos.
- Eu no podia dizer a verdade. E estava mantendo a fama de Simon.
No precisava se esforar tanto para manter a fama, penso com meus botes. Ficamos novamente em silncio, sem graa.
-        Suponho - Will finalmente admite - que tenho cime dele.
- Tem? - digo cautelosamente.
   - Bom,  ele quem tem que defender tudo isto. - Ele gira o brao ao seu redor, indicando as rvores silenciosas.
- O que quer dizer com isso?
   - Enquanto eu lido com minhas humildes tarefas dirias, Simon brinca de... sei l... de super-heri.
   Pigarreio sem graa. Estamos definitivamente entrando em territrio masculino, sem falar de rivalidade entre irmos.
   - No acho que seja algo muito divertido. Quer dizer, parece ser mais do que realmente .
   - E eu estava zangado porque durante todos estes anos ele manteve a verdade sobre a fazenda em segredo, como se pensasse que eu no era forte o suficiente para 
saber de tudo.
   - Ele me disse que queria que voc fosse estudar em Cirencester e temia que voc se recusasse a ir. Talvez, depois disso, tenha sido tarde demais - digo, pensando 
nos motivos que me levam a defender Simon.
   - Eu tinha acabado de voltar para c quando comearam as notcias na imprensa.  duro ouvir falar de algum sobre quem se tem ressentimentos como se esta pessoa 
fosse um deus. Acho que isso fez com que ficasse mais ressentido ainda. A comearam a falar coisas ruins sobre ele e acho que eu quis acreditar nelas.
   Esta conversa com Will est me fazendo pensar. Algo est mudando de rumo e no gosto muito disso. Will ainda parece ser o menino que vi pela ltima vez h quinze 
anos. No est claro se ele  mesmo um homem inferior ao irmo, mas, infelizmente, comea a comportar-se como tal.
   - Ento voc no acha que as recentes notcias sobre Simon so justas? - pergunto.
   - No duvido que ele tenha sido um pouco implacvel, mas voc no seria tendo tudo isso para cuidar? Com o banco e a hipoteca atrs de voc o tempo todo?
   Simon disse que a empresa de RP criou deliberadamente essa imagem de senhor da guerra. Um pensamento incmodo comea a perambular pela minha mente, o de que Simon 
pode ter tido bons motivos para fazer tudo o que fez - e que , talvez, at um pouco nobre?
- Ele sempre foi implacvel, mesmo na infncia. -Jogo isso no meio da conversa para nos trazer de volta  realidade. No quero que ns, ou melhor, que eu, me esquea 
sobre quem estamos falando.
- Eu acho que ele foi muito desagradvel com voc.
- Sim! Ele foi! - sussurro triunfante, feliz em saber que no tinha imaginado tudo aquilo.
- Eu me sinto culpado. Fui muito crtico, pensando secretamente que podia administrar melhor a propriedade. E acho que disse tudo aquilo sobre ele porque queria 
passar mais tempo com voc e temia que, assim que Simon voltasse para casa, as coisas voltariam a ser como eram quando ramos crianas. Apesar da briga de vocs.
- O que voc quer dizer com isso? - pergunto.
- Bom, havia uma qumica entre vocs dois, Izzy. Vocs formavam um clubinho. E costumavam deixar a mim e a Sophie de fora o tempo todo.
Mesmo no escuro consigo sentir o sentimento de rejeio dele. Nunca percebi o quanto isso o incomodava. Estico a mo e toco seu brao.
-        Puxa, Will, sinto muito. Nunca tinha percebido.
Antes que ele possa responder, vemos um enorme caminho branco estacionado mais  frente. Uma mo aparece na janela e acena para ns.
-        Que bonitinha - suspira Will.
Tia Winnie desce do assento do motorista parecendo muito satisfeita consigo mesma. O caminho  absolutamente enorme e uma onda de admirao me invade. Ela dirigiu 
aquilo at aqui, parando de tempos em tempos para pegar mveis antigos e, conseqentemente, salvar minha pele. Ela devia ser tombada como patrimnio histrico.
- Oi! - sussurro indo at ela, me inclinando por sobre o porto e beijando sua bochecha.
- Isto  divertido, Izzy! Ol, Will! -Will tambm se inclina por sobre o porto para lhe dar um beijo. Ela obviamente encarnou o personagem, pois est enfiada em 
um macaco azul (e isso  realmente um espetculo levando-se em conta que eu nunca a vi usando calas compridas, exceto nas aulas de ginstica) e usando um elegante 
bon de tweed na cabea.
Will pega um molho de chaves e, enquanto eu seguro a lanterna, tenta encontrar a chave que destranca o cadeado.
- Voc achou o caminho com facilidade? - sussurro para tia Winnie.
- Sem problemas! Mas as estradas eram um pouco estreitas. - Aposto que eram, provavelmente esta foi a primeira vez que um caminho deste tamanho passou por aqui. 
O caminho que leva at a parte de trs da fazenda  formado por estreitas estradas vicinais e umas duas estradas normais.

- Querida, o que est usando? Olho para baixo.
- H, minhas roupas.
- O que eu falei sobre usar rosa?
- Mas eu uso muitas roupas cor-de-rosa.
- Eu decidi que voc no deve us-las. Certo. Maravilhoso.
Will finalmente consegue destrancar o porto e o abrimos o mximo que conseguimos.
- Voc quer que eu dirija o caminho, tia Winnie? - ele pergunta.
- Claro que no!
- Ento entrem nele vocs duas e eu fecho o porto.
Tia Winnie escala o caminho para o assento do motorista enquanto eu fao tentativas hericas para subir para o assento do passageiro.  mais complicado do que parece. 
Consigo subir os dois primeiros degraus, mas acabo com a cara enfiada no assento e a bunda virada para cima. Albert est doido para conhecer Jameson, que est sentado 
do lado da tia Winnie e insiste em saltar sobre mim para me usar como escada.
-        Vamos l, Izzy, minha filha! Pare de ficar brincando com esse cachorro!
Comeo a ficar levemente histrica. Acho que preciso de um adesivo de nicotina. Recentemente, o pensamento "eu realmente podia fumar um cigarro" tem surgido com 
freqncia na minha mente. E tenho certeza de que esse no  o objetivo dos adesivos.
Tia Winnie liga o motor, que faz um barulho ensurdecedor no silncio da noite, e eu me puxo para dentro da cabine usando a haste do cmbio. Albert est sentado no 
meu lugar depois de ter subido pela minha cabea. Fecho a porta.
   -        Pronto! - digo de modo triunfante, como se tivesse acabado
de escalar o Everest, e me espremo perto dos ces. Tia Winnie esconde uma risadinha, deixa de fazer festinhas em Albert e coloca o caminho em primeira. Passamos 
pelo porto e paramos enquanto Willtranca tudo e sobe. Ele no teve nenhum problema como eu.
   Eu no tinha percebido como a estrada estava esburacada quando viemos a p, mas agora fico pensando como  que no percebemos isso. O caminho chacoalha para 
a frente e para trs de modo assustador e, de vez em quando, penso que vamos capotar. O silncio  total enquanto tia Winnie se concentra em nos levar com segurana 
at a casa, sendo interrompido somente por alguns sobressaltos meus quando alguns galhos de rvores aparecem do nada. Finalmente, quando chegamos  relativa suavidade 
da estrada particular e tia Winnie muda a marcha para segunda  que deixo escapar um suspiro que no percebi estar segurando.
   Momentos depois estamos no ptio e assim que tia Winnie desliga o motor a porta da cozinha se abre, iluminando as pedras do calamento. Will j estava do lado 
de fora.
   -        Seja gentil com Simon - digo para a motorista em voz baixa.
Tia Winnie no costuma ser agradvel com as pessoas de quem tem
m opinio, e eu no tive muito tempo para passar todas as informaes para ela. - Ele tem passado maus bocados.
   Saio cuidadosamente da cabine. No quero dar um passo em falso e despencar l de cima. Albert salta na minha frente sem pensar no perigo, seguido rapidamente 
por Jameson. Vou para a parte traseira do caminho onde Monty, a Sra. Delaney, Dominic, Fio, Simon e Will esto reunidos (Harry j est na cama). Depois que tia 
Winnie cumprimentou adequadamente a todos - o que parece muito estranho no escuro e com vozes sussurradas, mas ns somos ingleses e temos que seguir a etiqueta -, 
ela aperta um superboto tecnolgico na porta do caminho, abrindo-a, e uma rampa desliza para fora da carroceria. Usamos nossas lanternas para iluminar uma pilha 
de mveis, embalados profissionalmente, como se fosse uma mudana. Estou impressionada.
- Onde a senhora conseguiu tudo isso, tia Winnie? - sussurra Simon.
- Pedi metade emprestado; a maior parte dos mveis de grande porte  minha.
- Mas de onde veio tudo isso? - pergunto.
- Da cidade. Disse a todo mundo que ia levar meus mveis para o Show de Antigidades. Enquanto conversava com voc, Izzy, vi o programa anunciar que a prxima gravao 
seria em Norwich. Portanto, disse para todo mundo que iria levar meus mveis para avaliao.
Monty esfora-se para segurar uma gargalhada particularmente estrondosa.
- No! - digo incrdula.
- Claro que sim! Andei pelas salas de todo mundo com meu guia de antigidades debaixo do brao e escolhi o que eu queria. O vigrio e o jovem Tommy me ajudaram a 
carregar o caminho. Peguei uma ou duas peas de quase todas as casas da cidade.  claro que quando eles no me virem na televiso e conversarem uns com os outros 
vo achar que fugi com os mveis deles, mas at l eu pensarei em alguma desculpa.
- A senhora  surpreendente - diz Simon com grande sinceridade na voz.
Tia Winnie parece ficar comovida por um segundo e diz sem graa:
-  melhor tirarmos toda essa tralha daqui.
-  verdade - exclama Monty, iluminando-a com a lanterna. - Voc  surpreendente.
Desta vez tia Winnie fica maravilhosamente vermelha.
Os homens levam todas as peas pesadas para dentro enquanto ns, mulheres, levamos mesinhas e abajures.  um trabalho e tanto porque no queremos usar a porta da 
frente, para evitar que algum nos veja, portanto precisamos entrar pela cozinha e seguir pelo longo corredor at o hall de entrada. Arrumamos as trs salas - no 
lembram em nada o visual que possuam antes, mas no do sinais de que oficiais de justia passaram por aqui. A estranha mistura de estilos e pocas faz com que 
o lugar parea ter sido decorado por uma tia excntrica, o que, suponho, foi exatamente o que aconteceu.
O hall de entrada parece um pouco vazio, mas  um lugar to grande que  extremamente difcil de preencher. Por isso, roubamos algumas mesinhas dos quartos do andar 
superior e as colocamos todas encostadas nas paredes.
-        Pronto! - diz tia Fio. - Est muito bom, no est?
So quase duas da manh e at uma ovelha conservada em for-mol no meio da sala pareceria bom para mim, mas todos concordamos com ela e vamos para a cozinha tomar 
um ch. Will vai na direo do ptio para levar o caminho para os estbulos.
- A senhora fica conosco, no fica? - Simon pergunta a tia Winnie. - Acho que a senhora no pode ir para casa se os seus vizinhos esperam v-la na TV ao lado do 
apresentador do programa.
- Ia ficar com uma amiga.
- Fique, tia Winnie - diz Monty carinhosamente. Eu ia abrir a boca para reforar o pedido, mas no preciso. Ela olha para Monty e sorri.
-        OK. Acho mesmo que no quero perder toda a agitao!
Depois de uma pequena confuso sobre uma bolsa de viagem, que ficou trancado no caminho - o mesmo caminho que Will passou dez minutos manobrando para dentro de 
um dos estbulos -, a Sra. Delaney e tia Winnie desaparecem para encontrar um quarto adequado. Simon diz que a imprensa chegar s nove da manh, que a empresa de 
RP vai cuidar dela e que, se encontrarmos algum jornalistas, devemos parecer casuais e no responder a nenhuma pergunta, Simon est olhando firme para Monty e Flo 
quando diz isso. Todos vamos para a cama. Aparentemente, Meg decidiu que j que foi Albert quem nos acompanhou antes, ela agora pode dormir no meu quarto. Eu concordo 
plenamente e a companhia  bem-vinda. Quando chego ao meu quarto descubro que as janelas esto ainda abertas, ou seja, o quarto est frio como gelo, mas ainda existe 
um fraco cheiro de calcinhas queimadas no ar. No consigo acreditar que foi somente esta manh que queimei a foto de Rob, parecem semanas. Arrasto-me at a cama, 
absolutamente exausta, quando tenho um pequeno ataque de pnico ao pensar que algum luntico poderia ter entrado pela janela enquanto estvamos ocupados e ele agora 
pode estar escondido no guarda-roupa. Checo o guarda-roupa abrindo a porta com um cabide. Nenhum luntico. Volto para a cama e apago imediatamente.
   Poucas horas mais tarde, o relgio dispara s seis da manh. Sento com um pulo na cama e imagino os motivos pelos quais sinto-me to mal. S ento os acontecimentos 
dos ltimos dias comeam a aparecer na minha mente e eu reprimo um pequeno gemido. O que eu realmente gostaria de fazer  me esconder debaixo do edredom e me desmanchar 
em uma poa de apatia. Sinto-me sobrecarregada pela culpa de ter causado uma confuso to grande. Pelo menos Dominic e tia Winnie esto comigo. Espero que ela tenha 
trazido os tacos de golfe.
   Fao a minha toalete matinal, que leva muito mais tempo do que a de Meg. A dela consiste em se espreguiar e bocejar por vinte segundos. Se eu puder escolher, 
quero ser um cachorro na prxima encarnao. Reno minhas coisas e tiro os lenis da cama, j que esta noite mudo para um quarto que irei dividir com Dominic. Depois 
disso, Meg e eu descemos as escadas em busca de estimulantes artificiais. Monty parece ter deixado de lado sua rotina matinal habitual e est sentado calmamente 
 mesa da cozinha, conversando com tia Winnie. Por que ser que os mais velhos sempre acordar; mais cedo que voc, no importa o quo tarde tenham ido dormir?
   Acho que  um pouco cedo para um adesivo de nicotina e aceite a oferta de tia Winnie para tomar uma xcara de caf bem forte. Alm disso, no sei bem como explicar 
a presena dos adesivos para ela - acho que vou dizer que so curativos.
   Quando tenho certeza de que a cafena j entrou na minha corrente sangnea, retiro minha papelada e o laptop do banco traseiro do carro, pego uma segunda xcara 
de caf e vou para a biblioteca, completamente esquecida da ausncia de moblia. Abro a porta, olhe por um momento para a sala vazia, recrimino a mim mesma e tento 
a sala de estar, em busca de uma mesa ou escrivaninha para poder trabalhar. Algum colocou uma mesa e uma cadeira giratria ali. Ainda tenho um monte de coisas para 
fazer para o baile. Levo algum tempo para ler todos os planos, mas logo depois estou no controle e fao uma lista assustadoramente grande de coisas que precisam 
ser feitas.
   E, pela quinta vez nesta semana, deixo um recado na caixa postal do celular de minha irm.
-        Sophie, sou eu, Isabel - acrescento, caso o celular distora a
minha voz. - Voc no retornou nenhuma das minhas ligaes e
estou um pouco preocupada. Ligue para mim. - O que eu realmente quero  falar sobre os meus problemas, mas no quero parecer egosta.
So quase oito da manh quando volto para a cozinha, pronta para delegar algumas tarefas. Se puder fazer algo a respeito, Harry est prestes a ser catapultado para 
o primeiro lugar na lista da campanha de arrecadao de fundos, bem  frente de Godfrey Farlington e suas bochechas rosadas. Felizmente, a maioria dos membros da 
famlia j desceu e est sentada ao redor da mesa da cozinha, tomando seu caf. Converso rapidamente com a Sra. Delaney sobre os planos dela para os visitantes americanos, 
para ver se posso ajudar em alguma coisa. Apesar, ou talvez por causa, dos dramas de ontem, ela parece ter relaxado um pouco comigo e conseguimos manter uma conversa 
bastante civilizada.
Depois de uma negociao prolongada sobre o valor das doaes para a campanha de arrecadao de fundos (concordamos em quatro libras, mas estou certa de que conseguiria 
baixar para trs), Harry e tia Winnie desaparecem no andar de cima para dar os toques finais nos quartos de hspedes, enquanto Dominic e eu vamos para o quartinho 
de servio arrumar as flores.
-        Como vai voc? - sussurra Dom.
Balano a cabea em um modo que diz "mais ou menos bem".
-        Deus, voc deve estar se sentindo absolutamente horrvel. 
Quero dizer, com aquela coisa do Rob e depois lidar com a atmosfera horrorosa de ontem.
Olho para Dominic e quebro o talo de um lrio sem querer. No tenho bem certeza do que ele pretende com esse tipo de conversa. Se quer que eu tenha um ataque histrico 
de primeira, este  o modo mais rpido.
- Pelo menos voc tem a minha companhia. - Ele comea a danar uma valsinha na minha frente.
- Isto no  to engraado quanto voc pensa.
Mas eu no perderia isto por nada neste mundo! Na verdade, Simon me puxou ontem para um canto e me fez assinar um acordo de confidencialidade. Ele disse que se eu 
deixasse escapar uma palavra do que est acontecendo aqui ele iria me enforcar! - Dom parece absolutamente encantado com a idia. - Mas eu disse a ele que ns dois 
somos amigos ntimos e que eu no sonharia em contar nada para ningum. Mas ele no pareceu muito convencido disso, talvez por causa da sua folha corrida ser um 
pouco suja. Dou outra fulminada nele com os olhos.
- Izzy, voc tem certeza de que ele foi to horrvel assim com voc na infncia? Porque as coisas no parecem encaixar direito, parecem? Eu sei que ele pode ser 
meio rude de vez em quando. Tem certeza de que no foi s isso?
- Certeza absoluta - digo, lembrando o comportamento desprezvel dele. - Mas voc est certo.  estranho.
- Simon parece ser uma pessoa bastante honrada, e ele poderia ter dificultado bastante a sua vida com aquela histria com Rob. Ele poderia ter processado voc! O 
que foi exatamente que ele fez quando vocs tinham onze anos? - ele pergunta, enfiando algumas rosas aleatoriamente em um vaso.
Paro por um segundo, sem muita vontade de desenterrar as memrias, mas, quando comeo a contar, descubro que no posse parar. Os jogos, os insultos, tudo sai em 
uma avalanche at que Dom fica completamente quieto.
- Oh - diz ele.
- No acho que nenhuma dessas coisas pode ser atribuda  rudeza, voc acha?
-        H, no. Desculpe, Izzy! No imaginava.
Continuamos a trabalhar em silncio.
Dom est certo, penso comigo mesma enquanto levo os vasos para o hall de entrada. As recentes revelaes sobre Simon no parecem encaixar nas minhas memrias de 
infncia. Mas no tenho muito tempo para analisar as coisas, j que um grupo de jornalistas surge, fazendo um passeio pela casa. Consigo ouvir trechos do discurso 
da garota de relaes pblicas:
-... E como Mark Twain escreveu: "Os anncios sobre a minha morte foram um exagero." Como podem ver, senhoras e senhores, nenhuma moblia foi retirada da casa. As 
caminhonetes vistas ontem estavam trabalhando a pedido do Sr. Monkwell. - Eu espero sinceramente que Deus no esteja ouvindo e mande um raio para cima da casa. -... 
O Sr. Monkwell espera representantes do banco de investimento americano que chegam esta manh para dar continuidade s negociaes com os fabricantes da Wings...
Vou para a sala de estar, para colocar o resto das flores, e paro para observar Simon quando sai do escritrio para cumprimentar a imprensa.  a primeira vez que 
o vejo hoje e ele tem uma aparncia completamente imaculada, usando um terno maravilhoso, com uma camisa lils perfeitamente passada e uma gravata que complementa 
seu visual em tons escuros. Fico pensando se foi a namorada advogada quem a escolheu para ele. Este  o mesmo homem que h quinze anos foi um completo brutamontes 
comigo. Ser que as pessoas realmente mudam?  claro que nosso comportamento na infncia reflete quem somos e est para sempre no nosso ntimo. Balano a cabea. 
Dom est certo. No combina.
No tenho mais tempo para pensamentos introspectivos, pois os banqueiros americanos vo chegar logo para o almoo. Consigo resolver algumas coisas em uma conversa 
telefnica de meia hora com Rose, onde mudamos a reunio com a associao de caridade para o comeo da semana que vem, de modo que posso concentrar toda a minha 
ateno nos visitantes. A Sra. Delaney planejou um cardpio que contm uma salada de rcula com presunto de Parma e mirtilos, seguida por escalopes assados em molho 
de gengibre e gergelim e torta de chocolate e pras cozidas como sobremesa. O banquete de hoje  noite parece suntuoso e o plano  reunir toda a famlia, eu includa, 
para jantar com os visitantes. Segue-se uma hora frentica, com pequenos ataques histricos da Sra. Delaney, por ser to tarde, pequenos ataques histricos meus, 
quando percebo que Will se esqueceu de ir buscar Harry na chegada de um passeio com os escoteiros e pequenos ataques histricos de Dom, porque est se sentindo posto 
de lado. Estou pronta para subir e me trocar, por volta do meio-dia, quando esbarro com Simon no hall de entrada.
- A est voc! Estava indo  sua procura - ele diz, sorrindo e me encarando com seus olhos castanhos. - Os convidados chegam logo. Obrigado por se oferecer para 
cuidar deles.
- No h problema, fao isso quase todos os dias! A propsito, a Sra. Delaney tem mesmo como preparar toda aquela comida? Algumas receitas so bastante complicadas.
- Ah, sim! - diz Simon, animado. - Ela vai ficar bem. Ela era chefe de cozinha em um restaurante em Oxford.
- Mesmo? - Pela primeira vez comeo a pensar no passado da Sra. Delaney e como ela acabou aqui. - Tia Winnie est dando um ajuda, se bem que eu espero que a Sra. 
Delaney no a deixe chegar muito perto da comida. Ela costuma botar molho de pimenta em tudo. Seu pai tambm est l.
- Pelo amor de Deus, tente mant-lo longe dos visitantes. Ele parece estar obcecado com a prpria sade.
- Eu sei, ele j contou todos os detalhes possveis sobre os joanetes dele aos jornalistas.
Simon sorri.
- Espero que ele no esteja amolando.
- No! Todos tm ajudado muito. Harry com sua busca por trabalhos para a arrecadao de fundos tem sido uma bno.
-  a primeira vez que sou grato pela meno ao nome de Godfrey Farlington.
- Eu tambm. Comecei a ter vontade de estrangular esse menino quando o encontrasse.
- Est tudo pronto?
- H, sim. Sem contar com os imprevistos em potencial!
- Minha famlia est includa nisso?
- Hum-hum... - Ele me pegou nessa. No sei bem o que dize; Acho que seria um pouco rude dizer. - Deus, sim, eles so um tremendo problema. - Mas os olhos castanhos 
de Simon esto brilhando, portanto  claro que ele est somente brincando, mas isso me deixa ainda mais confusa.  quase como se estivesse flertando comigo. E penso 
que posso estar flertando de volta. Olho para meus sapatos por um segundo e depois arrisco olhar novamente para ele. Ele ainda est me encarando, um leve sorriso 
no rosto. O que esta acontecendo? Felizmente ele continua com a conversa, porque esqueci completamente sobre o que estvamos falando.
- Na verdade, Izzy, eu queria agradecer. Por tudo o que voc fez. Voc e a tia Winnie tm sido maravilhosas.
Mordo o lbio e olho fixamente para a mesinha lateral.
-        H, bem. No vamos esquecer que tudo isso  parcialmente culpa minha.
-        No muito. Voc no tinha como saber que Rob Gillingham era um mau-carter.
Fico extremamente vermelha, feliz de que ele tenha me perdoado, mas tambm penso que a frase tem um tom muito irnico vindo de Simon. Mas Rob  um mau-carter e 
espero, mais do que tudo, que essa tomada hostil funcione e que Simon o jogue para fora da diretoria. Dominic est certo. A vingana  um prato que deve ser servido 
frio, e estou pensando em um gazpacho.
- Voc acha que conseguir convencer os americanos? - pergunto, subitamente desesperada para que ele consiga.
- No sei, mas vale  pena tentar.















































CAPTULO 18



No andar de cima, em meu novo quarto, visto um elegante conjunto lils, coloco um pouco de maquiagem e troco a blusa branca por uma preta, j que cobrir a palidez 
do rosto com base no  uma idia muito boa. Dominic entra, boceja de modo barulhento e se joga em uma das camas. 
-- Tem um cigarro, Izz?
Dou uma encarada nele.
-- No, mas tenho um adesivo de nicotina. O que  algo incomum para um no-fumante ter.
-- Bom, voc se mete nestas situaes. Est usando um?
-- Na verdade, estou. - Enrolo minha manga para cima do cotovelo e mostro. - Eu gosto muito disso. Eles fazem com que eu me sinta animada. Voc no acha que deveria 
estar vestindo seu traje de mordomo? Voc foi busc-lo, no foi? - Eu o mandei logo cedo at Bury St. Edmunds para alugar um terno.
-- Acho que deveria prov-lo. 
-- Prov-lo? Quer dizer que voc no o vestiu?
-- Deveria?
-- Pelo amor de Deus, Dom! Prove. Prove agora.
Ele vai at a porta, onde o terno est pendurado, tira a capa de plstico e veste as calas. Que so seis tamanhos maiores do que ele e tm um enorme buraco em uma 
perna, onde uma traa deve ter enchido a barriga, feliz da vida. Ele veste o palet e descobre que , no mnimo, dez vezes maior do que ele. No h tempo para costurar 
nada, muito menos par devolver o terno  loja em Bury St. Edmuns. Depois de esfregar muito as mos e desejar esganar Dom, corro at o escritrio, reviro uma pilha 
de objetos no canto e volto com um grampeador. Grampeio as calas e as mangas do palet e, com um pincel atmico preto, pinto um quadrado de dez centmetros de largura 
na perna de Dominic, bem na altura onde ficar o buraco. Fiscalizo o meu trabalho manual e Dominic d uns saltos pelo quarto para vermos se a brancura da perna dele 
aparece com o movimento. No consigo olhar por tempo suficiente para ver se o buraco aparece ou no.
-- No fique muito tempo parado e eles nunca vo ver o buraco.
-- OK. Izzy?
-- Sim?
-- Voc acha que eu poderia ser irlands?
-- Como?
-- Irlands. Sempre quis ser irlands. Poderia me chamar Dominic O'Leary! Os americanos adoram os irlandeses"
-- Dominic, voc perdeu o juzo?
-- Ahhh, deixa disso, Izzy! Onde est seu senso de diverso?
-- Fugiu h dias, junto com o meu senso de humor. Vi os dois fazendo as malas. Se eu ouvir voc falando com um sotaque irlands, juro por Deus, esgano voc, na frente 
dos americanos.
-- Sua vaca miservel.
Fantstico. Um mordomo irlands que parece um Mr. Bean drogado. Dom caminha escadaria abaixo do modo mais viril que pode, dentro do terno extragrande.



Todos ficamos parados sem jeito no hall de entrada e esperamos que os banqueiros americanos apaream. A equipe de conselheiros de Simon parece preocupada, para dizer 
o mnimo, e Simon est de p, quieto em um canto, com as mos nas costas, olhando pensativo para o cho. A atmosfera no ambiente est extremamente eltrica e, de 
repente, fico absolutamente aliviada em saber que no sou eu quem tem de enfrentar tudo isso e arcar com as conseqncias. Simon, que provavelmente sentiu meus olhos 
sobre ele, levanta o rosto e sorri para mim.
Vou bater um papo com Sam.
-- Ol! Como vai voc? - sussurro, porque o ar est to rarefeito que parece que estamos no trio de uma igreja.
Sam sorri e ajeita nervosamente os culos.
-- Estou bem.
-- Vocs tm um plano? - Deve ser a promoter em mim. Sempre quero saber se existe um plano.
-- H... - Ele franze a testa e continua a brincar com os culos, provavelmente tentando imaginar o quanto eu sei sobre a situao.
-- Est tudo bem. Sou uma amiga da famlia - digo de modo reconfortante, sem me preocupar em acrescentar "e aquela que meteu todos vocs nesta confuso". 
Ele acena levemente com a cabea e depois encolhe os ombros.
-- Estamos tentado convenc-los de que no somos um grupo de pessoas ruins. Tentando mudar a opinio deles depois de tudo o que a Wings deve ter dito e convenc-los 
a vender.
-- Vai ser fcil?
-- A mdia criou uma imagem to ruim de Simon que vai ser complicado vender a idia. E eles devem ter conversado diretamente com Rob Gillingham. - Quase dou um pulo 
ao ouvir o nome,  surpreendente ouvi-lo sair to facilmente da boca de Sam. - Ele  um dos diretores da Wings - explica - e quem achamos ser o responsvel por todos 
os problemas com a imprensa.
Concordo com a cabea, embasbacada, sentindo-me surpresa (e, lgico, um pouco aliviada) em saber que Simon no contou a ningum sobre o meu envolvimento em tudo 
isso. E a covardona aqui no tem nenhuma vontade de contar mais detalhes. Eles provavelmente me enforcariam na rvore mais prxima.
-- Seja como for, Gillingham disse um monte de coisas e precisamos tentar recuperar a confiana dos investidores em ns e em nossa oferta.
-- Por que eles simplesmente no vendem as aes e acabam com tudo isso? Por que todo esse vai e volta?
-- No  to simples assim. Existem vrias condies ligadas  venda e eles precisam ter certeza de que vamos cumprir com a nossa parte.
No tenho mais tempo para interrogar Sam porque o intercomunicador d sinais de vida e o zelador anuncia que os visitantes chegaram. Devido ao massacre por parte 
da imprensa, mantivemos os portes principais fechados a cadeado, o que  uma chatice quando voc descobre que deixou a manteiga na loja, como eu fiz hoje cedo. 
Simon insistiu que continussemos fazendo tudo como antes e usssemos a loja da cidade para minimizar as fofocas. Ainda no estou completamente convencida de que 
ajudei muito andando de fininho pela loja, parecendo estar prestes a ter um ataque de nervos e dando pulos todas as vezes que algum falava comigo.
Dominic abre a grande porta almofadada e observamos as duas limusines deslizarem pela estrada e pararem na frente de casa. Os motoristas saem do carro, abrem as 
portas dos passageiros e comeam a retirar as bagagens dos porta-malas. Cinco cavalheiros saem dos carros. Dominic desce rpido os degraus para ajud-los. 
Os cinco homens comeam a subir as escadas em nossa direo como nos duelos dos filmes de caubi. Minha primeira impresso  a de que eles no parecem ser muito 
divertidos. Na verdade, o grupo parece estar atravessando o mesmo tipo de semana que eu. Enquanto se posicionam  nossa frente, vejo que o calor do dia parece no 
incomod-los. Simon vai em direo ao homem na liderana do grupo, cujo nome, eu acho,  Sr. Berryman. Ele est usando um terno verde-oliva com uma gravata cor de 
laranja e est agarrado a uma pequena caixa de madeira. Simon faz as apresentaes  medida que os visitantes passam por todos no grupo at chegarem a mim:
-- Esta  Izabel, que ir cuidar de vocs durante sua estada aqui. Falem com ela sobre qualquer coisa de que precisem.
Aperto a mo do Sr. Berryman. 
-- Como vai? - digo. - Quer que eu leve isto para o seu quarto?-pergunto, indicando a caixa que ele carrega.
Ele hesita.
-- H, claro. Mas  uma caixa muito valiosa para mim.
Tento dar um sorriso assegurador, que Dom sempre diz que me faz parecer demonaca. Dom acaba de voltar, e eu fao um gesto autoritrio para que ele se aproxime. 
Peo que leve a caixa para o quarto do Sr. Berryman e que tome o maior cuidado com ela.
Simon acompanha os cinco homens at a sala de estar e, depois de ter oferecido bebidas, corro para a cozinha. Dominic ainda est levando as bagagens para cima e 
Will vai ajud-lo agora que no h ningum por perto. Tia Winnie est conversando animadamente com Monty enquanto pica as vagens que vo acompanhar os escalopes, 
e a Sra. Delaney j est colocando a salada de rcula nos pratos espalhados sobre a imponente mesa de carvalho.
-- Izzy! - tia Winnie me cumprimenta. - Eles j chegaram?
-- Sim. Acabaram de chegar. Vocs j decidiram se vo almoar com eles? - perguntou, pensando nos assentos extras  mesa.
-- Pelo amor de Deus, no! - exclama Monty. - Uma casa cheia de estrangeiros! Preciso descobrir o que esto tramando! E no posso fazer isso se estiver almoando 
com eles.
-- Monty e eu vamos patrulhar a casa - diz tia Winnie.
-- Maravilhoso! - Vocs acham que conseguem trancar todas as portas que do para os quartos sem uso durante a patrulha? No quero que nenhum dos visitantes entre 
inadvertidamente em um quarto vazio. Eles vo querer saber que diabos est acontecendo.
-- Acho que j esto pensando isso - diz tia Winnie.
-- Vamos ter que colocar cunhas atrs das portas e sair pelas janelas, Winniezinha - diz Monty. No sei se ele acha que assim ser mais divertido ou se, na realidade, 
as portas no podem ser trancadas da maneira normal, com chaves. Agradeo aos cus por eles no almoarem conosco e vou verificar a disposio dos lugares  mesa.
O almoo corre tranqilamente. Os americanos no falam muito, mas acho que gostaram da comida que, devo confessar,  maravilhosa. Todos parecem muito ansiosos em 
tratar de negcios e, assim que o almoo termina, correm para a sala de estar. Passo a hora seguinte arrumando a mesa para o jantar, colocando lugares extras para 
a famlia, recolhendo a toalha e guardapanos sujos, e levando tudo para a cozinha.
A reunio da aquisio  interrompida para o ch, s quatro da tarde, e Dominic esfora-se para atravessar a sala de jantar carregando uma enorme bandeja. A Sra. 
Delaney empenhou-se para manter o equilbrio patritico e assou miniaturas de doces tradicionais britnicos. Simon entra na cozinha cinco minutos depois. Ele se 
encosta no batente da porta e boceja sem cobrir a boca com a mo, exibindo uma fileira de dentes brancos. Apesar disso, ainda consegue parecer devastadoramente glamoroso.
-- Como vai indo? - pergunto.
-- Bom, eles ainda no foram embora, portanto acho que estamos indo bem quando o possvel. Fizemos uma pausa de dez minutos para o ch. Vim at aqui para dizer que 
o almoo estava simplesmente maravilhosa, Sra. Delaneyy.
-- Ah, obrigada - diz ela.
-- Cansado? - perguntou.
-- Exausto. E voc?
-- Idem.
Uma vez que eu esperava passar somente algumas noites aqui, no trouxe muitas roupas e estou um tanto preocupada com a tarefa de achar o que vestir para o jantar 
desta noite. Foi uma sorte ter trazido comigo meu nico conjunto de grife, que ganhei como presente de aniversrio de minha irm Sophie.  um conjunto branco de 
blazer e calas de Ben de Lisi,  mas no sei o que usar com ele, j que todas as blusas que tenho esto sujas. Quando esgoto as possibilidades, vou at o quarto 
de tia Flo, nos fundos da casa, para ver se posso pegar alguma coisa emprestada. Normalmente eu no apostaria no guarda-roupa de uma velhinha aposentada, mas a tia 
Flo no usa roupas tradicionais. Dou uma batidinha na porta.
-- Entre! - diz ela com sua voz melodiosa. - Ah, Isabel, minha querida! Que bom ver voc! Entre! Entre! - Ela coloca de lado o livro que estava lendo e me olha por 
cima dos culos de leitura. - Como vai voc?
-- Ah, estou bem, tia Flo, obrigada. Como vai a senhora?
-- Nunca estive melhor! - S quando Monty est por perto  que ela parece ficar competitiva a respeito de sade. - Como est se dando com os americanos?
-- Muito bem. Eles parecem estar contentes.
-- Como?
-- EU DISSE: ELES PARECEM ESTAR CONTENTES.
-- Talvez Simon consiga reverter a situao.
-- Se algum pode fazer isso, esse algum  Simon.  um jovem admirvel.
-- Sim, . - a frase escapa antes que eu possa pensar.
-- Sempre digo que  Will quem sai com as garotas, mas  com Simon que elas querem casar. No cheguei a mostrar os besouros acasalando, mostrei?
-- Ah, no. No mostrou. - Tento fazer um ar desapontado enquanto imagino o elo vital entre besouros e casamento. - Falando em, h, vida selvagem, Poppet est por 
a ou est tirando uma soneca?
-- Est no aqurio dela. Quer v-la?
-- No, no! Est tudo bem. Ela precisa do sono de beleza dela. S estava pensando onde poderia estar. No queria pisar nela!
-- Sabe, ouvi Will falando ao celular esta manh. No sei com quem falava, mas parecia muito ntimo. - Ela ergue as sobrancelhas de modo sugestivo.
Eu admito que estou interessada na vida amorosa de Will e tambm ergo minhas sobrancelhas de modo sugestivo.
-- Foi?
-- Perdo?
-- EU DISSE: FOI? - Dou um rugido, mas boa parte da atuao vocal se perde no grito e tia Flo me olha como se dissesse "Acabei de dizer isso, no?".
Ela parece que no tem mais nada a acrescentar ao assunto e eu dou um pigarro.
-- Tia Flo? Vim ver ser posso pegar uma blusa empresta para esta noite. Para usar com meu conjunto. No trouxe roupas suficientes de Londres porque no esperava 
passar tantas noites aqui. - Mostro o conjunto branco que carrego no brao.
Ela d um pulo.
-- Claro! Vamos at o armrio. - Eu a acompanho. - Na verdade, preciso pensar em comear a me arrumar tambm. Que conjunto lindo! Por que voc no veste e vemos 
o que podemos fazer? 
Enquanto me troco, tia Flo revira o guarda-roupa. Ela se vira e me olha por um momento.
-- Querida, por que voc no o usa exatamente assim?
Olho para minhas roupas, em dvida.
-- No estou usando nada debaixo do blazer, tia Flo.
-- Sim, mas se voc abotoar todos os botes, no poderemos ver o suti.
Fao isso e  verdade, o decote do palet desce em um V profundo que pra um pouco acima do suti. Mas  mesmo s um pouco acima. Olho para a imensido do meu decote.
-- No posso fazer isso!
-- Claro que pode! Voc est muito sexy! Experimente este colar. - Ela vai at a penteadeira, abre uma caixa, tira um colar e o coloca ao redor do meu pescoo. Um 
pingente perfeito de prola est sedutoramente dependurado no meu pescoo. - Tambm tenho os brincos! Vamos prender seu cabelo e com estas sandlias altas de tirinhas 
voc estar perfeita!
Deixo que ela arrume meu cabelo, coloco as jias e, devo admitir, o resultado no  to ruim assim.
Chego  cozinha e encontro Dominic arrumando os copos para a noite.
-- Uau! Voc est sensacional! - diz ele.
-- Voc acha mesmo? - pergunto, nervosa, arrumando o blazer. 
O celular dele comea a tocar o tema do Batman e ns dois damos um pulo. Ele olha o visor.
-- Sem sinal - murmura e sai para o ptio. S que eu sei que Dominic usa a mesma prestadora que eu, e meu celular funciona perfeitamente bem aqui. No  nem a hora 
nem o lugar, mas eu gostaria de gritar: "Dominic, eu sei que voc  gay e ainda amo voc!" Em vez disso, concentro-me em cortar limes para as margaritas e fico 
pensando nos motivos que o levam a estar inseguro para me contar a verdade. Ser que ele acha que sou muito travada para aceitar a situao?
Meia hora mais tarde, estamos todos reunidos na sala de estar, bebendo margaritas como se nossas vidas dependessem delas. Will inclina-se na minha direo.
-- Voc est linda! - ele sussurra.
-- Obrigada! - E observo, por cima ombro de Will, Simon entrar na sala. Simon d um sorrisinho para mim e vai falar com um dos americanos. Comeo a trabalhar na 
importante tarefa de fazer com que cada um de nossos visitantes sinta-se confortvel e em casa. Acabo percebendo que Simon e eu demos a volta na sala e acabamos 
um do lado do outro. Ele espera que eu termine uma conversa.
-- Oi - diz ele, afastando-nos do grupo. - Est tudo bem?
-- Sim. E voc?
-- Bem.
Ficamos parados, sem graa, por um momento. Estou prestes a me mexer quando Simon diz:
-- Estava querendo dizer que encontrei nosso antigo esconderijo ontem.
-- Foi? - pergunto educadamente, mas cautelosa. Estava comeando a me sentir um pouco mais confortvel perto dele e no estou disposta a agitar as guas do nosso 
passado complicado.
-- Sim. Estava procurando algumas lanternas para a sua, h, excurso e decidi olhar debaixo da escada. Nem sei por qu, h anos no vou l. Sabia que alguns de nossos 
livros ainda esto l? Voc precisa ir ver.
Ele sorri de repente e se mexe como quem vai pegar no meu brao e me levar at l.
Dou um passo atrs instintivamente, mais uma reao de impulso do que outra coisa. O sorriso desaparece do rosto dele.
-- Sim - eu me obrigo a responder. Preciso ir uma hora dessas e espiar o local. - Tento sorrir. - Mas agora tenho de voltar para os seus convidados. - E antes que 
ele possa dizer uma palavra, saio da sala.



Dominic, Meg e eu vamos para a cama depois que ajudamos a limpar tudo. Dominic e eu deitamos em nossas camas e conversamos sobre a noite enquanto um gafanhoto que 
mora na chamin fornece o acompanhamento musical. Dom acende o ltimo cigarro da noite e eu dou profundas tragadas passivas. Meg est deitada no vo do brao de 
Dom. Parece que ela nos adotou.
-- No podemos lev-la para Londres? - pergunta Dom.
-- Ela no  nossa. Eu adoraria que ela viesse morar conosco, mas ter um cachorro em Londres, especialmente depois dela ter vivido com todo este espao, no parece 
justo.
-- So tantos ces que ningum vai perceber.
-- Aonde a levaramos para passear?
-- Temos os bosques no fim de Lower Richmond Road. Voc acha que ela sentiria falta do campo?
-- Talvez.
-- Eu poderia recortar fotos de rvores das revistas para ela.
-- Isso resolveria o problema. - Respiro profundamente mais uma vez. - Sopre esta fumaa para c, Dom.
-- No vou no, voc no fuma. - Ele d uma ltima tragada e apaga o cigarro. - OK! Apagar as luzes!
Eu fico tensa. Meu ritual noturno sempre inclui um pouco de leitura e, sempre que Dominic e eu dividimos um quarto, isso  um problema.
-- Vou ler mais um pouco.
-- Aiiiiii! Izzy! No consigo dormir com as luzes acesas!
-- Ponha a cabea debaixo das cobertas, ento.
Tento ler o mais que posso (preciso ficar acordada, preciso chatear Dom!), mas sinto meus olhos fechando lentamente, at que o sono toma conta de mim e eu sonho 
com Rob, Simon e a famlia toda em um circo. Tia Winnie  uma maravilhosa mestre-de-cerimnias.


Na manh seguinte, enquanto Simon est reunido com sua equipe, verificando "as implicaes de uma srie de condies", Will, Daniel e eu levamos os visitantes at 
o lago.  a primeira vez que vou at l desde que cheguei a Pantiles e tenho que admitir que parece exatamente igual ao que era h quinze anos. Juncos crescem abundantemente 
ao redor do lago, a velha casa de barcos vermelha ainda est l e um deque de madeira com uns vinte metros de comprimento est ao lado dela. Quando ramos crianas, 
era absolutamente proibido vir at aqui, a menos que quisssemos ficar de castigo por um ano.
O Sr. Berryman e seus colegas parecem ter relaxado desde a sua chegada. O jantar de ontem  noite ajudou muito a acalmar os nimos e eles devem ver agora que no 
somos um grupo to ruim para tratar de negcios. Os jornais de hoje tambm retratam Simon de uma maneira muito mais positiva depois da visita dos jornalistas. A 
sugesto de descansarem por uma hora visitando a propriedade e a possibilidade de fazer esqui aqutico foram recebidas com grande entusiasmo no caf-da-manh. Houve 
uma espcie de estouro da boiada, com todos correndo para os quarto em busca de camisetas e bons, e l fomos ns. O sol brilha enquanto eu arrumo duas mantas de 
piquenique xadrez na margem e me posiciono decorativamente sobre ela, sentada sobre as pernas dobradas. Arrumo as xcaras de plstico, as garrafas trmicas com leite 
quente e caf, os brownies de chocolate branco e macadmia e espero, feliz, ter alguns momentos de tranqilidade. O velho cortador de grama de Fred est vibrando 
ao longe. Will est com os visitantes no deque de madeira, em frente a casa de barcos, que foi aberta por Daniel. Finalmente, como ningum parece se mexer, vou at 
l. Dentro da casa de barcos, junto com o bote a remos e a velha chata da qual me lembro, est uma surpreendente lancha no estilo James Bond. Daniel est tentando 
convencer um dos americanos a experimentar o esqui aqutico.
-- De onde veio isso?-sussurro para Will.
--- Simon teve a idia de colocar roupas de esqui aqutico no lago. Daniel acabou de tirar sua licena, e Simon conseguiu convencer a empresa da lancha a nos emprestar 
uma por uns meses antes comprometermos a compr-la.
A voz de Daniel atravessa o grupo.
-- Izzy faz esqui aqutico. Ela mostrar como fazer! - Todos olham para mim.
-- H, fao?
-- Sim! Simon me disse que sim!
De repente, lembro-me do meu criativo CV. Dom me fez colocar esqui aqutico como um dos meus hobbies porque, segundo ele, eu era muito entendiante e estvamos centenas 
de quilmetros longe do mar. Eu o considero pessoalmente responsvel por qualquer coisa que acontea aqui hoje.
-- H, eu no sou muito boa. Acabei de tirar a [i]minha[/i] licena!
ahrr!!!
-- Deixa disso, Izzy. O Sr. Tyler aqui se sentiria muito melhor se voc fosse primeiro.
Segue-se um minuto frentico de negociaes, mas estou absolutamente irredutvel e no vou entrar na gua. No fim, concordo em gritar instrues e palavras de encorajamento 
ao Sr. Tyler da margem do lago. Seus colegas esto entusiasmados com a possilidade de ver o Sr. Tyler se molhar e fazer papel de bobo e conversam animadamente enquanto 
vo para as mantas do piquenique.
Espero no deque enquanto o Sr. Tyler coloca uma roupa de mergulho. Daniel faz uma onda enorme mexendo no barco e nos esquis, e quando estou prestes a morrer de tdio 
o barco d sinal de vida. O Sr. Tyler nada um pouco para fora do caminho e espera pela largada, em busca de segurana e eu entro no jogo.
-- Est perfeito, Sr. Tyler! Parece um profissional! - Eu gritaria a mesma coisa se ele estivesse se afogando.
Sucedem-se algumas largadas falsas, j que o Sr. Tyler despenca na gua em grande estilo. Eu uso frases como: "Mantenha os joelhos dobrados" e "Empurre a barriga 
para frente", todas acompanhadas de muitos gestos e demonstraes prticas que parecem completamente plausveis e que se aplicam ao esqui na neve. Mas dou a impresso 
de j ter feito isso antes. Pouco tempo depois, o grupo est de p, na margem, bem perto da gua, gritando como loucos. Olho meio nervosa para todos eles, como uma 
me ansiosa, esperando que tomem cuidado. A ltima coisa que quero  ter que pescar um americano superexcitado. Talvez no devssemos ter deixado que eles comessem 
to cedo os brownies da Sra. Delaney.
Volto minha ateno para o Sr. Tyler, que est fazendo sua quinta tentativa de ficar de p por mais de um milionsimo de segundo.
-- Vamos l, Sr. Tyler! O senhor consegue! - grito para a figura surpreendentemente sorridente que acena para ns. Daniel liga os motores e l vo eles. Num determinado 
momento, o Sr. Tyler deve ter entendido minhas palavras de sabedoria, ou simplesmente as ignorou, porque depois de um incio desequilibrado ele volta a endireitar-se. 
Uma ovao  ouvida na margem e, subjugada pelo entusiasmo, corro como uma louca pelo deque, gritando frases como:
-- Muito bem! Excelente, Sr. Tyler! - At que corro at o fim do deque e caio no meio dos juncos.


Tento chapinhar sobre a lama com o mximo de dignidade possvel e vou para a cozinha. Estou absolutamente mortificada. Os americanos esto achando tudo muito divertido.
Monty ergue os olhos das palavras cruzadas.
-- Izzy! Que diabos aconteceu com voc? - Sua boca se retorce de modo suspeito.
-- Meu Deus, Izzy! Voc no precisava tentar se afogar - diz tia Winnie. - Tenho certeza de que podemos resolver as coisas aqui!
-- Eu ca no lago - digo emburrada.
-- Voc est fedendo! - diz Monty.
Abro a boca para soltar uma resposta daquelas, mas fico sem palavras. Acabo dando uma fungadela desdenhosa, que espero que transmita meus sentimentos.  um excesso 
de delicadeza vindo de uma famlia que vive da terra.
Simon aparece na cozinha neste exato momento.
-- Papai, voc viu... DEUS DO CU! QUE CHEIRO  ESSE?
-- Sou eu - digo, na porta com um tom miservel de voz.
-- Izzy! O que aconteceu com voc?
-- Eu ca no lago.
-- Como foi que conseguiu isso?
-- Estava dando instrues de esqui aqutico para o Sr. Tyler.
-- Jura? - Sua boca tambm se retorce de modo suspeito. - Voc achou que ajudaria fazer uma demonstrao?
-- Eu ca no fim do deque.
-- Ah. Coisinhas malandras os deques. Esto l e, de repente, desaparecem. - Ele abana a cabea compreensivamente. Acho que est se divertindo  minha custa.
-- Eu ca no meio dos juncos. Havia um monto de coc de pssaro e algumas coisas mortas tambm.
-- Isso provavelmente explica o cheiro.
Eu tremo um pouco, e Simon me manda ir correndo para cima trocar de roupa. Eu preciso mesmo, e muito, de um cigarro.






















CAPITULO 19
Aparentemente, cair em um lago completamente vestida  a melhor coisa para fazer uma tomada hostil correr s mil maravilhas. Isso no deve estar em nenhum livro 
de administrao de empresas. Depois de ter lavado o cabelo, trocado de roupa e ficado vermelha inmeras vezes s com a recordao da cena, comeo a organizar o 
almoo. A Sra. Delaney est ocupada na cozinha, preparando um festim de bolinhos de siri com molho cremoso de raiz-forte e endro, pargo assado com alcachofras e 
batatas Dauphinoise e frutas silvestres com molho de chocolate branco (completo, com folhinhas de hortel e tudo, mas  bom lembrar que a Sra. Delaney  uma chef). 
Harry est sentado a uma das pontas da mesa da cozinha, balanando as pernas e comendo bolinhos recheados (esses parecem ter sido comprados na loja, a menos que 
a Sra. Delaney, alm de ser uma chef fantstica, tambm tenha criado uma embalagem prpria e um logotipo). Eu posso estar me dando melhor com ela agora, mas ela 
ainda me apavora. At mais do que antes, se isso  possvel. Na minha experincia, chefs so pessoas com personalidades perigosas e volteis, prontas a pegar o primeiro 
faco de aougueiro que tiverem na sua frente.
   Os visitantes voltaram do lago e esto bebendo aperitivos na sala de estar. Will me informa com ar divertido que a minha queda foi o detalhe que faltava para 
reunir o grupo, e que depois que eu sa todo mundo quis experimentar o esqui aqutico. Na verdade, a atmosfera do ambiente  quase de festa. Preciso me lembrar disso 
para meus prximos eventos.
Durante o almoo, todos se aproximam de mim como se fossem velhos amigos. Os americanos apertam vrias vezes meu brao e riem s gargalhadas. Provavelmente esto 
rindo  minha custa, mas eu, enrubescida, levo tudo na esportiva. No  difcil, j que eles so muito bem-humorados. Com o corao um pouco menos apertado, volto 
para a cozinha.
Tia Fio me emprestou um vestido preto para a noite.  absolutamente maravilhoso, incrivelmente elegante e tremendamente clssico. As alas so delicadas correntes 
prateadas que se prendem atrs de meu pescoo como uma frente-nica e descem pelas minhas costas, terminando em bolinhas de cristal que batem contra minhas omoplatas 
enquanto eu ando. O resto do vestido  muito simples e tem um corte excepcional, com fendas dos dois lados que vo at c alto das coxas.
Estamos um pouco atrasados e eu comeo a me sentir estressada. A Sra. Delaney est aborrecida com algo e est fazendo um barulho batendo panelas e frigideiras. 
Monty cria o maior drama sobre juntar-se a todos no jantar, usando a sade como desculpa, e tia Winnie quase tem que tranc-lo no quarto para que ele mude de roupa. 
No vi Fio desde que ela apareceu com o vestido hoje cedo, o que  muito incomum, e espero que ela no tenha sido devorada por Poppet ou coisa parecida.
Visto-me depressa, prendo o cabelo e coloco meu celestial par de sandlias de tirinhas. So as mesmas que usava quando conheci Rob, penso amargurada, sentando-me 
e comeando a rdua tarefa de enrolar as tirinhas de couro ao redor dos meus tornozelos como s-e faz com as sapatilhas de bale (infelizmente as semelhanas terminar: 
aqui). Meg est revirando o guarda-roupa, enterrando outro de seus biscoitos caninos.
Estou pronta para amarrar a outra sandlia, enquanto admiro minhas unhas recm-pintadas, quando ouo algum chamar meu  nome e vejo Dominic entrar correndo no quarto.

Sem ao menos dizer um "oi", ele agarra meu ombro com firmeza me ergue da cama como um daqueles pequenos rebocadores que puxam transatlnticos, me vira e me empurra 
para fora do quarto, resisto com fora, pegando a sandlia do cho acarpetado e dizendo:
- Dom, que diabos est fazendo?
- Izzy. Voc tem que vir. Agora - ele sibila e me puxa.  a tarefa dura esta. Eu sou um peso-pesado.
- O que aconteceu? - pergunto assustada. - Deus, foi a com Fio? Ela est bem?
- Ela est bem. Mas a aranha desapareceu.
- Desapareceu? O que quer dizer com isso? - Dou um gritinho esganiado, pensando primeiro na minha covarde pessoa.
- Desapareceu para ir tomar uns drinques com os amigos no bar. CLARO QUE EU QUERO DIZER QUE ELA SUMIU. Tia Fio procurou por ela o dia todo.
- Jesus! Ela pode estar em qualquer lugar agora! - Comeo a mancar freneticamente, com uma sandlia ainda na mo.
- Sim, mas esse no  o problema.
- No? Tem certeza? Porque isso parece com um problema para...
- No. Fui ajud-la a procurar pela aranha... - Ele ofega enquanto passamos em disparada pelas portas no fim do corredor em direo  ala onde Monty e Fio vivem 
- ... e ela estava desesperada. Aparentemente ela apenas deixou a aranha sair para dar uma volta e ela desapareceu... - Chegamos ao quarto de Fio e batemos na porta.
- E qual o outro problema? - pergunto.

- Entre e veja - ele diz sombriamente. Fio abre a porta.
- Ol, querida! O vestido ficou lindo em voc! Vejo Harry de quatro no canto.
- Eu prometi dez libras se ele a encontrar - murmura Dominic.
- Uma sandlia s? Nova moda? - pergunta Fio. Eu levanto a outra sandlia e ao mesmo tempo digo:
- Tia Fio, ouvi dizer que Poppet sumiu.
- Desculpe?
- EU DISSE: OUVI DIZER QUE A ARANHA SUMIU.
- Ssssshhhhhhh - sibila Dominic. - Algum vai ouvir voc.
- Sim, querida. Ela j fez isto antes - diz tia Fio.
-        Verdade? - digo com voz esganiada. - Recentemente? Nas ltimas semanas? - Li em algum lugar que uma pessoa chega a engolir dez aranhas por ano enquanto 
dorme. Surge o ridculo pensamento na minha mente de que eu posso ter, sem querer, engolido Poppet enquanto dormia. Mais uma vez pensando no meu precioso pescoo. 
Dom me d uma cotovelada violenta nas costelas.
   - Eu a levo para passear todas as manhs. - Surge outra imagem ridcula na minha mente, tia Fio passeando pelos jardins com a aranha presa em uma correia vermelha.
- H, desculpe?
   - EU DISSE QUE A LEVO PARA PASSEAR TODAS AS MANHS.
- Sssshhhhh - Dominic sbila novamente. Enfio apressada alguns centmetros do meu vestido na minha calcinha e me equilibro em um s p. No quero que Poppet me confunda 
com uma escada.
Dominic me d outro cutuco.
- Este no  o nico problema - ele sussurra -, olhe aqui. Ele me leva at uma cmoda e me coloca na frente dela. Levanto novamente meu p.
- O qu? - pergunto.
- Aquilo - ele sibila e aponta para uma urna de aparncia inofensiva.
- Que  que tem?
- Eu j a vi antes.
Ser que Dom ficou maluco?
-        Viu? - pergunto com cuidado, ainda olhando em volta,
muito mais preocupada com a aranha do que com Dom.
-        Eu a levei para o quarto do Sr. Berryman.
Nesta altura eu estou completamente confusa.
-        E da? Ele tem uma igual a esta.  estranho que ele a carregue
com ele, mas...
- E a mesma urna - sibila Dom. Franzo as sobrancelhas.
- Como voc sabe?
-        Eu carreguei aquela porcaria, sua burra. Voc me mandou
fazer isso. E era isto aqui que estava dentro daquela caixa de madeira que eu carreguei. D uma olhada... - Eu me inclino cautelosa
mente e ergo a tampa. A urna est cheia de uma estranha substncia
cinza. - So as cinzas da me dele. Ele me disse que as carrega para
todo lado. Ele me puxou de lado para perguntar se a casa era segura. - Dom olha para mim com olhos esbugalhados com a implicao da ltima palavra.
Que droga! Fecho a tampa com um sonoro "tum" e me viro para olhar para Fio, que est deitada no cho, olhando debaixo do sof.
- H, tia Fio?
- Ainda no a vejo... - ela murmura.
- Tia Fio? - digo novamente. - H... - Ela no est prestando nenhuma ateno em mim e eu me deito no cho ao lado dela. Na verdade, deitar no me faria mal algum.
- Tia Fio? Onde voc conseguiu esta linda urna? - pergunto, na posio horizontal, com uma certa urgncia.
- Humm? Ah, aquela? Eu a achei. Bonita, no ?
- Quando? Quando a encontrou?
- Hoje, enquanto procurava por Poppet. Estava em uma caixa de madeira. Dominic, seja bonzinho e levante o sof.
Deixo Dominic levantando o sof e saio pulando em um p s, como nunca fiz antes, escadaria abaixo.
Encontro Simon na sala de estar com o resto da equipe. Todos me olham surpresos quando entro pulando que nem um saci, mas eu tenho outras preocupaes na cabea.
- Simon? Posso falar com voc por um segundo?
- H, claro.
- Em particular? - As sobrancelhas erguem-se ainda mais. Vou saltitando pelo hall de entrada at o escritrio ainda vazio e despenco sentada em um pufe. Eu falo 
correndo, comendo as palavras, explicando toda a triste histria, mas deixando de lado a parte de Poppet ter desaparecido, enquanto tento desesperadamente calar 
a outra sandlia.
- Veja, eu tenho certeza de que ela no quis roub-la. Ou peg-la. Ou... ou... qualquer outro verbo que voc queira usar. - No quero acusar a tia favorita dele 
de ser uma ladra, e no sei bem como Simon vai reagir.
-        Ela tem o hbito de pegar coisas - ele diz devagarinho.
Eu pisco nervosamente.
- O que voc quer dizer com um hbito? Como, h, um hbito cleptomanaco?
- Bom, se voc quer usar um termo tcnico. Ns simplesmente vamos at o quarto dela uma vez por ms e pegamos nossas coisas.
- Ela  cleptomanaca?
- Izzy, todas as famlias tm suas idiossincrasias.
- Isto  uma idiossincrasia? Na verdade, agora que penso a respeito, no encontro meu suti branco.
- Mesmo? - Ele pisca rapidamente.
- Seja como for, voc no acha que deveria ter me avisado a respeito disso? - disparo depressa para sair do assunto do suti.
Simon parece surpreso.
- Tinha me esquecido completamente disso.  algo normal para ns em casa. Na verdade, pensei que todas as tias idosas fossem iguais.
- A minha tia Winnie no!
- Bom, ela no  uma tia como as outras, ?
- Ela nunca surrupiou algo.
- Ah, eu no diria isso. Ela roubou trs salas cheias de antiguidades.
- Ela no roubou, ela pegou emprestado para salvar o seu lindo pescoo!
Ele ergue as sobrancelhas ao ouvir isto.
-        E o seu pescoo tambm.
Quase caio na gargalhada. De alguma maneira a conversa perdeu o rumo. Mudo rapidamente de direo, dizendo:
- No vou comear a debater o assunto tias com voc. O que vamos fazer com a urna?
- Ah, sim, a urna.
- Onde esto os convidados? - pergunto.
- Nos jardins. Passeando antes do jantar. Alguns j devem ter ido mudar de roupa.
- Ento o Sr. Berryman j pode ter notado que a urna sumiu.
- Tambm pode no ter visto nada.
- No vai ficar bem, vai? Um item precioso retirado do quarto dele.
- No, acho que podemos dizer com segurana que no vai ficar nada bem.
- Ele pode querer chamar a polcia ou fazer um escndalo, a urna parece bastante valiosa.
- Isso seria um banho de gua fria nas negociaes. - Dom entra desembestado na sala. - Temos que colocar a urna de volta.
- OK! Mas e se ele j deu pela falta dela?
- Bom, a tia Fio tirou a urna de dentro da caixa de madeira, que ainda deve estar no lugar; portanto, se ele no olhou dentro da caixa, est tudo bem. Alm disso, 
se tivesse percebido j teria dito algo. Se ele pegar voc colocando-a de volta podemos dizer que foi levada sem querer... para limpeza. - Das trinta e poucas palavras 
desta frase, uma em particular chama a minha ateno.
- O que voc quer dizer com voc? No vou coloc-la de volta.
- No posso fingir que a urna foi levada para limpeza sem querer. Ele a mostrou para mim e disse que continha as cinzas da me dele - diz Dom. Olho para ele com 
os olhos apertados. Que desculpa mais esfarrapada.
Estou absolutamente aterrorizada.
- Eu? Por que eu? Por que no Harry? Isso deve valer umas dez libras - choramingo. No sou a pessoa mais corajosa do mundo e no tenho nenhum escrpulo em mandar 
um escoteiro inocente fazer o trabalho.
- Muito jovem - diz Simon.
- Que tal Monty? - continuo, determinada a no ser enrolada.
- Muito velho.
- A Sra. Delaney?
- Muito ocupada. Ela est cozinhando para vinte pessoas.
- E que tal o fato de eu estar muito assustada? Ou extremamente nervosa? Que tal isso para mim?
- Ahhh, deixa disso, Izzy! No vai ser difcil! - diz Dom encorajadoramente.
- Fio? - contra-argumento. - Foi ela que tirou; ela que ponha de volta!
- Provavelmente ela vai pegar outra coisa enquanto estiver l - diz Simon.
- E que tal voc? - retruco.
- No posso ser pego em um quarto dos hspedes.
- Isto  muito conveniente - retruco irritada.
- Devo dar uma bofetada em voc, Izzy? - pergunta Dom, esperanoso. - Voc parece estar um pouco histrica.
Dou uma olhada para Dom, que indica que se ele est pensando em me esbofetear...
- Deixa disso, Izzy. - Os dois homens me levantam.
- Mas e se ele me pega? O que  que eu digo? - choramingo.
- Diga que voc a encontrou no andar trreo, que sabia que ela no pertencia  casa e que descobriu que havia sido removida por engano do quarto dele. - Os dois 
esto me empurrando para o hall agora.
- Onde eu a coloco? Onde ele a deixou?
- Dentro da caixa de madeira que coloquei no criado-mudo quando levei tudo para cima - diz Dom. - Ficarei de guarda do lado de fora e assobio se algum aparecer. 
Precisamos esperar at ele ter descido para o jantar.
- Obrigado, Izzy. Voc salvou a nossa pele - bufa Simon, quase me arrastando pelo hall de entrada. - Vou ver tia Fio enquanto vocs dois esto cuidando do outro 
assunto.
- NO! - Dom e eu gritamos ao mesmo tempo, e os trs param.
- H... - Eu e Dom olhamos um para o outro. Simon no sabe sobre a aranha.
- S que seria melhor se ela estivesse conosco e no andando pela casa surrupiando outras coisas - gaguejo.
- Por qu?
- Bem... - Penso um pouco sobre dar cobertura a Fio, mas decido que uma tarntula e uma me em forma de cinzas so coisas demais para cuidar em uma s noite. Se 
Poppet vai continuar fazendo seu passeio pela casa, talvez seja hora de Simon saber sobre ela. - Fio tem um bichinho de estimao.
- Um bichinho de estimao?
- Sim. Um tipo de aranha.
- Uma aranha de estimao?
- Bom,  mais uma tarntula.
- Poppet? Meu Deus! Eu pedi a ela que se livrasse daquela coisa medonha!
- Ela provavelmente sente-se s! Pessoas idosas precisam de animais de estimao! - digo como defesa.
Isabel, como  que algum pode sentir-se solitrio nesta casa? Alm do tempo em que est dormindo, voc j teve um minuto de privacidade? E, caso no tenha notado, 
temos cerca de mil ces sujando o lugar. A aranha precisava ir embora porque a Sra. Delaney recusava-se a limpar o quarto dela e vivia desmaiando sempre que Poppet 
saa para dar uma volta.
O comentrio faz com que eu aborde o ponto seguinte.
-  muito engraado que voc mencione isso. Voc vai morrer de rir...
- Ela fugiu de novo, no foi? - Ele parece bastante cansado.
- H, sim.
- Ela est sempre escapando.
- Bom, ela provavelmente fica meio cansada de ser chamada de Poppet, no ? No  o melhor nome para uma feroz tarntula das ruas - declara Dom. - Puxa, acontece 
de tudo no campo, no ? A vida urbana comea a parecer terrivelmente pacata!
- Conseguindo material suficiente para o seu livro? - pergunto sarcstica.
- Suficiente, obrigado!
- Certo - Simon diz de modo decidido. - Vocs dois vo colocar a urna de volta, eu vou ver tia Fio.
Depois de trabalhar sete anos para uma das empresas mais finas de catering de Londres, c estou eu, parada de modo suspeito do lado de fora do quarto de um hspede 
segurando uma urna cheia de cinzas. A vida  mesmo engraada.
Dom e eu fingimos estar olhando algo muito importante do lado de fora da janela.
- Por que o Sr. Berryman anda por a carregando as cinzas da me, Dom? - pergunto de repente.
- Boa pergunta, Izzy, e no h dvidas de que em outra hora este ser um assunto que adoraria discutir com voc em profundidade. Mas acho que devemos nos concentrar 
no problema principal e no nos desviarmos dele. No importa o que o Sr. Berryman faz com essa porcaria, o problema  que voc precisa devolv-la para que ele possa 
continuar fazendo.
- Bom argumento.
- Tem certeza do que vai fazer?
- Claro como cristal. Quer dizer...
- Qual  o problema?
- O plano parece um pouco simples demais para o meu gosto.
- Izzy, querida, eu sei que voc adora complicar as coisas ao extremo e, de novo, poderemos discutir isso mais tarde, mas o plano  simples porque  simples. Ento, 
vamos recapitular. Fico aqui do lado de fora, montando guarda, e se vir algum vindo darei um assobio. E o que acontece ento?
- Saio correndo.
- Alguma pergunta?
- Sim.
Dominic revira os olhos perigosamente e murmura algo entre dentes.
No consigo perguntar nada das inmeras perguntas da minha lista porque naquele momento o Sr. Berryman sai do quarto e comea a andar pelo corredor em nossa direo. 
Com uma voz bem alta comeo a explicar para Dom as vrias tarefas que precisam ser executadas no jardim. Felizmente, o fato de que s comeou a escurecer agora e 
eu j estou usando um vestido de gala no parece perturbar o Sr. Berryman. A urna est escondida atrs de uma das cortinas. Ns nos cumprimentamos, com muita jovialidade 
por parte dele, muitos apertos de mos e comentrios sobre esqui aqutico que, felizmente, significam que ele no percebeu que sua preciosa urna est desaparecida.
Assim que ele some escadaria abaixo eu sigo em direo ao quarto dele, com a urna nas mos. Dominic comea a tirar o p de alguns bibels de mesa com seu leno.
Abro suavemente a porta do quarto do Sr. Berryman, entro e fecho-a atrs de mim. Vou correndo para o criado-mudo, enfio a urna dentro da caixa de madeira e estou 
pronta para sair correndo quando um pensamento cruza a minha cabea. Odeio quando isso acontece.
Ser que eu no conseguiria achar algo que pudesse ser usado nas negociaes? Ajudar Simon? Uma imagem de mim mesma salvando Pantiles sozinha e, conseqentemente, 
me libertando do peso esmagador da culpa invade minha mente.
Meus olhos se estreitam quando vejo uma pasta executiva preta no alto do guarda-roupa. No vai fazer nenhum mal dar uma olhadinha nela. Em um impulso, pego uma cadeira 
e a arrasto para a frente do guarda-roupa. Estou me equilibrando nas pontas dos ps e quase alcanando a pasta quando uma voz do alm diz:
-        Como vai indo?
Dou um grito alto como o de uma cacatua, me desequilibro e caio no cho.
- Meu Deus, Dominic! - rosno sentada, esfregando meu ombro. - Caramba, o que h de errado com todo mundo? Por acaso eu dou a impresso de precisar de mais estresse? 
O que est fazendo?
- Vim ver se estava tudo bem. Voc demorou tanto aqui dentro que achei que tinha virado budista.
- Eu ia dar uma olhada nesta pasta - sibilo -, para ver se h algo nela que possa ajudar Simon.
- Meu Deus, Izzy, voc est ficando completamente imoral! Que maravilha! V, continue!
- Volte para fora e fique de guarda!
Ele sai rapidinho do quarto, e eu volto a subir na cadeira. Ao fundo, um casal de gafanhotos comea o aquecimento vocal, que sempre acontece nesta hora da noite. 
Eu os amaldio silenciosamente e continuo o trabalho. Olho de vez em quando para a porta, pego a pasta e tento abri-la. Est trancada. Droga.
Depois de coloc-la no lugar, deso o mais suavemente que posso da cadeira, coloco-a no lugar e dou uma rpida olhada ao redor. Estou prestes a desistir de tudo 
e dizer que no deu certo quando vejo alguma coisa muito peculiar. Aos ps da cama est algo que parece uma bolinha de plo. Ajoelho-me perto dela e estico a mo 
para toc-la. Ela se encolhe. Com mil demnios!  Poppet!









CAPTULO 20

Dominic entra correndo quando ouve meu grito.
- Meu Deus, Izzy! Que diabos aconteceu agora?
Aperto bem os braos ao redor do meu corpo e saio o mais depressa possvel das vizinhanas da cama. Aponto para a cama, gesticulando como uma louca. Minha boca est 
paralisada de medo. No gosto nada das aranhas comuns de jardins, muito menos das que so do tamanho do seu punho fechado e atendem pelo nome de Poppet.
- O qu? Baixou uma anfitri pombajira em voc? No vejo
Aponto com o dedo na direo de Poppet at que Dominic finalmente entende o recado e olha cautelosamente para o cho.
- JE-SUS! - ele grita e sai correndo para ficar do meu lado no outro canto do quarto. - O que vamos fazer?
- Simon! - consigo murmurar o nome e samos correndo pela porta numa confuso de membros, pois parecemos estar com as pernas coladas.
Acredite em mim, eu consigo correr quando quero. E eu quero, quero muito. Quando chegamos ao escritrio, Simon est falando com algum ao celular. Ele j deve ter 
conversado com tia Flo. Puxo insistentemente sua camisa e ele me olha feio. Puxo o tecido como uma louca durante alguns segundos enquanto ele discute ndices da 
capitalizao de benefcios e coisas do gnero. Meu Deus! Pensar que eu quase pus a mo nela! Quem sabe ela me mordeu e, no calor do momento, eu no percebi. Examino 
minha mo ansiosamente. procurando marcas de dentada. Simon me olha preocupado, mas continua com a conversa. Puxo novamente a camisa dele, de modo irritante.
- Simonsimonsimonnnnn - sibilo, dando a impresso de que vou fazer xixi nas calas. Acho que ele percebeu o tom de urgncia na minha voz porque diz para a pessoa 
do outro lado que vai ter que ligar de volta e desliga.
- O que ?
-  Poppet. Est no quarto do Sr. Berryman.
- Tem certeza?
- Absoluta. Ela quase devorou o meu brao!
- Por que no a apanhou?
Olho para ele como se estivesse falando russo. Este homem est no mesmo planeta que eu?
- Apanh-la?
- Com um copo ou coisa parecida?
- Um copo? Simon, ela  do tamanho da minha mo. Que tipo de copo voc tem em mente?
- Bom, voc no podia ter pegado nela com a mo?
- Eu sou s a humilde Isabel. Voc deve estar pensando na Incrvel Isabel, a Domadora de Aranhas. Eu no chego perto daquela aranha.
- Meu Deus! Se voc quer que algo seja feito... - Sai ventando do quarto, resmungando para si mesmo.  um mal-agradecido ou no ?
Dominic e eu corremos atrs dele enquanto sobe os degraus de trs em trs. Conseguimos alcan-lo no corredor. Simon bate levemente na porta do quarto do Sr. Berryman 
e espia l dentro, Ele olha para ns.
- Eu fico aqui - diz Dominic. - Assobio se algum aparecer.
- Mas eu sei assobiar - protesto.
- No to bem quanto eu - diz Dom, me empurrando com vontade para o quarto de Poppet.
- Talvez ns dois podamos assobiar? - sugiro.
- No seja tonta, Izzy. Vou precisar de ajuda - diz Simon, agarrando a minha mo e me puxando para dentro do quarto. Alguma ajuda? Ser que posso ajudar a cinco 
metros de distncia? Espero que sim, porque  a nica assistncia que acho que posso dar.
Caminhamos p ante p no quarto.
- Onde est ela? - sussurra Simon.
- Perto da cama - sussurro de volta. Andamos cautelosamente em direo  cama. - Uso o plural aqui com uma certa liberdade potica, porque no estou indo nem at 
o meio do quarto.
- Onde? - ele sussurra, de costas para mim. - Izzy! Venha c! Ela no vai morder voc!
- No  s o verbo morder que est me incomodando. So todos os verbos, o andar, o sentar, o mover, at simplesmente o ser,  isso que est me preocupando. Ando 
outro centmetro e meio na direo dele e aponto.
- Ela est ali. Ao p da cama - sussurro, mas de repente ouvimos
o som inconfundvel de algum assobiando. De um modo bastante histrico. Nossos olhos se encontram por um momento.
- Rpido, algum est vindo! Para baixo da cama!
- Debaixo da cama? - Ele ficou louco? Eu no vou ficar no mesmo lugar que a aranha.
O assobio fica mais alto e muda para um cantarolar.
- OK, dentro do guarda-roupa, ento!
Corremos para o guarda-roupa. Me jogo dentro dele perigosamente, e Simon me segue. Ele aterrissa pesadamente em cima de mim e fecha a porta.
Levo alguns segundos para arrumar meus membros, e outro segundo para perceber que fizemos as coisas de modo errado. Estou deitada com a cabea em um ngulo torto, 
minha bochecha apertada contra a madeira e o cheiro de naftalina bem no meu nariz. No estamos falando de um guarda-roupa excepcionalmente grande aqui, e ele certamente 
no foi projetado para acomodar dois adultos. Minhas pernas esto enroladas debaixo do meu corpo e meu vestido est enrolado em volta das minhas orelhas. Tento respirar 
silenciosamente e ficar completamente imvel, mas parece que estou consumindo grandes golfadas de ar e meus pulmes esto com cibras.
Rezo para Deus, Buda, Al e quem mais possa estar ouvindo para que o Sr. Berryman no decida abrir o seu prprio guarda-roupa. Porque o que vamos dizer se ele nos 
encontra aqui dentro? Ol, tudo bem? Mordo o lbio porque sinto uma onda de risadas histricas subir pela minha garganta. Mas, quanto mais me esforo para impedi-la, 
mais forte ela se torna. Deixa disso, Izzy! No se deixe vencer. No  hora de ser invadida por risadinhas. Consigo localizar minha perna com a mo e enfio as unhas 
com fora. Devo pensar em coisas tristes. Devo pensar em coisas mortas e polticos nus e... A Novia Rebelde. Puxa, isto no est certo, est? O problema  que 
no  nada fcil manter as coisas em perspectiva quando seu rosto est achatado contra o fundo de um guarda-roupa. Quero dizer, no  exatamente uma postura meditativa, 
? Voc no v gurus de ioga dizendo que o melhor lugar para encontrar a paz interior  dentro de um guarda-roupa.
Comeo a respirar pesadamente pelo nariz. Preciso pensar em Simon, porque aposto que ele no est achando a menor graa nisso tudo. Ele deve estar levando tudo isso 
muito a srio porque, vamos e venhamos, se formos encontrados dentro deste guarda-roupa, todas as negociaes vo por gua abaixo. De repente, sinto a perna de Simon 
estremecer. E mais uma vez. Um tipo de tremor. Instintivamente, sei do que se trata e a onda de risadas histricas ameaa tomar completamente conta de mim. Ele est 
tentando desesperadamente no cair na gargalhada. Absoluta e desesperadamente. Ns dois respiramos fundo juntos, e sinto a mo dele procurando a minha. Ele a agarra 
e a aperta com fora, tentando manter algum controle. Eu aperto de volta, enterro meu rosto em alguma coisa e rezo por uma sada.
Que surge na forma de Dominic, que abre cautelosamente a porta do guarda-roupa e sussurra:
- Izzy? Simon? Vocs esto a? - Soltamos a respirao e fazemos aqueles estranhos barulhinhos que parecem vir do seu estmago.
Simon engatinha para fora primeiro, dando sem querer uma joelhada no meu plexo solar e caindo no cho. Eu comeo a dar risadinhas histricas e preciso ser praticamente 
carregada para fora do armrio, pois pareo ter perdido temporariamente o uso das pernas e estou quase sem poder respirar. Dominic e Simon colocam uma mo cada um 
embaixo de minhas axilas e me levantam, calcinhas  mostra, e ambos esto s gargalhadas.
- Era o Sr. Berryman? - Simon pergunta.
Dom acena que sim com a cabea.
- Graas a Deus ele entrou e saiu. No sei o que vocs fariam se ele decidisse tirar uma soneca ou fazer outra coisa.
Todos ficamos sentados no cho e esperamos alguns minutos at nos acalmarmos. Finalmente conseguimos ter foras para levantar, nos arrumamos e voltamos ao perigoso 
negcio de caar a aranha.
Simon olha sem medo para Poppet enquanto Dom e eu ficamos a uns metros de distncia. Ele chega cada vez mais perto, at que simplesmente se abaixa e pega a aranha. 
Meus olhos quase saem das rbitas. No h fim para a bravura deste homem? Ele  como uma espcie de semideus, sem nenhum medo de homens e feras.
- Izzy, o quo perto voc chegou dela? - ele agita Poppet para l e para c. No gosto muito dela, mas no acho que Simon deveria estar balanando a aranha daquele 
modo. Ela pode ficar zangada.
Consigo tirar meus olhos daquela forma balanante.
- Simon, eu realmente no acho que voc devia estar chacoalhando a aranha desse modo. Tia Flo ficaria...
- Voc olhou mesmo para isso? Deu uma boa olhada?
- Claro que dei uma boa olhada nela! Ela quase me mordeu! Ele segura Poppet na frente dele.
- Izzy, isto  uma peruca. A peruca do Sr. Berryman.
Dou um passinho para a frente e olho para a mo de Simon.  mesmo um tipo de aplique de cabelo.
- Oh.
Ele coloca a peruca de volta com um suspiro.
- Voc no viu que ele usa uma peruca?
Olho para Dom, que est escondendo as risadas com a mo.
- H, no.
Simon sai do quarto com um largo sorriso. E parece que ele est dizendo algo como "burra", "besta" e "fedelha", mas  provvel que eu esteja enganada.
- Hora de tomar o remdio, Izzy! - Dom diz alegremente e
segue atrs de Simon,
E eu sou a ltima a sair, muito sem graa. Meu Deus, Dom no vai deixar de falar nisso durante anos. Uma peruca? Eu poderia jurar que ela tinha se mexido. Espero 
que os outros no se lembrem de que eu disse que a peruca tinha me mordido.
Olho para o meu relgio. Puxa! J so sete e meia. Espero que algum esteja tomando conta dos convidados durante minha ausncia. Simon desaparece no quarto para 
trocar de roupa, e Dom e eu corremos escadaria abaixo para cuidar dos convidados. Felizmente o resto da equipe de Simon est com eles, junto com Monty, que despeja 
bebidas e charme em quantidades iguais.
Deixo Dom ajudando com as bebidas e corro para a cozinha para ver como a Sra. Delaney est se virando com o jantar. Ela deve estar absolutamente esgotada, principalmente 
depois de ter preparado o caf-da-manh, o almoo e o ch da tarde.
- Sra. Delaney? A senhora...? Oh. - Fico paralisada quando vejo a cozinha vazia. Ela deve ter dado um pulinho no banheiro ou em outro lugar. Dou uma andada pela 
cozinha e observo os livros de culinria abertos e os pratos semiprontos.
Dez minutos depois estou um pouco preocupada. Ela se afogou no banheiro? Ficou entalada? Dou uma olhadela rpida debaixo da mesa caso ela tenha decidido tirar uma 
soneca. Estou prestes a ir atrs dela quando Simon entra. Ele mudou de roupa e est usando uma cala de pregas com uma camisa bem passada e eu sinto um leve aroma 
de uma fabulosa loo ps-barba. Dou um largo sorriso que desaparece do meu rosto assim que vejo a expresso dele.
- O que foi? O que aconteceu?
- A Sra. Delaney acaba de telefonar.
- De onde? Do banheiro? - pergunto, achando graa.
- No, pior. Ela est no pub.
Eu admiro a audcia da mulher.
- No pub? Caramba, isso  que  ser alcolatra. Ela foi tomar um golinho? No entendo por qu, no  que no tenhamos nenhuma bebida aqui...
- O marido dela acaba de aparecer.
- O marido da Sra. Delaney?
- Sim.
- O marido da Sra. Delaney? - repito, para tentar enfiar a idia no meu crebro confuso.
- Sim. O Sr. Delaney.
- No sabia que existia um Sr. Delaney.
- Tem que haver um Sr. Delaney para que uma Sra. Delaney existisse.
- Sei disso, mas achei que ele no estava mais por perto.
- No estava. Ela no o v desde que saiu de Oxford, anos atrs.
- E ele acaba de aparecer?
- Sim. Acho que ela ficou um pouco surpresa.
- E ela foi ao pub? - Caramba, agora entendo por que ela ficou com uma sede to grande que a adega da casa no daria conta.
- Ele a levou ao pub. Acho que ela estava em estado de choque. Ela disse que voltaria para terminar de preparar a janta, mas eu disse que ela devia ficar l.
- O qu?
- No acho que ele saiba sobre Harry. Eles se viram pela ltima vez h nove anos, e Harry tem oito anos, por isso pensei que iriam precisar de um segundo drinque. 
Seja como for, ela no parecia estar em condies de cozinhar.
- Onde est Harry?
- Dormindo, graas a Deus.
- E que diabos vamos fazer?
Dominic aparece.
- Alguma idia de quando vamos ter alguma comida? Acho ou; os nativos esto ficando inquietos. - Ele olha para mim e depois para Simon. - Onde est a Sra. D.?
- No pub - respondo como uma tonta.
- No pub? - Dom pergunta incrdulo. - Caramba, isso  que  ser viciada, no ?
- Eu explico depois, Dom - respondo depressa. - O que vamos fazer? - pergunto a Simon.
- Bom, ela me disse que a sobremesa e a tbua de queijos estc prontas na despensa. - Vamos at l, abrimos a porta e  verdade. a comida est l. Nas mesas de pedra 
esto dois enormes pratos de queijos cercados por uvas, aipo e groselhas, junto com trs tortas e trs tigelas de creme chantilly. Bom, as coisas esto melhorando.
- Entrada e prato principal? - pergunto.
Simon menciona algo to complicado que eu quase tambm saio correndo para o pub.
- No acho que posso cozinhar isso para vinte pessoas em uma hora - digo devagar. - Consigo dar um jeito na entrada, mas no sei fazer o resto.
Simon pega as chaves do carro.
- Dom, pegue meu carro e v at o supermercado em Bury St. Edmunds. Voc sabe onde ? - Simon olha para o relgio. - Voc vai peg-lo quase fechando. Compre tudo 
o que encontrar que seja fcil. Quiches, saladas, tudo. Aqui est meu carto de crdito. Tire algum dinheiro no caixa eletrnico. - Ele escreve a senha.
Dominic parece confuso.
- Dinheiro? De onde?
- Do caixa eletrnico.
- Existe um caixa eletrnico?
- Sim.
- No campo?
- Sim! - diz Simon com uma pacincia de J. - Do lado de fora da agncia bancria.
Dominic olha para ns como se estivssemos gozando com a cara dele, mas entra no esprito da coisa e sai.
- Vamos ter que dizer que o fogo quebrou. - Simon vai at a porta do quartinho de servio, pega algo e atira na minha direo. - Aqui est! Um avental. Voc no 
vai querer estragar esse lindo vestido. A propsito, voc est maravilhosa.
- Estou? - digo com voz fraca. Isso no pode ser verdade. Depois de tudo o que passei esta noite, suspeito que meu desodorante j esteja vencido. Dou uma chacoalhada 
no avental para abri-lo e o amarro. - Poppet j foi encontrada? - pergunto, pensando que a ltima coisa de que precisamos  v-la passeando pela mesa no meio da 
refeio.
Simon est remexendo em um armrio. Ele d um largo sorriso quando ouve falar de nosso ltimo desastre e diz:
- Tia Flo e tia Winnie esto procurando por ela. Achei que levantaria suspeitas ter toda a famlia ausente durante o jantar.
- O que est procurando?
- O xerez para cozinhar. A Sra. D. o guarda aqui em algum
lugar. Ah! Aqui est! Venha tomar um golinho.
Dou uma gargalhada enquanto ele tira a rolha e toma um gole na garrafa. Tomo um golinho rpido e devolvo a garrafa, observando que ele no se d ao trabalho de limpar 
o gargalo antes de tomar outra golada.
- Se eu fosse voc, colocaria um daqueles adesivos de nicotina, Izz.
-J coloquei. - Ergo o vestido para mostrar um bem acima do joelho. - Vou colocar outro quando tiver uma chance. Quer um? - pergunto sria.
Ele d uma estrondosa gargalhada enquanto coloca a rolha de volta na garrafa, como se um no-fumante no pudesse usar um adesivo de nicotina. Ele me d um beijo 
na face e diz:
- Obrigado, Izz. Voc  maravilhosa. - E sai da cozinha me deixando para trs farejando o ar como um co faminto, desejando dar outra cheirada naquela loo ps-barba.
A noite no  um grande sucesso. H um momento desagradvel entre a sala de estar e a de jantar, quando os convidados so recebidos por Meg, a westie, recoberta 
de rolinhos de cabelo de velcro (que so meus, ela tem o desagradvel hbito de enterr-los). Ela es:i acompanhando com grande interesse a trajetria de um gafanhoto 
que atravessa, pulando languidamente, o hall de entrada. Para completar a cena, tia Flo e tia Winnie esto de quatro no cho, espiando debaixo do sof. Tia Winnie 
est usando luvas de borracha amarelas e agita um cabide nas mos. Sem dvida  a maneira antiga de se proteger contra aranhas. Eu me atrevo a dizer que, neste exato 
momento, h pigmeus na Amaznia usando o mesmo mtodo, Simon aperta o passo dos americanos levando-os para a sala de jantar, explicando que tia Winnie perdeu os 
culos. Parece mais que ela perdeu o juzo.
Acho que nossos visitantes esto um pouco chateados com o defeito do fogo (o que no deixa de ser uma verdade, o comportamento da Sra. Delaney pode ser descrito 
como defeituoso), mas eu tambm ficaria chateada se tivessem me enchido de bebida, recebido a promessa de um banquete dos deuses e descoberto que tudo o que havia 
para comer era quiche fria. Consegui preparar a entrada, que  um tipo de bouillabaisse do Leste europeu, feita com pimenta, coentro fresco e leite de coco, mas 
 difcil saber onde foi que a Sra. Delaney interrompeu o preparo. Pelo menos o gosto  bom. Um pouco. As sobremesas e a tbua de queijos so muito melhores e, finalmente, 
o jantar acaba e eu dou um grande suspiro de alvio.
Depois de ter limpado a cozinha volto para a sala de estar, onde encontro todo mundo cado nos sofs e poltronas com ar exausto. Todos os visitantes foram dormir. 
Monty trouxe as trs garrafas abertas de vinho que sobraram e todos ajudam a acabar com elas. Eu encho um copo, despenco em uma poltrona e imagino de onde ser que 
tia Winnie a pegou.
Os outros esto no meio de uma discusso para decidir que casa na cidade da tia Winnie tem mais bom gosto.
- Sabe, Izzy - troveja tia Winnie -, decidi que o vigrio precisa de uma esposa. A casa dele  uma confuso de estilos. Tambm espiei a cozinha e s encontrei latas 
e latas de feijo cozido. Estou decidida a encontrar uma boa mulher para ele.
Coitado dele. Parece que Deus decidiu mesmo test-lo. A Sra. Delaney, muito sem graa, entra na sala de estar. Simon a recebe com um grande sorriso.
- Como vo as coisas, Sra. D.? Venha c e sente-se.
Ela faz a cortesia de parecer muito sem graa e passa um tempo olhando para o cho.
- Est tudo bem. S vim dizer que sinto muito por hoje  noite. - Apesar dos protestos, ela acaba sentando na ponta de um dos sofs. - Foi um choque enorme v-lo. 
Aparentemente, meu nome foi citado em um dos jornais quando houve aquela confuso sobre a aquisio hostil, e ele veio ver se era eu mesma. No pensei que ele ainda 
se importasse depois de todo esse tempo.
- E Harry?
- Ele no sabia que eu estava grvida. Foi um grande choque para ele tambm descobrir um filho que no imaginava existir. - Ela consegue dar um meio-sorriso. Sento 
na ponta da poltrona, muito curiosa. Para comear, no fao idia de por que ela abandonou o marido, mas no acho que deva perguntar. - Eu sinto muito ter deixado 
vocs na mo - ela prossegue, e fico surpresa ao ver uma lgrima descer pelo rosto dela. - Depois de tudo o que fizeram por mim, eu abandono todos desse jeito.
Simon levanta-se, senta-se ao lado dela e oferece o seu leno. As lgrimas comeam a cair num dilvio.
- Depois de tudo o que fizemos por voc? E o que fez por ns? Voc trabalha mais do que um plantonista de hospital, no ganha um salrio decente e ainda tem de agentar 
a todos ns. Voc no nos deixou na mo. Alm disso, cozinha com mos de fada.
Passa da meia-noite, o homem tem uma dzia de problemas para resolver, uma aquisio hostil pendurada por um fio que pode fazer com que ele perca a casa da famlia 
e ainda tem tempo para consolar a governanta. Onde est o Simon nojento que eu conheci?
- Harry est bem? - pergunto.
- Sim, dei uma espiada nele e tia Flo tambm. Ele est bem. Nem acordou.
- Onde est o Sr. Delaney? - pergunta Monty.
- Ele vai passar a noite no pub.
- Por que voc no vai dormir? Est com um ar exausto. - Simon d uma palmadinha no joelho dela e estica os braos acima da cabea. - Eu estou com vontade de ir 
at o lago. Para arejar a cabea.
Ele levanta e vai em direo  porta. Monty senta no lugar dele no sof, ao lado da Sra. Delaney, e comea a conversar com ela com um tom de voz baixo e reconfortante.
- Que tal dar uma volta, Izzy? - Simon diz casualmente, mal virando a cabea. Se estou com vontade de dar uma volta?  muito surpreendente, mas acho que sim. Pouso 
o meu copo e levanto.
- H, sim - digo de um jeito despreocupado. - Isso seria timo.
Samos pelo corredor e entramos na cozinha. Pegamos um casaco no armrio para cada um, e soltamos Meg e os outros ces do quartinho de servio, onde ficaram trancados 
por causa do jantar. Simon pega uma lanterna e samos noite adentro, levando Meg conosco.
J do lado de fora, inalo o ar frio da noite e olho para as estrelas. A lua est brilhante, envolvendo tudo em uma meia-luz fantasmagrica. Uma brisa suave beija 
gentilmente meu rosto. Meg sai trotando confiante na nossa frente enquanto seguimos em direo ao lago.
Depois de alguns minutos, o silncio comea a doer um pouco e eu procuro algo para dizer. Pigarreio.
- Tm sido dias estranhos, no?
- Completamente.
- Est preocupado com a aquisio?
- Sim, embora esteja chegando rapidamente ao ponto onde estou to cansado que no me importa mais. Ela parece ter adotado voc - ele diz e aponta para Meg, que est 
correndo feliz da vida sob o luar, enfiando a cabea em tocas de coelhos, farejando arbustos e olhando para trs de tempos em tempos para ver se ainda estamos por 
perto.
- Sim. Vou ficar triste em deix-la para trs.
- Me conte o que fez depois de sair de Pantiles - diz Simon.
 Deus, ele quer que eu conte a histria do desastre com Rob
Gillingham nos mnimos detalhes.
- Bom, eu voltei para Londres por volta...
- H, no. Quis dizer h quinze anos.
- Ah. - Isso me pega de surpresa e por um segundo no consigo fazer a mnima idia do que andei fazendo nos ltimos quinze anos. - Bom, Sophie e eu fomos viver com 
tia Winnie quando mame e papai foram para a Itlia.
- Eu gosto da tia Winnie. E, h, voc foi para a universidade? - pergunta.
- Sim, fui para Nottingham. Estudei geografia. - Estou relutante em dizer mais alguma coisa porque no posso lembrar o que Dominic e eu colocamos no CV. Acho melhor 
mudar de assunto. - Voc s estudou economia na universidade? - Ouo a mim mesma e me encolho por dentro.  o tipo de pergunta que se faz nas frias, durante uma 
festa que seus pais esto dando, quando colocam voc ao lado do nico homem da sua idade em um raio de oitenta quilmetros.
- Sim, s economia.
- Que, h... - Estou prestes a dizer algo interessante, mas ele rode pensar que estou debochando descaradamente dele -... til.
- E o que Sophie faz agora?
- Ela trabalha no centro financeiro. E  muito bem-sucedida.
- Ela est namorando?
- No que eu saiba. Acho que ela anda muito ocupada com a carreira!
- E como voc entrou no ramo das festas? - ele pergunta gentilmente.
Falo sem parar por alguns minutos sobre meu trabalho em finanas e o quanto eu o detestava. Enquanto isso, chegamos ao topo da colina e paramos para recuperar o 
flego.
- Ns costumvamos brincar de tobog nessa colina - comenta Simon. - Lembra?
- Eu e voc contra Sophie e Will. Sempre os deixvamos l atrs.
- Bom, est certo que a gente encerava o tobog e ramos mais pesados do que eles.
- No to pesados - digo indignada.
-  claro que todo o peso era meu.
- Algo a ver com as montanhas de batatas que voc devorava. - Sempre que os meninos vinham jantar conosco, no comeo, quando Simon e eu nos gostvamos, minha me 
costumava exagerar muito nas batatas. A quantidade de batatas ingeridas por cada sexo era a definio dela entre meninos (que ela no tinha) e meninas (das quais 
ela possua dois exemplares bastante robustos).
- Sua me pensava que os meninos precisavam comer um caminho de batatas em cada refeio para poderem sobreviver. - Ele sorri para mim. Um sorriso amplo e caloroso 
que ilumina todo o seu rosto e faz com que ele fique lindo. Sorrio de volta e, de repente, a conversa sai fcil enquanto relembramos e rimos. Tomamos cuidado especial 
em evitar os tempos difceis que vieram mais tarde. Hoje, ele  muito diferente da ltima recordao que guardei na memria. Presto mais ateno enquanto ele fala 
sobre as viagens de pesca que fazamos, quando todos apostavam para ver quem adivinhava quanto tempo levaria para que eu casse na gua. Acho que se eu tivesse acabado 
de conhec-lo gostaria muito dele.
Continuamos a falar sobre a universidade.
- Voc manteve contato com algum de Cambridge? - pergunto.
Ele encolhe os ombros.
- No comeo, sim. Os amigos costumavam me visitar, mas depois de um tempo acabamos tendo cada vez menos coisas em comum. Eles ainda enchiam a cara e perseguiam mulheres, 
coisas que, devo acrescentar, eu costumava fazer excepcionalmente bem, mas, de uma hora para outra, eu tinha uma famlia e uma fazenda gigantesca para cuidar. Isto 
costuma esfriar as coisas! - Ele sorri novamente e, de repente, percebo a extenso do sacrifcio dele. Ele desistiu de tudo, dos dias livres e irresponsveis na 
universidade, onde so formadas as amizades de toda uma vida e os coraes se partem. Mas ele abriu mo de tudo pelo qu? Para que tudo fosse tirado dele?
Chegamos ao lago e caminhamos pelo deque em silncio. Simon senta-se com as pernas cruzadas.
- Venha sentar. - Ele bate nas ripas de madeira ao lado dele. - Converse comigo mais um pouco. Me conte sobre o seu mundo.
Eu tento me ajeitar de um modo elegante com o vestido.
- Meu trabalho?
- Sim, o que  que voc faz normalmente? O que estava fazendo antes deste evento aqui?
- Cuidava da Festa Nrdica do Gelo de Lady Boswell.
- Meu Deus, isso parece horrvel. Voc disse Lady Boswell? Acho que a conheo. Uma mulher muito magra. Assustadora.
- Horrorosa. - Continuo, e conto sobre Sean e Oliver e nossos ensaios pavorosos. Rimos juntos e Meg vem deitar ao meu lado.
- Como vo os preparativos para o baile? Ainda falta muita coisa? - Simon pergunta.
- Uma enormidade de coisas. A tenda chega no comeo da semana que vem. E o que voc tem que fazer no resto da semana? - Eu me encolho, que coisa mais estpida para 
se dizer. Ohhh, nada de mais, Izzy. Somente uma aquisio hostil e salvar a casa da famlia. - Quero dizer, voc vai estar por aqui?
- Indo e vindo. Os americanos no vo decidir nada antes do rim da semana. Vamos estar bem no limite do prazo.
- Prazo?
- Uma semana, contando a partir de segunda-feira. Ao meio-dia. Todas as ofertas para a Wings expiram. A menos que os americanos concordem com a nossa oferta, tudo 
comea do zero. Mas com a nossa atual situao financeira no podemos nos dar ao luxo de recomear as negociaes e tudo ir por gua abaixo. Em uma semana tudo 
estar acabado, de um jeito ou de outro.
- Meu Deus. O que acha que vai acontecer?
- E difcil saber. Voc vai estar aqui a semana toda?
- Tenho que voltar rapidamente a Londres amanh para pegar algumas roupas extras, mas depois disso ficarei aqui at o baile no sbado.
-  neste prximo sbado? - ele pergunta surpreso.
Aceno com a cabea e mordo o lbio. E, depois disso, sairei de Pantiles para sempre.
Comeamos a caminhar de volta para casa, falando baixo. Simon ri, lembrando como eu fiquei olhando escondido para o alto da cabea do Sr. Berryman a noite toda, 
achando que eu estava sendo completamente sutil a respeito. Paramos na porta dos fundos e, com a mo na maaneta, Simon vira e me olha.
- Estamos de volta - ele diz suavemente. - Eu realmente gostei do passeio.
Fico surpresa com o fato de concordar profundamente com ele
-  aqui que nos separamos - ele diz. Ele sorri e meu corao
dispara, batendo como um louco contra as minhas costelas. Espero
que ele no o oua.
Ele se inclina lentamente em minha direo, olhos nos olhos, e prendo a respirao. Ele vai me beijar? Ele me d um beijinho na testa, revira o alto dos meus cabelos 
e diz:
- Boa-noite, Izz.
Fico olhando ele ir embora. Por que estou desapontada?


















CAPTULO 21


- Ento, o que vocs andaram aprontando ontem  noite, hummm? - A frase vem acompanhada por uma bela cutucada nas costelas.
Abro um olho, sonolenta, e por entre a plpebra semicerrada olho para o responsvel e viro para o outro lado,
- V embora.
- No vou at voc ter me contado o que aconteceu. - Dom aparece do outro lado da cama.
- Que horas so? Ooh, ch!
Dominic segura a caneca a uma distncia segura da minha mo estendida.
- No tem ch enquanto voc no botar tudo para fora.
- Dom,  muito cedo. Deixe-me beber primeiro e depois eu conto.
Ele me olha por alguns segundos, avaliando a situao, e acaba me dando a caneca. Encosto-me na cabeceira da cama e dou golinhos no ch, feliz da vida. Dom me deixa 
dar trs golinhos.
- Ento? - ele insiste. - Onde voc e Simon foram? Toda a famlia ficou intrigada quando vocs saram. Achei que Flo estava com um tique nervoso de tanto que piscava 
para tia Winnie.
- Nada a declarar - respondo. - Fomos at o lago, conversamos sobre amenidades, caminhamos de volta e ele me beijou na testa e desarrumou meu cabelo.
- Provavelmente estava checando para ver se no era uma peruca. Ento, nada de olhares melosos? Nada de mos dadas?
- Nada!
- Acho que voc no iria se importar com olhares melosos ou mos dadas se a oportunidade surgisse?
Eu brinco com os cobertores com uma mo.
- No  isso. Afinal de contas, estamos falando de Simon aqui. Nossa histria  complicada.
Dominic salta de contentamento.
- Eu sabia! Harry me deve cinco libras do seu caixa da arrecadao de fundos!
Olho para ele, horrorizada.
- Voc no pode pegar o dinheiro de Harry! Por qu?
- A famlia fez uma pequena aposta de que voc e ele estavam... voc sabe. - Ele me d outro cutuco nas costelas. - Mas eu sabia que voc no estava interessada 
nele.
- Eu e Simon? Mas onde, raios, eles foram achar que poderia haver algo?
- Simplesmente porque vocs eram muito unidos na infncia. Meu conhecimento dos bastidores acabou sendo extremamente lucrativo, e com os meus suaves modos citadinos 
tirei vantagem. disso. E agora me explique por que no posso pegar o dinheiro de Harry.
- Dom!
- Ah, est bem, vou deixar passar. Mas s porque estamos em campo. - Ele senta na cama. - Mas que tipo de lio estarei ensinando a ele se o deixar livre de pagar 
suas dvidas?
Eu ignoro esta fraca e descarada tentativa de se passar por moralista.
- Mas por que voc estava fazendo apostas com Harry? Ser que todos na famlia pensam que gosto de Simon? Tia Flo? - pergunto, pensando nas roupas e jias que me 
emprestou. - Meu Deus, achei que eles teriam coisas mais importantes na cabea com o problema da aquisio!
- Ora, Isabel, no me venha com isso! Isso  muito mais divertido! - Dom pula na cama.
- Bem, eu odeio ser a portadora de ms notcias, mas ele no gosta de mim. Dom, ele beijou a minha testa. Desarrumou o me. cabelo.  este o comportamento de um homem 
que est doido por mim?
- H, provavelmente no. Mas, como voc mesma disse, ele tem um monte de coisas para cuidar neste momento. Talvez, depois disso tudo acabar, ele veja voc sob uma 
nova luz!
- Pouco provvel - murmuro e comeo a beber meu ch.
Enquanto Dominic vai cuidar da vida dele, fico ruminando a noite passada o quo bem Simon e eu estvamos nos dando. Isso faz com que eu me sinta meio estranha e 
decidida a no pensar mais no assunto, levanto e vou tomar banho. Visto um par de calas justas e uma blusa preta e deso para tomar caf.
A maior parte da famlia est sentada ao redor da mesa da cozinha. Nos ltimos dias, todos tm levantado mais cedo do que de costume para ajudar a Sra. Delaney com 
o caf-da-manh dos hspedes. Simon j deve estar trabalhando, esta  a nica hora que ele tem livre antes dos visitantes levantarem.
- A est voc, Izzy! Estvamos prontos para comear a comer! - exclama tia Winnie.
Para facilitar a vida da Sra. Delaney e para servir de cobaias, estamos comendo exatamente a mesma coisa que os visitantes iro comer no caf-da-manh. Eu tenho 
que admitir que ela  uma cozinheira simplesmente maravilhosa mesmo sob todo este estresse. Ela est com olheiras esta manh, causadas pelo pequeno desastre de ontem.
- O que  isso? - pergunto, sentando-me ao lado de Harry e olhando a mistura na minha frente.
- Figos frescos, mel e ricota! - responde radiante a Sra. Delaney, como se comesse isso todos os dias da semana. Harry parece chateado.
- Me? - ele pergunta. A idia de Harry de um bom caf-da-manh  uma tigela de cereais com acar.
- Eles comem isso em Londres, querido.
- Ah, isso explica tudo - diz Dominic. - Francamente, o que estes londrinos vo inventar a seguir? Pelo menos  vegetariano.
Todos na mesa olham para ele.
- Dom, voc comeu lingia ontem - diz Monty.
- Sim. Lingias vegetarianas.
- E como voc sabe disso? - pergunto. - Porque os porcos de onde saram as lingias comeram vegetais?
- Izzy, voc est com um tom de voz desagradvel.
- Eu no tenho um tom de voz desagradvel.
- Eu consigo ouvir muito bem.
- Talvez voc precise limpar os ouvidos.
- Acho que voc precisa de outro adesivo de nicotina. Anda bastante abusada desde que comeou a usar os adesivos.
- No estou certa de que seja culpa dos adesivos - murmuro tentando ignorar Dom. -  mesmo muito gostoso, Harry. Experimente.
Todos pegam os garfos cautelosamente e eu fao uma grande cena de atacar o prato com grande entusiasmo. Dom coloca uma garfada na boca, aperta a garganta e cai da 
cadeira. Todos rimos. Mas Harry s comeu depois que Dominic amassou a mistura de figos, colocou sobre uma torrada, polvilhou acar e cobriu tudo com rodelas de 
banana.
- Voc precisa que eu faa algo hoje, Isabel? - Harry pergunta entre garfadas.
- H, no agora, obrigada, mas tenho um monte de coisas para voc amanh. - Harry cortou o plo de Meg como um dos trabalhinhos para a arrecadao de fundos, j 
que o tempo estava ficando muito quente para ela. Agora ela anda pela casa tremendo como um bambu, de to pelada que est. O relgio de carrilho do hall de entrada 
est batendo dez vezes a cada hora, e Monty s havia pedido a Harry que desse corda nele todas as noites. Portanto, toda vez que peo a Harry para fazer algo, sempre 
me certifico de que h tempo suficiente para corrigir os erros. - Tem reunio dos escoteiros amanh? - pergunto. Harry faz que sim com a cabea. - Voc vai perguntar 
como Godfrey Farlington est se saindo com a arrecadao dele, no vai?
- Claro que vou! - ele exclama com uma vozinha aguda.
- Quantas semanas ainda faltam para o encerramento da arrecadao?
- Uma! Mas Godfrey sempre ganha, o pai dele  encanador e capito do time de crquete, por isso ele sempre tem trabalhos para fazer. Mame no me deixa ir  cidade 
sozinho para pedir trabalho.
- Vamos encontrar trabalhos para voc aqui.
- Nunca vou ganhar se continuar perdendo as apostas - ele diz tristonho.
Olho para Dom, que  o retrato da inocncia.
- Dominic no pegou o seu dinheiro, pegou?
- No, no pegou. Mas a tia Flo me disse que no posso mais fazer apostas depois desta.
- Qual?
- A aposta entre todos ns.
Aperto os olhos e encaro Dom fixamente.
- Dom? Que histria  essa de aposta? - A mesa vai ficando quieta. - Voc CONTOU para eles, no foi?
- Izzy, eu acho que o cafun nos cabelos soa definitivamente encorajador - diz tia Winnie. -  definitivamente um flerte.
- Eu no contei assim  toa, Izzy. Estava simplesmente passando as informaes.
- Passando as informaes?
- Eles me mandaram investigar - ele diz emburrado.
- Caramba, no h nada particular nesta casa? Ns simplesmente fomos dar uma volta juntos.
- Querida, se voc quer privacidade, esta no  a famlia certa para voc - diz tia Flo. - Pense em como as coisas seriam fceis se voc fosse um besouro.
- Mas a ela no se interessaria por Simon - acrescenta Dom.
- Ela se interessaria se ele fosse um besouro.
- Mas os besouros se interessam uns pelos outros? - pergunta tia Winnie.
- Eu diria que sim! Voc precisa v-los acasalando!
- Simon no  um besouro e no est interessado em mim - digo rspida.
- Mas suponha que ele fosse! - insiste Dom.
- Mas a Izzy no se interessaria por ele se ele fosse um besouro.
- Ela se interessaria se ela fosse um besouro fmea.
- Tambm no sou um besouro e no estou interessada nele - digo. Um leve latejar nas minhas tmporas indica que esta discusso j foi mais longe do que eu gostaria.
L pelo meio da manh, depois de ter me despedido de nossos hspedes americanos e recebido convites de todos para visit-los se um dia for a Chicago, vou at a sala 
de estar para ver se esto prontos para o caf. Simon est falando algo para a equipe de advogados e contadores. Todos inclinam a cabea ou sorriem para mim antes 
de voltar s anotaes, completamente absortos no que Simon est dizendo. Por um segundo, vejo Simon sob outra perspectiva. O silncio  to profundo que se pode 
ouvir um alfinete cair. No sei que detalhe Simon est explicando, mas est falando apaixonadamente a respeito. O que ele diz no faz muito sentido para mim, mas 
soa bastante impressionante. Onde Simon aprendeu tudo isso? Na universidade? Eu escuto um pouco mais, silenciosamente impressionada.
Depois de alguns minutos, decido que o caf ser muito bem recebido em meia hora e volto para a cozinha.
- Caf ou ch? - oferece a Sra. Delaney. - A chaleira acabou de apitar.
Aceno que sim com a cabea, agradecida.  a primeira vez que eu e a Sra. Delaney tomamos ch juntas. Ela se senta na minha frente e com mos enfarinhadas despeja 
ch com o grande e onipresente bule marrom.
- H, como vai a senhora? - pergunto educadamente.
- Melhor - diz ela. Tenho a sensao de que ela quer conversar a respeito de tudo.
- Ontem deve ter sido um grande choque para a senhora.
- Sim. Sim, foi. Eu me sinto muito mal sobre tudo. Acredite ou no, eu era muito jovem quando nos casamos. - Ela olha dentro dos meus olhos e d um sorriso irnico.
Abro a boca para protestar, mas percebo que qualquer coisa que eu diga ser ruim e fecho-a novamente. Ela continua:
- Tom e eu tnhamos passado por uma fase to ruim que achamos que seria uma boa idia nos separarmos por um ms ou mais, para pensarmos a respeito. Foi ento que 
descobri que estava grvida. No queria que isso nos obrigasse a ficar juntos, e  claro que eu sabia que tudo iria mudar se eu contasse. Quanto mais pensava a respeito, 
mais em pnico eu ficava. Imaginei a atmosfera horrvel em que nosso beb iria crescer e, no fim, convenci a mim mesma de que seria melhor se no estivssemos juntos. 
Ento eu parti.
Ela me olha na defensiva, como se achasse que eu a julgaria. Tento dar um sorriso encorajador.
- Ento a senhora nunca contou a ele que estava grvida?
- No. Eu me sinto muito mal a respeito disso. Sempre me senti. Mas, quanto mais tempo passava, tudo ficava pior, at que eu me convenci de que nunca teria dado 
certo. Todos aqueles finais de semana compartilhados para Harry. Tambm tnhamos problemas financeiros, de modo que achei que Tom ficaria melhor sem ns.
- Foi ento que a senhora encontrou trabalho aqui?
- Eu no tenho nenhuma famlia e tinha que cuidar de Harry. Alm disso, os Monkwell so minha famlia agora.
- Eu sei que eles sentem o mesmo pela senhora.
Ela sorri para mim.
- Mas estou contente que Tom saiba. Espero que ele seja um bom pai para Harry e que no o mime demais.
- Tenho certeza de que ele ser um pai excelente.  duro para uma criana ficar sem um pai.
- Acha mesmo?
- Sim - respondo simplesmente, pensando no meu pai quase sempre ausente. - No acredito que a senhora v lamentar o fato de deix-lo entrar novamente em sua vida.
- Vamos v-lo em algumas semanas. Prometi levar Harry at Oxford para passar o dia.
- Pelo menos Harry tem toda a famlia aqui. Eles adoram t-lo por perto.
A Sra. Delaney sorri de repente, um sorriso caloroso e amigvel que faz com que o rosto dela fique muito diferente.
- Eu tive muita sorte em encontr-los. Todos sempre foram muito gentis. Qualquer pessoa ligada a eles deve sentir-se honrada.
Lamento ter sido um pouco defensiva em relao a eles.
- No tem problema. Eu entendo o motivo.
Ela olha para as mos dela por um momento.
- Eu me sinto ainda pior agora que sei que Tom procurou muito por mim.
- Mas ele a encontrou - respondo. - Isso  tudo o que importa.
Telefono e deixo uma mensagem para a empresa de toldos, para ter certeza de que eles comeam a trabalhar amanh e para avisar que de jeito nenhum devem deixar algo 
estruturalmente importante nas mos de um garoto ruivo pedindo trabalhos para a arrecadao fundos dos escoteiros. Depois, corro at meu quarto para fazer a mala. 
Tenho uma reunio marcada com Rose e Mary esta tarde e depois vou de carro para Londres. Pretendo voltar para Pantiles amanh  tarde. Dom entra enquanto estou fazendo 
as malas e deita na cama.
- Voc volta para Londres comigo? - pergunto, pensando que uma garrafa de vinho e uma boa e reconfortante conversa  uma boa pedida para hoje  noite.
- No, vou fazer uma visita. Monty disse que me empresta o carro. - Ele no me olha nos olhos.
Olho para ele por um momento.
- Dom, o que est acontecendo?
Ele se inclina na cama e brinca com o zper da minha mala por um segundo. Eu no tiro os olhos do rosto dele.
- H,  difcil, Izzy. No quero chatear voc.
- Voc no vai... - Uma batida na porta me interrompe. Vou at ela e abro.
- Oh, ol, Harry! - digo surpresa.
Ele est carregando algo.
- Voc deixou seu cardig l embaixo. Achei que poderia precisar dele.
- Oh, h, obrigada. - Ele me d o cardig e fica parado sem graa na porta. - Voc quer entrar? - pergunto. Acho que ele quer.
Ele encolhe um pouco os ombros, de modo que deixo a porta aberta e ele me segue. Eu termino de fazer as malas. Dominic levanta.
- Bom, eu preciso ir andando. Falo com voc amanh, Izzy. - Nossos olhos se encontram com compreenso implcita. Ele me d um beijo, desarruma o cabelo de Harry 
e sai.
Harry senta na cama e comea a balanar as pernas. Pobre garoto, ele tambm teve uma semana infernal.
- Vou ter um monte enorme de trabalhos para voc amanh - digo.
- Que bom! - ele diz animadamente.
- timo! - Fico ocupada com minhas roupas, mas percebe que Harry olha para mim curiosamente. Imagino se ele quer conversar sobre o pai ou se  porque pareo esquisita. 
Pigarreio sem jeito. - E ento? Voc conheceu seu pai ontem. - Por um momento eu penso se no deveria ter um diploma em psicologia ou algo parecido antes de entrar 
em um assunto to complicado. Tarde demais agora. Harry olha para as mos dele por um momento.
- Foi a primeira vez que o vi!
- Foi? - pergunto fingindo surpresa. - E, h, como foi, h, o encontro? - Ajudaria mais se eu formasse as sentenas corretamente.
- Foi bem - ele diz animado, parecendo pouco afetado por este evento to importante na vida dele.
- Voc vai v-lo novamente?
- Sim, vamos para Oxford em duas semanas.
- Certo. - Aceno com a cabea por alguns segundos.
- Izzz-zeee - Harry diz devagar.
- Sim, Harry?
- Como voc sabe quando... - Ele brinca com o punho da camisa.
- Quando o qu? - pergunto.
- Quando voc ama algum?
Meus braos, que iam pegar minha frasqueira, param no meio do caminho. Normalmente este  o meu melhor assunto - posso passar horas remoendo meus relacionamentos 
com Dom. Mas quando  um menino de oito anos que me pergunta isso, acho melhor no seguir esta abordagem prolongada.
- H, voc est pensando em algum em particular?
Harry fica vermelho que nem um pimento. Uma cor nada recomendvel para quem tem cabelos cor de cenoura.
- Emily - ele murmura. Pelo menos eu acho que ele disse Emily. No deu para ouvir direito.
- H, Emily?
Ele acena freneticamente que sim com a cabea.
- Bem... - digo, lutando para encontrar algo sensato para dizer a ele. - Voc gosta de ficar perto dela?
- Mais do que qualquer outra! - ele diz entusiasmado. - A maioria das meninas  burra. Elas sussurram e do risadinhas, mas Emily fala comigo. Ela tambm no tem 
pai. E eu sinto esta coisa esquisita. Na minha barriga. - Ele me olha em busca de respostas.
Se ele soubesse que eu sou o ltimo lugar na face da Terra onde ele pode encontr-las.
Eu adoraria dizer que ele deve ter comido algo estragado e que vai passar, mas infelizmente sei que essas paixonites nunca vo embora.
- No seu estmago? - pergunto, subitamente inspirada por uma coisa.
- Sim. Voc tambm sente?
- Uma espcie de dor de barriga quando voc a v ou quando acha que vai v-la?
- Sim!
Subitamente, sento-me ao lado de Harry. Na verdade, esta  uma sensao levemente familiar. E muito recente tambm. Foi com Rob Will? A resposta  como um tapa no 
rosto. Droga.
-Izzy?
- Sim, Harry?
- O que voc acha de mim e Emily?
- Bom, parece que voc gosta um bocado dela.
Ele acena devagar com a cabea e parece satisfeito com essa resposta completamente inadequada. Gostaria de poder acrescentar algo mais reconfortante, mas no h 
mais nada a dizer a Harry ou a mim.
Olho para meu relgio e percebo que tenho mesmo que me arrumar para chegar  reunio em tempo. Tambm preciso ficar sozinha para pensar sobre essa novidade.
- Vamos. Eu vou pegar um picol para voc - digo, estendendo a mo para Harry, e lentamente caminhamos juntos para a cozinha, Posso estar andando despreocupadamente, 
mas meu corao est a mil por hora. Essa sbita mudana de posio, a favor de algum que voc mal podia ver na frente h poucos dias, e cujas fantasias regulares 
incluam um belo pontap, pode dever-se ao fato de que voc est muito, muito cansada.
Deixo Harry e o picol nas mos de Monty e tia Winnie e volto para o hall de entrada. Paro ao p da escadaria.
- Izzy! - uma voz conhecida me chama.
Viro e vejo Simon vir apressado na minha direo.
- Simon, oi! - Ergo as sobrancelhas e aparafuso um sorriso no
rosto.
Ele pra na minha frente e franze a testa.
- O que houve com voc?
- Comigo?
- Sim, voc est esquisita.
- Esquisita?
- Voc vai repetir tudo o que eu digo?
- No, claro que no. Isso seria estranho quando eu estou, claro, me sentindo perfeitamente bem.
- Bem?
- Agora  voc quem est fazendo isso.
- Aonde vai? Estava pensando se voc no quer ir ver os veados? - Uma caminhada? De novo? Qual  a dessa mania de caminhadas?  uma coisa rural?
- No posso - digo depressa. - Vou para Londres.
- Quando voc volta?
- Amanh.
Ele parece desapontado.
- Bom, vou estar trabalhando at o prximo fim de semana, mas venho dar uma mo no baile no sbado, se voc quiser.
- Excelente! Obrigada! Vejo voc mais tarde. - Viro e corro escadaria acima, sentindo a necessidade de colocar-me o mais longe possvel de Pantiles, Essa reviravolta 
nos acontecimentos me deixou muito confusa. Muito confusa mesmo.
Pego minhas coisas no quarto e deso correndo para a cozinha pelas escadas dos fundos. Deixo um bilhete para a famlia, fao uma festinha rpida em Meg e disparo 
em direo ao carro.
Minha claustrofobia diminui um pouco depois de estar a alguns quilmetros da fazenda. O que  que estou pensando? Estou ficando maluca? Por que no posso me interessar 
por Will? Ah, Will. Uma cpia carbono do irmo mais velho, mas no to bom quanto o original. Muito divertido para ter como companhia, mas sem a profundidade, o 
carisma, a atratividade e o tremendo brilho do irmo.
Mas  aqui que est o problema. Vai ser muito desagradvel se a histria voltar a se repetir.  como se eu tivesse visto o gabarito e soubesse todas as respostas. 
Sei como isso vai terminar. No vai ser agradvel.
Depois de uma reunio rpida com Rose e Mary em Bury St. Edmunds, dirijo velozmente para Londres com s e exclusivamente uma coisa na cabea. Subo correndo as escadas 
do edifcio e ligo para Aidan. Embora seja domingo, ele concorda em me encontrar em um pequeno restaurante italiano em Kings Road onde todos os funcionrios da Table 
Manners adoram comer. Os garons nos conhecem bem e sempre tentam nos ensinar um pouco de italiano enquanto explicamos as complexidades da lngua inglesa.
Depois de termos usado a expresso ciao bella!, como loucos. nos empoleiramos nos bancos do bar, que so bastante incmodos, e pedimos uma garrafa de vinho branco 
da casa. Aidan me encoraja a comear a histria. Eu acho que o deixei meio confuso com as histrias de mveis roubados, aranhas assassinas e urnas com cinzas de 
pessoas. A minha saga termina com meu passeio  luz do luar com Simon e o fato bastante desagradvel de que acho que estou muito interessada nele.
- Voc quer dizer Will - diz Aidan neste ponto, tentando ajudar. Aperto os olhos. Tenho a impresso de que ele no ouviu nada.
- No, Simon.
Ele fica visivelmente espantado com isso.
- Mas Dom disse que voc estava de olho em Will.
- Quando voc falou com Dom? - pergunto, cheia de suspeitas.
- Isso importa? Ele disse que voc estava interessada em Will.
- No - sibilo, agitando impacientemente o brao e quase dou um soco no rosto do vizinho do lado, - Eu estou interessada em Simon. - No gosto do modo como a conversa 
me faz parecer, principalmente porque as pessoas da mesa ao lado pararam de falar para tentar escutar a conversa. Giuseppe, o garom, abre a boca para dizer algo, 
mas eu o silencio com um olhar.
- Simon? Voc est interessada em Simon? E no em Will? - Aidan diz, incrdulo. Comeo a pensar se ele tem alguma deficincia mental. At mesmo as pessoas sentadas 
 mesa perto da porta parecem interessadas agora.
- Estou tentando no pensar sobre isso - resmungo.  mais fcil falar do que fazer. Tudo o que eu me lembro sobre Pantiles  o quanto acho Simon maravilhoso. O quanto 
ele ama a famlia. O duro que ele est dando para salvar a casa. E o quanto eu o amava.
- Caramba - diz Aidan, para fazer figura, fazendo uma careta
e olhando para o copo de vinho por um minuto.
Quando ele se recupera dessa revelao, no tem mais vinho no meu copo e descubro que a garrafa est vazia. Antes que possa abrir a boca para pedir outra, Giuseppe 
coloca uma bem na minha frente.
- Cortesia da casa! - ele anuncia com ar imponente. Acho que
sou um entretenimento mais barato do que um mgico. Talvez eu
deva colocar um cartaz dizendo que tambm estou disponvel para
festas de casamento e bar mitzvahs.
Encho novamente os copos e espero pela resposta de Aidan.
- Mas eu achei que voc o detestava - ele acaba dizendo.
- Detestava. Mas as coisas mudaram um pouco. Ele , na verdade, uma pessoa muito legal. Cheia de considerao. E est fazendo todos esses negcios por um motivo 
nobre: salvar a casa da famlia,
- E da?
- Eu comecei a gostar dele. Gostar dele de verdade, - Eu me inclino para demonstrar quanto e quase caio do banquinho. Luto para me equilibrar de volta.
- Mas ele no tem uma namorada? - pergunta Aidan. Giuseppe parece ter ficado chateado com a notcia e imagino se ele desistiu completamente de servir s mesas esta 
noite. Tento ignor-lo.
- Acho que sim. Uma advogada.
- Ele ainda est saindo com ela? - pergunta Aidan. Giuseppe deixa escapar um pequeno som de desaprovao. Ns dois olhamos para ele e ele faz um gesto magnnimo 
para que continuemos com a conversa. - Voc falou sobre ela com ele?
- No! No quero parecer desesperada.
- Bom, como voc quer que as coisas se desenvolvam daqui para a frente?
- Colocando toda a histria do passado de lado, eu quero, h...
- Trepar com ele? - Aidan diz para me ajudar.
Ele  to deselegante. Digo com uma voz cansada:
- No sei o que quero. Talvez eu s precise terminar o trabalho e voltar para Londres.
- Mas colocando o passado de lado.
- Esta  a parte confusa. Ele foi muito desagradvel comigo quando ramos crianas.
- Claro, voc o conheceu h anos - Aidan murmura pensativo.
- Sim! Eu o conheo h anos! - repito em voz alta para que as pessoas nos fundos no pensem que sou uma tremenda de uma oferecida.
- Todo mundo  ruim quando eles  crianas - diz Giuseppe - Uma vez cortar cabelo irm quando ela dormia e...
- Foi um pouco mais srio do que brincadeiras maldosas de infncia, Giuseppe. Foi uma campanha de maus-tratos bastante intensa.
Giuseppe digere a informao e se serve de vinho. Os outros garons esto correndo de um lado para outro e olhando feio para ele, mas agora estou muito interessada 
em ouvir a opinio dele.
- D um exemplo - diz ele.
Conto sobre quando Simon guardou todos os insetos que pde encontrar, incluindo algumas aranhas bem grandes, jogou tudo em cima de mim e me trancou dentro de um 
armrio por vrias horas. Eu estava petrificada de medo.
- Ah - diz ele no fim da triste histria.
- Isso no me parece muito bom, Izzy querida - diz Aidan.
- Mas vocs acham que as pessoas mudam? - insisto, olhando para um e depois para outro.
- Sim! - diz Aidan.
- No! - diz Giuseppe. - Acho que voc tem que perguntar por que ele to mau? - Giuseppe acrescenta solidrio.
- Porque ele no gostava de mim? - respondo com uma v;: muito fraquinha.
Ningum diz nada por um segundo. Posso ver que esto lutando para encontrar algo de bom para dizer.
- Como vai Dominic? - Aidan acaba perguntando.
- Ele est estupidamente bem! - eu quase grito e quase caio do banco novamente com o esforo. - Por que todo mundo quer sabe: como ele est?
- Quem mais quer saber como ele est?
- Ha? - Meu crebro encharcado de bebida est lutando para se manter consciente.
- Quem mais quer saber como ele est?
- TODO MUNDO quer saber como ele est. E por qu? - Eu paro e encaro Aidan. - Voc est com cime, no est? No  voc que est namorando ele, ?
- No estou com cime, Izzy.  que... bom,  muito complicado para explicar.  bvio que ele no disse nada, portanto tambm no vou dizer nada. - Ele cruza os braos.
Ele no muda de idia sobre o assunto, e Giuseppe desaparece atrs do bar para pegar outra garrafa de vinho.
Na manh seguinte no tenho certeza se estou passando to mal por causa das descobertas da noite passada ou se foi pelo volume de lcool que despejei garganta abaixo. 
Eu me arrasto sem nenhuma vontade para o trabalho. Gerald decide que est na hora de fazer algo pelo escritrio e insiste em uma arrumao completa das salas que, 
segundo ele, no parecem suficientemente profissionais. Ele grita instrues atravs do seu intercomunicador enquanto todos ns passamos quase uma hora marchando 
para cima e para baixo nas escadas, colocando todos os enfeites de volta no poro. So necessrias trs pessoas para mover o Z Colmia empalhado, e todas as vezes 
que passo pelas cozinhas sou atingida pelo cheiro de alho. Estou enjoada quando colocamos Z Colmia no seu hbitat natural e tenho que deitar no poro por cinco 
minutos.
Aidan est, obviamente, to mal quanto eu e recusa-se a tirar seus culos escuros em estilo Top Gun - Ases Indomveis, o que dificulta muito saber quando ele est 
ouvindo ou tirando uma soneca rpida. Cada vez que um de ns vai at a cafeteira, volta com uma xcara para o outro, como uma espcie de cumprimento pela noite que 
passamos juntos. Gerald ainda est mandando em todo mundo, portanto, depois de uma passagem pelas cozinhas para confirmar as entregas dos pratos do baile, junto 
minhas coisas e parto mais uma vez para Pantiles.
Na estrada, reviro o submundo da minha bolsa procurando celular e acabo despejando todo o contedo no assento do passageiro enquanto desvio perigosamente de caminhes. 
Nada de celular. Chego  concluso de que o deixei na mesa no escritrio. Gerald vai me matar. Paro no primeiro posto de gasolina que aparece e ligo do orelho. 
Aidan responde. Droga. Fao com que ele prometa mandar o celular via Fedex para a fazenda naquele exato momento e desligo.
Hesito por um segundo antes de ligar para o celular de Dom, para avis-lo de que estou voltando. Tambm quero saber com antecedncia se houve algum desastre.
Ele responde ao segundo toque.
- Sou eu, Dom.
- Querida! Como vai voc?
- Bem.
- Eu sei que  uma situao difcil.
-  Dom.  - digo aliviada e maravilhada com as qualidade; medinicas de Dom.
- Como disse ontem  noite, vou contar a Isabel sobre ns dois hoje. Prometo - ele acrescenta.
Pausa.
- Eu sou Isabel - digo devagar, para ajud-lo e ajudar a mim
mesma.
Desta vez a pausa  do lado dele. Finalmente ele diz:
-Izzy?
Olho para baixo, para certificar-me, e respondo:
- Sim.
- No foi o seu toque de telefone que soou. De onde voc est ligando? - ele diz com voz estranha.
Mas eu no o ouo mais. Estou tentando pensar em algum cuja voz possa ser confundida com a minha. E s consigo pensar em uma pessoa.



























CAPTULO 22


- Dom, posso falar com voc por um instante? - pergunto assim que ponho os olhos nele. Quase toda a famlia est sentada  mesa da cozinha, jogando cartas, e Harry 
tem uma pilha enorme de moedas na frente dele. Eles esto usando o contedo de um grande pote de gelia, cheio de moedas, que usvamos quando eu era criana. A Sra. 
Delaney est ocupada fazendo alguma coisa. Dom olha para mim com uma srie de cartas na mo.
- Pode esperar um segundo, Izz? S at que eu...
- No, no posso.
- Achamos Poppet! - Harry diz agitado. Graas a Deus, comeava a temer pela vida do gafanhoto que vive na minha chamin, sem falar na minha prpria vida. - Eu a 
achei no andar de cima! Eles me deram dez libras por isso!
- Isso  maravilhoso, Harry!
Dominic me segue escadaria acima, vrios corredores compridos e quarto adentro. Viro-me e olho para ele.
- Dom, voc podia ter me contado.
Ele parece sem graa e olha para os ps por um segundo.
- Eu ia contar naquela vez no jardim, mas fomos interrompidos. Sabe, vocs tm exatamente a mesma voz ao telefone. Inacreditvel.
- H quanto tempo isso vem acontecendo?
- Cerca de um ms e meio.
- Um ms e meio! - As contas batem. - Eu pensei que voc estava tentando me contar que era gay!
Ele ergue a cabea ao ouvir isso.
- Gay? Eu? - Aceno que sim com a cabea. Ele comea a andar
de um lado para outro que nem um pavo arrogante. - Por que raios voc achou que eu era gay?
- Achei que voc estava saindo com Aidan! Ele vive perguntando como vai voc!
- Bom, Aidan sabia.
- Aidan sabia? Por que voc contou para ele e no me contou?
- Eu no contei para ele! Estvamos naquela festa da Lacey-Steele. Lembra?
Tento voltar no tempo.
- Ha, vagamente.
- Voc tinha acabado de terminar o namoro com Rob. Voc foi pegar algo no escritrio e eu estava falando ao celular. Aidan agarrou o celular da minha mo, pensando 
que era voc, e descobriu que no era. A pessoa tinha somente uma voz muito parecida com a sua. No tive sada a no ser contar.
- Acho que ele tambm contou para Gerald. Os dois andam obcecados com a sua sade ultimamente.
- Eu no pareo gay, pareo? - Dom pergunta ansioso.
-  que, bem, voc namorou todas aquelas garotas e no dormiu com nenhuma delas!
- Izzy, s porque sou um cara legal e no durmo com todo mundo isso no quer dizer que eu seja gay! Alm disso, eu dormi com algumas.
- Foi? Quais? - pergunto interessada.
Ele abre a boca para responder, mas, pensando no relacionamento que tenho com sua nova namorada, a fecha novamente.
- Ento voc pensou todo esse tempo que eu estava tentando sair do armrio, no foi?
- Cecily me disse que voc era gay!
- Cecily? - Ele senta na cama.
- Foi. Encontrei com ela em um coquetel.
-  meu Deus! Cecily. Ela me convidou para jantar na casa dela. Era um daqueles encontros horrorosos que minha tia vive arrumando para mim. Em algum momento da noite 
ela deve ter decidido que estava muito a fim de mim, porque, quando voltei para a sala depois de ir ao banheiro, ela estava sem a blusa!
- O qu? Sem suti tambm?
Ele ri e faz que sim com a cabea.
- Puxa vida, caramba! Tomei um susto dos diabos! No sabia o que fazer. Voltei a me sentar e ela comeou a se inclinar sobre a mesa, com os peitos dependurados balanando 
bem em cima da sobremesa, e eu entrei em pnico! Disse que era gay e que estava tentando assumir o fato h anos. Achei que era a nica maneira de conseguir sair 
de l vivo! No queria magoar os sentimentos dela, e tudo foi muito embaraoso, porque ela estava ali fazendo topless. Pedi para no contar para ningum porque eu 
no havia assumido oficialmente ainda. Meu Deus, quais as probabilidades que existiam de vocs duas se encontrarem?
- E aquela mania de ficar mostrando os homens que voc achava bonitos?
- Estava tentando abrir os seus olhos, completamente obcecados com Rob.
- Mas por que no me disse nada sobre voc e Sophie?
- Ela  a sua irm! E eu achei que voc iria ter problemas com isso.
- Bem que eu estava pensando nos motivos pelos quais ela tem me evitado ultimamente.
- Eu queria esperar e ver o quo srio o relacionamento  antes de dizer alguma coisa.
- E  srio?
- Suficientemente srio. E muito confuso. Por que me interessei por ela e no por voc?
- Boa pergunta.
Ele parece divertidamente sem jeito.
- No sei - diz em voz baixa. - Talvez porque ns dois nos conheamos muito bem? E, alm disso, voc no est atrada por mim. - A voz dele fica mais forte assim 
que se sente em um porto seguro.
- No estou? - pergunto, sem disposio de largar mo deste ltimo ponto.
- No. No est.
- Voc tem razo, no estou. Como tudo comeou?
- Acabamos nos conhecendo muito bem por causa dos fins de semana na casa da tia Winnie. Ento, uma noite, quando voc havia ido deitar - ele encolhe os ombros e 
parece ficar envergonhado - estvamos conversando e... no sei... comeamos a nos beijar e...
- INFORMAO DEMAIS! - grito, colocando as mos sobre os ouvidos.
Ele pra de falar e sorri. Afasto devagar as mos dos ouvidos e vou at a janela. Sophie e Dom! Quem diria? Meus olhos se enchem subitamente de lgrimas e eu limpo 
uma com a mo. Dom nota o movimento e coloca um brao ao meu redor.
- Vamos, no me diga que vai ficar chateada com a novidade.
- No estou chateada, estou feliz por vocs. - E dou um abrao nele. - Acho que  adorvel. Estranho, mas adorvel. Mas por que no me contou?
- Desculpe ter guardado segredo. E sinto muito que voc tenha descoberto deste modo. Voc j tem um monte de coisas para cuidar neste momento.
Meus ombros caem para a frente.
- Como vai indo a aquisio?
- No sei quase nada, mas todo mundo est muito abatido. Eu cheguei h apenas uma hora.
Algum bate  porta.
- Izzy, querida! - troveja tia Winnie por trs dela. Vou at l e deixo tia Winnie, e Jameson entrarem,
- Voc contou para ela? - pergunto a Dom.
- Tia Winnie! - ele diz animado. - No fique muito emocionada, mas acho que vamos ser parentes!
- Droga - diz tia Winnie desanimada.
Depois de vrios goles do xerez para cozinhar, que eu surrupie: da cozinha quando a Sra. Delaney no estava olhando, e vrias confirmaes repetidas de que se tratava 
de Dominic e Sophie e no de Dominic e eu (embora eu no tenha muita certeza de que ela no preferiria o contrrio), conseguimos finalmente tirar nossa velha tia 
do estado de choque em que ficou e a afastamos da garrafa.
- Precisava de mim para alguma coisa, tia Winnie? - pergunto.
- Ah! S vim dizer ol e saber se voc j falou com seus pais.
- Eles vo retornar a ligao.
- Certifique-se de que vo mesmo. - Ela levanta e vai em direo  porta. - Vou procurar Monty - diz e sai marchando.
- Posso chamar a senhora de sogra? - Dominic grita.
Ela se vira e o encara l da porta.
- Voc pode me chamar de madame, Dom. Como faria ao falar com a rainha da Inglaterra.


Os dias seguintes passam como um raio. Rose e Mary parecem ter se mudado definitivamente para a casa. Enquanto eu luto com o fornecimento de energia eltrica, artistas 
e garons rebeldes que, de repente, tiveram a chance da vida deles para irem at a frica e dizem "Vocs no se importam, no ?", Dominic cuida dos ensaios e convence 
a empresa de fogos de artifcio de que o local que escolheram  realmente muito perto da casa. No tive a mnima chance de falar com Simon, que est trabalhando 
at tarde da noite na aquisio.
Ns no somos os nicos que esto trabalhando como burros de carga. Fred, o jardineiro, trabalha de sol a sol para que os jardins estejam impecveis. O plano , 
caso o tempo permita, servir um coquetel no gramado dos fundos. A Sra. Delaney continua cozinhando como louca todos os dias, alimentando a famlia e a equipe de 
advogados e contadores de Simon. Acho que o Sr. Delaney ainda est hospedado no pub da cidade. Harry e a Sra. Delaney escaparam na noite passada para ir v-lo.
E eu finalmente consigo achar Sophie, e tivemos uma longa conversa ao telefone. E um tremendo alvio poder conversar normalmente com ela. No havia percebido o tamanho 
da tenso em nosso relacionamento. Ela est to entusiasmada com o relacionamento com Dom que eu no tenho coragem de diminuir a animao dela com a minha triste 
histria.
Levanto cedo na sexta-feira para supervisionar a entrega dos banheiros qumicos.  a nica hora em que a empresa pode fazer a entrega e, se so deixados sem superviso, 
acabam colocando os banheiros a um quilmetro da tenda. O dia est lindo e frio. Dom nem se mexe enquanto eu me visto. Meg me olha sonolenta e decide ficar com Dom. 
Nem Monty levantou ainda.
Assim que fazem a entrega, vou para a cozinha, tentando ignorar o chamado tentador dos meus adesivos de nicotina. Encontro Simon na cozinha, lendo o jornal do dia 
anterior.
Ele abaixa o jornal quando entro.
- Izzy! Que diabos faz de p a esta hora infeliz?
Levo um susto ao v-lo. Ele est usando um jeans velho e um suter com decote em V. Est absolutamente delicioso.
- Nada de muito excitante, lamento. Os banheiros qumicos acabaram de chegar. Estava mostrando onde devem ser colocados. O que est fazendo? - pergunto.
Ele encolhe os ombros.
- Nada de especial. No consegui dormir.
- Preocupado?
- Um pouco. Venha c, sente-se e me diga como vo os preparativos para o baile. Parece que no vejo voc h dias! Algum problema?
No olho nos olhos dele.
- No, no. Nada de errado.
- Amanh  sbado e posso ser todo seu se quiser. Faa o que quiser comigo.
- Isso seria timo - digo sonhadora. - Quer dizer, h, isso ser muito til.


Chega o dia do baile e eu imediatamente corro para a janela e espio atravs das cortinas. Suspiro aliviada, parece que vai ser um dia lindo. Acordo Dom, me visto, 
coloco dois adesivos de nicotina, brigo com Dom explicando por que no vou trazer uma xcara de ch na cama para ele e corro escadaria abaixo com a minha prancheta. 
Estou com a adrenalina a mil por hora. Nada como a agitao de uma grande festa para me deixar animada.
- Ento, o que quer que eu faa hoje? - Monty pergunta
enquanto tomamos ch na cozinha, depois de eu t-lo convencido
que ensinar Jasper a latir sempre que ouvir a frase "Richard e Judy"
no  algo exatamente til. Sem falar que  extremamente irritante.
Olho para a minha prancheta.
- A equipe de servio do estacionamento chega ao meio-dia, Poderia mostrar exatamente onde devem estacionar os carros? E colocar as placas de aviso para os convidados?
- Considere j feito. - Olho minha lista e marco os dois itens. - Isso  muito divertido, no , Izz?
- Hummmm.
- Sabe-se l Deus o que Elizabeth teria dito sobre tudo isso.
- Voc acha que ela desaprovaria?
- Ela achava que a fazenda deveria ser mantida estritamente particular. Ela teria odiado a idia de ter pessoas aparecendo e olhando boquiabertas para a casa dela. 
Mas temos que evoluir com o tempo, no temos?
H um pequeno silncio e eu me concentro na lista. Monty interrompe meus pensamentos mais uma vez. - Izzy? Sei que no  da minha conta...
- O qu? - Est na cara que ele precisa desabafar algo.
- Voc e Simon. H alguma...? Porque, voc sabe, se houver, vai ser maravilhoso.
Abro a boca para responder, mas, neste exato momento, a porta da cozinha se abre e a cabea de Albert, o terrier, aparece a cerca de noventa centmetros do solo. 
Eu sei que  Simon porque era algo que fazamos quando crianas para animar um ao outro.
Dou um largo sorriso quando ele enfia a cabea pela porta segundos depois.
- Dia! - ele diz alegremente, colocando Albert no cho. - Como est se sentindo, Izz? Papai?
- Voc levantou cedo de novo! - diz Monty.
- Eu disse que iria ajudar, e eu e Albert estamos prontos para a ao!
No posso evitar, eu adoro tudo nele.
- Obrigada, isso  realmente til. - Sorrio.
- Bom, voc fez tanto para nos ajudar com os visitantes americanos. E um modo limitado de dizer obrigado.
- Mas foi um desastre! - protesto.
- Nada em comparao com o que teria sido. Acho que escapamos bem do castigo.
- Caf ou ch? - pergunto, indicando o bule com a cabea.
- Sim, por favor. Onde est seu porta-copos, Izzy? - Ele sorri enquanto observamos o monte de canecas e garrafas de leite.
- Esqueci completamente.
- A anarquia invadiu a cozinha da Sra. Delaney. Devem ser os adesivos de nicotina.
- Como vai a tomada hostil? - pergunto enquanto pego uma caneca e despejo o ch.
Uma nuvem cruza seu rosto.
- Os investidores americanos disseram que tero uma resposta para ns na segunda-feira pela manh.
- Mas no  esse o prazo final?
- Sim. Vai ser tudo ou nada. Eles querem ficar sozinhos para decidir, portanto resolvi tirar o dia de folga em homenagem ao primeiro evento de Pantiles. Temos que 
trabalhar amanh para nos prepararmos para a coletiva de imprensa na segunda-feira. Mas chega de falar nisso tudo. Quem voc vai levar como acompanhante ao baile, 
papai?
Monty pigarreia.
- Na verdade, pensei em convidar Winnie. - Ele me olha
ansioso, esperando uma reao minha. - Voc no se importa?
Olho radiante para ele.
- Acho que ser maravilhoso!
- Sem dvida alguma - diz Simon, tambm sorrindo. - A Sra. Delaney vai?
- No sei, acho que o Sr. Delaney ainda anda por perto.
- Ela pode traz-lo.
- Vou dizer a ela.
- Vamos l, Izz, vamos pr a mo na massa. Depois podemos vir tomar caf-da-manh com todo mundo.
Monty permanece na cozinha, enquanto Simon e eu samos para o ptio, com Albert e Meg trotando atrs de ns, e vamos at a tenda.
- Ento voc e Dom tambm vo estar vestidos a rigor?
- Ah, sim, trouxe algo especial para o baile.  um vestido que sempre uso nessas ocasies, mais uma doao da fundao Sophie Serranti. S espero que Dom tenha mandado 
lavar a roupa dele depois da ltima festa!
- Ele ainda est na cama?
- Eu o acordei e espero que no tenha voltado a dormir. A lista de coisas a fazer que ele tem  to comprida quanto a minha. - Pensar em Dom me deixa ansiosa. Depois 
da euforia inicial, agora estou nervosa, e espero que no tenha muito cime do novo relacionamento entre Sophie e Dominic. Dominic e eu fomos to ntimos por tanto 
tempo que estou me sentindo como se ele estivesse sendo afastado de mim.
- O que h de errado? - pergunta Simon, olhando para mim.
- Ah, nada! Dominic acaba de me contar que ele e Sophie esto namorando.
- Dominic e Sophie? Sophie, sua irm? Aceno com a cabea.
- Eu achei que ele estava tentando me contar que era gay!
- Dominic? Gay? Voc deveria ter me perguntado, eu poderia dizer que ele no era gay. Caramba,  genial, no ? Ele passa a ser parte da famlia. Mas deve ser estranho 
tambm, ele foi seu por tanto tempo.
Olho para ele atentamente por causa desse comentrio perspicaz. Simon segura aberta a aba de entrada da tenda e sorri para mim. De repente, percebo que o mesmo poderia 
ter sido dito sobre mim e Simon h quinze anos.


Acho que este  o melhor dia pr-evento que j tive. Observar este homem calmo e extremamente competente em ao me fez perceber que adversrio fantstico ele deve 
ser profissionalmente. Tudo parece ser feito em metade do tempo e com metade da confuso. Quando a banda chega, no meio da manh, e avisa que precisam de eletricidade 
extra, o que nossos geradores simplesmente no conseguem gerar, Simon nem pisca. Simplesmente pega o celular e outro gerador chega em meia hora. Ele no banca o 
duro com ningum, no levanta o tom de voz (e eu admito que em dias pr-evento j fui vista gritando como uma maluca), apenas negocia calmamente e as pessoas acabam 
fazendo o que ele quer. No h dvidas de que estou observando um homem muito talentoso trabalhar, e isso s faz com que o deseje ainda mais. H algo de muito sexy 
em um homem que  bom no que faz.
- Qual a prxima coisa na lista, Izz? - ele pergunta depois de
convencer um artista de que esta noite no  realmente a noite ideal
para apresentar-se sem rede de segurana.
A grande tenda de circo est absolutamente magnfica e estou entusiasmada com o resultado. Contratamos um verdadeiro mestre-de-cerimnias para a noite, com tudo 
o que  necessrio, incluindo um bigode enorme e botas de verniz pretas (Rose vai entrar em xtase). Conseguimos instalar uma corda de equilibrista e um trapzio, 
onde os artistas se apresentaro em intervalos durante a refeio. As mesas esto colocadas ao redor do picadeiro, que fica no centro da tenda, e, combinando com 
o tema circense, usamos cores muito fortes nas flores e na decorao.
Enquanto funcionrios montam as mesas, tia Winnie, Monty e Harry colocam os brindes em cada uma - mas carameladas, bolas de malabarismo e bilhetes de loteria. 
Olho para eles por um segundo, esto conversando animados e sorrindo.
- Acho que eles nunca ficaro sem ter o que vestir. Os dois juntos devem ter metade da metragem de tweed da nao! - Simon sussurra em meu ouvido e eu caio na risada. 
- Mas  bonito de ver - ele acrescenta. - H muito tempo no vejo papai to contente, mesmo com todos os problemas com a casa. Sua tia Winnie nunca se casou, no 
foi?
- No, acho que ela estava muito ocupada cuidando de mim e de Sophie. Mas minha me me disse que houve algum no passado dela.
- O que aconteceu?
- Eu no sei. Nunca falamos a respeito. Sempre foi um tipo de assunto proibido.
Um dos garons informa que as caminhonetes da Table Manners chegaram e vamos ao encontro delas. Acompanhamos os chefs at a tenda de catering e eles comeam imediatamente 
a inspecionar o equipamento. Olho para meu relgio. J so cinco da tarde.
- Como estamos indo? - Simon pergunta.
- Bem, eu acho. S preciso arrumar alguns arranjos de flores, vi que alguns esto com falhas, mas preciso checar esta entrega antes disso.
- Eu fao isso. Voc tem uma lista?
- Obrigada, Simon. Foi simplesmente maravilhoso t-lo ao meu lado hoje. - Remexo na minha pasta e entrego a lista do que deve ser entregue. - Vou at o jardim buscar 
um pouco de folhagem. Depois vou trocar de roupa.
- Sem problemas.
Seguimos em direes opostas. Pego uma tesoura de poda e vou para o jardim. H um enorme loureiro em uma das laterais da casa que pretendo podar. Chegando l, podo 
a planta sem d nem piedade e, se Fred me visse, teria um enfarte na hora.
Quando volto para a tenda, Simon no est em nenhum lugar, de modo que, depois de preencher rapidamente os vazios nos arranjos de flores, dou uma conferida com minha 
equipe e os chefs e subo correndo para mudar de roupa.
Tiro o vestido do cabide atrs da porta e vejo que o porta-terno de Dominic j est vazio. Fico um pouco mais feliz em saber que algum da empresa est no local 
do baile. Provavelmente ele est sendo intil, mas est l.
Meu vestido  um santo remdio para a auto-estima e agradeo de corao a Sophie todas as vezes que o visto. Tem a marca de uma famosa casa de alta-costura, cujo 
nome eu nem consigo pronunciar, que dir fazer compras l, e  maravilhosamente provocante, deliciosamente colado ao corpo.  um vestido de um ombro s, com uma 
fenda que vai at o alto da minha coxa, e toda a fenda e a barra terminam em uma linda faixa de renda. Acrescento um par de brincos pendentes em forma de gota que 
comprei especialmente para este vestido e uma pulseira que tia Winnie me deu. Prendo o cabelo no alto da cabea, com uma mo ligeiramente trmula delineio os olhos 
com lpis preto, esfumao com um cotonete e passo um pouco de batom vermelho.
Quando volto, Rose e Mary j esto na tenda, vestidas a rigor e conversando animadas com Dominic.
Trocamos cumprimentos com os "oohs" e "aahs" de praxe sobre a roupa de cada uma de ns e vamos ver a tenda.
- Est simplesmente maravilhoso! - suspira Rose, olhando para a imensido do lugar.
- Obrigada!
- Est tudo pronto?
- Bem, Dom e eu estamos prestes a fazer a ltima ronda de verificao. - E sorrio para elas, - Por que vocs no vo tomar uns drinques no gramado? Os convidados 
devem comear a chegar em meia hora. - Dom me d o intercomunicador.
Rose e Mary movem-se em direo s bebidas com grande animao, parando no caminho para admirar o mestre-de-cerimnias, que j est pronto para entrar em cena. Dom 
est em contato com a maior parte da equipe pelo intercomunicador e isto  a melhor coisa da noite para ele. Ele fez questo de que todos os funcionrios usassem 
um nome de cdigo, e eu deixo toda essa histria de contarei por conta dele. Verifico as mesas, converso rapidamente com os chefs e vou at o gramado dos fundos 
para me certificar de que as bebidas esto prontas para serem servidas, acompanhadas por canaps, assim que os convidados chegarem.
Estou ocupada checando as provises debaixo de uma das mesa; de servio quando algum bate delicadamente no meu ombro. Giro sobre os calcanhares e vejo Simon inclinando-se 
para mim e levanto bem depressa. No tenho a mnima vontade de deix-lo me ver agachada, com os peitos achatados e a bunda empinada no ar.
- Simon! - digo feliz. - Nossa, voc fica pronto depressa!
- Ningum tira a roupa mais depressa do que eu, Izzy.
- H, verdade? - digo languidamente e pisco depressa para tentar afastar as imagens que surgem em minha mente.
- Voc deve se lembrar do tempo em que costumvamos nadar no lago!
- H, no. No mesmo. - Sabe, as crianas deviam prestar mais ateno aos que os pais dizem. Eu deveria ter ouvido mais a minha me quando ela me dizia para prestar 
ateno.
- Voc est maravilhosa.  um vestido lindo.
- Obrigada - respondo, me sentindo subitamente sem graa. - Voc est muito bonito tambm.
- O resto da famlia vai descer logo. Voc quer que eu faa alguma coisa?
- No, estamos bem. Divirta-se.
- Voc vai trabalhar a noite toda?
- Acho que poderei tirar meia hora de folga mais tarde.
- Vou guardar uma dana para voc. No deixe de comer algo.
- Vou tentar - respondo, me sentindo absolutamente feliz. H muito tempo que ningum se importa se eu como ou no.
- Vejo voc mais tarde - ele diz, antes de se afastar com as mos nos bolsos, em direo a Will, que acaba de aparecer do outro lado do gramado.
Os convidados comeam a chegar devagar e eu vejo tia Winnie resplandecente em um vestido de tafet vinho. Monty, muito orgulhoso, est de p ao lado dela. Eles acenam 
para mim. At mesmo a Sra. Delaney e um cavalheiro ruivo de boa aparncia, que eu acho que  o Sr. Delaney, parecem estar felizes e se divertindo.
De repente, a maioria dos convidados parece chegar em uma grande onda, e da para a frente as coisas comeam a movimentar-se em assustadora velocidade. Algum quebra 
um copo e corta o dedo. O chef executivo tem um ataque porque as pessoas no esto entrando suficientemente depressa na tenda e o primeiro prato vai estragar. Um 
dos trapezistas sente-se mal e no sabe se vai poder se apresentar ou no. Dominic e eu comeamos a movimentar o grupo atravs da tenda antes que o chef tenha um 
ataque de nervos completo. No h um plano de lugares - cada mesa  destinada a uma empresa. Os garons e garonetes comeam a servir o primeiro prato apressadamente, 
enquanto alguns retardatrios vo ocupando seus lugares.
- Esto todos aqui - Dom sussurra para mim.
Olho para a tenda e franzo a testa.
- Quem comprou estes lugares? - pergunto, apontando para duas mesas vazias.
Dominic consulta sua prancheta.
- Uma empresa chamada Maida Insurance. Eles devem chegar mais tarde.
Encolho os ombros e vou at a mesa dos Monkwell. Enquanto caminho pelo labirinto de mesas, girando os quadris para l e para c, vejo que eles parecem estar se divertindo 
muito. Mas, sendo honesta, basta colocar bebida e um pouco de comida decente perto dos Monkwell e eles iro sempre se divertir. Will est muito bonito, mas no consegue 
ofuscar seu irmo mais velho.
Acabo, finalmente, conseguindo chegar  mesa deles e Simon sorri para mim.
- No acredito que voc organizou tudo isto!  simplesmente surpreendente!  melhor que a Festa Nrdica do Gelo de Lady Boswell?
- Definitivamente! - Sorrio de volta. - Obrigada - digo simplesmente.
- Est cansada?
- Meus ps esto me matando! -Izzy?
- Sim?
Ele olha rapidamente para tia Flo, que est de costas para ns, mas com os ouvidos presos  nossa conversa.
- Voc sabia que nosso velho amigo Gussie est procurando por um gato? - ele diz displicentemente, sem tirar os olhos de mim.
Meu crebro se agita vagamente em reconhecimento. Ele est falando comigo em nossa lngua secreta, penso devagar comigo mesma. O problema  que no a ouvi por quinze 
anos e estou absolutamente surpresa de que ele se lembre dela.
Gussie quer dizer ns. Qualquer referncia a um gato significa que precisamos conversar (deve ser porque, em francs, gato  chat).
- Quando voc vai ver Gussie? - pergunto, querendo dizer quando e onde devemos conversar.
Ele sorri e estica o brao para pegar minha mo. Um pico extra de adrenalina comea a correr pelo meu corpo.
Mas o sorriso dele morre no rosto e ele tira os dedos de repente. Est olhando algo atrs de mim e eu me viro para ver o que . Engasgo, porque, sentando-se calmamente 
 mesa que estava vazia, usando um smoking, est Rob Gillingham.







CAPTULO 23


Depois disso, vejo Dominic correndo na minha direo como um louco. Ele est muito plido.
- Izzy - ele sibila. - Rob est aqui.
- Eu sei - respondo bruscamente -, consigo v-lo. Simon levanta.
- A reserva da mesa est no nome de quem, Dom? - Ele inclina a cabea sobre a prancheta de Dominic.
A mesa est reservada para a Maida Insurance.
- Devem ser eles - digo, olhando as pessoas tomando seus lugares.
- Eu reconheo algumas - sussurra Dom.
- So todos os membros da diretoria da Gillingham - Simon diz, carrancudo. - Esto tentando me intimidar. Sou o nico representante da minha empresa aqui. Droga.
- Eles devem ter comprado ingressos - digo atordoada. - Devem ter planejado tudo isso.
Enquanto conversamos, Rob olha ao seu redor. Assim que nos localiza faz um aceno charmoso, como se fssemos os melhores amigos dele, e se levanta.
- Jesus! Ele est vindo at ns! - Dom comenta, incrdulo.
Olho para Simon. Ele parece calmo, mas vejo um pequeno msculo no seu pescoo tremer. Isso  dar uma de esperto. Pegar Simon quando ele est mais vulnervel, na 
sua casa, sem ningum da empresa para o ajudar e justo quando ele deveria estar relaxando e se divertindo.
- Simon, Isabel e Dominic - Rob nos cumprimenta suavemente. - Que bom ver todos vocs! - Ele estende a mo para Simon, que a aperta, carrancudo. - Posso chamar voc 
de Simon?
- Por que voc est aqui?
- Achei que seria uma noite agradvel para todos ns. Afinal de contas, as ltimas semanas foram um pouco cansativas. Achei que deveramos comemorar o fracasso da 
sua negociao, Simon. Voc disse que posso chamar voc de Simon, no?
Tento ficar mais perto de Simon. Posso sentir que todos os msculos dele esto ficando tensos e por um terrvel momento achei que ele iria bater em Rob.
- Afinal de contas - Rob continua, embora um pouco menos confiante -, s quando Isabel nos disse que poderia arrumar ingressos para ns foi que consideramos a idia 
de usar a festa como uma espcie de despedida a toda essa idia ridcula.
- O que voc disse? - consigo gaguejar. - Nunca fiz essa sugesto.
- Sabe, nunca vi voc representar antes, Izzy. - Ele d uma risadinha. - Pelo menos no em pblico, meu amor. Mas devo dizer que estou muito impressionado. - Ele 
olha ao redor da tenda. - Voc tem sido um tesouro nestas ltimas semanas. Sabe, Simon, no acho que teramos vencido esta negociao se no fosse esta pequena prola 
aqui.
- No h vencedores nisso - Simon diz com voz fria.
- Vamos ver - Rob diz suavemente -, vamos ver. - E ele volta para seu lugar.
Viro-me para olhar para Simon.
- Simon, no vi nem falei com Rob Gillingham desde aquele
nosso ltimo encontro, eu juro. Ele est simplesmente... - O resto das minhas palavras desaparece, pois a famlia toda circunda Simon querendo saber quem  Rob e 
o que significou tudo aquilo. E  nesse momento que um dos chefs bate no meu ombro para informar que h um problema na cozinha.
O resto da noite  uma confuso em ritmo alucinante. Luto contra o impulso de ir dar um belo chute nos testculos de Rob, mas meu sexto sentido me diz que qualquer 
exibio deste tipo no vai ajudar Simon a ganhar na negociao. Fao o melhor que posso para ignorar Rob, embora ele tenha o atrevimento de erguer seu copo para 
mim todas as vezes que passo pela mesa dele. Por outro lado, Simon no me olha mais nos olhos. As coisas na mesa dos Monkwell esto visivelmente tensas, mas todos 
esto mantendo desconfortavelmente as aparncias. Quando tenho finalmente cinco minutos livres, caminho ansiosa at a mesa deles.
- Simon, posso falar com voc?
- Sobre?
- A histria com Rob Gillingham, claro.
- Izzy, eu estou exausto e no quero dar a Rob Gillingham a satisfao de nos ver brigando. Podemos conversar sobre isto amanh?
Eu quero muito esclarecer as coisas entre ns, mas Simon est certo, Rob j nos viu conversando e nos observa com interesse. Concordo com um sinal e volto ao trabalho.
Mais tarde, Rob consegue me apanhar. Ele d um passo para o lado, quando passo perto dele, e impede meu caminho.
- Izzy, voc nunca telefonou - ele diz muito srio e com um ar chateado.
- Rob, seu monte de merda. No acredito...
- Ora, ora, Izzy. As pessoas vo comear a comentar - ele diz, colocando a mo no meu brao.
Olho para o lado e vejo Rose e Mary me observando. Fao um grande esforo e sorrio para elas. Elas relaxam um pouco, sorriem de volta e olham para o outro lado.
- Ento, como vo as coisas entre voc e Simon Monkwell?
- Por qu? Quer ligar para o jornal e passar a informao?
- No seja to amarga, Izzy, eu fiz o que precisava fazer. Voc teria feito o mesmo se estivesse no meu lugar.
- Duvido muito, Rob. Nunca conseguiria dormir novamente com voc fosse pelo que fosse.
- No diga isso. A propsito, seu amante est nos observando.
Olho pelo ombro e vejo Simon olhando fixamente para ns. No h como disfarar o olhar de desgosto no rosto dele.
So quase quatro da manh quando termino de supervisionar a operao de limpeza, mas, apesar do cansao, no consigo dormir. Dominic j est roncando de leve quando 
entro no quarto. Repasso mentalmente vrias vezes a cena com Rob, ensaiando o que quer: dizer a Simon e o que ele pode dizer de volta. Ele realmente acredita que 
estive passando informaes para Rob todo esse tempo? O sol j havia nascido quando caio em um sono agitado.
Na manh seguinte, entro vagarosamente na cozinha para tomar o caf-da-manh e sou recebida pela viso de tia Flo com uma forte ressaca e tia Winnie e Monty assustadoramente 
felizes. Tento, sem sucesso, evitar contato visual com todos eles.
- Ol, Izzy. Que festa maravilhosa! Parabns! - tia Winnie me cumprimenta. Ela est maluca? Ela esteve na mesma festa que eu! - Tirando aquela coisa com Rob. Aquilo 
foi, sem dvida, horrvel. Pobre Simon. Eu teria ido at l e dado um soco nele.
- Gostaria que tivesse feito isso - respondo tristonha.
- Simon no falou nada a respeito. Simplesmente nos disse para ignor-los.
- Ele no disse nada sobre mim? - pergunto esperanosa. Isso no parece muito ruim.
- No. Mas o que foi que voc viu naquele Rob? Um jovem com ar horroroso.
Desabo na cadeira. Isso  tudo de que preciso, uma meia hora animada me lembrando de como andei errada em minha vida amorosa.
- Voc est bem, Izzy? - tia Winnie pergunta preocupada.
- Sim, estou bem.
- Voc no parece bem - diz Monty. - Est doente? Qual das meninas ficava sempre doente, Winnie?
- Estou bem.
- Era a Izzy quem s podia sentar no assento dianteiro do carro porque ficava enjoada?
- Eu no fico enjoada no carro.
- Eu no sei por que comigo as duas sempre tinham que sentar no banco traseiro.
- Eu no fico enjoada no carro.
- Sempre um pouco hipocondraca, como a Flo. To bonitinha.
- Mas eu no fico enjoada no carro.
- Na verdade, acho que era Sophie, Monty querido. Mas voc tem razo, Izzy no parece nada bem. Voc andou de carro esta manh, Izzy?
- EU NO FICO ENJOADA NO CARRO PORCARIA
NENHUMA! - Estou muito ansiosa em esclarecer o assunto, a nica razo pela qual no pareo estar bem  porque eles esto conseguindo me estressar.
Os dois me olham surpresos.
- Quer voltar para a cama?
- Tia Winnie, apesar de querer muito voltar para a cama e ficar l por tempo indeterminado, tenho que ajudar na limpeza - tento dizer isso com o mximo de dignidade 
possvel. No  suficiente.
- Estou fazendo ovos mexidos para a equipe de Simon, Izzy. Quer um pouco? - pergunta a Sra. Delaney no fogo.
- A equipe de Simon? Eles esto aqui?
- Esto todos na sala de estar - diz Monty. - Acho que esto se preparando para a coletiva de imprensa amanh. A propsito, foi uma festa maravilhosa a de ontem. 
H anos no me divertia tanto! - Todos concordam de modo barulhento.
Fao uma careta quando a Sra. Delaney aparece enrgica e me d um prato de ovos mexidos com torradas. Estou desesperada para ver Simon novamente, nem que seja por 
um minuto, mas sabe Deus quando eles vo sair do escritrio.
A manh passa rapidamente. Preciso supervisionar a operao de limpeza da tenda, bem como a remoo de vrias peas de equipamento. Gerald tambm telefona exigindo 
um relatrio. Passo pelo menos dez vezes na frente da slida porta de madeira da sala de estar, cheia de esperanas de que Simon saia e eu possa ter a chance de 
falar com ele. Minha oportunidade aparece na metade da manh, quando o vejo desaparecer na cozinha. Acelero o passo e chamo:
- Simon!
A figura  minha frente hesita e depois vira. A linguagem corporal no  boa.  grosseira e agressiva.
- Isabel. Bom-dia.
- H, bom-dia. - Paro na frente dele. - Simon, preciso conversar sobre a noite passada.
Ele suspira.
- Acho que vamos ter que falar a respeito alguma hora dessas. Ento, vamos l. - Ele pega resignadamente o meu cotovelo e me leva at a cozinha deserta. Sentamos 
 mesa. Olho ao redor, nervosa. A cozinha no  um bom lugar. Ela nunca fica vazia tempo suficiente, principalmente com Dom por perto. Comeo primeiro:
- Simon, voc no acreditou em nada do que Rob Gillingham disse na noite passada, no ?
Os olhos de Simon permanecem fixos no piso. Ele olha, sem ver uma lajota.
- No sei - ele diz finalmente. - Me diga voc. - E, por fim, me olha.
- Claro que no! Depois de tudo o que passamos nestas ltimas semanas voc acha mesmo que eu ainda mantinha contato com ele? Ele estava inventando coisas!
- Isabel, deixe que eu faa uma pergunta. Antes de voltar a Pantiles, como  que voc se sentia a meu respeito? Seus sentimentos verdadeiros sobre mim?
Eu pisco. A pergunta me pegou completamente desprevenida.
- Bem, eu, h, acho que, em... - Os olhos dele esto colados no meu rosto. - Eu no gostava muito de voc - termino com uma vozinha.
- Jura, Izzy? S "no gostava"? Isso  um pouco suave para algum de personalidade to forte. Tem certeza de que no me odiava? No se esquea de que eu estava aqui 
quando ramos crianas. Eu me lembro muito bem de tudo.
Respiro bem fundo. Esta  a primeira vez que falamos abertamente sobre os maus-tratos que ele me imps.
- Est bem, eu odiava voc.  isso o que quer ouvir? Isso me torna culpada de fornecer informaes a Rob Gillingham?
- Foi esse o plano?
- O que voc quer dizer com isso?
- Voc voltou a Pantiles para conseguir algum tipo de vingana melodramtica? Afinal de contas, tem que admitir que estar namorando o diretor da empresa que eu estou 
tentando comprar  uma enorme coincidncia.
- Ns havamos terminado quando eu vim para c e, sim, foi uma coincidncia. Voc tem que entender isso. Voc tambm acha que eu providenciei um baile para quinhentas 
pessoas aqui ao mesmo tempo?
- Estou dizendo que voc e Rob podem ter visto a oportunidade. Algo onde os dois iriam lucrar alguma coisa. E sabe, Izzy, no culpo voc. No a culpo mesmo.
- O que est tentando dizer? Que meu comportamento foi falso? - Ouo o meu corao disparar, No gosto do rumo que a conversa toma, pois parece terrivelmente perigoso.
- Talvez no. Talvez tudo tenha sido verdade. Talvez voc e Rob no tenham planejado nada.
- Ns no planejamos nada!
- Mas o ponto, Izzy,  que bem l no fundo eu no confio em voc.
- Voc no confia em mim? - digo sem acreditar.
- Sim, e isso faz com que eu me sinta terrivelmente culpado. Por causa de nosso passado. Por causa do que aconteceu h quinze anos. Eu fiz tudo aquilo a voc e, 
mesmo assim, no confio em voc.
- Eu no acredito que voc acha que eu faria algo para magoar voc ou a sua famlia.
- Sinto muito, no posso evitar.
- E voc quem tem um lado ruim, no sou eu - retruco violentamente.
Ele se retrai um pouco ao ouvir isso e eu olho para a mesa, com vergonha de mim mesma.
- Tudo o que aconteceu no vai desaparecer, vai? - ele diz devagar. - Voc vai ficar esperando o tempo todo por uma falha no meu carter. Alguma ao ou pensamento 
mesquinho que poder significar um retorno ao passado.
Eu hesito por um milsimo de segundo, ele tocou em um ponto delicado.
- Eu faria isso se estivesse no seu lugar - ele acrescenta.
- Ento me diga o porqu, Simon. Diga-me o porqu de tudo aquilo h quinze anos.
Ele me olha por muito tempo e toca meu rosto com a mo. Eu sorrio esperanosa.
- No h nada a dizer, Izzy - ele fala e sai da cozinha.
Levo alguns segundos antes de conseguir me concentrar e sair correndo para o quarto, com Meg trotando atrs de mim. Paro na frente do espelho e olho para mim mesma. 
Uma Isabel muito plida e com ar assustado me olha de volta. No chore, ameao a mim mesma, no se atreva a chorar. Penso em procurar Dom ou tia Winnie, mas percebo 
que se fizer isso precisarei contar a conversa toda e que isso vai fazer a represa arrebentar.
Antes, minha mente no duvidava de que Simon e eu compartilhvamos algum tipo de intimidade. Era a mesma intimidade que tnhamos h quinze anos, at que os maus-tratos 
comearam - e eu no tenho explicaes para eles. Portanto, talvez eu no conhea mesmo este homem. Talvez eu tenha imaginado coisas que simplesmente no existem. 
Talvez os paus que nascem tortos morram tortos. Que diabos vou fazer? V para casa, diz uma vozinha dentro de mim. V para casa, onde voc pode morrer de tanto chorar 
e comer quantos Cornettos quiser.
Fecho os olhos e apoio a testa contra o espelho frio. H um pequeno problema aqui. O probleminha  que eu acho que o amo. Quase tanto quanto na minha infncia, mas 
agora  um amor diferente. Mais intenso, mais feroz. Mas minha razo diz que eu o amava h quinze anos e veja o que aconteceu naquela poca. Sou to idiota a ponto 
de correr novamente o risco?
E, embora seja muito difcil lidar com isso, acho que me apaixonei pela famlia dele. Eu no quero somente a ele, quero que a famlia dele seja minha tambm. Mas 
como isso vai funcionar, Izzy? Tia Winnie e Monty parecem estar formando algum tipo de ligao, e voc ser obrigada a voltar a esta casa e ver Simon no centro dela. 
V-lo casando, ver os filhos dele crescerem, bater papo com tia Flo, desejando ardentemente que fosse voc ali no meio de tudo. Contraio as mos.  quase insuportvel.
Vou para a cama e deito. Meg sobe na cama e se aninha na curva das minhas pernas com um suspiro de contentamento. Na meia hora seguinte fico exatamente assim, olhando 
paralisada para o teto, sentindo-me um pouco reconfortada com a companhia peluda ao meu lado. Por fim, puxo o edredom por cima da minha cabea e fecho os olhos em 
um esforo de bloquear a dor. Acho que devo ter adormecido, Deus sabe como dormi pouco nos ltimos dias, porque s me lembro de uma batida forre na porta. Acordo 
sobressaltada.
- Izzy?  Dom. Posso entrar? - ele pergunta.
- Claro! - respondo.
A cabea dele aparece por trs da porta.
- A est voc! Procurei voc por todo lado! O que aconteceu? - ele pergunta assustado, vendo meu rosto em petio de misria.
- Simon - murmuro.
- O que ele fez?
Sinto lgrimas aflorarem novamente. Dom vem at a cama, senta e me d um grande abrao. Este pequeno gesto de carinho  demais para mim e eu desabo. Quando meus 
soluos finalmente diminuem, Dom faz com que eu conte tudo.
- Deixa ver se eu entendi. Simon no quer ficar com voc por causa da infncia de vocs...
Eu interrompo: - Ele nem disse que queria ficar comigo.
- Oh. Mas mesmo que quisesse no poderia, por causa do passado de vocs.
- Acho que sim.
- O que voc acha?
- Eu no sei.
- Voc seria capaz de confiar nele novamente?
- Ele me magoou muito. Acho que ele partiu meu corao. Penso que ele est certo. No podemos ficar juntos. - Lgrimas voltam a encher meus olhos. - Nossa infncia 
sempre vai estar entre ns, no vai?
- O que voc vai fazer?
- Vou para casa, eu acho.
- Esta seria a coisa mais sensata e inteligente a ser feita.
- Voc acha mesmo?
- Quando voltarmos para Londres, eu compro um Cornetto para voc.
Ele d uma palmadinha no meu joelho e finalmente diz:
- Quer que eu v buscar um chocolate?
- Est vendo? Agora voc entende por que pensei que voc fosse gay.
- Estou simplesmente em contato com o meu lado feminino - ele diz com o mximo de dignidade possvel e sai, pois seu lado feminino j disse que ele no precisa de 
resposta para a pergunta sobre o chocolate.
No acho que tenha me sentido to miservel alguma vez na minha vida.


Ah, sim, que tola. J me senti assim.








CAPITULO 24
Segue-se uma noite horrvel, na qual Simon se recusa a me olhar nos olhos, mesmo quando tia Fio inicia uma animada discusso sobre a atratividade de cabelos longos 
ou curtos nos homens. Depois de um tempo, deixo todos discutindo e vou para a cama. Fico acordada at s quatro da manh, esperando ouvir o carrilho do grande relgio 
do hall quando lembro, muito tempo depois, que os oficiais de justia o levaram embora. Fico em tal estado de nervos que acendo a luz, verifico que horas so e Meg 
e eu comeamos a andar para cima e para baixo enquanto tento me convencer de que os acontecimentos dos ltimos dias no justificam comear a fumar. Embora no consiga 
acordar Dom, que consegue dormir sempre, acordo o desgraado de um gafanhoto que comea a crocitar, feliz da vida. Sinto-me como se tudo fosse parte de um gigantesco 
quebra-cabea para o qual no tenho todas as peas. Se eu pudesse saber o que falta, talvez as coisas ficassem no lugar.
Devo ter dormido em algum momento, porque, quando acordo, a cama de Dom est vazia, sem nenhuma coberta, e as malas dele esto em uma pilha arrumada no p da cama.
Algum bate na porta e Meg entra correndo. Dom vem atrs dela com uma xcara de ch.
- Sabe - diz ele -, acho que vou sentir falta deste lugar. Nosso apartamento vai parecer bastante vazio depois daqui.
- O que voc vai fazer agora? - pergunto, lembrando a sua atual condio de desempregado.
- Acho que vou escrever meu romance e viver um tempo do dinheiro que este trabalho rendeu.
- Ento voc vai estar em casa o tempo todo? - bebo um golinho do ch.
- Ser que podemos perguntar se podemos levar Meg conosco?
- Era o que eu estava pensando. - Sorrio, tremendamente reconfortada pelo fato de que poderemos adot-la. - Caso contrrio, ser outra perda.
- Eu vou perguntar a respeito agora mesmo. Acabe de se vestir e de fazer as malas e vejo voc l embaixo.
- Quem est l embaixo? - pergunto. No estou segura se quero encontrar com Simon.
- Toda a famlia, menos Simon. Ele est se preparando para a coletiva de imprensa desta manh. E estamos ajudando a arrumar a moblia para tia Winnie fazer a devoluo. 
Depois disso, acho que  o escritrio para voc e o apartamento para mim.
Ele sorri e sai do quarto. Depois de me vestir, comeo a guardar as coisas na mala e fico uns bons dez minutos olhando atravs da janela. Voc vai se sentir melhor 
quando for embora, digo para mim mesma com firmeza, e depois passo outros dez minutos olhando atravs da janela. Algum bate novamente na porta.
- Estou indo - grito para Dom e comeo a enfiar freneticamente as roupas nas minhas malas.
- No, sou eu, Izzy, tia Winnie. Posso entrar?
Vou at a porta e a abro. Tia Winnie e Jameson, praticamente desabam para dentro do quarto.
-        Ol, querida! Vim ver se est tudo bem com voc! Estou preocupada.
Franzo as sobrancelhas.
-        Estou bem, estou fazendo as malas.
Meg tenta brincar com Jameson, mas ele, sendo mais velho e mais sbio, no est ligando a mnima para ela. Ele se enrola em um canto do quarto com ar digno. Tia 
Winnie fecha a porta atrs de si. Fao uma grande cena e comeo a dobrar minhas roupas antes de coloc-las na mala, em vez de fazer como sempre fao, enfi-las de 
qualquer modo l dentro.
Estou bem, at que ela finalmente fala:
-        Ento voc est indo embora?
Sinto as lgrimas aflorarem.
-        O que mais posso fazer? - pergunto, praticamente engasgan
do com o esforo de manter as emoes sob controle.
Tia Winnie acha que estou engasgando e d algumas palmadas fortes nas minhas costas. Fico meio de olho para ver se ela no decide usar a manobra de Heimlich.
Ela senta-se na cama.
- Voc poderia ficar. Ficar e ver o que acontece.
- Simon e eu conversamos a respeito. No achamos que  uma deciso inteligente.
- Inteligente? - bufa tia Winnie. - Acho que voc  muitas coisas, Izzy, mas inteligente no est na minha lista. - Olho para ela intensamente.  isso mesmo o que 
ela quer dizer? - Veja, Izzy. Depois que voc foi deitar ontem  noite, Dom me contou o que aconteceu. - O que e quando aconteceu? Este  o problema em ter tanta 
histria presa em um s lugar. Ela percebe que estou olhando em dvida e acrescenta: - Quando voc e Simon eram crianas.
- Oh.
- Acho que Dom estava preocupado com voc e precisava ouvir uma segunda opinio. Eu imaginava que algo havia acontecido. Quero dizer, voc sempre tinha uma reao 
estranha quando o nome de Simon era mencionado, e nunca quis voltar aqui para uma visita depois que se mudaram.
- Qual a sua segunda opinio?
- A histria  uma coisa engraada, Izzy. Se voc tivesse encontrado Simon Monkwell pela primeira vez h somente algumas semanas, estaria nesta situao? Quero dizer, 
a de querer ficar com ele? Ou teria formado uma impresso completamente diferente dele?
- H, eu no sei. Vamos chegar a algum lugar com esta conversa, tia Win? Algum ponto especfico? Eu realmente posso ficar sem uma aula de filosofia.
- Pense em antigos amigos de escola. - Penso nos poucos amigos que fiz quando Sophie e eu vivamos com tia Winnie. - Se os encontrasse pela primeira vez agora, seria 
amiga deles? Ou o elo que a liga a eles  simplesmente o compartilhamento de recordaes em comum?
   - Voc est questionando como eu me sinto a respeito de Simon? - pergunto hesitante, tentando descobrir quando ela vai chegar ao ponto.
Ela parece aliviada e acena com a cabea. Sento-me ao lado dela na cama.
-        Tia Winnie, eu o amo porque o conheo to bem. No porque
compartilhamos memrias em comum. Na verdade, so as memrias em comum que esto nos mantendo afastados.
Tia Winnie d umas palmadinhas na minha mo por um segundo e olha para o cho.
-        Izzy, j que estamos falando sobre histrias compartilhadas,
acho que h algo que preciso contar.
Olho para ela, insegura. Ser que vai falar dos fatos que eu no entendo? Das informaes que faro com que tudo se encaixe?
- H anos que eu queria falar a respeito.
- O qu? - A frase sai um pouco mais bruscamente do que eu pretendia.
-        Bom, Monty e eu ramos... como dizer? ramos namorados.
Todas as datas se confundem na minha mente e eu digo, horrorizada:
- Ele teve um caso?
- Oh, no! No, foi antes dele se casar. - Relaxo um pouco. - Foi por causa disso que conhecemos os Monkwell.
- Ento, o que aconteceu?
Ah, foi tudo muito bobo. Ns dois ramos muito jovens. Tnhamos somente vinte anos. No, Izzy, no foi durante a guerra - ela diz quando abro minha boca, e a fecho 
novamente. - De qualquer modo, nossas famlias eram brutalmente contra o namoro, o que complicou muito a nossa vida. Um dia tivemos uma grande briga, nem lembro 
o motivo, mas na poca parecia o fim do mundo e eu sa dizendo que no queria v-lo nunca mais. Eu estava prestes a partir para os Estados Unidos, para passar algumas 
semanas com alguns parentes, e fui embora sem dizer adeus de to zangada que estava com ele; ele podia ser absolutamente irritante, sabe? Mas eu tambm era. Foi 
o maior erro que cometi na minha vida. Voltei para c e o encontrei desconfortvel mente noivo de Elizabeth. - Ela olha para longe, perdida em um mundo particular. 
- Eu me lembro muito bem, era vero, um vero quase to quente quanto este. Eu usava um lindo conjunto de blusa e cardig, com meu colar de perolas, e valsei na 
direo da fazenda, morrendo de saudades dele, achando que nossa briga boba j estaria esquecida. E l estava ela. Sentada no gramado, no centro de uma manta de 
piquenique, bebendo champanhe com o resto da famlia. S descobri mais tarde que estavam noivos. A famlia dele no gostava muito de mim. Achavam que eu era uma 
influncia perturbadora. - Ela se inclina e sussurra de modo conspiratrio: - Eu era uma jovem um pouco doida naquela poca. Andava a cavalo sem sela e nadava nua 
na piscina.
- Eles tinham uma piscina?
- A primeira coisa que Elizabeth fez foi aterrar a piscina e colocar o jardim de rosas sobre ela. E claro que meu comportamento no iria significar muito nos dias 
de hoje, seria considerado espirituoso ou coisa parecida, mas naquela poca era muito inadequado para uma potencial Senhora da Manso. Os Monkwell queriam algum 
com mais dignidade. Algum que iria tratar os serviais como serviais, no como pessoas com quem se pode fofocar no jardim dos fundos. Elizabeth era perfeita para 
o papel. A famlia a adorava, e aparentemente jogaram Monty em cima dela to brutalmente que ele estava noivo sem mesmo saber. Pobre querido, quando olho para trs 
percebo que ele parecia um pouco atordoado naquele dia.
- Ento, o que aconteceu quando ele viu voc?
- Ele no me viu. Eu me aproximei, vindo da lateral da casa, e vi todos sentados no gramado. Monty estava segurando a mo de Elizabeth de costas para mim, de modo 
que me virei e sa correndo. No podia ter ido falar com ele, no com toda a famlia presente, teria sido muito embaraoso. Nunca soube se ele ficou sabendo que 
eu estive l. A me dele me viu, mas duvido que ela tenha mencionado o fato. s vezes penso se as coisas teriam sido diferentes se ele tivesse me visto.
- Voc no tentou falar com ele?
- O orgulho, Isabel, minha querida! A causa da runa de vrios relacionamentos. Estava furiosa com ele e no acreditava que iriam mesmo se casar. Acho que se tivesse 
levado o assunto mais a srio teria ficado e lutado por ele. Quando voc  to jovem no percebe como decises como essas podem mudar vidas.
- Voc acha que ele a amou?
- Ela olha pensativa para o nada, por cima do meu ombro, e responde baixinho:
- Sim, acho que amou. Os meninos nasceram, e depois voc e Sophie nasceram, os dias mais felizes da minha vida. - Eu me inclino e aperto a mo dela, agradecida. 
- Comecei a ouvir falar cada vez menos deles. Comecei a me afastar das pessoas que me contavam coisas sobre eles. O tempo passou para todos ns.
- Mas voc nunca se casou, tia Winnie. - E, subitamente, percebo que este  o caso de amor infeliz de que minha me falou. Era Monty. Winnie olha para a mesa por 
um segundo e responde suavemente: - No. Mas no tenho certeza de que teramos sido felizes juntos. Ns dois nos suavizamos muito agora, mas, antigamente. Ns ramos 
uma dupla muito passional e tnhamos brigas horrorosas. Elizabeth teve uma grande influncia tranqilizadora sobre ele. Um relacionamento sempre precisa de uma rocha 
slida.
- Voc est sendo muito pragmtica, tia Winnie.
- Bom, voc no pode passar a vida se lamentando. Precisa seguir em frente e tirar dela o que pode, quando pode. - Ela bate na minha mo com certa fora.
- Como meus pais vieram morar em Pantiles? - pergunto.
- Um pouco de masoquismo da minha parte. Quando seu pai estava trabalhando aqui e sua me decidiu que queria manter os cavalos, sugeri a fazenda dos Monkwell antes 
mesmo dela terminar a frase. Queria uma desculpa para vir at aqui e ver como eles se davam. Depois disso, seus pais resolveram ficar por alguns anos e. naturalmente, 
os Monkwell davam-se muito bem sem mim. Seja como for, estou feliz em ter finalmente contado tudo. H anos venho querendo contar, mas nunca encontrei o momento certo.
Ficamos sentadas em silncio por um segundo e eu lamento um pouco que nada nesta histria  a resposta sobre o que procuro sobre Simon. Contudo, explica um pouco 
do estranho comportamento que me cerca.
- Engraado como duas famlias podem estar to inextricavelmente ligadas, no? - digo suavemente. - Voc e Monty, eu e Simon, - Tia Winnie d uma nova palmadinha 
na minha mo. - Nenhuma das histrias terminou bem, no , tia Winnie?
- Essa no  a histria toda, Izzy.
- O que quer dizer com isso?
- Voc fica at que a coletiva de imprensa termine? Concordo com a cabea e ela sai para que eu acabe de fazer as malas.
Nosso ltimo caf-da-manh  muito tristonho. Todo mundo est demasiadamente preocupado com as negociaes da aquisio hostil e todos pulamos para atender o telefone 
sempre que ele toca, esperando que seja uma deciso dos investidores americanos antes do prazo estabelecido. Mas ou  um colega escoteiro querendo falar com Harry 
ou um jornalista querendo um comentrio de Simon, ou uma voz feminina sensual querendo falar com Will (no imaginava que ele fosse um tremendo conquistador). Estou 
muito grata pela atmosfera pesada, porque posso me moldar a ela sem muitos comentrios. Tia Fio volta do passeio com Poppet e eu fao uma anotao mental para verificar 
minha bagagem e ter certeza de que Poppet no se enfiou nela quando eu no estava olhando. Fazemos Harry correr para todo lado em uma srie de trabalhos de ltima 
hora, porque ele est deixando todos malucos com seu discurso de que ele, Harry Delaney, s conseguiu arrecadar quarenta e seis libras e trinta centavos, enquanto 
o corado Godfrey Farlington, que parece inacreditavelmente precoce e precisando de uma surra com um basto bem grande, arrecadou muito mais.
Depois das revelaes de tia Winnie, olho para Monty com outros olhos. Tento imagin-los mais jovens, mas s consigo v-los como so agora, no somente pelo visual 
atual, mas em suas responsabilidades e comportamentos. No consigo imagin-los jovens e despreocupados. Olho para tia Winnie. Neca, no funciona. No consigo.
A coletiva de imprensa est marcada para as onze da manha. A empresa de RP de Simon achou que seria uma boa idia realiz-la aqui na casa, para enterrar de vez os 
boatos sobre os oficiais de justia. Dominic e eu no temos absolutamente nada para fazer, ja que a empresa de RP  a responsvel pela organizao. Uma garota eficiente 
chamada Victoria entra e sai da cozinha enquanto ficamos sentados, bebendo caf, e esperamos por alguma novidade. A Sra. Delaney est assando alguns biscoitos para 
a imprensa, o que  absolutamente desnecessrio, mas ela parece estar feliz em faz-lo.
Olho cuidadosamente ao meu redor. Dom conversa com tia Winnie, a Sra. Delaney e Harry, e tia Fio desapareceu com Will. Monty e eu somos os nicos sentados  mesa.
- Tive uma conversinha com tia Winnie esta manh - digo suavemente.
- Eu sei, ela me contou - ele diz. -  engraado, mas depois de tanto tempo ela no mudou nada. Est apenas mais suave.
- Ela disse que costumava ser um bocado passional.
- Um pouco! Brigvamos a cada dois dias! Pelo menos agora vamos brigar uma vez por semana.
Ergo as sobrancelhas.
- Agora? - pergunto.
- Bom, vamos ver o que acontece.
- Ento vocs vo namorar? Ele me olha.
- Na semana que vem vou lev-la para jantar fora. Isto , se no estivermos ocupados mudando de casa! Voc se importa?
- Claro que no! Estou extremamente feliz! - Olho para ele radiante. So as melhores notcias que ouo em muito tempo. Com o que tenho passado, isso no  difcil.
- Dom me perguntou se vocs podem adotar a Meg. Respondi que  claro que sim, ela parece ter se afeioado muito a vocs dois. Mas eu esperava, todos ns espervamos, 
na verdade, que veramos mais voc depois que isso tudo terminasse. - Ele ergue as sobrancelhas de modo sugestivo.
Eu me inclino e dou uma palmadinha na mo dele, balanando levemente a cabea.
- Obrigada por nos dar a Meg, Monty. - E, com isso, saio em direo ao jardim murado e ligo para o escritrio.
- Oi, Stephanie - digo desanimada.
Eu a ouo soltar a fumaa do cigarro. Ou ela talvez s estivesse prendendo a respirao.
-        Acho que voc quer falar com Gerald, certo?
-        H, sim. Se ele estiver a.
Depois de um tempo, Gerald atende.
-        Voc vai voltar para o escritrio em algum momento hoje ou decidiu declarar feriado?
- Tive que arrumar alguns detalhes, volto mais tarde. Voc precisa de mim?
- No tenho certeza se nossa seguradora pode cobrir voc. A menos que possamos encaixar voc na clusula de foras maiores, junto com desastres naturais.
- Vamos, vamos, Gerald, no seja assim.
- Como vai Dominic?
- Namorando com Sophie.
- Ele contou ento?
- Voc tambm sabia?
- Aidan me contou.
- Eu achei que Dom estava tentando me dizer que era gay.
- Dominic? Gay? Voc ficou maluca, Izzy?
- Acho que sim. Aidan no  heterossexual, ?
- No, ele  definitivamente gay.
- A propsito, no tenho nenhuma festa programada para este final de semana, tenho?
- No, no. Achei que voc poderia precisar de um fim de semana livre.
- Obrigada, Gerald.
- Agora desaparea. E no me ligue se precisar de alguma coisa, ser mais fcil ligar para o Exrcito da Salvao.
Sorrio comigo mesma e desligo.
- Alguma novidade? - pergunto a Monty quando volto para a cozinha.
- Sim, Sam acaba de passar por aqui. Disse que os americanos querem prorrogar o prazo para terem mais tempo para decidir.
- Isso  um problema?
- No sei direito, mas Sam no parecia muito feliz. Mesmo assim, eles vo continuar com a coletiva de imprensa. Os jornalistas j comearam a chegar. Vamos espiar 
pelos fundos?
Por volta das quinze para as onze perambulamos pela sala de estar, onde a empresa de RP montou uma grande mesa, cercada por quinze cadeiras e vrias fileiras de 
cadeiras na frente dela. A sala j est completamente agitada, as pessoas esto reunidas tomando ch e comendo os biscoitos da Sra. Delaney.  H uma grande mesa 
de buf e eu e Dom vamos comer alguma coisa. O nmero de pessoas aumenta a cada minuto e ns temos que conversar aos gritos acima do burburinho. Fio e Wil juntam-se 
a ns, os dois parecendo inesperadamente pensativos.
- Voc est bem? - pergunto para tia Fio, preocupada.
- Sim, querida. S um pouco preocupada com Simon.
- Tenho certeza de que ele j enfrentou coisas piores do que esta - digo, tentando reconfort-la.
- Sim, mas eu no. Eles podem tirar a nossa casa, Izzy. - Ela sussurra esta ltima informao em meu ouvido como se acabasse de entender a gravidade da situao.
- Ele vai achar uma sada - digo, sabendo muito bem que no vai conseguir desta vez.
Nosso pequeno grupo fica de p nervosamente no fundo da sala at que a porta se abre e Simon marcha sala adentro, cabea erguida e orgulhosa. Eu sufoco uma pequena 
exclamao. Ele est absolutamente lindo. Com um corte de cabelo bem curto.
-         meu Deus! - geme Fio. - Ele  como Sanso. Vai perder toda a sua fora.
-        Ele deve ter cortado o cabelo esta manh - murmura Dom. 
Sou invadida por um desejo sbito por ele, forte como um tapa no rosto. Daria tudo para poder passar por cima de todas estas pessoas e me atirar nos braos dele. 
Sinto um frio no estmago enquanto o observo sentando-se atrs da mesa e inclinando-se para murmurar algo para um de seus colegas. Estou to concentrada nele que 
no vejo mais ningum entrando na sala.
Victoria, a relaes-pblicas, fica dando olhadelas insinuantes na direo de Simon. Ela rebola pela sala no alto dos seus saltos dez, vestida em um lindo terninho 
estilo Jackie Onassis. Olho para a minha prpria roupa. Uma saia de croch preto, botas salto dez de camura ameixa e uma malha ameixa com bordados.
-         meu Deus - resmunga Dom.
-        Eu sei - sussurro de volta. - Onde voc acha que ela comprou aquele conjunto?
Dou uma olhadela para ele e, de repente, vejo que ele no est olhando para Victoria. Est olhando para outra pessoa. Instintivamente j sei quem  e meus olhos 
confirmam os fatos.
-        Ah, mas que droga - suspiro.













Capitulo 25


No tenho a mnima vontade de que Rob me veja, de modo que me movo furtivamente para a frente e sento-me de repente em uma das cadeiras. Dom se junta rapidamente 
a mim.
- Parece que Rob est em todos os lugares em que estou - reclamo.
- Por que ele est aqui?
- Acho que  porque ele  um dos diretores da Wings.
- Mas ele no  um diretor-executivo.
- Sim, mas  o responsvel por tudo isto, no ?
- Como  que vamos sair daqui?
Olho para a porta. No temos como sair sem chamar o mximo de ateno possvel e dar a impresso de que estamos fugindo.
-        Vamos ter que ficar aqui at o fim e escapar com o resto do
pessoal - digo firmemente. Eu posso fazer isso. Sentar quietinha e
permanecer fora do ngulo de viso, repito para mim mesma. Na
verdade, era exatamente isso o que eu planejava fazer. Esconder-me
bem longe de toda esta histria horrvel, e que algum me desenterre s daqui a alguns anos.
A conferncia comea com um representante da agncia de RP apresentando as pessoas  mesa. Abaixo mais na cadeira. Provavelmente no vou chamar a ateno no papel 
da nica an da sala. Simon levanta e fala sobre a excelente empresa que ele acha que a Wings pode ser, desde que administrada corretamente, e descreve rpido alguns 
dos planos que tem para a empresa. Explica que os investidores americanos, que possuem a quantidade decisiva de aes para a negociao se concretizar, desejam uma 
extenso no prazo para analisarem as opes.
-        Ento ele no conseguiu convenc-los a vender - Dom murmura para mim. - Ele est absolutamente perdido.
-        Pode ser que ele consiga levantar o capital em algum lugar -sussurro de volta. Dom me d uma olhada. - Bom, ele pode -insisto. As pessoas sentadas na nossa 
frente viram-se e olham para mim com cara feia.  s isso? Nada mais a ser dito?  s mais outra semana. Mas h o problema dos mveis que a tia Winnie precisa devolver 
hoje, e o banco est de olho na propriedade que nem um urubu. Dom est certo. Ele est perdido.
Encolho-me ainda mais na cadeira e fecho a cara. Penso em todo o trabalho que todos tiveram na propriedade - Monty, Will, a Sra. Delaney. At mesmo a tia Winnie 
e Dom fizeram a parte deles. Penso no que Simon tem passado para poder manter sua casa. Tudo isso para nada. Tudo porque Rob Gillingham quer manter seu cargo em 
uma diretoria. Subitamente meus olhos so atrados para outra direo. Rob parece muito satisfeito consigo mesmo, olhando para seu reflexo na janela e dando sorrisinhos 
enquanto o representante do banco americano cita os motivos para o atraso, mencionando indiretamente o artigo no jornal. Ele sabe que ele ganhou. Todo mundo sente 
isso. Meu Deus, a vida s vezes pode ser to injusta.
Os jornalistas comeam a fazer perguntas. Simon defende-se de umas perguntas maldosas sobre quantas pessoas sero demitidas com a compra da Wings. Algum ento pergunta 
quais so os planos para a Wings se a aquisio hostil no for realizada. Rob ergue-se em um salto.
-        Acho que posso responder a essa pergunta. Mas deixe-me
comear dizendo que todos os membros da diretoria da Wings esto
lutando intensamente para evitar que esta tomada hostil se realize. 
Acreditamos que um futuro com a equipe administrativa atual  prefervel a qualquer futuro com a empresa de Simon MonkweH. Ns
admitimos que os lucros no foram os que os acionistas esperavam,
mas esperamos que nossos parceiros nos Estados Unidos, que esto
conosco desde a formao da Wings, fiquem do nosso lado. Temos
grandes planos para a empresa, que j foram descritos para nossos
acionistas, e acreditamos que eles garantiro que os lucros da Wings
alcancem nveis de retorno aceitveis. Garantimos que no vamos
demitir ningum. No estou sozinho em pensar que Simon MonkweH garantir o pior cenrio possvel para os que se preocupam com a Wings, tanto acionistas como funcionrios. 
Os informes da imprensa no foram exagerados. Ele no  um homem de palavra. Ele no  um homem que cumpre suas promessas.
- COMO VOC PODE DIZER ISSO! - grito. S que achei que disse isso em pensamento, e posso ver perfeitamente, pelo nmero de rostos girando em minha direo, que no 
foi bem assim. Tambm descubro que estou de p. Tento sentar bem depressa. Tenho certeza de que podemos abafar tudo e que vou distrair as pessoas apontando para 
fora da janela ou coisa parecida. Mas Dom no me deixa sentar. Bato nele freneticamente.
- Vamos l, Izzy - sussurra Dom -, v l na frente. - Ele me d um empurro e eu paro no fim da fileira de assentos. Registro vagamente os rostos que me encaram: 
Simon com olhos vivamente interessados, Monty e Fio boquiabertos. A equipe de Simon parece absolutamente pasmada e Victoria corre na minha direo.  muito tarde 
para desmaiar? Que diabos estou pensando? Nada racional, bvio.
Dou uma olhada em Rob e fico mais resoluta. Subitamente estou furiosa. Empurro as mos de Victoria para o lado e marcho decidida para a frente. Antes que algum 
possa dizer algo, eu digo para a sala:
-        Rob Gillingham tentou deliberadamente me usar para conseguir todos os detalhes possveis sobre a oferta de aquisio de Simon
Monkwell. Ele sabia que eu estava trabalhando na fazenda e me fez
acreditar... - meu lbio treme um pouco e olho para Dom, que faz
um sinal encorajador com a cabea - ... que gostava muito de mim.
Ele vazou todas as informaes, que eu passei inocentemente para a
imprensa, para tentar confundir os acionistas. Ele  um homem sem
honra e desonesto, e a ltima pessoa na Terra a manter as suas promessas. Ele  uma vbora. - Vbora, Izzy? Vbora? - E Simon
Monkwell  o homem mais honrado que eu j conheci. Ele sempre
mantm suas promessas - acrescento para dar um reforo.
Olho para a sala por um segundo, at que o flash de uma cmera me traz de volta  realidade. Dou uma ltima olhada no rosto maravilhado de Simon e tento sair da 
sala com um pingo de dignidade. Infelizmente, disparo em direo  porta e quase fico com um olho roxo. Quando chego ao hall de entrada, corro em direo  cozinha.
- Izzy! - exclama a Sra. Delaney. - O que aconteceu...? - Mas eu continuo correndo at chegar ao jardim murado. Caio sentada no cho e olho para minhas mos, que 
tremem como loucas com toda a adrenalina que corre pelo meu corpo. Esta deve ter sido a coisa mais embaraosa que j fiz na vida. Cubro o rosto com as mos. O que 
Simon vai pensar?
Dom chega segundos depois.
-  meu Deus! - ele diz e sorri.
- Eu parecia uma completa luntica? - pergunto perturbada.
- Vamos dizer assim, no acho que a Sra. Delaney vai pedir para que voc tome conta de Harry algum dia. Mas foi maravilhoso! A melhor coisa que voc j fez na vida!
- Meu Deus, Dom. Foi horrvel, simplesmente horrvel. O que eu estava pensando? Por que no fiquei com a boca fechada?
- Porque voc estava certa, Izzy. Tudo o que voc disse sobre Rob e Simon estava certo.
- Algum disse alguma coisa depois que eu sa?
- O teto desabou. Os jornalistas comearam a disparar perguntas, mas eu sa para vir atrs de voc. "Will, Monty e Fio ainda esto l. Eles vo nos contar o que 
aconteceu! - Ele senta no cho, ao meu lado.
- Voc tem um cigarro?
- Izzy, voc no fuma.
- S me d um cigarro.
Dom faz um som de reprovao e rira um moo de cigarros do bolso. Eu acendo um cigarro e trago fundo at que a fumaa chegue s minhas botas.  a coisa mais deliciosa 
do mundo. Justamente o que eu preciso para me livrar do infeliz vcio do adesivo de nicotina.
- Simon disse alguma coisa? - pergunto finalmente, Dom balana a cabea.
- Voc acha que ele vai ficar zangado? Eu estraguei tudo?
- Como poderia? Rob  o vilo da histria.
-  justamente o que eu precisava. Um pouco mais de humilhao e vergonha. Podemos ir embora agora, Dom?
- Temos que carregar toda a moblia, e no podemos fazer isso antes que todos saiam.
Quanto tempo mais? - pergunto suplicante.
- Umas horas.
- Eu vou ficar aqui e morrer devagarzinho de vergonha. Se Deus for misericordioso, Ele acaba comigo neste momento.
Dom d uma palmadinha no meu joelho e diz:
- OK. Vou pegar um caf para voc.
- Veja se consegue encontrar algo para comer! - grito para a silhueta que some. Ele ergue a mo para dizer que ouviu.
Sento e olho para o cho, com os braos ao redor dos joelhos, e fico perturbadoramente reconfortada com o cigarro. Quando termino de fumar, sento desajeitada sobre 
os ps e fico pensando no que estar acontecendo l dentro. Dom est certo, eu deveria usar sininhos para prevenir as pessoas quando me aproximo ou, pelo menos, 
fazer um seguro contra terceiros. Olho para o relgio - llh20. Os americanos ainda tm quarenta minutos para aceitar a oferta e meu pequeno discurso pode ter sido 
o catalisador de que necessitavam. Ou o mais provvel  que queiram se livrar dessa histria toda.
Estou muito nervosa para ficar parada. Levanto e comeo a inspecionar os canteiros. Caminho de planta em planta, pegando folhas, inspecionando flores, e at arranco 
algumas. Descubro uma penia sendo absolutamente esmagada por uma madressilva e puxo alguns galhos para deixar a penia pelo menos respirar. Ando um pouco mais e 
descubro alecrim, slvia e erva-cidreira. Meu Deus! Onde Dom se meteu? Ser assim to difcil fazer uma porcaria de uma xcara de caf? Quanto tempo ele vai me deixar 
aqui brincando de jardineira antes de vir em meu socorro com um pouco de cafena?
- Izzy? - Ouo uma voz chamando ao longe. No  Dom. - Izzy? - Consigo ver o topo da cabea de tia Winnie procurando por mim, esperanosa.
- Tia Winnie! - segredo. Ela no me v. - TIA WINNIE! - chamo novamente. Ela olha na minha direo e eu fao acenos furtivos. Desta vez ela me v, acena de volta 
e d uma corridinha cmica nas pontas dos ps, que eu imagino seja para dar um ar de segredo ao ato.
Isabel, minha querida! Dom me disse que voc estava aqui fora! - ela diz em altos brados, caso os espies que a seguiam tenham perdido a sua pista. Ela chega mais 
perto e me d um beijo no rosto. Sentamos.
- O que est acontecendo? - pergunto.
- Bom, aquelas meninas Repr...
- Garotas de RP - corrijo.
- Foi o que eu disse.
- No, voc disse meninas Repr, como se fosse uma palavra.  RP, que quer dizer...
- Izzy, voc quer ouvir o que tenho a contar ou no?
- Sim, quero. Desculpe.
- Bom - ela me d uma encarada -, as meninas Repr esto tentando se livrar dos jornalistas, mas eles esto esperando, desesperados, para descobrirem quem  voc.
- Onde est Simon?
- Ele desapareceu na sala de estar com o resto do grupo. Uma das meninas Repr queria encontrar voc para conseguir algum tipo de declarao, mas dissemos que no 
sabemos onde voc est. Ela foi falar com Simon.
- Como ele parece estar? Zangado?
- No.
- Chateado, ento?
- No.
- Um pouco desapontado?
- No, acho que mais para perseguido.
- Perseguido?
- Bom,  uma histria e tanto para os jornalistas! Diretor de empresa ameaada por uma aquisio hostil usa a moa do buf para obter informaes!
- Eu no sou a moa do buf! Sou uma promoterl Espero que aquela desgraada garota de RP no diga que eu sou a moa do buf. Gerald vai mat-la! Voc acha que vai 
sair nos jornais?
- Acho que voc vai aparecer nos jornais, sem dvida alguma.
- Ser que desta vez Gerald me despede? No vai ficar bem perante os nossos clientes.
- No! - tia Winnie diz alegremente. - No vai ficar bem mesmo.
- Eu nunca contei para ele que Rob tentou obter informaes comigo. Achei que ele teria um ataque!
Bom, ele vai ter um agora, com certeza!
Eu me lembro de ter escrito uma lista, anos atrs, sobre o que queria conseguir na vida. Era algo sobre encontrar um homem decente e ser bem-sucedida na minha profisso. 
Como  que pude fracassar to monumentalmente nas duas coisas?
- Podemos ir embora agora? - pergunto desesperada para tia Winnie.
- Temos que esperar at que todos tenham sado para retirar a moblia, Izzy!
- Posso esperar por voc na sua casa? Acho que no posso ver ningum.
- Claro! Mas voc no quer dizer adeus para a famlia?
- Eu envio cartes para todos! - digo infeliz. - E flores. E chocolates. Alm disso, vou ver Monty quando ele for buscar voc na semana que vem.
- Izzy, eu acho que eles esto prestes a perder Pantiles - ela diz suavemente. - No pode, pelo menos, desejar boa sorte? Voc no precisa ver Simon - ela acrescenta 
inteligentemente.
Dom aparece por sob o arco, carregando trs canecas de caf fumegante.
-        Desculpe, Izzy! As pessoas ficaram me cercando em busca de
informaes. Mas eu no disse uma palavra. No soltei um pio. 
Mesmo quando eles me torturaram! - Ele sorri. - A Sra. Delaney
mandou isto. - Ele tira alguns biscoitos quebrados misturados com
fiapos do bolso do palet.
Consigo dar um meio-sorriso de volta.
- Voc no disse onde eu trabalhava, disse? - Ele balana a cabea. - Talvez eles no descubram e Gerald no me mande embora.
- Hum, eu acho que ouvi uma das garotas de RP contando para eles.
Olho para Dom horrorizada. As coisas vo ficar piores ainda? Dom encolhe os ombros.
- Talvez Gerald no se importe com isso.
- Confidencialidade  supostamente o alicerce dos nossos negcios!
Olho para os dois, sem fala por um segundo. Para completar a histria, vou perder meu emprego e no acho que v conseguir outro muito depressa. Lgrimas enchem novamente 
meus olhos e eu as enxugo impaciente. J estou cansada de chorar.
- Espero por voc na sua casa, tia Winnie.
Os dois percebem que pedir para que eu fique no vai funcionar em nada e concordam com a cabea.
Marcho em direo  casa e subo para meu quarto, onde Meg me espera. Bato a porta em um ato de desafio que passa completamente despercebido - os moradores desta 
casa esto to acostumados com portas batendo como com gafanhotos. Pego minhas malas e saio cambaleante em direo  porta. Completamente carregada, deso com dificuldade, 
com Meg atrs de mim. Meu orgulho ofendido e machucado j  uma carga e tanto. Depois de anos de abuso, ele finalmente desistiu de andar sozinho.
Consigo ter sucesso e chego ao carro sem cruzar com nenhum membro da famlia, e ento tento encontrar as chaves sem largar uma das malas. Finalmente as encontro 
na bolsa, enfio tudo no porta-malas, abro a porta do passageiro para Meg entrar e sento no banco do motorista. Minha mo treme tanto que mal consigo enfiar a chave 
no contato, mas acabo conseguindo, engato a primeira marcha e olho para a frente. Um homem e uma mulher esto parados na frente do carro. Olhando melhor, percebo 
que so os meus pais.














































CAPTULO 26
Olho para eles, surpresa. Infelizmente, meu p escorrega na embreagem, o carro d um pulo para a frente e eu quase atropelo os dois. Ambos saltam para trs com o 
susto. Eu saio do carro.
-        Meu Deus, desculpem - digo enquanto vejo que minha me
tem a mo no pescoo e est ofegante. - O que vocs esto fazendo
aqui?
Os dois me do um beijo e um abrao, cumprindo solenemente suas obrigaes.
- O que esto fazendo aqui? - repito.
- Izzy, tia Winnie telefonou - diz minha me. - Pegamos o primeiro avio que encontramos.
Franzo as sobrancelhas. Caramba, tia Winnie est levando minha vida amorosa muito a srio.
- Eu vou ficar bem - respondo automaticamente.
- No, no  isso - diz meu pai. - Podemos ir conversar em algum lugar?
O nico lugar de que me lembro onde conseguiremos um pouco de privacidade  o jardim de muros avermelhados. Meg e eu vamos  frente, seguindo pelo caminho bastante 
gasto. O que eles esto fazendo aqui? Algum da famlia morreu ou coisa parecida? Felizmente o jardim murado est deserto e meus pais sentam-se no velho e empenado 
banco do jardim. Sento no cho, com Meg ao meu lado.
Olho para eles em expectativa.
-        Tia Winnie telefonou? - pergunto.
Eles olham um para o outro, e ento minha me respira bem fundo.
-        Sim. Ela disse que voc e Simon Monkwell estavam ficando
muito prximos.
- No estamos mais - respondo seca. Meu pai se empertiga.
- Mesmo? - ele diz e olha para minha me.

- O que est acontecendo? - insisto, olhando para um e depois para o outro.
- Bem, talvez agora no esteja acontecendo nada - diz meu pai devagar, olhando para minha me enquanto algum tipo de mensagem no-verbal est sendo transmitida.
- Isto tem alguma coisa a ver com Simon? - pergunto de repente. - Porque se tem eu gostaria muito de saber o que est acontecendo.
- Vocs esto juntos?
- Estivemos. Tinha esperanas de que pudssemos ficar juntos novamente - confesso. - Mas agora acho que no.
Meus pais olham um para o outro pelo que parece ser uma eternidade.
- O que ? - pergunto. - Vocs no podem deixar de me contar agora.
- Ela j  suficientemente adulta - minha me diz para meu pai. - Ela vai entender.
Meu pai acena com a cabea como se tivesse decidido algo e vira para mim.
- Izzy, o que tenho a dizer  muito difcil para mim. Eu tinha esperanas de que voc nunca precisasse saber, pois  algo de que me envergonho muito.
- O que ? - sussurro, sentindo-me bastante fraca,
- S estou contando isto porque, levando em considerao seu relacionamento passado ou presente com Simon Monkwell, seria injusto que voc no soubesse. No queremos 
que fique sabendo por ele.
Ele respira fundo e continua:
-        Quando moramos na propriedade e voc tinha cerca de onze
anos de idade, tive um caso com Elizabeth Monkwell. - Ele me olha
bem dentro dos meus olhos e espera que as palavras faam sentido
para mim.
- Um caso? - digo finalmente.
- Sim.
- Que tipo de caso?
Ele parece levemente confuso com a pergunta e olha para minha me.
-        H, o tipo normal, Izzy.
Eu tremo um pouco e mudo de posio. Aliso o plo de Meg e espero que as palavras faam efeito. Fico surpresa em ver que minha mo est tremendo.
- Um caso longo? - pergunto finalmente.
- No - ele responde rpido -, um caso muito curto. Umas poucas semanas. Sua me e eu estvamos atravessando uma fase ruim, Izzy. - Ele segura a mo de minha me. 
Ela sorri para ele e acena com a cabea, como se o encorajasse a continuar. - O que no  absolutamente uma desculpa para o que eu fiz. Eu s queria que voc soubesse 
que no existem desculpas. - Isto deve ser muito difcil para o meu quase sempre obsessivamente correto pai.
- Mas o que voc fez? - insisto.
- Lembra-se de quando sua me esteve fora cuidando de sua av quando ela caiu?
- Vagamente. - Lembro-me de comer vrios jantares congelados.
- Bem, eu achava muito difcil cuidar do trabalho e de vocs duas ao mesmo tempo. Tia "Winnie estava com sua me e no podia vir ajudar. Eu no entendia por que 
vov precisava das duas com ela.
Aceno com a cabea, imaginando quando  que ele vai chegar ao ponto.
- Foi ento que Elizabeth Monkwell veio me ajudar com o jantar todas as noites e ficamos ntimos.
- Certo - digo devagar, sentindo que ele espera algum tipo de reao de minha parte.
- Um dia estava na casa principal, entregando algo, e Elizabeth e eu ficamos conversando na sala de estar por alguns minutos. No sei como aconteceu, mas de repente 
estvamos, h... bem, nos beijando.
Estremeo levemente. Espero sinceramente que no v ouvir uma descrio passo a passo de todo o caso. Posso precisar de outro cigarro. Fico pensando se eles compraram 
algo no free shop e se seria muito rude de minha parte perguntar.
- Onde  que Simon entra nessa histria? - pergunto subitamente, assustada com o pensamento de que ele pode estar ligado a tudo. A minha noo de tempo comea a 
ficar muito confusa e eu comeo a imaginar se, de repente, somos meios-irmaos.
- Bom, um dia Simon nos viu juntos.
- Viu?
- Sim. Ele nos viu.
- O que ele fez?
- Simplesmente olhou para ns e saiu da sala. Ficamos muito perturbados. Elizabeth foi atrs dele, mas no acho que algum dia ela tenha conseguido faz-lo falar 
a respeito.
- O que aconteceu, ento?
- Contei tudo para sua me quando ela voltou para casa e concordamos que o melhor para todos seria sairmos daqui. Eu aceitei o primeiro emprego que surgiu, que foi 
na Itlia, e vocs foram viver com tia Winnie durante o ano letivo.
- E isso foi tudo? Tudo, tudinho?
- Sim. Isso foi tudo.
- Tia Winnie sabia dessa histria?
- Sim. Contamos para ela porque ela estava tentando nos convencer a ficar na Inglaterra. Estava preocupada com o fato de vocs terem que mudar de escola.
-        O que Simon achou? O que ele disse?
Meu pai balana a cabea.
-        Nunca soubemos. Como disse, no acho que algum dia
Elizabeth tenha conseguido faz-lo falar a respeito, Foi pouco antes
dele ir para o internato. Ns pensamos que se voc vai ficar ntima
de Simon deveria saber a respeito.
Concordo com a cabea, tentando colocar uma confuso de pensamentos em algum tipo de ordem.
- Deve ter sido no final das frias de vero. Lembro-me da Sra. Monkwell me ajudando com meu carto de aniversrio para voc. Mas vocs no mudaram para a Itlia 
at o ano seguinte.
- Que foi quando apareceu o novo emprego.
Mas foi naquele outono que...
Minha me inclina-se para a frente.
-        O qu, querida?
Olho fixamente para ela, me esforando para pensar mais claramente. Foi naquele outono que Simon comeou a ser to horrvel comigo. Os maus-tratos comearam devagar, 
mas foram aumentando at chegarem ao auge no Natal.
-        Simon foi muito desagradvel comigo por uns tempos. Foi
durante aquele outono. No pode ter sido uma coincidncia - digo
devagar.
Todos franzimos a testa. Minha me diz:
-        Mas por que ele seria desagradvel com voc? Ele era desagradvel com Sophie tambm?
Balano a cabea.
-        No, s comigo.
Subitamente, meu pai parece sobrecarregado com a culpa.
- Por que no nos contou? Poderamos t-lo impedido - ele diz ferozmente.
- Talvez ele simplesmente estivesse descontando em Isabel - minha me diz para meu pai. Meu pai concorda com a cabea, mas posso ver que ele est tremendamente aborrecido 
com o fato.
- Mas por que ele iria descontar em mim? - pergunto.
- Talvez voc deva perguntar para ele - diz minha me, gentilmente. - Afinal de contas, vocs so adultos agora.
Toco meu pai com a mo. Ele parece absolutamente devastado com o desenrolar das coisas. Ele me olha.
-        Que confuso, Izzy. Sinto muito. No fazia idia - ele diz
suavemente e pega minha mo, ato que provavelmente  o contato
mais fsico que eu e meu pai tivemos em vinte e seis anos. E irnico
que seja o resultado de algo como isto.
Levanto de repente. Preciso encontrar Simon e falar com ele.
- H, Izzy? - diz minha me, um pouco preocupada. - Voc est bem?
- Hum?
- Izzy? Voc no vai ter um treco, vai?
Vocs acham...? Quero dizer, Simon achou...? - Minhas palavras desaparecem enquanto meu crebro confuso est tentando entender tudo o que est acontecendo. - Que 
horas so? - pergunto de repente.
- Hora de voc ir descansar um pouco? Meio-dia e meia - diz meu pai, inseguro. - Voc est se sentindo bem?
- Preciso ir! - digo e saio depressa do jardim.
- Izzy, sentimos muito ter contado as coisas desse modo - minha me grita atrs de mim.
Ando de costas por um segundo.
-        Acho que foram as melhores notcias que eu j ouvi! - grito
de volta. - Vou mandar tia Winnie aqui!
Meg e eu samos correndo para casa, entramos na cozinha e percorremos o longo corredor.
- Meus pais esto no jardim murado! - grito para tia Winnie, que parece surpresa. Vou at o hall de entrada e vejo Victoria. - Victoria! - grito. - Onde est Simon?
- Na sala de estar. Mas eu realmente no acho que voc deva... - As palavras dela somem atrs de mim enquanto invisto em direo  porta e entro com tudo.
Uma multido de rostos me olha. Vejo Simon enquanto ele se levanta.
- Izzy? - ele diz, surpreso.
- Simon, posso ter uma palavrinha rpida com voc? Em particular?
Ele parece assustado com a mulher de aparncia levemente ensandecida  sua frente, mas consegue se recuperar bem. Que profissional!
-        H, claro que pode. Sam, voc assume? Com licena, pessoal,
volto logo.
Ele me acompanha para fora da sala e tenta a porta da biblioteca. Trancada. Segundo as instrues.
Ele tenta outra porta. Trancada novamente. Segundo as instrues.
Frustrado, ele me arrasta na frente de Victoria em direo ao armrio debaixo da escada e me empurra para dentro, parando somente para acender a luz antes de entrar 
atrs de mim e fechar a porta.
-  o nosso velho esconderijo! - digo surpresa.
Ha, sim. Izzy, eu odeio fazer com que voc v direto ao ponto, mas poderia me dizer do que se trata?  um pouco estranho conversar assim. Dois adultos no conseguem 
ficar de p direito aqui e nossas cabeas esto inclinadas em ngulos incmodos.
- Eles me contaram, Simon.
- Contaram o qu?
- Tudo.
- Quem contou? Izzy, meu pescoo est comeando a doer.
- Meus pais. Eles pegaram um avio que saa de Hong Kong ontem  noite. Eles me contaram sobre sua me e meu pai. - Tento diminuir a minha animao. - Voc no quis 
me contar que eles estavam tendo um caso, no foi? Por que no me contou?
- Quase contei, mas no consegui. Voc iria me odiar por ter contado tudo.
Ns nos entreolhamos por um momento. Acho que ele est sorrindo, mas  muito difcil saber por causa do ngulo da cabea. Com um movimento rpido ele se inclina 
e puxa dois caixotes de madeira de um canto. Devem ser os que usvamos para nos sentar. O problema  que, com a idade, fiquei um pouco mais melindrosa e tenho medo 
de aranhas, em especial de Poppet. No consigo dizer que prefiro ficar de p porque Simon me puxa para baixo e me faz sentar em um. Felizmente ele me distrai, pegando 
na minha mo.
-  engraado, eu esperava que voc nunca descobrisse - ele diz devagar. - Mas graas a Deus eles contaram para voc.
- Foi por isso que voc foi to desagradvel comigo?
- Caramba, Izzy, eu no sei o que dizer. Eu s tinha treze anos, mas tinha idade suficiente para saber sobre sexo e entender o que estava acontecendo quando vi os 
dois juntos.
- O caso deles no durou muito, voc sabe. Umas poucas semanas.
- Eu sei disso agora, minha me conseguiu falar comigo a esse respeito quando fiquei mais velho. Muito depois de voc e Sophie terem ido embora. Se ela soubesse 
o que eu estava fazendo com voc, teria conversado comigo mais cedo.
- Por que voc descontou tudo em mim?
Acho que pensei que a culpa era sua. Quer dizer, naquela idade  muito difcil culpar os adultos por alguma coisa. Nessa poca eles ainda so essas criaturas divinas 
que sempre esto certas sobre tudo, de modo que sa procurando algum para levar a culpa. Foi ento que me lembrei de que a sua famlia veio morar na propriedade 
por sua causa, algo a ver com voc querer andar a cavalo. E eu culpei voc pelo caso, pela minha infelicidade. Na poca tudo pareceu completamente racional. Na minha 
cabea, eles tiveram um caso porque nossa amizade os colocou juntos. Sempre pensei em encontrar um meio de pedir desculpas a voc, mas no tinha como, a no ser 
que lhe contasse a razo do meu comportamento. E durante estas ltimas semanas,  medida que comeamos a nos conhecer novamente, descobri que o tema da nossa infncia 
era muito difcil de ser abordado. No sabia como explicar minhas maldades e no poderia nunca contar que seu pai e minha me tiveram um caso. Izzy, eu sinto muito.
-        No se preocupe, Simon. Agora eu sei de tudo e isso  o que
importa. Mas eu julguei voc to mal todos estes anos.
Ele encolhe os ombros.
-        Achei que era melhor assim, melhor que voc pensasse mal de
mim do que do seu pai. Eu me sentia culpado de ter tratado to mal
minha primeira amiga, mas no sabia o que fazer. De uma certa
forma foi um castigo.
 quase doloroso ver este homem orgulhoso e honrado to angustiado.
-        Se no tivesse sido assim, teramos continuado amigos, sem
nunca darmos um passo a mais no relacionamento - tento
confort-lo.
Ele d outro sorriso.
- No tinha analisado a situao por este ngulo. E imagino que este seja um modo infinitamente mais agradvel?
- Infinitamente. Eu viveria aquele outono horroroso mais duas vezes se com isso pudesse ficar com voc no final.
- Eu vou compensar voc, prometo. - Gosto do som desta frase. O sorriso dele aumenta de tamanho e ele chega mais perto.  bvio que este  o nosso momento, esta 
 a parte onde tudo acaba bem. Estou dolorosamente consciente da presena dele, do calor das suas mos, desses olhos maravilhosos olhando bem dentro dos meus. Ele 
chega um pouco mais perto, inclinando lentamente o rosto na minha direo, at que...
Uma voz alta nos interrompe, vinda do lado de fora:
-        Voc disse no armrio? Com os diabos, sobre o que  que voc
est falando? O que quer dizer com no armrio? Nenhum filho meu
poderia... - E neste momento a porta  escancarada. - Oh, oi, Izzy,
oi, Simon - diz Monty. - O que diabos vocs esto fazendo no
armrio?
- O que parece que estamos fazendo, papai?
- Bom, realmente no sei. Vocs dois parecem passar muito tempo em espaos pequenos e restritos. No acham que deveriam falar com algum sobre isso? - O rosto de 
tia Fio aparece ao lado do dele. Ela puxa o brao do irmo.
- Vamos embora, querido. Acho que eles esto tendo um momento particular.
Monty deixa-se ser levado embora, e Fio fecha gentilmente a porta. Podemos ouvi-lo trovejar:
-        Um momento particular? Que diabos voc quer dizer com
isso? - enquanto caminham at o fim do corredor.
Esta pausa permite que eu ponha meus pensamentos em ordem.
- Simon, o que aconteceu com a tomada hostil? - Estou horrorizada comigo mesma por nem ter pensado em perguntar antes. Pego depressa na mo dele. - Voc perdeu a 
casa? No faz mal, tudo vai ficar bem. Vamos dar um jeito e...
- O que voc fez na coletiva de imprensa foi surpreendente - ele diz, brincando com a minha mo.
- O qu? Fazer papel de tola? Eu sou perita nisso.
- A nica pessoa com cara de bobo era Rob Gillingham. Ao meio-dia, a diretoria da Wings perdeu o controle da empresa.
- Voc quer dizer que tudo deu certo? - pergunto sem flego.
- Isso quer dizer que o banco americano finalmente aceitou nossa oferta e nos vendeu suas aes. No acho que a Wings conseguiria convenc-los a no fazer isso depois 
de seu ataque de artilharia pesada.
-        Ento voc no vai perder a casa? - pergunto.
Ele balana a cabea devagar.
-        Espero que no. Acho que serei capaz de convencer o banco a
esperar at que tenhamos vendido algumas partes da Wings e consolidado o resto da empresa. Talvez at possamos transform-la na em presa altamente rentvel que j 
foi um dia. Os americanos tm a primeira opo para comprar de volta as aes.
- Quanto tempo vai levar?
- Com sorte, um ano, no mximo um ano e meio. Nada est garantido, mas vamos ter algum dinheiro entrando na empresa agora, vindo de investidores. No muito, mas 
o suficiente para viver e retomar a moblia.
- Voc vai demitir muita gente?
- Izzy, algumas pessoas vo ter que perder o emprego porque a empresa no est gerando nenhum lucro. Mas no tantas quanto a diretoria atuai teria demitido.
- Mas Rob disse que eles no iriam demitir ningum.
- Ele mentiu. Convenhamos, ele no  uma pessoa famosa pela honestidade, ? Eu lamento ter pensado que voc estava passando informaes para ele. Estava comeando 
a ficar paranico. Esta tomada hostil representava tanto para tantas pessoas. Eu soube, assim que voc abriu a sua boca l, que nada daquilo poderia ser verdade.
Ele sorri para mim e meu corao dispara loucamente.
- Ser que Gerald vai deixar voc trabalhar aqui na fazenda?
- Se eu ainda tiver um emprego.
- Tenho certeza de que ter quando ele ouvir o mundo de coisas que precisam ser feitas. Estou pensando em abrir a casa ao pblico, abrir um salo de ch, fazer concertos 
ao ar livre, esse tipo de coisa. Seria perfeito para voc. As empresas vo fazer fila para realizar eventos aqui depois desse baile. E eu poderia me aposentar permanentemente 
das tomadas hostis. Passar uma parte das terras para Will.
- Isso seria fantstico. Eu fico um pouco triste por Will.
- Temos que conversar sobre ele?
Desta vez ele me beija mesmo. O beijo  interminvel e mudamos desajeitadamente de posio em nossos caixotes de madeira, Ele desce uma das mos para o meio das 
minhas costas e me aperta contra ele. Por fim, nos separamos e nos olhamos por um momento. Acho que nunca vi ningum to sexy.
-        Simon, e as histrias que andei ouvindo sobre uma advogada?
Voc est namorando algum? - pergunto de repente.
- No estou exatamente namorando. - Eu o fulmino com os olhos. - Ah, Izzy, deixa disso, eu no sou um monge. Posso dizer com segurana que desde que voc entrou 
em cena novamente no falei com ela, muito menos me encontrei com ela. Deixa disso - ele diz me levantando.
- Aonde vamos?
- Voc eu no sei, mas preciso finalizar uma aquisio bastante grande.
Samos do armrio e tropeamos na Sra. Delaney. Ficamos por um minuto temporariamente cegos com a luz.
- Sra. D.? O que est fazendo? -pergunta Simon enquanto nos equilibramos,
- Montando guarda - ela responde ferozmente. - Monty e Fio disseram que vocs estavam aqui, e ele... - ela aponta acusadoramente para Sam, que parece petrificado 
- ... queria perturbar vocs.
- Oh, h, obrigado, Sra. D.
- De nada. - Ela funga e marcha de volta para a cozinha.
- Simon, voc vem? - pergunta Sam.
- Vou, em um segundo.
Sam sai correndo na nossa frente, vermelho que nem um pimento.
- Sabia que eu cortei o cabelo por sua causa? - Diz Simon enquanto andamos devagar, de mos dadas, em direo  sala de estar.
- Foi?
- Sim, lembrei que voc disse que achava homens com cabelo curto muito atraentes.
- Voc est lindo.
- Voc acha que consegue aturar a minha famlia? Eu sei que eles so um p no saco, mas fazem parte do pacote.
- Eu adoro a sua famlia - protesto,
Ainda bem, porque eles vo se meter em tudo. Vamos estar procurando constantemente por aranhas, dividir a cama com pelo menos sete ces e Harry vai aparecer no meio 
da noite pedindo contribuies para a arrecadao de fundos dos escoteiros. - Dou uma risadinha. - Dei cinqenta libras para Harry grudar um pedao de peixe defumado 
debaixo do capo do Porsche de Rob.
- No!
- Pelo menos agora ele vai vencer o concurso. Se no fosse assim, nunca iramos parar de ouvir falar nisso.
- Estava um pouco chato ouvir o nome de Godfrey Farlington.
- Esta foi provavelmente uma m hora para deixar de fumar, no?
- Na verdade, eu no fumo.
- Jura? Quer um cigarro?
- Voc tem um?
- Ah! Peguei voc!
-        No, eu no fumo mesmo. Nunca fumei. Dom  quem fuma.
E, falando no diabo, Dominic aparece. Ele est com meu celular
na mo.
- Izzy, eu sinto muito, mas h algum na linha que insiste em falar com voc.
- Quem ? - pergunto.
- Lady Boswell.
Simon pra na porta da sala de estar.
-        Lady Boswell? - ele repete. - Da Festa Nrdica do Gelo?
Nossos olhos se encontram, Eu sempre disse que ele podia ler
minha mente, porque pega o celular da mo de Dominic.
-        Lady Boswell? Aqui  Simon Monkwell... - ele diz suavemente. Ele aperta minha mo e a porta se fecha silenciosamente atrs dele.
